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Resenha: “Torto”, Lestics

Artista: Lestics
Gênero: Indie, Folk, Alternativa
Acesse:  http://www.lestics.com.br/

 

Quem acompanha a Lestics desde os dois primeiros álbuns de estúdio, 9 Sonhos e Les Tics, ambos de 2007, há muito deve ter percebido a mudança de sonoridade nos registros produzidos pela banda. Seja pela saída de Umberto Serpieri, grande responsável pelos arranjos dos primeiros discos, ou pela busca do vocalista Olavo Rocha por um mundo de novas possibilidades, a cada trabalho de inéditas, o peso das guitarras e versos se intensifica de maneira explícita.

Em Torto (2016, Independente), sétimo registro de inéditas do grupo paulistano, versos consumidos por uma poesia urbana, temas políticos e pequenas crises existenciais se espalham de forma enérgica em meio a guitarras e batidas densas, por vezes sufocantes. Uma interpretação naturalmente acelerada, crua, da mesma atmosfera cinzenta que deu vida ao excelente Aos Abutres, de 2010, casa de composições como Dorme Que Passa e Tudo É Memória.

Com a faixa-título encaixada logo na abertura do disco, Rocha e os parceiros de banda – Caio Monfort (guitarra), Marcelo Patu (baixo) e Rodrigo Saldanha (bateria) – apontam a direção seguida em grande parte da obra. “Bem vindo ao desconforto / Você que acabou de chegar / Por aqui, quanto mais torto / bem-vindo alguém será”, canta o vocalista enquanto uma solução de guitarras e batidas rápidas se espalham ao fundo da composição, ponto de partida para o restante do álbum.

Na dobradinha formada por Dezembro e Luz da Manhã, o mesmo direcionamento, porém, encarado de forma detalhista, essencialmente sensível. Enquanto os versos seguem amargos, musicalmente, o trabalho da banda cresce e invade a mente do ouvinte. Arranjos levemente empoeirados, carregados de efeitos e guitarras que vão da boa fase do R.E.M., no começo da década de 1980, ao clássico The Queen Is Dead (1986) do grupo britânico The Smiths, principalmente na segunda composição.

Com a chegada de A Matilha, quarta faixa do disco, Torto passa a jogar com a dualidade dos arranjos e versos. Entre movimentos rápidos e instantes de maior recolhimento, a voz de Rocha se perde em universo de memórias e temas descritivos (Diversão Dominical), passeia pela construção de personagens sempre curiosos (O Esquimó) e ainda sufoca em meio a reflexões particulares, símbolos e referências culturais, conceito explícito nos versos de Cálculo e Manobra, oitava canção do disco.

Longe de parecer uma ruptura dentro da extensa discografia do Lestics, Torto nasce como um verdadeiro acúmulo de ideias, experiências, sonoridades e temas incorporados pela banda em estúdio nos últimos dez anos. Ainda que as guitarras e versos angustiados falem mais alto, a todo instante, melodias descomplicadas e versos intimistas passeiam ao fundo do disco, estabelecendo uma espécie de conexão criativa com todo o acervo de obras anteriormente produzidas pelo grupo.

Torto (2016, Independente)

Nota: 7.6
Para quem gosta de: Nevilton, Cidadão Instigado e Vanguart
Ouça: Torto, A Matilha e Estrela da Manhã

Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.