Em dezembro do último ano, os membros do Ride anunciaram a chegada de um novo álbum de estúdio. Sucessor do derradeiro Tarantula, de 1996, o registro que conta com produção de Erol Alkan (Franz Ferdinand, Bloc Party) deve jogar com a mesma sonoridade explorada pela banda no começo dos anos 1990. Um meio termo entre Motörhead e William Basinski, como apontaram os próprios integrantes do grupo britânico.

Primeiro fragmento desse novo álbum, Charm Assault prova que o Ride continua tão intenso e jovial quanto em obras como Going Blank Again (1992) e Carnival of Light (1994). Trabalhada em cima de um som “limpo” quando voltamos os ouvidos para o clássico Nowhere (1990), a nova faixa segue de forma eufórica até o último segundo, detalhando uma sequência de guitarras, batidas e vozes que arrastam

 

Ride – Charm Assault

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Em mais de um mês de atuação, a coletânea Our First 100 Days, projeto de enfrentamento à política retrógrada do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu vida a uma série de composições de peso. Entre os artistas que já passaram pelo trabalho, nomes como Angel Olsen, The Range, Dntel, Peter Silberman (The Antlers) e Toro Y Moi, este último, responsável por uma das melhores composições do projeto, a pop Omaha.

Convidados a integrar a série de lançamentos, o grupo norte-americano Speedy Ortiz apresenta ao público a inédita In My Way. Típica composição da banda, a faixa delineadas por versos e temas melódicos parece saída diretamente dos primeiros discos do coletivo, como o excelente Major Arcana – um dos grandes discos de rock lançados na presente década e 40º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2013.

 

Speedy Ortiz – In My Way

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Artista: Cloud Nothings
Gênero: Rock, Alternativo, Indie Rock
Acesse: http://www.cloudnothings.com/

 

O som melancólico, sujo e crescente que escapa da inaugural Up to The Surface mostra que a viagem musical de Dylan Baldi ao passado está longe de chegar ao fim. Faixa de abertura do quarto e mais recente álbum de inéditas da banda norte-americana, Life Without Sound (2017, Carpark / Wichita), a canção segue exatamente de onde o Cloud Nothings parou em Here and Nowhere Else (2014), fazendo do presente disco uma nova de coletânea de músicas resgatadas da década de 1990.

Entre ruídos, batidas fortes e versos que poderiam facilmente ser encontrados em algum clássico do rock alternativo, Baldi e os parceiros de banda parecem brincar com os contrastes, produzindo um som áspero, mas que se completa com a constante interferência de boas melodias e letras pegajosas. Um bom exemplo disso está na dobradinha Things Are Right with You e Internal World, canções que parecem replicar a mesma energia e sonoridade explorada pelo Weezer no debut de 1994.

Em Darkened Rings, quarta faixa do disco, uma passagem direta para o primeiro álbum de estúdio da banda, lançado em 2011. Instantes em que a voz berrada de Baldi se choca contra paredões de ruídos, fazendo da canção um ato completamente insano, silenciado apenas com a chegada de Enter Entirely. Composição mais “pop” do trabalho, a faixa de quase cinco minutos joga com o uso de pequenas quebras rítmicas e mudanças de direção, transportando o ouvinte para diferentes cenários.

Explosiva, Modern Act talvez seja a composição em que os integrantes do Cloud Nothings se completam dentro de estúdio. Batidas e distorções controladas que dançam em torno dos versos angustiados de Baldi. “Eu quero uma vida, isso é tudo que eu preciso ultimamente / Estou vivo, porém sozinho”, detalha a letra da canção, um som atormentado, reflexo de um indivíduo solitário, base de grande parte das canções produzidas pela banda desde o álbum Attack on Memory, de 2012.

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Artista: Japandroids
Gênero: Rock, Alternativo, Indie Rock
Acesse: http://japandroids.com/

 

Celebration Rock (2012) garantiu ao duo canadense Japandroids a possibilidade de amadurecer em estúdio. Entre guitarras ensurdecedoras e versos pegajosos, vide faixas como Fire’s Highway e The House That Heaven Built, o segundo registro de inéditas da dupla formada por Brian King e David Prowse passeia por diferentes fases do rock norte-americano, costurando ruídos, batidas e vozes sempre intensas, proposta que custa a se repetir em Near to the Wild Heart of Life (2017, ANTI-).

Terceiro e mais recente álbum de estúdio da dupla de Vancouver, o registro abastecido por oito canções inéditas — uma tradição dentro da discografia do Japandroids —, se apresenta ao público de forma explosiva logo nos primeiros minutos, fazendo da autointitulada música de abertura um estímulo para o restante da obra. A mesma energia e jovialidade explícita no trabalho lançado há cinco anos, mas que acaba se perdendo à medida que o duo avança pelo disco.

