"Warm"

Ano: 2018
Selo: dBpm Records
Gênero: Indie, Folk, Alt. Country
Para quem gosta de: Phosphorescent e Ryan Adams
Ouça: I Know What It's Like e Some Birds
Nota: 8.0

Resenha: “Warm”, Jeff Tweedy

Há tempos Jeff Tweedy não vive uma fase tão produtiva quanto a atual. Em um intervalo de poucos anos, o cantor e compositor norte-americano deu vida a três ótimos registros aos comandos do Wilco — The Whole Love (2011), Star Wars (2015) e Schmilco (2016) —, se uniu ao filho, o percussionista Spencer Tweedy, para o lançamento do colaborativo Sukierae (2014), álbum de estreia do projeto Tweedy, além, claro, de investir na composição do primeiro álbum em carreira solo, Together at Last (2017), obra de releituras em que interpreta algumas de suas principais criações em mais de três décadas de carreira.

Em Warm (2018, dBpm Records), segundo e mais recente registro autoral, Tweedy segue exatamente de onde parou no último ano. São composições de essência autobiográficas, como um doloroso resgate poético dos principais conflitos que vem enfrentando nos últimos anos. “Deixo para trás um rastro de músicas / Da escuridão mais escura ao Sol mais brilhante / Eu perdi meu caminho, mas é difícil dizer / O que eu passei deveria ser importante para você“, canta em Bombs Above, composição ancorada em uma série de lembranças amargas, entre elas, o período em que esteve internado em uma clínica de recuperação para tratar do alcoolismo.

Interessante notar que mesmo doloroso, Warm está longe de parecer uma obra pessimista. São canções embriagadas pela melancolia dos versos, porém, sutilmente guiadas pelo fino toque de esperança que cresce em momentos estratégicos da obra. “E eu estou vivo / Quando te vejo dormir / Eu me pergunto quanta liberdade precisamos / E eu estou aqui quando você acordar para mim / E eu ainda estou aqui quando você acordar para mim“, canta em Having Been Is No Way to Be, música em que discute a passagem do tempo e o peso da morte de forma consciente, indicativo do completo amadurecimento poético do artista.

Dos poucos momentos em que perverte essa atmosfera contemplativa, Tweedy revela ao público uma de suas canções mais raivosas: Some Birds. “E não, eu não acho que deveria / Ser uma soma / De tudo que você teme / Eu adoraria te derrubar / E deixar você lá“, canta enquanto guitarras e violões furiosos se entrelaçam em meio a batidas rápidas, lembrando o Wilco do clássico Being There (1996). “Este sou eu tentando ser mais direto sobre me sentir impotente e sem saber o que fazer com minha raiva ultimamente. Espero que não seja tão cínico“, explicou em entrevista à Apple Music, indicando, mais uma vez, o quanto Warm gira em torno dos próprios conflitos.

É justamente por ser um trabalho de essência biográfica que Warm se conecta diretamente ao ouvinte. “Do espaço / Eu sou você / Distante / Você também sou eu / De muito longe / Eu assumo / Tudo / Precisa de menos espaço“, reflete em Far From Away, música em que trabalha o inevitável afastamento e as pequenas relações conturbadas entre os indivíduos. A mesma poesia empática ganha forma em I Know What It’s Like, composição em que discute a permanente sensação de deslocamento e abandono que sufoca as pessoas – “Mesmo quando estou bem acordado / Continuo voltando uma página / Não consigo encontrar o enredo / Algo está tomando forma / Eu sei como é / Para continuar perdendo o lugar“.

Dividido entre instantes de fúria (The Red Brick, Some Birds) e atos de parcial recolhimento (How Hard It Is for a Desert to Die, How Will I Find You?), Warm joga com os sentimentos e impressões do ouvinte durante toda sua execução. De fato, poucos são os registros em que Jeff Tweedy demonstra tamanha versatilidade e entrega dentro de estúdio, jogando com as próprias emoções durante toda a execução da obra. Um permanente exercício de refinamento poético, como se da sequência de álbuns entregues nos últimos anos, o cantor e compositor reservasse algumas de suas melhores criações. 


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