Passado e presente, Brasil e Portugal, serenidade e caos. Em Trás-os-Montes, mais recente lançamento da banda curitibana stella-viva, a dualidade entre os elementos acaba servindo de inspiração para a delicada montagem dos versos que abastecem a composição. Uma análise particular sobre a violência, o progresso e os personagens que tanto habitam a pacata região de Trás-os-Montes, em Portugal, como os bondes de Santa Tereza, no Rio de Janeira.

Parte do segundo registro de inéditas do grupo paranaense, Aprendiz do Sal (2016), musicalmente, a presente composição segue de perto a trilha iniciada nos dois últimos lançamentos da banda – as inéditas Vigília e Tempestade Anunciada. Um controlado jogo de experimentos, melodias tortas e temas jazzísticos que vão do rock alternativo ao uso inteligente de referências típicas da música popular brasileira.

Aprendiz do Sal (2016) será lançado em outubro via Matraca Records e YB Music

 

Stella-Viva – Trás-os-Montes 

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Artista: Wilco
Gênero: Indie, Folk, Alternative
Acesse: http://wilcoworld.net/schmilco/

 

Em 2015, Jeff Tweedy e os parceiros de banda pegaram todo mundo de surpresa com o lançamento de Star Wars. Distribuído gratuitamente pelo site oficial do Wilco, o 9º álbum de estúdio do coletivo de Chicago, Illinois, apresentou ao público um som completamente renovado, leve e intimista, como um fuga do antecessor The Whole Love (2011). A busca declarada por um material cada vez menos complexo, porém, ainda assim provocativo, conceito que volta a se repetir com a chegada do inédito Schmilco (2016, dBpm).

Com título inspirado em um álbum do cantor e compositor Harry Nilsson — Nilsson Schmilsson, de 1971 —, e capa assinada pelo cartunista espanhol Joan Cornellà, o 10º registro de inéditas do grupo é uma obra que se projeta de maneira essencialmente segura, por vezes contida. Da forma como os instrumentos flutuam ao fundo do disco, passando pela voz limpa de Tweedy, exageros ou mesmo instantes de maior experimento são cuidadosamente evitados ao longo do trabalho.

Assim como o registro lançado há poucos meses, Schmilco parece acolher o ouvinte, efeito da explícita leveza instrumental e fino toque de melancolia que sustenta os versos. São composições em que Tweddy resgata com naturalidade uma série de memórias da própria infância (Normal American Kids), se aprofunda na construção de versos amargurados (Someone to Lose) e ainda detalha pequenas reflexões intimistas (Happiness).

Do momento em que tem início até o último sussurro do disco, um mundo de histórias, relacionamentos conturbados e medos que invadem a mente de qualquer indivíduo. A diferença em relação a outros trabalhos do gênero está na forma como Tweedy interpreta todo esse universo de emoções de forma sempre provocativa, forte, mesmo na delicada sobreposição das vozes e arranjos que marcam o registro. Uma lenta desconstrução de diferentes traumas, medos, personagens e suas relações.

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Com o fim das atividades do Sonic Youth, Kim Gordon decidiu mergulhar de cabeça em uma série de projetos marcados pela experimentação. Trabalhos como Body/Head – uma parceria com o músico Bill Nace – ou mesmo o Glitterbust – um encontro musical entre a artista e Alex Knost. Entretanto, mesmo dentro desse universo de colaborações, sobrevive na inédita Murdered Out, mais recente lançamento em carreira solo da cantora, seu registro mais coeso.

Produzida por Justin Raisen, artista que já trabalhou com nomes recentes como Charli XCX e Sky Ferreira, a composição que soa como um típico produto do Sonic Youth ainda conta com a presença de Stella Mozgaw, baterista do Warpaint convidada a participar da canção. Versos marcados pela angústia, guitarras consumidas pelos ruídos e batidas sempre pontuais, ponto de partida para um mundo de possibilidades orientado pela voz forte de Gordon.

 

Kim Gordon – Murdered Out

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Artista: INKY
Gênero: Rock, Indie Rock, Rock Alternativo
Acesse: http://inkymusic.bandcamp.com/

 

Quem já assistiu a um show da INKY —mesmo sem conhecer as canções da banda — sabe como é fácil ser hipnotizado pela eufórica performance do quarteto paulistano. Paredões de guitarras em um constante duelo com o baixo de Guilherme Silva, o ritmo frenético das batidas que se projetam como um alicerce para os sintetizadores insanos de Luiza Pereira. Interessante perceber em Animania (2016, Uivo Records), segundo álbum de inéditas do grupo, uma completa transposição da mesma energia das canções apresentadas vivo para dentro de estúdio.

