"Transiente"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Indie Rock, Pop Rock
Para quem gosta de: Filipe Alvim e El Toro Fuerte
Ouça: Bem Mais, Fantasia e Dessa Vez
Nota: 7.8

Resenha: “Transiente”, Tom Gangue

Incontáveis são os artistas brasileiros que buscam referências no som produzido por estrangeiros como The Strokes, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand e outros tantos notáveis do rock internacional. Entretanto, poucos são realmente capazes de perverter os principais clichês e exageros do gênero de forma convincente, revelando ao público uma obra dotada de identidade própria. É o caso da Tom Gangue, quarteto original da cidade de Queimados, no Rio de Janeiro, e um dos nomes mais interessantes da cena fluminense.

Com dois EPs de inéditas em mãos — Pra Praticar (2015) e Grande Esperança (2016) —, o quarteto formado por Bernardo Cunha (guitarra e voz), Daniel de Moraes (bateria), Fábio Baltar (guitarra) e Gabriel Otero (baixo) entrega ao público o primeiro álbum de estúdio da carreira: Transiente (2018, Independente). São oito composições em que o grupo continua a transformar as próprias desilusões em música. Versos consumidos pela dor, relacionamentos fracassados e conflitos típicos de qualquer jovem adulto.

Se eu disser que o mundo já não gira mais em torno de você?“, questiona Cunha logo na inaugural Fantasia. Poucos mais de três minutos em que o ouvinte é convidado a mergulhar em uma dolorosa (e libertadora) história de amor, conceito que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. A mesma poesia confessional se torna evidente na agridoce Bem Mais, composição guiada pela devoção do eu lírico pela musa idealizada e um dos momentos de maior entrega do álbum — “E ninguém pode imaginar / Tudo o que você me proporciona / E eu só sensualizo com você“.

Longe da euforia que orienta parte expressiva da obra, Ego, terceira faixa do disco, sutilmente desacelera de forma valorizar os sentimentos despejados por Cunha. Um fino toque de melancolia que corre por entre os versos e segue até as guitarras de Baltar, sempre precisas, pontuais, contraponto ao rock enérgico que invade faixa seguinte do disco, Dessa Vez. São melodias ensolaradas que servem de complemento à bateria de Moraes, proposta que muito se assemelha ao som produzido pelos britânicos do Two Door Cinema Club.

Passado um breve respiro, em Álbum de Figuras, canção de essência triste que reflete a interferência do produtor Vitor Brauer (Lupe de Lupe), Bem Estar, sexta faixa do disco, garante nova dose de frescor ao trabalho. Difícil não lembrar do som produzido por veteranos do pós-punk brasileiro, como Fellini e Picassos Falsos, efeito da linha de baixo suja em contraste à bateria pulsante. Ideias que se entrelaçam de forma descompromissada, leve, alavanca criativa para o material entregue em Receio, música dominada pelas guitarras de Baltar e Cunha, sufocando parcialmente os versos.

Escolhida para o encerramento do disco, Recaída sintetiza com naturalidade parte da atmosfera, conflitos e pequenas inspirações que se entrelaçam de forma a consolidar a base criativa do álbum. São ruídos metálicos à la Gang of Four, a bateria seca, firme, e uma estrutura poética guiados pela completa honestidade dos sentimentos. Instantes em que o quarteto fluminense perverte a atmosfera dançante de músicas como Baladinha e Cara Legal, como um avanço necessário em relação ao material entregue nos últimos registros autorais.

 


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