"Tudo Tudo Tudo Tudo"

Ano: 2017
Selo: YB Music / Circus
Gênero: MPB, Folk, Indie Pop
Para quem gosta de: Fernando Temporão e Fábio Góes
Ouça: Isso Também Vai Passar e Por Um Segundo
Nota: 7.8

Resenha: “Tudo Tudo Tudo Tudo”, César Lacerda

César Lacerda é um artista que nasceu pra ser grande. Mesmo no minimalismo propositado dos versos e arranjos econômicos que cercam o trabalho do cantor e compositor mineiro, sobrevive na profunda leveza e honestidade escancarada dos sentimentos uma verdadeira explosão de significados. Um exercício minucioso, particular, que se estende desde a estreia com Porquê da Voz, trabalho entregue ao público em 2013, alcança melhor enquadramento no doce Paralelos & Infinitos, de 2015, e flerta com o pop no recém-lançado Tudo Tudo Tudo Tudo (2017, YB Music / Circus).

Delicado, como tudo aquilo que Lacerda vem produzindo desde o primeiro álbum em carreira solo, Tudo Tudo Tudo Tudo sussurra delírios românticos ao pé do ouvido, mergulha em conflitos mundanos e ainda detalha as angústias do eu lírico de forma sempre acessível. Melodias descomplicadas, serenas, como uma fuga da atmosfera densa que tomou conta do colaborativo O Meu Nome é Qualquer Um (2016), trabalho assinado em parceria com o cantor e compositor paulistano Romulo Fróes.

Perfeita representação desse resultado sobrevive no bloco de três composições deliciosamente acolhedoras que abrem o disco. De um lado, a sutileza de Isso Também Vai Passar, música que joga com a efemeridade da vida, a crise política no Brasil e instável relação de um casal. No outro oposto, a curiosa regravação de Me Adora, um dos maiores sucessos da baiana Pitty, mas que aqui se transforma em uma bossa tímida, quase sussurrada. Entre as duas composições, um precioso dueto entre Lacerda e a cantora Maria Gadu em Quando Alguém, música que evoca os encontros entre Chico Buarque e Nara Leão.

Entretanto, a beleza de Tudo Tudo Tudo Tudo não se limita apenas ao conjunto inicial que abre o trabalho, mas cada fragmento instrumental e poético que costura o registro. Está na ambientação jazzística de O Fim da Linha e, principalmente, na base grandiosa de Por Que Você Mora Assim Tão Longe?, música que se abre para a inserção de arranjos de cordas cuidadosamente orquestrados por Lacerda. Melodias de voz e inserções precisas que esbarram na obra dos grandes cantores românticos dos anos 1980, principalmente Guilherme Arantes e Flávio Venturini. A mesma atmosfera nostálgica se reflete ainda na doce confissão que invade os versos de Por Um Segundo, parceria com Romulo Fróes que parece saída da trilha sonora de alguma antiga novela das sete.

O samba contido em O Marrom da Sua Cor, pop-rock descomplicado em Sei Lá, Mil Coisas, o minimalismo hipnótico de O Homem Nu, música detalhada em essência pelo produtor Elisio Freitas, parceiro de Lacerda durante toda a execução do trabalho. Um registro que investe de forma expressiva na pluralidade de ritmos, porém, mantém firme a forte relação entre as faixas, cuidado evidente desde o último álbum de inéditas do músico mineiro, Paralelos & Infinitos.

Indicativo de um novo posicionamento criativo, Tudo Tudo Tudo Tudo dialoga de forma pouco inventiva com a MPB tradicional, porém, preserva uma série de elementos originalmente testados nos dois primeiros registros do músico mineiro, reforçando com naturalidade a essência do cantor. Trata-se de uma obra radiofônica, pop e naturalmente íntima de uma parcela ainda maior do público, porém, tratada com extrema delicadeza. Da forma como o músico explora os próprios sentimentos ao fino véu instrumental que cobre toda a superfície do registro, difícil não se entregar à obra de Lacerda.

 

 


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