Caminhando em sentido oposto ao registro de 2012, em que parte expressiva das canções pareciam se completar, cada composição do novo disco se projeta como um ato isolado, independente. Instantes em que o duo canadense mergulha no noise-rock, como em I’m Sorry (For Not Finding You Sooner), para logo em seguida flertar com temas eletrônicos e sintetizadores, marca da extensa Arc Of Bar, com pouco mais de sete minutos de duração. Uma colagem de ideias e referências que torna a audição do registro confusa em diversos momentos.

Trabalho mais “experimental” de toda a curta discografia do Japandroids, Near to the Wild Heart of Life parece costurar diferentes sonoridades de forma propositadamente instável, bagunçando a essência da dupla canadense. Um bom exemplo disso está em North East South West, música que soa como algum clássico de Bruce Springsteen no começo dos anos 1980 ou mesmo True Love And A Free Life Of Free Will, composição que quebra parte expressiva do som incorporado pela banda durante o lançamento de Celebration Rock.

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Star Roving, esse é o título da primeira composição inédita do Slowdive em 22 anos. Ponto de partida para um novo registro de estúdio do grupo de Reading – o primeiro desde o ótimo Pygmalion, lançado em 1995 –, a canção parece seguir exatamente de onde a banda parou no meio da década de 1990. Vozes submersas, paredões imensos de guitarras e texturas produzidas a partir da atenta sobreposição de ruídos. Pouco mais de cinco minutos em que a essência do grupo britânico se revela por completo.

Formado no final da década de 1980, o Slowdive conta com um limitado, porém, rico acervo de obras. Entre os trabalhos da banda, o clássico Souvlaki (1993), um dos principais registros da década de 1990 e a inspiração para diferentes projetos do dream pop/shoegaze recentes. Em hiato desde 1995, o grupo anunciou o retorno aos palcos em 2014 com uma série de apresentações ao vivo. Com lançamento pelo selo Dead Oceans, o novo disco da banda  para os próximos meses.

 

Slowdive – Star Roving

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Mais conhecido pelo trabalho com o Pavement, Scott Kannberg, também integrante da banda Preston School of Industry, anuncia a chegada de um novo álbum sob o título de Spiral Stairs. Intitulado Doris & The Daggers (2017), o registro de dez faixas é o primeiro trabalho do músico norte-americano desde o álbum The Real Feel, de 2009. Para a divulgação do registro, Kannberg apresenta ao público a inédita Dance (Cry Wolf).

Estranhamente polida quando observamos os antigos trabalhos do músico, a faixa dominada pelo uso de boas guitarras, íntimas de gigantes dos anos 1980, como R.E.M., lentamente se espalha e meio a versos convidativos, descomplicados. No clipe da faixa, a presença de Jason Lytle, líder do Grandaddy e um dos parceiros de Kannberg no trabalho. O registro ainda conta com a presença de nomes como Matt Berninger (The National) e Kevin Drew (Broken Social Scene).

 

Doris & The Daggers

01 Dance (Cry Wolf)
02 Emoshuns
03 Dundee Man
04 AWM
05 No Comparison
06 The Unconditional
07 Trams (Stole My Love)
08 Exiled Tonight
09 Angel Eyes
10 Doris And The Daggers

Doris & The Daggers (2017) será lançado no dia 27/03 via Nine Mile/Domino

 

Spiral Stairs – Dance (Cry Wolf) 

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Depois de um longo período de hiato, Brian King e David Prowse anunciaram a chegada do terceiro álbum de inéditas do Japandroids: Near To The Wild Heart Of Life (2017). Primeiro disco de estúdio da dupla canadense desde o elogiado Celebration Rock – 8º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2012 –, o novo álbum fez da enérgica Near To The Wild Heart Of Life um estímulo para aguardado registro.

Em No Known Drink Or Drug, mais novo single da dupla de Vancouver, uma extensão segura da mesma sonoridade. Entre guitarras crescentes e batidas pontuais, vozes em coro servem de base para a construção de versos melódicos, mesmo ocultos em meio a pequenas camadas de ruídos. Pouco mais de três minutos em que King e Prowse estabelecem pequenos atos, resgatando uma série de elementos originalmente testados nos primeiros registros do Japandroids.

Near To The Wild Heart Of Life (2017) será lançado no dia 27/01 via Anti-.

 

Japandroids – No Known Drink Or Drug

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Artista: Hierofante Púrpura
Gênero: Rock Alternativo, Psicodélico, Experimental
Acesse: https://hierofantepurpura.bandcamp.com/

Foto: Hendi DuCarmo

“Seremos a banda do ano?”, pontua o coro de vozes ensandecidas nos instantes finais de Cachorrada. Ainda que o questionamento seja apenas um fragmento complementar à cômica narrativa assinada por Danilo Sevali, difícil passear pelas canções de Disco Demência (2016, Balaclava Records), mais recente álbum da Hierofante Púrpura, e não perceber o registro como um dos trabalhos mais significativas da cena independente nos últimos meses.

