"Tribalistas"

Tribalistas

Ano: 2017
Selo: Phonomotor Records / Universal Music
Gênero: MPB, Pop
Para quem gosta de: Marisa Monte e Vanessa da Mata
Ouça: Fora da Memória e Os Peixinhos
Nota: 5.0

Resenha: “Tribalistas”, Tribalistas

Outrora personagens de significativa relevância e profunda contribuição para a música popular brasileira, Marisa Monte e os parceiros Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown hoje andam em círculos, acorrentados ao peso da própria obra. Prova disso está no lançamento do segundo e mais recente álbum de inéditas do trio sob o título de Tribalistas. Um registro que não apenas replica de forma preguiçosa parte da atmosfera, arranjos e conceitos originalmente testados no primeiro trabalho do grupo, como ainda esbarra em uma série de composições dominadas por versos pobres e temas há muito desgastados.

Claramente pensado para seduzir o grande público, como uma tentativa de replicar o sucesso comercial do trabalho entregue em 2002 (e seus 2 milhões de cópias vendidas), cada composição do presente disco busca reforço em elementos do álbum que o antecede. Da poesia globalizada de Diáspora, música que reflete sobre a crise dos refugiados, ao romantismo leve da matrimonial Aliança, faixa que parece pensada para a trilha da próxima novela das nove, emulando a essência de Velha Infância, difícil passear pelo disco e não ser prontamente conduzido em direção ao passado.

Seja na percussão minimalista de Brown, um dos principais acertos do disco, ou nos versos declamados de Antunes, como se pensados para um comercial de produtos da Natura, não há nada aqui que não posso ser encontrado no primeiro álbum do trio. Mesmo o documentário que registra o encontro dos músicos em estúdio, com Monte protegida pelos habituais óculos escuros, replica de maneira inexpressiva a fórmula do material em DVD que acompanha o primeiro disco. Um tedioso resgate de ideias, moroso e vendido pela banda como um disco de “férias” — “A gente não quer transformar isso em trabalho. Queremos que continue sendo férias para a gente“, explicou Monte em entrevista à Folha de S. Paulo.

Entretanto, mesmo na completa ausência de novidade, não há como negar que o segundo álbum dos Tribalistas cumpre sua função, presenteando o público fiel da banda com um catálogo de faixas tão radiofônicas e pegajosas quanto Passe em Casa e É Você. Difícil passear pelas canções do disco e não ser arrastado pela neutralidade política de Um Só, composição que soa como um texto musicado do historiador Leandro Karnal – “Somos comunistas / E capitalistas / Somos anarquistas / Somos o patrão“. Em Trabalivre e Lutar e Vencer, versos que se apropriam de temas sociais/políticos, fazendo da rima descomplicada a isca para fisgar mesmo o ouvinte mais desatento.

Em Fora da Memória, terceira faixa do disco, uma curva leve dentro da obra, como um convite a revisitar o trabalho de Marisa Monte no doce Infinito Particular (2006). Um som atmosférico, bucólico, completo ao final do álbum com a derradeira Os Peixinhos, cantiga infantil que se abre para a breve colaboração com a portuguesa Carminho, parceira de Monte em músicas como Chuva no Mar e Estrada do Sol. Surgem ainda faixas como Baião do Mundo, composição que replica a boa fase da cantora carioca em Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão (1994), reforçando com naturalidade a expressiva percussão de Brown.

Desinteressante quando próximo de outras colaborações assinadas em parceria pelo trio nos últimos 15 anos — vide músicas como Contato Imediato, Universo ao Meu Redor e Infinito Particular —, o segundo álbum dos Tribalistas nasce como uma obra que parece menor a cada nova audição. Trata-se de um trabalho ancorado no passado, como se todas as transformações e rupturas que enriqueceram a música brasileira na última década fossem postas de lado em prol de uma obra rasa, pensada apenas para suprir uma lacuna sentimental ou mera carência nostálgica.

 


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