"White is Relic/Irrealis Mood"

Ano: 2018
Selo: Polyvinyl
Gênero: Synthpop, Indie Pop
Para quem gosta de: Animal Collective e Devo
Ouça: Paranoiac Intervals/Body Dysmorphia
Nota: 7.5

Resenha: “White is Relic/Irrealis Mood”, Of Montreal

Você pode esperar tudo de Kevin Barnes, menos o óbvio. Em mais de duas décadas de carreira, o cantor e compositor norte-americano fez do Of Montreal um exótico produto do confesso desejo em experimentar. Um imenso catálogo de ideias, muitas delas irregulares, mas que a todo instante parecem transportar público e banda para dentro de um território completamente novo, desafiador, cuidado que se reflete com naturalidade em cada uma das seis composições do 15º álbum de inéditas do grupo: White is Relic/Irrealis Mood (2018, Polyvinyl).

Claramente influenciado pelo pop-eletrônico dos anos 1980 e as mixagens estendidas que costuravam duas ou mais faixas em um mesmo single, Barnes decidiu abandonar temporariamente os velhos colaboradores de banda para investir em uma obra de essência particular, por vezes intimista. Trata-se de um trabalho “econômico” quando voltamos os ouvidos para os últimos discos do Of Montreal, mas não menos inventivo. Canções que se espalham em meio a sintetizadores e programações nostálgicas, como uma interpretação torta da música produzida há mais de três décadas.

Exemplo disso está na estranha composição de Paranoiac Intervals/Body Dysmorphia. São pouco mais de sete minutos em que Barnes parece costurar diferentes fórmulas instrumentais de forma confusa, talvez louca. Um labirinto conceitual que passa pelo trabalho de veteranos como Kraftwerk, flerta com a obra de gigantes da New Wave, como Talking Heads, e vai de encontro aos primeiros exemplares da House Music. Colagens e pequenas sobreposições estéticas, mas que em nenhum momento pervertem a essência psicodélica do projeto.

A mesma estrutura nostálgica acaba se refletindo na atmosfera referencial de Plateau Phase/No Careerism No Corruption, quarta composição do disco. Em um intervalo de poucos minutos, Barnes não apenas resgata parte do som torto que vem sendo produzido pelo Of Montreal, como vai de encontro ao trabalho de grandes representantes do pop rock/synthpop internacional. Difícil não lembrar de Gang of Four, Devo e Brian Eno, semelhança explícita na forma como o músico adapta de forma particular uma série de conceitos originalmente testados em clássicos do gênero.

Interessante perceber em Writing the Circles/Orgone Tropics, faixa em que mais se distancia desse ambiente “festivo”, o instante de maior transformação do álbum. Trata-se de um claro delírio românico transformado em música, como se Barnes dialogasse com o trabalho de Washed Out, Neon Indian e demais produtores que passaram os últimos anos revisitando o passado. O mesmo conceito acaba se repetindo na extensa If You Talk To Symbol/Hostility Voyeur, música que sintetiza de forma curiosa o lado mais experimental do disco.

Transformador quando próximo de outros registros produzidos pelo Of Montreal, White is Relic/Irrealis Mood não apenas rompe com o som redundante que vem sendo produzido pela banda nos últimos anos – vide a forte similaridade de obras como Paralytic Stalks (2012) e Lousy with Sylvianbriar (2013) –, como revela ao público um mundo de novas possibilidades. Trata-se de um claro experimento autoral, possivelmente temporário, como uma fuga breve para dentro de um território que merece ser explorado em toda sua extensão.

 


2 thoughts on “Resenha: “White is Relic/Irrealis Mood”, Of Montreal

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend