Sobre Cinema e Música

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Desde que o primeiro filme com som foi lançado em 1927 – o clássico O Cantor de Jazz, de Alan Crosland – que a relação entre cinema e música passou a ser de extrema proximidade. Foi pensando nessa relação que preparamos uma lista com 15 grandes filmes que usam da temática da música para movimentar suas imagens. São documentários ou filmes de ficção lançados ao longo dos últimos anos e que fazem desse casamento uma abertura para diversos segmentos, gêneros e histórias do mundo da música. Este é a primeira parte da nossa sessão especial Sobre Cinema e Música, que deve se repetir em breve. Sabemos que faltam inúmeros filmes que podem integrar o mesmo quadro, então contribuam deixando sugestões das próximas películas que podemos trazer futuramente na mesma lista.

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Velvet Goldmine
Velvet Goldmine (1998, Todd Haynes)

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Em 2007 o diretor californiano Todd Haynes lançaria ao mundo o elogiado Não Estou Lá, trabalho em que visitaria a vida do cantor Bob Dylan através de diferentes ângulos e distintos personagens. Contudo, esta não seria a primeira vez que o cineasta traria o mundo da música para as telas do cinema. Em 1998, Haynes assumiria a direção do cultuado Velvet Goldmine, trabalho que serviria como uma espécie de análise de toda a explosão do Glam Rock na Inglaterra dos anos 70. Utilizando de personagens fictícios, porém inspirados em ícones como David Bowie e Iggy Pop, a história traz o jornalista Arthur Stuart (Christian Bale), investigando a suposta morte do roqueiro Brian Slade (a versão de Bowie no filme), que desapareceu em meados da década de 1970 por conta das pressões causadas pela fama e por seus abusos com sexo e drogas. Além do ótimo roteiro, a película conta com uma trilha sonora trabalhada por integrantes de bandas como Radiohead, The Stooges, Suede, entre outras, que juntos formam o fictício grupo The Venus In Furs, responsável por reinterpretar grandes clássicos do período em que se passa o filme.

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Buena Vista Social Club
Buena Vista Social Club (1999, Wim Wenders)

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Em meados dos anos 90, o cineasta Wim Winders foi convidado pelo músico e amigo Ry Cooder para fazer uma visita em Havana, capital de Cuba e cidade que abrigava alguns dos maiores expositores da música latina, artistas quem em 1996 trabalharam ao lado de Cooder na construção do premiado disco Buena Vista Social Club. Feita a visita, Winders resolveu voltar ao país, dessa vez acompanhado de uma equipe de cinegrafistas para que juntos captassem um pouco do que fora a música cubana dos anos 40 e o que ainda restava do mesmo cenário musical. O resultado dessas imagens se está no homônimo documentário lançado pelo diretor alemão em fevereiro de 1999, um registro que concentra seus esforços em cima de músicas, imagens antigas e emocionados depoimentos. Ao longo do filme, personagens reais como Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz e Omara Portuondo vão aos poucos remontando os tempos de glória da música cubana, participando de uma série de ensaios que mais tarde culminariam em uma apresentação no Carnegie Hall em Nova York.

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Alta Fidelidade
High Fidelity (2000, Stephen Frears)

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Muito embora seja um dos filmes mais cultuados pelo público alternativo (que insiste em supervalorizar a obra), Alta Fidelidade vai muito além de um trabalho voltado para um público específico. Baseado no homônimo livro do escritor britânico Nick Hornby, o filme é uma mais do que agradável comédia romântica, que para além de um roteiro banal (que assume boa parte dos trabalhos do gênero) concentra seus esforços em cima de um texto dinâmico, criativo, repleto de frases memoráveis, além, claro, de ótimas atuações. Tanto John Cusack (que interpreta Rob Gordon), como Jack Black (representando o cômico Barry) se posicionam perfeitamente ao longo do filme, mobilizando diálogos carregados de referências musicais que vão de Bob Dylan ao Nirvana. No filme, o personagem vivido por Cusack (um fissurado por montar listas e Top 5) após levar um fora de sua última namorada começa a relembrar seus antigos relacionamentos, tentando entender os motivos que o levaram a enfrentar uma vida amorosa repleta de dificuldades e buscando compreender melhor a si mesmo.

