Tag Archives: Alternative Rock

Disco: “Fortaleza”, Cidadão Instigado

Cidadão Instigado
Rock/Alternative/Psychedelic
http://www.cidadaoinstigado.com.br/

Climáticos, os sintetizadores crescem lentamente. Ao fundo, guitarras espalham ruídos, sem pressa ou possíveis exageros. A bateria ocupa espaço com timidez, abrindo passagem para que a voz de Fernando Catatau ecoe de forma clara, como um suspiro aliviado: “até que enfim”. Com os pés firmes no chão, passados seis anos desde o lançamento do último álbum de estúdio, Uhuuu! (2009), o grupo cearense Cidadão Instigado deixa de lado do som experimental (e lisérgico) dos primeiros trabalhos para investir em uma obra pontuada pela saudade, melancolia e completa lucidez.

Fuga dos temas e arranjos complexos testados desde a boa fase em O Ciclo da Decadência (2002) e Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências (2005), com recém-lançado Fortaleza (2015, Independente) a banda – completa com Regis Damasceno, Clayton Martim, Rian Batista e Dustan Gallas – revela ao público uma sonoridade talvez “simples”, mas não convincente. Livre da estrutura torta e limitadora de faixas como O Pinto de Peitos e Deus É Uma Viagem, o canto triste de Catatau se despe do manto colorido, transporta o ouvinte para um cenário obscuro e ainda cria brechas acessíveis aos mais variados público.

Quem esperava por uma possível continuação dos temas cósmicos testados no disco de 2009 talvez se decepcione. Salve exceções, da abertura ao fechamento, guitarras, batidas e toda os arranjos que preenchem a obra são tratados com sobriedade e expressivo “controle” por parte dos integrantes. A herança da década de 1970 – principalmente Pink Floyd – ainda é a mesma, entretanto, o caminho percorrido agora é outro. Mesmo a essência regional de artistas como Fagner e Zé Ramalho parece alterada no interior das canções, como se a longa relação do grupo com a cidade de São Paulo cobrisse todas as lacunas da obra com tons de cinza.

Em se tratando dos versos, um amadurecimento. Basta um passeio pelo romantismo que cobre Besouros e Borboletas para ser atraído pela temática amarga e sempre particular de Catatau. “Me diga o que passou que eu procuro pra você /  Em cantos que eu nem vou / Só pra você perceber / Que estou mais velho”, entrega o melancólico vocalista, ainda íntimo da mesma essência confessional carimbada em clássicos como Lá Fora Têm…, O Tempo, Dói e demais exemplares do puro sofrimento que há tempos cerca os versos da banda.

Mais do que um caricato dramalhão romântico, temas sociais, urbanos e até existencialistas aos poucos se espalham pelo registro. Em Quando a Máscara Cai, por exemplo, o sempre “pacifico” Fernando Catatau assume uma postura quase raivosa, esbravejando em versos como “Vou arrancar Zé Doidim tua máscara / Só pra te ver desorientado / Como tu vais fazer para se esconder?”. A utilização de versos em inglês reflete outro aspecto curioso da obra. Tanto Green Card quando Land Of Light entregam ao público uma banda confortável, longe do idioma local. Sobram ainda faixas que traduzem a saudade em relação à cidade de origem do coletivo, Fortaleza, referência que ultrapassa a própria faixa-título do trabalho e se esconde em pontos estratégicos de toda a obra.

Misto de ruptura e transformação, Fortaleza mostra um grupo remodelado, tão curioso e atento quanto há dez anos, quando passou a receber maior atenção da imprensa especializada. Do dedilhado tímido que preenche o cancioneiro em Perto de Mim, ao som raivoso, quase “punk”, esculpido pelas guitarras de Quando a Máscara Cai, inúmeros são os caminhos (e sonoridades) incorporados pela banda, seguramente capaz de condensar maturidade e jovialidade até a derradeira Lá Lá, Lá Lá Lá Lá. Como entrega o vocalista no primeiro verso do disco: “até que enfim”.

Fortaleza (2015, Independente)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Siba, Céu e Pélico
Ouça: Besouros e Borboletas, Perto de Mim e Até Que enfim

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Cozinhando Discografias: Mogwai

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado muito mais democrático. No cardápio de hoje: MogwaiContinue reading

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Disco: “1977”, Wado

Wado
Alternative/Indie/Nacional
http://wado.com.br/

Fotos: Pedro Ivo Euzébio

Desde os iniciais Manifesto da Arte Periférica (2001) e Cinema Auditivo (2002) que as guitarras não recebiam tanto destaque dentro de um trabalho de Wado como em 1977 (2015, Independente). Registro que carrega no título o ano de nascimento do artista catarinense/alagoano, o oitavo álbum de inéditas de Wado está longe de parecer uma obra nostálgica. Pelo menos dentro do universo particular do cantor. Em um diálogo rápido com o (punk) rock e todo o cenário montado no mesmo período, o músico sustenta em cada faixa do disco sua obra mais dinâmica e “raivosa”.

Fuga da atmosfera eletrônica reforçada entre Terceiro Mundo Festivo (2008) e Samba 808 (2011), além de um completo desligamento do som acústico de Vazio Tropical (2013), então último álbum de Wado, o presente disco mostra um artista (mais uma vez) reformulado, capaz de brincar com a própria essência de forma curiosa. Como define o próprio texto de apresentação do trabalho: “o norte sem norte: o não se repetir”. Mas será que tudo em 1977 é tão novo assim?

Mesmo que a parte inicial da obra autorize a entrada de guitarras sujas e distorcidas, raras dentro da (extensa) discografia do músico, durante todo o desenvolvimento do trabalho, resgates e pequenas adaptações dos últimos discos de Wado são reforçados de forma evidente. Dos pianos melancólicas em Menino Velho ao toque doce de Palavra Escondida – talvez sobras do último disco -, tudo se dissolve em uma ambientação acolhedora, como uma nova curva dentro da quebra brusca que abre o disco.

Não é preciso muito esforço para interpretar o novo álbum de Wado como um obra de dois lados bem definidos. Na primeira metade: a crueza. São faixas como Deita, Lar e Cadafalso – está última, faixa-título do último álbum de Momo. Instantes em que a “raiva”, esquiva no último disco do cantor, cresce com acerto e movimento para os versos. Na segunda parte: a leveza. Difícil não se emocionar com composições como Um Dia Lindo de Sol e Mundo Hostil, faixas que dosam descrença e esperança com uma naturalidade rara dentro do rico acervo do compositor. Continue reading

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Disco: “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”, Courtney Barnett

Courtney Barnett
Indie Rock/Alternative/Singer-Songriter
http://courtneybarnett.com.au/

O ano é 1995. No campo da música, o grunge dá seus últimos suspiros, deixando o caminho livre para o duelo “pomposo” do Britpop entre Blur e Oasis. Depois de meia década de “domínio masculino” dentro das rádios, programação da MTV e revistas de música, um time de vozes femininas – inspiradas por PJ Harvey, Kim Deal e Liz Phair – começaram a ocupar território. De Alanis Morissette ao trabalho da islandesa (e já veterana) Björk, dos gritos de Gwen Stefani no No Doubt aos berros de Shirley Manson na estreia do Garbage, há 20 anos, todos os holofotes se voltaram para elas.

Curioso perceber que mesmo passadas duas décadas desde a explosão de novos representantes do “rock feminino”, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, estreia solo da australiana Courtney Barnett, ainda preserva parte da mesma essência de músicas lançadas durante o período. Versos temperados com sarcasmo, guitarras tratadas com euforia, além de um universo de temas tão joviais e descomplicados, que Barnett parece até cantar sobre o cotidiano do espectador.

Passo além em relação ao material apresentado em The Double EP: A Sea of Split Peas, de 2013, a estreia solo de Courtney Barnett se liberta de possíveis amarras para flutuar em um plano leve, como uma transcrição de pensamentos recentes da artista. Em se tratando dos arranjos, a maior liberdade na construção das bases, com guitarras potencialmente dinâmicas, quase dançantes, além da exposição de vocais limpos, como se a cantora buscasse se aproximar de toda uma nova parcela do público. Não por acaso o ambiente “Lo-Fi” de músicas já conhecidas como Out of the Woodwork e Avant Gardener parece esquecido, aproximando o disco de todo um novo jogo de essências.

Habitante do mesmo ambiente temático de Katie Crutchfield (Waxahatchee), Sadie Dupuis (Speedy Ortiz), Mackenzie Scott (Torres) e diferentes “herdeiras” da música lançada no meio dos anos 1990, Barnett, está longe de produzir um som referencial e copioso. Musicalmente, a semelhança com a obra de Liz Phair, Pavement e outros gigantes do rock alternativo é inevitável, entretanto, basta se concentrar nos versos da cantora, capaz de brincar com a própria timidez (Nobody Really Cares If You Don’t Go to the Party) e metáforas sobre a morte (Dead Fox), para perceber que ela não depende de nenhum nome ou ponto específico de referência. Continue reading

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Disco: “Sobre a Vida em Comunidade”, Mahmed

Mahmed
Post-Rock/Instrumental/Experimental
https://www.facebook.com/mahmedmusica
https://mahmed.bandcamp.com/

Maturidade”, “crescimento” e “grandeza”. Palavras de significado forte, expressivas quando voltamos os ouvidos para o acervo sóbrio lançado pela potiguar Mahmed em Domínio das Águas e dos Céus EP (2013), porém, pequenas, quase insignificantes frente à grandeza de Sobre a Vida em Comunidade (2015, Balaclava). Em um assombroso traço de evolução, ao finalizar o primeiro álbum de estúdio, o quarteto do Rio Grande do Norte não apenas alcança um novo estágio dentro da própria sonoridade, como ainda prende o ouvinte em um labirinto de formas mutáveis; um álbum sedutor e provocativo a cada fragmento instrumental.

Montado em uma estrutura não-linear, pontuada por arranjos e texturas propositadamente instáveis, logo nos primeiros segundos dentro disco, a pergunta: estou sonhando? Como uma noite longa de sono embriagado, costurada por diferentes sonhos, passagens rápidas por pesadelos e até a tontura leve típica de exageros alcoólicos, SAVEC brinca com as interpretações do ouvinte. É difícil saber onde começa e acaba o álbum. Ondas leves de distorção arremessam, acolhem e mudam a direção das composições a todo o momento. Um constante cruzamento entre o onírico, o experimental e até o nonsense que corta em pedaços rótulos imediatos como “Jazz”, “Dream Pop” ou o inevitável “Post-Rock”. Todavia, mesmo a completa ausência de direção (ou previsibilidade) em nenhum momento distorce a sutileza e coerência da banda.

Da abertura letárgica em AaaaAAAaAaAaA ao som levemente acelerado que pontua o disco em Medo e Delírio, a coerência parece impregnada em cada nota lançada pela banda. Talvez seja um erro caracterizar SAVEC como uma obra de “limites bem definidos”, entretanto, mesmo nesse passeio pelo “mundo dos sonhos”, um linha imaginária, fina, parece direcionar o trabalho da banda – hoje composta por Walter Nazário (Guitarra, Samplers, Sintetizadores), Dimetrius Ferreira (Guitarra), Leandro Menezes (Baixo) e Ian Medeiros (Bateria). Curvas, quebras e mudanças (quase) bruscas de direção são nítidas em cada nova faixa, ainda assim, o controle é permanente.

