"Utopia"

Ano: 2017
Selo: One Little Indian
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: Arca, ANOHNI e Kate Bush
Ouça: The Gate, Blissing Me e Body Memory
Nota: 8.4

Resenha: “Utopia”, Björk

Durante o período de acasalamento, cada animal, independente da espécie, se orienta de forma a investir em um curioso método de atração. Enquanto alguns se comunicam de forma visual, reforçando a coloração da plumagem, órgãos sexuais aparentes e áreas específicas do corpo, outros investem no uso delicado do som, compondo melodias e ruídos ambientais com o único fim de reprodução e consequente perpetuação da espécie. Surgem ainda aqueles que investem na comunicação tátil, detalhando movimentos ritualísticos, por vezes hipnóticos, como uma confissão romântica em forma de dança.

Ainda que de forma simbólica, talvez oculta em camadas de fino humor, é exatamente isso que Björk busca alcançar com Utopia (2017, One Little Indian), 9º registro de inéditas da carreira: um particular ato do acasalamento. Está na imagem de capa ou mesmo no material de divulgação do registro, parceria com Jesse Kanda (FKA Twigs), cores e formas destacadas, por vezes simulando vaginas e elementos fálicos, além a dança cósmica montada para o clipe de The Gate. Cada elemento parece visualmente pensado para fazer da cantora e compositora islandesa uma criatura animalesca, fértil, em busca de um provável parceiro.

É como meu álbum Tinder”, disse em entrevista à Dazed. Partindo desse conceito, Björk faz de Utopia uma propositada ruptura em relação ao antecessor Vulnicura (2015). Onde antes habitavam canções melancólicas, fruto da separação entre a cantora e o artista visual Matthew Barney, hoje brotam canções de amor e versos deliciosamente românticos. Prova disso está Blissing Me, faixa que detalha a descoberta do amor a partir da história de “dois nerds obcecados por música“.  “Ele lembra o amor em mim / Estou comemorando em um mar viral / Enviando MP3 / Apaixonanda com uma música”, canta enquanto arranjos minimalistas crescem ao fundo da canção, emulando a boa fase em Vespertine (2001).

Em ​Future Forever, faixa de encerramento do disco, o mesmo romantismo doce. “Me veja formando novos ninhos / Tecendo uma cúpula matricial … O que eu dei ao mundo, você me devolveu / Fortaleza para o amor / Para sempre“, sussurra enquanto desmonta fragmentos poéticos e instrumentais do clássico All Is Full of Love, uma das principais canções de Homogenic (1997). Surgem ainda composições como a metafórica faixa-título do disco, criação que trata da (re)descoberta do amor de forma mágica (“Espécies de pássaros nunca vistas ou ouvidas antes … Não está em outro lugar / Está aqui), ao mesmo tempo em que busca se livrar de um antigo relacionamento (“Tumor tóxico abaulado sobre a terra / Preciso purificar o ar“).

A própria a composição instrumental do disco funciona de maneira oposta ao material apresentado em Vulnicura. Trata-se de uma obra de essência melódica, pontuada pelo uso de arranjos ensolarados, vozes em coro, flautas e sintetizadores que contrapõe o som claustrofóbico de músicas como Black Lake. O mais interessante talvez seja perceber os detalhes que se escondem ao fundo de cada canção. São cantos de pássaros, ruídos de animais e ambientações orgânicas, produto das captações da cantora em andanças pela região selvagem da Islândia. Fragmentos que mais uma vez confirmam o desejo de Björk em se comunicar (e seduzir) o ouvinte – vide a riqueza de detalhes em Body Memory.

Mesmo orientado pelos sentimentos e desejos mais profundos de Björk, importante perceber em Utopia uma obra de essência colaborativa. Parceiro recente da artista, o venezuelano Alejandro Ghersi se manteve próximo da cantora durante toda a execução do álbum, trocando referências, produzido parte expressiva do material e trazendo um pouco da atmosfera detalhada no último álbum como Arca, lançado há poucos meses. Mesmo a estética animalesca que marca o encarte do disco, lembrando um inseto-pássaro-alienígena, nasce como um produto da colaboração entre Björk e a drag queen alemã Hungry. Um fluxo continuo de experiências que lembra a boa fase da cantora em Homogenic.

Misto de complemento e lenta desconstrução do material apresentado pela cantora durante o lançamento de Vulnicura, Utopia segue como uma obra particular, densa e esquiva de composições óbvias ou minimamente comerciais. São atos longos, por vezes arrastados, canções entre seis a nove minutos, conduzidas em uma medida de tempo própria. Como indicado da capa aos versos, trata-se de uma passagem para um ambiente criativo que parece desvendado em essência apenas por Björk, prova de que mesmo passadas três décadas de carreira, a cantora e compositora islandesa continua tão inventiva e capaz de brincar com a experiência do público quanto nos primeiros registros autorais.

 

Veja também:


One thought on “Resenha: “Utopia”, Björk

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend