"Trança"

Ano: 2018
Selo: Circus
Gênero: Experimental, MPB, Alternativa
Para quem gosta de: Karina Buhr e Anelis Assumpção
Ouça: Continente, Joana Dark e Lilith
Nota: 8.3

Resenha: “Trança”, Ava Rocha

É necessário tempo até que Trança (2018, Circus), terceiro e mais recente álbum de Ava Rocha, seja totalmente absorvido pelo ouvinte. E não poderia ser diferente. São 19 faixas que se espalham em um intervalo de mais de 60 minutos de duração. Canções que vão do mais profundo recolhimento poético e instrumental, caso de Continente e Pangeia, ao completo caos, como em Febre e Delírio. Variações que refletem o desejo da cantora e compositora carioca em brincar com a desconstrução da própria identidade artística.

Guiado de maneira explícita pela força das batidas e ambientações percussivas testadas logo na inaugural Maré Erê, o sucessor de Ava Patrya Yndia Yracema (2015) se projeta como uma obra de essência ritualística, por vezes tribal. São vozes em coro, ruídos e variações rítmicas que tornam a experiência do ouvinte sempre incerta, tumultuada. Um som catártico e torto, como se a cada fragmento do disco o ouvinte fosse transportado para um território completamente novo.

Parte dessa estrutura caótica vem do desejo da artista em fazer do registro uma obra colaborativa. Na contramão do álbum anterior, em que trabalhou com um time reduzido de parceiros, cada fragmento do presente disco se abre para a forte interferência de representantes vindos de diferentes núcleos da música brasileira. São vozes femininas, como Tulipa Ruiz, Juçara Marçal e Iara Rennó, e instrumentistas, caso de Negro Leo, Domenico Lancellotti e Curumin, que acompanham a cantora durante toda a execução da obra.

Exemplo dessa força criativa ecoa com naturalidade em Joana Dark, décima faixa do disco. Escolhida para apresentar o trabalho, a canção montada a partir de vozes sobrepostas — de Alessandra Leão, Ariane Molina, Karina Buhr, Linn da Quebrada e Victoria dos Santos —, ganha forma aos poucos, crescendo a partir da intensa orquestração de batidas secas. Surgem ainda sintetizadores e temas eletrônicos que mudam de direção a todo instante, estímulo para a formação de um ato deliciosamente hipnótico.

Experimental na composição dos arranjos, nos versos, Trança reflete o olhar atento de Rocha sobre diferentes conflitos políticos, caos urbano, personagens e, principalmente, a força do feminino. “Ela é minha irmã de cor / Irmã de corpo, irmã de santo, mana de sorte / Gigantesco parentesco / Quero ser que nem ela“, canta em Lilith, perfeita representação da temática feminista que se espalha por entre as brechas do disco, costurando versos e melodias sujas que acompanham o ouvinte até o último instante do álbum.

Do título e imagem de capa inspirada na obra do escultor e artista plástico Tunga (1952 – 2016) — com quem Rocha trabalhou no material de divulgação do primeiro álbum de estúdio, Diurno (2011) —, passando pela extensa lista de convidados e incontáveis camadas instrumentais, Trança delicadamente se entrega ao lento desvendar das ideias. Canções talvez desconexas em uma primeira audição, porém, fundamentais para entender o curioso fluxo criativo adotado pela cantora para o álbum.

 


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