Delicada representação desse resultado sobrevive de forma nítida na similaridade dos arranjos e distorções maquiadas das guitarras. Em um ambiente obscuro, um meio termo entre os clubes de Jazz e a cama de texturas assinadas por grupos como Portishead, cada composição serve de preparativo para a faixa seguinte; uma ativa troca de referências, estruturas e conceitos capazes de amarrar todas as canções em um bloco único de experiências. Mesmo a colagem de samples e ruídos instrumentais externos – como na “eletrônica” Ian Trip – mantém firme o senso de aproximação entre as músicas, como se as peças do quebra-cabeça criado ao longo do disco se encaixassem para formar uma única imagem. Continue reading

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Best Coast: “Feeling OK”

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Cinco anos se passaram desde a estreia do Best Coast com Crazy for You (2010). De lá pra cá, a busca por uma sonoridade menos “caseira” transportou Bethany Cosentino e Bobb Bruno para um novo universo de referências e pequenas variações melódicas, marca do segundo álbum de estúdio do casal, The Only Place (2012), mas que encontra um novo resultado com a aproximação do inédito California Nights (2015), terceiro álbum de inéditas da dupla.

Longe do garage rock e clima litorâneo que orienta os dois primeiros registros do Best Coast, o ainda inédito trabalho aos poucos aponta para uma nova direção. São guitarras detalhistas, arranjos de voz cada vez mais limpos e as confissões de Cosentino tratadas de forma muito mais “comercial”, como se fosse moldada para atender o grande público. Não que isso pareça um erro, pelo contrário, soa como um mínimo ponto de transformação dentro da carreira do duo, proposta iniciada com o último EP Fade Away (2013), mas que se reforça agora em uma linguagem típica dos anos 1990, como uma faixa esquecida de Liz Phair ou outra grande representante da porção feminina do rock alternativo da época.

Com distribuição pelo selo Harvest, California Nights estreia no dia 04/05.

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Best Coast – Feeling Ok

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4 erros e 3 acertos do Lollapalooza Brasil 2015

Problemas no som, distância enorme entre os palcos e preços abusivos. Estes foram alguns dos problemas enfrentados pelo público do Lollapalooza Brasil 2015.

Durante os dois dias do festival, realizado entre 28 e 29 de março no Autódromo de Interlagos, a sucessão de problemas técnicos pareceu maior que os próprios acertos, tornando a quarta edição do evento no País a menos assertiva.

Mas será que foi tudo tão ruim? Em uma análise do som, atendimento ao público, estrutura e, claro, diferentes shows, listamos alguns dos erros e acertos que marcaram a edição 2015 do festival.

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ERRO: preços altíssimos.

Já pensou pagar R$ 10 em um copo de cerveja Skol ou um pastel de carne (frio)? Que tal R$ 25 em um hambúrguer? E R$ 5 em um copo d’água de 300ml? Estes foram alguns dos preços exorbitantes do Lollapalooza Brasil 2015.

O resultado? Vendas baixas. Durante os dois dias em que estive no festival, diversos vendedores relataram o baixíssimo número de vendas de comidas e bebidas. No domingo (29), último dia do evento, era possível renegociar preços, comprando cervejas, pasteis e espetinhos a um valor mais “em conta”.

O baixo interesse do público deixou a circulação pela tenda do Chef Stage tranquila durante o festival. Para atrair o público, diversas tabelas de preços foram remarcadas no domingo. “Tomei uma cerveja, mas vou dividir o preço da outra por dois copos d’água. Está muito caro comer e beber aqui”, disse o estudante de administração Rafael Borges, 20 anos.

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ACERTO: Estrutura.

Decidiu esperar entre uma atração e outra para passear pelo Autódromo de Interlagos? No Lollapalooza 2015 não faltaram (boas) atrações – grande parte delas patrocinadas. Montanha-russa, área para compras, performances do espetáculo Fuerza Bruta, vários pontos de alimentação, atendimento médico, atrações musicais e diferentes atividades mantiveram o público ocupado.

