"TU"

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Pop, Folk, MPB
Para quem gosta de: Tiê e Marcelo Jeneci
Ouça: Desinibida e Algo Maior
Nota: 6.8

Resenha: “TU”, Tulipa Ruiz

Do universo de pequenos excessos, cores e melodias dançantes que marcam as canções de Dancê (2015), para o cenário de temas minimalistas, ambientações contidas e pequenas fugas conceituais de TU (2017, Independente). Misto de coletânea e trabalho de inéditas, o registro de essência acústica passeia por diferentes fases da carreira de Tulipa Ruiz. Um olhar atento, naturalmente intimista, sobre tudo aquilo que a cantora vem produzindo desde a estreia com Efêmera, de 2010, além desvios breves que ultrapassam os domínios autorais e dialogam com a obra de outros artistas.

Inicialmente pensado como um trabalho intermediário e de retrospecto, adaptando parte do repertório acumulado pela cantora nos três primeiros discos de inéditas, TU acabou crescendo durante o período de gestação. Pequenos resgates e atos de puro ineditismo, como um produto direto do isolamento entre Ruiz, o irmão Gustavo e o percussionista francês Stéphane San Juan, parceiro de longa data da dupla, nos estúdios do nova-iorquino Scott Harding, artista que já trabalhou com nomes como Medeski Martin & Wood, The Jon Spencer Blues Explosion e Björk.

Como indicado na inaugural (e inédita) Game, música que brinca com a tradução para o inglês da palavra “jogo” e o verbo “gamar”, TU é uma obra que se distancia de possíveis excessos. Melodias acústicas e batidas econômicas que acabam servindo de alicerce para a voz forte da cantora, ainda mais destacada. Um som cuidadosamente tecido durante toda a execução da obra, fazendo com que faixas já conhecidas de Tulipa ganhem novo significado, vide a transformação dos personagens em Pedrinho Desinibida, essa última, parte do ótimo Tudo Tanto (2012).

Exemplo disso está na delicada montagem de Algo Maior. Originalmente gravada em parceria com os integrantes do Metá Metá — Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França —, a faixa de encerramento de Dancê encanta pela forma como a voz de Ruiz cresce livremente, brincando em meio a falsetes e pequenos embates com a percussão de San Juan. Um cuidado também evidente na construção da inédita faixa-título da obra, música que segue em ritmo acelerado até a última nota.

Mesmo dentro desse repertório contido, por vezes previsível, surgem pequenas surpresas. É caso da latina Terrorista del Amor, composição inédita e um encontro musical com o artista franco-mexicano Adan Jodorowsky, filho do cineasta Alejandro Jodorowsky. Caseira, produto das experiências particulares de Ruiz, a também inédita Pólen é outra que surpreende pela leveza dos arranjos e profunda confissão detalhada nos versos. Na derradeira Pedra, um poema de Dirceu Rodrigues musicado pelos pai dos irmãos Ruiz, o veterano Luiz Chagas.

Claramente pensado para as apresentações ao vivo da cantora — em entrevista ao Estadão, Gustavo confessou que parte da inspiração para o novo álbum veio de uma turnê acústica dos irmãos pela Europa, há sete anos —, TU delicadamente muda o foco e a percepção sobre algumas canções de Tulipa Ruiz. Instantes de profunda leveza e lenta (re)descoberta poética e instrumental. Um exercício talvez menor quando voltamos os ouvidos para outros trabalhos da paulistana, mas que acaba servindo como rito de passagem para uma nova fase na carreira da artista.

 

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