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Quase Famosos
Almost Famous (2000, Cameron Crowe)

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Um garoto de 15 anos que consegue um trabalho na revista Rolling Stone norte-americana para cobrir uma turnê de uma das maiores bandas da década de 70, esta é a trama que movimenta o divertido Quase Famosos, filme que transformou o diretor Cameron Crowe em um dos mais queridos dos amantes da cultura pop. A história que se passa no começo da década de 1970 foca no aspirante a jornalista William Miller (Patrick Fugit), personagem que consegue enganar sua idade e obtém uma autorização para acompanhar o grupo fictício Stillwater (uma grande soma de clichês e personagens que remetem aos músicos ícones da mesma década) na tentativa de produzir uma matéria que captasse a “essência” da banda. Ao longo da viagem, entretanto, Miller vai se envolvendo com todos aqueles que acompanham a turnê, inclusive com a bela Peny Lane, personagem vivida por Kate Hudson. O filme ainda conta com Zooey Deschanel, Madonna e uma impagável atuação de Philip Seymour Hoffman como o jornalista Lester Bangs.

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A Festa Nunca Termina
24 Hour Party People (2002, Michael Winterbottom)

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Duas décadas da cena musical de Manchester captadas de forma bem humorada e ecoando boa música por todos os lados. Assim funciona A Festa Nunca Termina, filme de 2002 que mostra o panorama musical britânico desde 1976 com a pré-explosão do movimento Punk até 1997 com o fechamento da casa de shows Haçienda, um dos grandes palcos da música eletrônica européia naquele período. Embora centrado na imagem de Tony Wilson (interpretado por Steve Coogan), jornalista e agitador cultural que transformou Manchester em uma Meca da música pop, o filme trata com muita comicidade o surgimento de grupos como Joy Division, New Order, Happy Mondays e toda explosão da música Rave nos anos 90, sempre mesclando doses de documentário com ficção. Do surgimento da Factory Records aos constantes abusos de drogas de seus protagonistas (o próprio Wilson diz durante o filme que este não é um registro sobre ele), o filme parece capturar com precisão todo o panorama musical daquele período.

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The Devil and Daniel Johnston – Loucuras de um Gênio
The Devil and Daniel Johnston (2005, Jeff Feuerzeig)
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Surpreendentemente doloroso e belo, assim pode ser classificado The Devil and Daniel Johnston, documentário que retrata a vida do excêntrico cantor, compositor e artista plástico norte-americano Daniel Johnston. Munido de um colossal número de imagens históricas que passam por toda a adolescência, juventude e atual momento do músico, o diretor Jeff Feuerzeig faz da película um passeio através de um mundo repleto de ilusões, esquizofrenias e picos de genialidade de um dos maiores representantes do rock independente das últimas três décadas. Revirando imagens pessoais, gravações caseiras do cantor, incontáveis ilustrações e carregado de depoimentos de pessoas que acompanharam a carreira de Johnston desde seus momentos iniciais, o filme vai lentamente absorvendo o ouvinte em seu interior melancólico e sombrio, deixando a duvida se estaria a nossa realidade comprometida ou a do próprio músico. Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Sundance em 2005, o filme é essencial para quem admira a obra de Johnston e server como um retrato do panorama musical no Texas durante os anos 80 e início da década de 1990.

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Heima
Heima (2006, Dean DeBlois)

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No verão de 2006 o quarteto de pós-rock Sigur Rós resolveu excursionar por boa parte da Islândia, sua terra natal, na promoção de uma série de shows e apresentações gratuitas, como uma espécie de presente ao povo do país. O resultado dessas apresentações foram captadas através das câmeras de Dean DeBlois, que fazendo uso de um cruzamento entre as paisagens naturais do país e a música da banda gerou um verdadeiro achado audiovisual. Delicado, o documentário conta tanto com apresentações da banda em ambientes fechados, como um singelo restaurando ou um teatro de médio porte, como grandiosos shows a céu aberto. Paralelos ao conjunto de apresentações e imagens captadas em diversos cantos do país, o documentário vai lentamente contando a história do Sigur Rós, desde seu princípio, com os integrantes contando sobre o processo de fabricação caseiro de seus discos até o grande estrelato do grupo. Mesmo para quem desconhece o trabalho da banda, Heima (que em islandês quer dizer “em casa”) é um registro que encanta por sua sensibilidade.