Em busca de um espaço para descansar, longe do sol? Alguns passos entre o palco Skol e Ônix e o público teria acesso a diversos pontos de sombra que serviram de abrigo contra o calor do primeiro dia e chuva forte do segundo. Gosta de selfie? Que tal espaços projetados especialmente para tirar uma foto com o palco e público atrás de você?

Mesmo a (longa) fila para entrar no Autódromo se transformou em uma experiência agradável, com apresentações de diferentes artistas locais. A área em torno do palco Axe ainda poderia ter sido melhor aproveitada, mas já é um bom começo para o festival. Agora, que tal uma estrutura de transporte interno para a edição 2016, algo que facilite o acesso entre os palcos mais distantes?

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loll

ERRO: “Posso ajudar?”

Onde retiro meu ingresso?“, “Moço, você sabe onde é a entrada?“, “Onde fica o ‘palco de eletrônica?‘”, “Eu queria comprar o ingresso, você sabe onde fica a bilheteria?“.

Estas foram algumas das perguntas que ajudei a responder nos dois dias de Lollapalooza. O motivo? Não foram poucas as vezes em que me deparei com a equipe “treinada” com o colete do “Posso Ajudar?” se mostrando incapaz de atender ao público. Seja na entrada do Autódromo, como dentro do festival, perguntas simples sobre localização dos palcos, postos de saúde ou bilheterias não eram respondidas de forma satisfatória.

A distribuição de mapas do festival foi outro problema. “Onde você conseguiu o mapa?” foi uma das perguntas que mais precisei responder. Nos dois dias de Lollapalooza encontrei apenas dois pontos de distruibuição, um na placa em frente ao palco Skol, outro entre o Palco Axe e o Chef Stage.

Por falar em Chef Stage: não seria mais fácil listar os ingredientes na placa/cardápio e não apenas o nome do prato?

Para a edição de 2016, profissionais (realmente) treinados em estações específicas do Metrô/CPTM – como a de Pinheiros – facilitariam e muito a circulação dos usuários.

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ERRO: Headliners e nomes “comerciais”.

Quando se está fora da organização de um festival, é fácil apontar e dizer: “faltou banda ‘X’” ou “poderiam ter convidado artista ‘Y’“. Entretanto, não há como negar a falta de novidade e nomes de fato atrativos para esta edição do Lollapalooza.

Onde estão gigantes como Foo Fighters, Pearl Jam, Arcade Fire e The Killers – artistas que movimentaram as últimas edições do festival?

Em turnê, nomes como Sia, Lana del Rey e Charli XCX poderiam facilmente suprir a lacuna “pop” e atrair o mesmo público jovem de Lorde na edição 2014. Jack White como atração principal? Parece pouco, bem pouco.

“A edição foi um sucesso”, dizem os organizadores. Sério mesmo? Não houve “empurra-empurra”, shows lotados e dificuldade para acessar os palcos por um motivo simples: não havia público. Salvo pequenas instalações, lojas e atividades paralelas, a área do Autódromo de Interlagos ainda era a mesma do ano anterior, a mesma disposição. A diferença? Estava tranquilo, esvaziamento dos caixas, filas curtas, mesmo em atrações e shows ditos como “disputados”.

Onde você gostaria de “investir” seu dinheiro, nas edições de 2012, 2013 e 2014 ou na de 2015?

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billy

ACERTO: Figurinha repetida não completa álbum.

Quem deixou passar a edição 2015 do Lollapalooza Brasil pelo simples fato de “eu já vi a maioria destas bandas ao vivo”, cometeu um erro grave.

Mesmo sem surpresas – artistas como Foster The People e Major Lazer já se apresentaram em outras edições do festival -, a sequência de shows “repetidos”, logo se transformou em um espaço de redenção e consagração para artistas de diferentes gêneros e cenas musicais.

