"Vem"

Ano: 2017
Selo: Sony Music
Gênero: Samba, MPB, Indie Pop
Para quem gosta de: Marisa Monte, Nara Leão e Marcelo Camelo
Ouça: Casa Pronta e Você Não Presta
Nota: 9.0

Resenha: “Vem”, Mallu Magalhães

Os últimos seis anos foram bastante produtivos (e corridos) para Mallu Magalhães. Passado o lançamento do maduro Pitanga, trabalho entregue ao público em setembro de 2011, a cantora e compositora paulistana acabou mudando-se para a capital Lisboa, em Portugal. Nesse processo, casou-se com o parceiro de longa data, o músico Marcelo Camelo (Los Hermanos), com quem produziu o primeiro álbum como parte do trio Banda do Mar, projeto completo pelo baterista Fred Ferreira, e ainda viu florescer a própria maternidade com o nascimento da primeira filha, a pequena Luísa, de um ano e maio.

Com a chegada de Vem (2017, Sony Music), primeiro registro autoral em seis anos, Magalhães atravessa o Atlântico e parece redescobrir com naturalidade a música brasileira. São 12 composições que passeiam por elementos do samba (Você Não Presta), bossa nova (Casa Pronta) e referências à Jovem Guarda, vide o soul-rock que cresce em Será Que Um Dia, música que poderia facilmente ter sido gravada por Roberto Carlos no final dos anos 1960. Um colorido nacional que se reflete na quase totalidade dos versos em português e pequenos refúgios poéticos que apontam para a formação de paisagens reais (Guanabara, São Paulo).

De essência escapista, Vem segue dentro de uma atmosfera própria, talvez irreal quando observamos a atual situação do país. Trata-se de uma coletânea de versos, sensações e personagens que cercam a cantora, como um convite a provar do cotidiano sorridente de Magalhães. Letras que esbarram em problemas típicos de qualquer casal, marca de Culpa do Amor (“Alguns minutos de aflição / E a gente se olha sem jeito / Ri de tudo que passou e dá um beijo“), ou mesmo fragmentos descritivos da vida a dois, estímulo para a doce Casa Pronta (“Comprei até ventilador / E arrumei o seu guarda roupa / Você nem sabe quando e vem / E já tem amor pra vida toda“).

Entre versos inspirados pela própria família, caso de Gigi, uma delicada homenagem à mãe Gigi Botelho, e passeios pelo centro de São Paulo, vide a canção homônima e a derradeira Linha Verde, Magalhães mergulha em um turbilhão de sentimentos e interpretações sobre o amor. São músicas como Navegador (“Faça o que quiser, mas não me negue … Eu não nasci para ver o mundo desabar … Quero nadar nas ondas da felicidade / Tenho o tronco forte de navegador”) e a apaixonada Pelo Telefone (“Você me ouviu chamar pelo telefone / Sabe que eu te quero bem, vem me visitar“). Canções que expandem o romantismo detalhado no antecessor Pitanga.

Mesmo temperado pelo pop, Vem encontra na obra de veteranos da música popular brasileira um poderoso estímulo criativo. Enquanto a inaugural e bem-humorada Você Não Presta busca inspiração na discografia de Jorge Ben Jor, músicas como Culpa do Amor e, principalmente, Casa Pronta, invadem o território de Nara Leão, similaridade reforçada nos timbres de Magalhães. Difícil não lembrar de Marisa Monte na descritiva Guanabara, composição que parece seguir a trilha de obras como Universo ao Meu Redor (2006).

Acolhedor, o quarto registro em carreira solo de Mallu Magalhães confirma o profundo amadurecimento musical e poético incialmente apresentado em Pitanga. Mesmo que a essência de Marcelo Camelo, produtor do trabalho, seja notada nos arranjos e fórmulas instrumentais de Navegador e Será Que Um Dia, sobrevive nas canções de Vem um reflexo da alma, sentimentos e histórias que habitam o cotidiano particular da própria artista. Uma obra que se esquiva de possíveis excessos, busca conforto nas relações pessoais e acerta justamente pela simplicidade como instrumentos e vozes se comunicam.

 

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