"Turn Out the Lights"

Ano: 2017
Selo: Matador
Gênero: Indie, Folk, Folk Rock
Para quem gosta de: Angel Olsen e Sharon Van Etten
Ouça: Appointments e Turn Out the Lights
Nota: 8.5

Resenha: “Turn Out the Lights”, Julien Baker

A dor de um coração partido e um universo de confissões a serem compartilhadas com o ouvinte. Oficialmente apresentada ao público durante a melancólica estreia com Sprained Ankle (2015), Julien Baker passou os últimos dois anos aprimorando de forma sorumbática a própria poesia. Um misto de libertação e angústia escancarada que se reflete com maior naturalidade durante a produção dos singles Funeral Pyre e Distant Solar Systems, lançados há poucos meses, mas que ganha força nos versos e melodias arrastadas do segundo álbum de inéditas da cantora, Turn Out the Lights (2017, Matador).

Nascido das desilusões e do completo isolamento de Baker no lendário Ardent Studios, localizado em Memphis, Tennessee, espaço onde já passaram nomes como R.E.M. e Bob Dylan, o sucessor de Sprained Ankle faz de cada fragmento poético um natural reflexo da alma atormentada de Baker. “Você não precisa me lembrar o quanto eu decepciono você“, canta em Appointments, inaugural composição que bebe da mesma fonte melódica do Band of Horses em Everything All the Time (2006), porém, carrega nos versos um mundo de sentimentos próprios da cantora.

De forma sensível, Baker se concentra em explorar o distanciamento de diferentes personagens, a permanente solidão que corrompe os indivíduos, excessos com drogas e uma série de outros conflitos que dialogam de forma expressiva com a saúde mental debilitada da própria cantora. Mais do que um doloroso exercício criativo, uma obra a ser apreciada pelo ouvinte, cada composição parece pensada para desgastar o público. Arranjos e versos entristecidos que tocam em feriadas ainda abertas, como uma melancólica experiência que precisa ser compartilhada.

O mais interessante talvez seja perceber que mesmo próxima de Sharon Van Etten, Angel Olsen e outros nomes recentes do Folk/Contry estadunidense, Baker mantém firme a própria identidade. Do momento em que tem início em Over, instrumental faixa de abertura do disco, até a derradeira Claws in Your Back, Turn Out the Lights pouco se transforma. Trata-se de uma obra claustrofóbica, por vezes monotemática, como se a cantora desse voltas em torno de um mesmo objeto criativo, alimentando lentamente a dor que consome os versos e serve como elemento para se aproximar do ouvinte.

Mesmo dentro desse ambiente restritivo, borbulham faixas hipnóticas como Happy To Be Here (“Se eu pudesse fazer o que quisesse / Me tornaria eletricista / Escalaria pelos meus ouvidos / E reorganizaria os fios no meu cérebro“) e Hurt Less (“Não importa onde / Eu simplesmente não quero ficar sozinha“). Canções em que Baker transforma a própria depressão e os abusos com drogas na matéria-prima para a angustiada construção dos versos. Uma avalanche de sentimentos expostos que acaba soterrando o ouvinte, melancolia também evidente em músicas como Appointments e Sour Breath.

Centrado inteiramente na voz, guitarras e parcos pianos sutilmente encaixados por Baker no decorrer da obra, Turn Out the Lights encanta não apenas pela tristeza que corrompe a poesia do disco, mas pelo cuidado da musicista em detalhar cada fragmento instrumental do trabalho. O resultado está na construção de uma obra densa, por vezes sufocante, como se Baker fosse capaz de expandir de forma particular uma série de elementos originalmente testados por Fiona Apple (The Idler Wheel…), Bon Iver (For Emma, Forever Ago) e outros nomes recentes que transformaram o próprio sofrimento no principal componente criativo.

 

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