De nomes de peso da EDM, como Skrillex e Calvin Harris, a gigantes do (novo) rock alternativo, caso de Interpol, a reprise em solo brasileiro para estes artistas pareceu muito mais significativa do que em performances ainda recentes.

É o caso de Billy Corgan e seu The Smashing Pumpkins. Depois de uma apresentação penosa no (extinto) Planeta Terra Festival, em 2010, o músico deixou de lado os extensos solos de guitarra e show anti-climático para investir em um espetáculo dinâmico, dosando entre composições antigas e recentes.

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ACERTO: Shows Nacionais.

Nada de “tapa-buraco” ou “aquecimento”, quem chegou no começo da tarde para o Lollapalooza 2015 foi surpreendido pela excelente performance de artistas brasileiros.

No sábado, a apresentação do trio Banda do Mar fez muita gente vir mais cedo ao evento. “Combinei com meus amigos de chegar mais cedo só para ver a banda tocar”, disse a jovem Michelle de Queiroz, acompanhada de um grupo de amigas para assistir ao show comandado pelo casal Marcelo Camelo e Mallu Magalhães.

A goiana Boogarins foi outra que chamou a atenção do público, conquistando até elogios da cantora estadunidense Annie Erin Clark, do St. Vincent.

Mesmo o veterano Marcelo D2, convidado de última hora para ocupar a lacuna dos estrangeiros SBTRKT e Kodaline, não decepcionou. A mesma sucessão de acertos foi repetida no domingo, efeito da performance coesa de artistas novatos, como O Terno e Far From Alaska, ou mesmo da experiente Pitty, de volta ao festival, dessa vez, longo do som acústico do Agridoce.

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ERRO: Som.

Não importa o preço água, distância a ser percorrida entre os palcos ou qualquer outro perrengue típico de um festival se o som e cuidado técnico das apresentações compensar. Não foi o que aconteceu nos dois dias do Lollapalooza.

No primeiro dia, Marcelo Camelo demonstrou irritação com incontáveis falhas durante o disputado show da Banda do Mar. No Palco Axe, a cantora norte-americana St. Vincent ficou com a voz baixíssima até a segunda metade do show; isso sem contar com a falha logo na primeira música, Bring Me Your Loves, com o som “audível” apenas nas caixas do lado direito do palco.

Nem o headliner Jack White foi poupado. Além da voz baixa, quem estava na parte de trás do palco Skol sofreu com o atraso na saída do som. Diversas músicas foram apresentadas com eco.

No domingo, os mesmos erros. Mesmo inspirado, a voz do cantor Paul Banks estava baixíssima durante as primeiras músicas tocadas pelo Interpol. O chiado foi outro problema da apresentação, erro seguido até o show do Foster The People , no começo da noite.

Apenas performances eletrônicas não sofreram com o problema, vide o cuidado nas apresentações de produtores como Skrillex e Calvin Harris.

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Texto originalmente publicado no Brasil Post.

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Disco: “I Love You, Honeybear”, Father John Misty

Father John Misty
Indie/Folk/Alternative
http://www.fatherjohnmisty.com/

Não existe espaço para o amor no mundo da música. Exagero? Faça o teste: quantos discos clássicos ou álbuns recentes, de nítida exaltação ao amor, você consegue listar? Projetos radiantes, marcados pelo mesmo sentimento de plenitude que domina um indivíduo apaixonado. Pronto. Agora, pense apenas em discos marcados pela dor. Álbuns inspirados pela separação, mágoas e relacionamentos fracassados. Não vá muito longe: apenas discos lançados nos últimos meses, há poucas semanas ou do acervo “proibido” que você visitou há poucas horas. Notou alguma diferença entre as listas?