Ex-Baterista
Ex Drummer (2007, Koen Mortier)

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A história é até bem simples: três músicos convidam um escritor e baterista aposentado para que o mesmo participe de uma única apresentação de sua recente banda em um festival de rock local. Intrigado com o convite, Dries, o personagem principal da história aceita e a partir daí é que temos contato com um universo sujo, agressivo, sombrio e repleto de personagens memoráveis. Cada um dos três integrantes da banda, por exemplo, conta com algum tipo de deficiência. Enquanto um dos membros é um psicótico, o outro é praticamente surdo, enquanto o terceiro não consegue mexer seu braço, deixando para o músico convidado a tarefa de ser um baterista que não sabe tocar seu instrumento. Repleto de cenas surpreendentes – algumas sequências são captadas inteiramente de cabeça para baixo, enquanto outras são apresentadas de trás para frente – e tomado de diálogos sarcásticos, o filme mantém o espectador preso do princípio ao fim, traduzindo através de imagens o excepcional texto do livro de Herman Brusselmans, o qual a película é baseada.

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Control
Control (2007, Anton Corbijn)

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Control, película que retrata os últimos anos da vida do cantor e compositor Ian Curtis é definitivamente um trabalho tomado de acertos. Começa pela direção de Anton Corbijn, cineasta e fotógrafo que acompanhou o músico durante várias de suas apresentações e um verdadeiro fã do Joy Division (banda do qual Curtis fazia parte), além de todos os grandes grupos do pós-punk britânico que inundaram a Inglaterra nos anos 80. O roteiro de Matt Greenhalgh flui de forma dinâmica, usando como base o livro Touching from a Distance, obra escrita por Deborah Curtis, esposa do cantor. O filme conta ainda com uma atmosfera sombria e sufocante, sensação facilmente explicada a partir das imagens em preto e branco e cenas que intercalam momentos de angustiante silêncio e ruídos quase esquizofrênicos, soma-se a isso uma minuciosa escolha dos atores, algo bem representado pela presença do jovem Sam Riley no papel de Curtis (a semelhança é surpreendente), assim como todos os demais interpretes que vão se revelando ao longo das cenas. Até o título do filme – que usa a música She’s Lost Control como sua referência – parece se encaixar perfeitamente com o conteúdo da obra.

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A Todo Volume
It Might Get Loud (2008, Davis Guggenheim)

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Jimmy Page (Led Zepellin),The Edge (U2) e Jack White (White Stripes e The Raconteurs) juntos e falando sobre música, esta é a premissa de A Todo Volume, documentário dirigido por Davis Guggenheim e que é um verdadeiro delírio aos fãs da tríade de guitarristas. Atravessando quase quatro décadas de história, o filme deixa seus três personagens soltos, contando um pouco sobre o início de suas carreiras e toda sua paixão pela guitarra e pela música em geral. Há desde relatos sobre as gravações de alguns dos principais álbuns das bandas dos respectivos instrumentistas, até imagens raras, como apresentações de White com sua antiga banda, o The Upholsterers. Por fim, um encontro entre os três em um estúdio, onde além de tocarem juntos, o trio troca algumas de suas experiências, divertido ver The Edge e Jack White prestando atenção aos ensinamentos de Page. Embora seja composto de um vasto número de imagens e ótimas cenas, o filme ganha todo seu mérito logo em seus primeiros minutos, com White construindo uma guitarra praticamente do nada.

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Simonal – Ninguém Sabe O Duro Que Dei
(2008, Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal)

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Em 2008 a tríade de diretores formada por Claudio Manoel (Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal resolveu resgatar do limbo a imagem do cantor carioca Wilson Simonal, célebre personagem da música popular brasileira, porém figura esquecida do grande público há mais de 30 anos em decorrência de supostos envolvimentos do músico com a ditadura militar. Na primeira parte do documentário somos apresentados aos anos de glória de Simonal, que imortalizou com sua voz faixas como Meu Limão, Meu Limoeiro, Sá Marina, Vesti Azul, Carango e todo um arsenal de composições, além de figurar como um dos maiores expoentes da música brasileira no exterior. Na segunda metade do registro adentramos ao período de decadência do artista, onde acusado de ser um dos delatores do governo militar, Simonal foi lentamente excluído por grande parte da classe artística nacional até cair em um ostracismo que o levou a cometer sérios abusos com o álcool (o cantor morreu em 2000 por conta de uma cirrose hepática em decorrência do alcoolismo). Cruzando apresentações ao vivo do cantor, com uma série de depoimentos, o filme recebeu em 2010 o prêmio de melhor documentário no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

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A Cross The Universe
A Cross The Universe (2008, Romain Gavras)