Resultado da ativa interferência de cada integrante da banda – além de Sevali (voz, teclados, guitarra), completa com Helena Duarte (baixo, voz), Gabriel Lima (guitarra, voz) e Rodrigo Silva (bateria) –, o álbum construído a partir de cinco composições extensas reflete o que há de melhor no material produzido pelo grupo de Mogi das Cruzes: a loucura. Em um intervalo de apenas 40 minutos, cada canção se transforma em um experimento torto, insano.

Um bom exemplo disso está na curiosa montagem de Acalenta Lua, segunda faixa do disco. Inaugurada pelo canto arrastado dos integrantes, a canção de melodias inebriantes se espalha sem pressa, detalhando delírios típicos do trabalho de Arnaldo Baptista no clássico Lóki? (1974). No segundo ato da canção, uma quebra brusca. Pianos melancólicos que flutuam em meio ao som ruidoso que escapa das guitarras de Lima. Distorções, batidas e vozes que dançam em meio a pequenas curvas rítmicas.

Mesmo que a relação com o trabalho de gigantes da música psicodélica seja percebida durante toda a construção da obra, faixa após faixa, o quarteto paulista se concentra na formação de uma identidade musical própria. No interior de cada composições, diferentes blocos instrumentais, sempre complexos, ricos em detalhes e texturas. Uma constante sensação de que pequenos fragmentos vindos de diversas canções foram espalhados de forma aleatória no interior do trabalho.

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Formada por Cinty Murph (vocal e teclado), Priscila Lopes (baixo), Camila Ribeiro (bateria) e Rodrigo Lima (guitarra), In Venus é uma banda de pós-punk/rock alternativo que se divide entre o som sujo da década de 1980 e um discurso bastante atual. Original da cidade de São Paulo, o quarteto acaba de lançar o primeiro single da carreira, Mother Nature, uma perfeita síntese de todo o universo de referências (instrumentais e poéticas) que abastecem o trabalho do grupo.

Com distribuição por três selos diferentes – Efusiva, PWR e Howlin Records –, a canção de apenas três minutos confirma toda a versatilidade do grupo. Enquanto os versos exaltam Gaia, a Mãe Natureza, musicalmente, a canção se espalha em meio a ruídos, quebras bruscas e doses consideráveis de distorções. Arranjos e vozes que dialogam com o som produzido por estrangeiros como Savages e Preoccupations, porém, mantém firme a essência do quarteto paulistano.

 

In Venus – Mother Nature

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Artista: Terno Rei
Gênero: Dream Pop, Indie, Alternativo
Acesse: http://ternorei.com.br/

 

Um sussurro angustiado entre os versos de Criança – “As coisas que eu perdi / Nunca voltam” –, e a essência melancólica da Terno Rei se revela por completo em Essa Noite Bateu Com Um Sonho (2016, Balaclava Records). Sucessor do delicado Vigília (2014), o segundo álbum de estúdio do quinteto paulistano nasce como uma extensão madura do som intimista que há tempos orienta a obra de Ale Sater (voz e baixo), Bruno Paschoal (guitarra), Greg Vinha (guitarra), Luis Cardoso (bateria) e Victor Souza (percussão).

Produzido em um intervalo de quase dois anos, o registro que conta com produção assumida pelo músico Guilherme Chiappetta, parceiro do grupo desde o primeiro álbum de estúdio, mostra a busca do quinteto pela construção de um material cada vez mais complexo, soturno e alimentado de forma explícita pelos detalhes. Memórias de um passado ainda recente, confissões e delírios psicodélicos. Composições em que a poesia sorumbática do grupo dialoga diretamente com o ouvinte.

A letra cíclica em Sinais (“Sina, sina, sina, sina / Espero te encontrar”), um labirinto de guitarras e cores em Circulares, a poesia descomplicada que se espalha entre os ruídos de Para o Centro. São versos, melodias e estilhaços instrumentais que servem de estímulo para atrair a atenção do público, convidado a provar de cada momento, detalhe ou verso subjetivo que se espalha ao fundo do disco. Uma clara evolução quando observamos a ambientação tímida do antecessor Vigília.

Entre versos marcados pela saudade (“Solidão se põe / no fundo da janela”), temas existencialistas (“Eu era ele / Ou era eu mesmo / Desde o começo”) ou mesmo reflexões típicas de jovens adultos (“Conheço bem a madrugada / Ela é minha sina”), a nítida interferência de cada integrante da banda. São melodias encorpadas por arranjos minuciosos, sempre nostálgicos e empoeiradas. Ruídos e distorções climáticas dançam pelo tempo, incorporando diferentes aspectos do Dream Pop e até instantes em que o grupo flerta com a psicodelia.

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