Contrário ao ensinamento de filmes e séries românticas, em se tratando da música, a dor convence, marca e até “canta” mais alto do que o amor. O que explica essa (sádica) preferência? Um elemento bastante simples: a honestidade. De Adele a Bob Dylan, Sharon Van Etten a Lionel Richie, não existem segredos e relatos intimistas que permaneçam ocultos ao final de um relacionamento. Traições, brigas ou antigos sussurros românticos: tudo acaba exposto.

Joshua Tillman parece entender bem isso. Ao assumir o papel de Father John Misty – “personagem” e projeto autoral criado logo após o rompimento com o Fleet Foxes, onde atuou até o lançamento de Helplessness Blues (2011) -, o músico não poupa na exposição da própria intimidade. Mesmo fazendo uso de um pseudônimo, protegido em manto de sarcasmo, canções sobre sobre sexo, uso de drogas ou relatos de sedução barata refletem apenas a imagem do cantor. Temas retratados com humor e honestidade, componentes também fundamentais para a interpretação de Tillman sobre o amor e a vida conjugal em I Love You, Honeybear (2015, Sub Pop).

Em uma explícita curva conceitual, dentro até da própria carreira, Tillman assina um trabalho muito maior do que a previsível seleção de ” contos” imaginada desde último álbum do músico, o debut Fear Fun (2012). Mesmo sob o título de Father John Misty, cada verso deriva de fragmentos pinçados do cotidiano do cantor. Uma obra ainda irônica e carregada humor – vide o relato em I Went to the Store One Day ou o anti-hino de Bored in the USA -, mas ao mesmo tempo sensível, centrada no convívio, amor e conflitos ao lado da esposa do cantor, a diretora Emma Elizabeth Tillman. Continue reading

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Modest Mouse: “The Ground Walks, with Time in a Box”

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A expectativa em relação a Strangers To Ourselves (2015), novo trabalho do Modest Mouse, cresce e diminui a cada single inédito apresentado pelo grupo norte-americano. Em um exercício proposital – ou não -, Isaac Brock e colegas de banda se concentram na projeção de faixas tão melódicas e “cantaroláveis”, por vezes íntimas dos dois últimos álbuns de estúdio, como em peças arrastadas e musicalmente densas, evidência reforçada nos versos e temas “políticos” da extensa The Best Room.

Mudança brusca em relação ao último single da banda – talvez, correndo atrás do prejuízo -, com a chegada de The Ground Walks, With Time In A Box o coletivo de Issaquah, Washington entrega ao público seu exemplar menos complexo mais até “pop” do novo disco. Soando como uma possível “sobra” de We Were Dead Before the Ship Even Sank (2007), a composição de seis minutos equilibra boas guitarras e versos cantados/narrados por Brock, marca desde os projetos iniciais em estúdio.

Agendado para o dia 17 de março e distribuição pelo selo Epic, Strangers to Ourselves é primeiro trabalho de inéditas do grupo depois de um hiato de oito anos.

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Modest Mouse – The Ground Walks, with Time in a Box

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Speedy Ortiz: “Raising The Skate”

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Os anos 1990 voltaram? Não, é apenas mais um disco do Speedy Ortiz. Dois anos depois de estrear (oficialmente) com Major Arcana (2013) – em 2011 o grupo já havia lançado de forma independente o debut The Death of Speedy Ortiz -, a banda de Northampton, Massachusetts continua a investir no mesmo som pesado, sujo e melódico do começo de carreira, posicionamento reforçado no interior de Rising The Skate, a primeira faixa inédita do esperado Foil Deer (2015).

Da mesma forma que no álbum apresentado há dois anos, atos curtos, instantes de silêncio e pequenas explosões rítmicas sustentam o trabalho da banda. Enquanto a voz firme de Sadie Dupuis assume a direção da música, referências ao trabalho de Pixies, The Breeders e Pavement ecoam em cada canto da obra, uma extensão do som reforçado há poucos meses em Real Hair (2014). Também lançado pelo selo Carpark Records, Foil Deer estreia no dia 21 de abril.

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Speedy Ortiz – Raising The Skate

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