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Durante a turnê da dupla francesa Gaspard Augé e Xavier de Rosnay (as duas mentes por trás do Justice) em março de 2008 pelos Estados Unidos, o “polêmico” cineasta Romain Gavras (diretor de clipes como Born Free da cantora M.I.A. ou Stress do próprio Justice) acompanhou de perto cada segundo da badalada excursão. O resultado dessas imagens está no documentário A Cross The Universe (o título é uma brincadeira com a clássica composição de John Lennon), filme que para além de captar as apresentações do duo em território norte-americano traz um belo apanhado de cenas dos bastidores da turnê, que incluem festas intermináveis, abusos com as drogas e até mesmo a prisão de um dos integrantes da dupla. Cru, o registro mostra toda a habilidade do duo em manejar o público em suas apresentações, promovendo verdadeiras catarses musicais através de hits como D.A.N.C.E., DVNO ou Waters Of Nazareth. Posteriormente lançado como um disco, o documentário traz boa parte das canções presentes no primeiro registro da dupla, o conceitual de 2007.

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Loki
(2008, Paulo Henrique Fontenelle)

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Loki, cinebiografia baseada na vida do cantor e compositor brasileiro Arnaldo Baptista é uma obra difícil de ser superada. Paulo Henrique Fontenelle, diretor do documentário foi atrás de um vasto número de imagens históricas (que incluem raras apresentações do músico em TV brasileira), depoimentos de amigos e parentes que durante décadas acompanharam o eterno líder da banda Os Mutantes. Enquanto vai picotando as imagens e as espalhando ao longo do trabalho, o próprio Baptista segue pintando um quadro curioso, que estranhamente parece se ligar ao que vai sendo proferido ao longo do filme pelos entrevistados. O filme explora desde os primeiros trabalhos do músico, seus momentos de glória até o declínio do artista, que resultou em uma tentativa de suicídio (o músico se atirou do quarto andar do hospital psiquiátrico onde estava instalado) que jogou Arnaldo em um coma profundo que durou mais de quatro meses. Com 120 minutos de duração, a película vai até o momento em que os Mutantes (sem Rita Lee) são convidados a se apresentarem em Londres durante um evento que homenageava a Tropicália. Um verdadeiro mergulho na mente e nos delírios do cantor.

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Ninguém Sabe dos Gatos Persas
Kasi az gorbehaye irani khabar nadareh (2009, Bahman Ghobadi)

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Depois de apresentar ao mundo o doloroso Tartarugas Podem Voar, o cultuado cineasta iraniano Bahman Ghobadi voltou seu foco para a maneira como o rock e a música não tradicionalista é encarada em seu país de origem. Logo após deixarem a cadeia Negar e Ashkan decidem abandonar seu país e se mudar para Londres, na tentativa de poderem finalmente propagar seu indie rock sem que para isso precisem enfrentar a censura do governo iraniano (que só autoriza esse tipo de produção cultural mediante a apresentação de permissões específicas). Sem passaportes e sem dinheiro, a dupla decide montar um show em que possam arrecadar dinheiro o suficiente para deixarem o país. Com o objetivo em mente, o casal precisa agora atrair novos integrantes para a banda, assim como conseguir (de forma ilegal) toda a documentação necessária para deixar o Irã. Filmado pelas ruas de Teerã, o filme engloba uma série de distintos gêneros musicais, trazendo uma boa mostra do que é produzido no rock alternativo do oriente médio.

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Uma Noite em 67
(2010, Renato Terra, Ricardo Calil)

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Embora seja capaz de pintar todo o panorama político e social do Brasil dos anos 60, Uma Noite em 67, documentário de Renato Terra e Ricardo Calil nada mais é do que um filme sobre seis músicas, seus interpretes e um festival. Roda Viva de Chico Buarque e MPB4; Alegria, Alegria de Caetano Veloso; Domingo no Parque de Gilberto Gil com participação dos Mutantes; Maria, Carnaval e Cinzas do novato Roberto Carlos; a polêmica Beto Bom de Bola de Sérgio Ricardo e a vencedora da noite, Ponteio, de Edu Lobo são as músicas que movimentaram o III Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record. Meia dúzia de composições interpretadas por jovens nomes da música brasileira, figuras hoje essenciais na memória musical do país, mas que tiveram de enfrentar um público em frenesi em um acontecimento único que já ocorreu em solo tupiniquim. Mesclando depoimentos atuais de pessoas que estiveram presentes no evento com imagens do festival, o documentário consegue com perspicácia transportar o espectador para dentro de toda a euforia que tomou conta do evento.

Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

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