"Xenia"

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: R&B, Soul, Jazz
Para quem gosta de: Céu e Anelis Assumpção
Ouça: Pra Que Me Chamas e Perfeita Pra Você
Nota: 8.8

Resenha: “Xenia”, Xênia França

Entre tambores e ambientações tribais que conversam com a música produzida em território africano, versos marcados pela forte religiosidade, flertes com o jazz, diálogos com a cultura Iorubá e confissões intimistas, Xênia França abre as portas do primeiro álbum em carreira solo. Cinco ou mais décadas de referências musicais (e históricas) que se dobram de forma a atender à poesia minuciosa da cantora baiana, como uma madura extensão de tudo aquilo que vem sendo explorado pela artista nos últimos trabalhos como integrante do coletivo paulistano Aláfia.

Obra de enfrentamento, Xenia (2017, Independente) carrega nos versos da inaugural Pra Que Me Chamas? um profundo debate sobre apropriação cultural, detalhando parte do território poético desbravado pela cantora ao longo do disco. “De vez em quando / Um abre a boca / Sem ser oriundo / Para tomar pra si / O estandarte / Da beleza, a luta e o dom / Com um papo / Tão infundo“, canta enquanto a percussão forte ocupa todas as brechas da faixa, transportando França para o mesmo universo de outros representantes do Afro Pop – sejam eles nacionais ou estrangeiros.

A mesma força dos versos se reflete em músicas como Preta Yayá (“Música preta, sou teu instrumento, vim pra te servir“) e, principalmente, Respeitem Meus Cabelos, Brancos, sétima faixa do disco. Originalmente gravada por Chico César, a canção se transforma de maneira explícita na voz forte de França (“Vamos ser francos / Pois quando um preto fala / O branco cala ou deixa a sala / Com veludo nos tamancos“), lembrando em alguns aspectos a mesma atmosfera e conceito de Don’t Touch My Hair, composição gravada pela norte-americana Solange em A Seat at The Table (2016).

Mesmo a rica base instrumental que garante sustento aos versos de França encanta pelo forte diálogo com a música negra. Arranjos que atravessam a obra de veteranos como John Coltrane e Harbie Hancock, mergulham em elementos do Hip-Hop e R&B e sutilmente pervertem a música pop de forma particular, como se a cantora brincasse com todas as possibilidades em estúdio. Um exercício orientado pela voz presente da cantora, porém, completo pela interferência dos produtores Pipo Pegoraro e Lourenço Rebetez durante toda a execução do registro.

Coesa representação do colorido instrumental que abastece o disco sobrevive na experimental Perfeita Pra Você, oitava música do álbum. Em um intervalo de apenas quatro minutos, batidas pontuais abrem passagem para a lenta construção dos arranjos, detalhando sintetizadores futurísticos e guitarras psicodélicas que se conectam diretamente à voz de França, maquiada pelo uso de efeitos eletrônicos e inserções lisérgicas. Um mosaico criativo que ainda abre passagem para o som eletrônico de A Nave ou mesmo o minimalismo confessional de músicas como Breu e Destino.

Raivoso e delicado, intimista e ainda capaz de dialogar com uma parcela maior do público, Xenia parece jogar com as possibilidades a cada novo fragmento de voz. Instantes em que a cantora abraça a obra de novos colaboradores, como a poetisa Roberta Estrela D’Alva, resgata elementos originalmente testados como integrante do Aláfia ou mesmo projetos assinados em parceria com diferentes nomes do rap nacional. Da exuberante imagem de capa do disco – uma fotografia de Tomás Arthuzzi com direção artística de Oga Mendonça –, ao evidente cuidado na formação dos versos, uma obra em que Xênia França se revela ao público por completo.

 

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