"Vida Nocturna"

Abud

Ano: 2017
Selo: Beatwise Recordings
Gênero: Eletrônica, Funk, Synthpop
Para quem gosta de: Sants e Neon Indian
Ouça: Vida Nocturna e Buenos Nights
Nota: 8.5

Resenha: “Vida Nocturna”, Abud

Com assinatura de Naño Ramirez e Carlitos Wake, a imagem de capa produzida para o novo álbum do produtor Walter Abud, Vida Nocturna (2017, Beatwise Recordings), diz muito sobre o conceito explorado pelo artista que se divide entre a cidade de São Paulo e a capital argentina, Buenos Aires. Um cenário dominado pelo choque imediato das cores fluorescentes, o brilho tremular do neon e melodias empoeiradas, como uma vigem musical pelo universo que abasteceu o final dos anos 1970 e o início da década de 1980.

Inaugurado pelo canto abafado de Marginal — “Todos pensavam que ele era gente fina / Porém, não sabiam que ele era marginal” —, o registro que conta com 11 faixas e pouco menos de 30 minutos de duração ganha forma lentamente, sem pressa. Entre samples resgatados de obras esquecidas do soul/funk, sejam elas nacionais ou estrangeiras, Abud detalha uma seleção de músicas tão nostálgicas quanto referenciais e dançantes, proposta reforçada com naturalidade logo na faixa-título do álbum.

Lenta desconstrução de tudo aquilo que o artista havia experimentado durante o lançamento do EP São Paulo Jazz Impressões, de 2014, Vida Nocturna encontra no leve descompromisso dos arranjos, batidas e vozes sampleadas o principal combustível para seduzir o ouvinte. Um som propositadamente leve, pop, conceito explorado na atmosfera dançante e sintetizadores que invadem colorida Discoteque, terceira faixa do disco, ou mesmo no ritmo quente de Caça Fantasmas.

Próximo e ao mesmo tempo distante do som produzido por estrangeiros como Washed Out, Toro Y Moi e, principalmente, o norte-americano Neon Indian, Abud sustenta no completo detalhismo das melodias e pequenas inserções minimalistas um cuidado talvez maior em relação a outros trabalhos de gênero. São quase quatro décadas de referências musicais que passam por clubes noturnos decadentes, bebem de elementos do Hip-Hop e encontram nas experiências do próprio artista um poderoso componente criativo.

Quando era moleque escutava muito Alpha FM, assistia filmes em VHS que tinham essa textura, essa sonoridade“, explicou o produtor em entrevista ao site da Vice. De fato, basta uma rápida audição para que todas essas experiências ecoem com naturalidade no decorrer das faixas. Difícil não lembrar de clássicos da Sessão da Tarde, seriados de ação como Miami Vice ou mesmo jogos de vídeo game produzidos no período. Um imenso mosaico criativo que ainda convida o ouvinte a dançar.

Montado a partir do material que Abud costuma usar durante as apresentações ao vivo, Vida Nocturna se abre para a breve colaboração do produtor argentino Nachate. São duas composições, Buenos Nights e Vapor, faixas que ampliam consideravelmente a atmosfera nostálgica do disco, resultando em uma sobredose de referências e texturas empoeirados. Como tudo que o paulistano vem produzindo desde o começo da carreira, uma obra que exige uma audição atenta, ocultando nuances e frações instrumentais que crescem ao fundo do trabalho.

 

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