"Trilha"

Banda-Fôrra

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Pop Rock, Rock Nacional
Para quem gosta de: Tagore, Mombojó e China
Ouça: Abril, Lâmina e Diz Nos Meus Olhos
Nota: 7.5

Resenha: “Trilha”, Banda-Fôrra

Em um lento processo de “filtragem” e amadurecimento poético/instrumental, os integrantes do grupo paraibano Banda-Fôrra passaram os últimos três anos se aventurando na construção da própria identidade musical. Basta uma rápida passagem pelo primeiro EP de inéditas do hoje quinteto, lançado em 2015, para perceber o afastamento em relação ao delicado repertório apresentados ao público nos últimos meses, caso de Trilha Sonora e Apego. Fragmentos que refletem um maior cuidado (e limpidez) no material assinado por cada integrante da banda.

Produto desse contínuo processo de transformação, Trilha (2018, Independente), álbum de estreia da banda formada por Ernani Sá, Gustavo Limeira, Matteo Ciacchi, Hugo Limeira e Lucas Benjamin, encontra na leveza dos arranjos e versos um importante mecanismo de fortalecimento criativo. São composições que refletem as principais angústias, conquistas e sentimentos de qualquer jovem adulto, como um contínuo diálogo entre banda e público.

Para o vocalista Gustavo Limeira, o trabalho de apenas oito faixas reflete “a busca por um repertório que comunicasse melhor” com o ouvinte. Um conjunto de ideias “visto e revisto diversas vezes, assim como a maior parte dos versos“. O resultado está na construção de uma obra homogênea, tão íntima do pop-rock dos anos 1960/1970 como das transformações que tomaram conta do rock nacional no começo dos anos 2000. Composições embaladas por melodias e vozes solares, lembrando em alguns aspectos o trabalho de veteranos como Los Hermanos, além, claro, de nomes recentes aos moldes da baiana Maglore.

Em, Abril, parceria com Arthur Vieira, uma poesia e arranjos primorosos que refletem o cuidado da banda em cada uma das oito composições de Trilha. Enquanto os versos detalham o canto esperançoso do eu lírico — “E depois transformar / Esse meu quarto de dormir / Em um quarto de sonhar / Só então redefinir / O que não deu pra apagar” —, musicalmente, a canção vai da fina psicodelia ao pop romântico, apontando a direção seguida em faixas como Lâmina e a já conhecida Trilha Sonora.

Curioso perceber que mesmo nos instantes de maior angústia, Trilha em nenhum momento perde a leveza que abre o disco em Apego. Exemplo disso está na fina melancolia de Diz Nos Meus Olhos, quinta faixa do álbum. Entre guitarras carregadas de efeito e pequenas variações rítmicas, uma letra sensível, íntima de qualquer ouvinte sofredor. “Não tem nem mistério / Pra pintar / Nem tem segredo / Olha na minha cara / Diz que não sente nada / Quem consentiu se cala / O choro se escancara“, canta Limeira em um momento de profunda confissão.

Colorido lírica e musicalmente, Trilha vai da leveza típica da Jovem Guarda (Habitat) ao novo pop psicodélico (Preguiçar) sem necessariamente parecer uma obra confusa ou instável. De fato, cada composição parece apontar para uma direção diferente, porém, de forma sempre segura, como se o quinteto paraibano buscasse testar diferentes possibilidades, ritmos e fórmulas instrumentais dentro de estúdio, deixando um caminho aberto para os futuros trabalhos da banda.

 

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