Sucessor do elogiado Primal Swag, de 2014, o novo registro cresce como a fuga declarada de uma possível zona de conforto. Parcialmente livre do conceito “eletrônico” que parecia direcionar o trabalho entregue pela banda há dois anos, o álbum de oito faixas cresce em um perfeito diálogo entre o uso de elementos sintéticos e detalhes orgânicos, efeito da ativa interferência de elementos percussivos e instrumentos de sopro que passeiam de forma expressiva ao fundo do trabalho.

Assertivo do primeiro ao último instante, Animania é uma obra que se esquiva de possíveis excessos. Dos versos ao uso detalhado dos instrumentos, nada parece descartável no interior do álbum. Cada uma das composições presentes no interior do disco estão ali por algum motivo. Do momento em que a crescente Parallax convida o ouvinte a dançar, parece difícil escapar da solução descomplicada de vozes, batidas e temas urgentes que escapam com naturalidade das guitarras de Stephan Feitsma.

Com produção de Guilherme Kastrup – músico que trabalhou com Elza Soares no elogiado A Mulher do Fim do Mundo (2015) –, o sucessor de Primal Swag reforça o interesse da banda em provar de novas sonoridades. Em Devil’s Mark, segunda faixa do disco, um perfeito exemplar da fina transformação assumida pelo grupo. Entre sintetizadores sujos, a passagem para a chegada de um naipe de metais orquestrados por membros do Bixiga 70. Estímulo para a formação de um som versátil, quente, quase uma desconstrução do material lançado há dois anos pelo grupo.  

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O universo em preto e branco de Pluvero (2014) se abre para as cores de Planar Sobre o Invisível (2016). Dois anos após o lançamento do segundo álbum de estúdio da Kalouv – 15º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 –, o quinteto pernambucana está e volta duas canções inéditas. Para celebrar a passagem do grupo de Recife por uma série de cidades do Sul e Sudeste do país – veja a agenda completa –, Peixe Voador e Da Bravura, Inocência mais uma vez reforçam o preciosismo do coletivo em estúdio.

Enquanto a primeira, Peixe Voador, se espalha em um ato crescente, detalhando uma solução de pianos, guitarras coloridas e distorções que raspam de leve na música psicodélica, com a chegada de Da Bravura, Inocência, segunda composição do single, um regresso ao ambiente criativo do álbum lançado há dois anos. Experimentos minimalistas que servem de pano de fundo para uma composição essencialmente versátil, dominada pela uso de sintetizadores e pequenas quebras rítmicas.

Kalouv – Planar Sobre o Invisível

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Dois anos após o lançamento de Primal Swag (2014), os paulistanos da INKY estão de volta com um novo registro de inéditas. Intitulado Animania (2016), o álbum que conta com produção de Guilherme Kastrup, – artista que trabalhou na construção do elogiado A Mulher do Fim do Mundo (2015), de Elza Soares –, mostra a transformação do quarteto, focado em explorar novas sonoridades e temas orgânicos, expandindo conceitos inicialmente testados no primeiro disco de inéditas.

Além de Parallax, música escolhida para anunciar o disco há poucas semanas e uma das criações mais intensas do rock (inter)nacional nos últimos meses, o grupo reserva ao público outras oito faixas. Canções como a experimental Devil`s Mark, faixa que conta com a presença dos músicos da Bixiga 70, e a derradeira In The Middle Of A Rising, uma colagem de vozes, ruídos controlados e batidas que parecem de algum terreiro.

INKY – Animania

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Artista: Dinosaur Jr.
Gênero: Alternative Rock, Indie, Rock
Acesse: http://www.dinosaurjr.com/

 

De todos os artistas que decidiram entrar em hiato no final da década de 1990 – como Weezer, Soundgarden e The Smashing Pumpins –, o Dinosaur Jr. talvez seja a banda que fez o melhor retorno aos palcos e estúdios. Uma década após o lançamento de Hand It Over (1997), o trio de Amherst, Massachusetts, estava de volta com o intenso Beyond (2007), uma continuação do mesmo som urgente que apresentou a banda no final dos anos 1980 e a base de toda a sequência de obras que viriam a ser produzidas pelo grupo nos próximos anos.

Em Give a Glimpse of What Yer Not (2016, Jagjaguwar), quarto registro de inéditas desde o regresso há nove anos, J Mascis (guitarra e voz), Lou Barlow (baixo e voz) e o baterista Murph se concentram na produção de um material essencialmente cru, raivoso. Uma propositada fuga da sonoridade densa que acabou orientando os dois últimos trabalhos produzidos pela banda – Farm (2009) e I Bet on Sky (2012).

São pouco mais de 40 minutos de duração. Um total de 11 faixas em que a banda norte-americana se reveza na construção de faixas que dialogam com o rock dos anos 1970 (I Walk For Miles), investem na aceleração das vozes e batidas (Tiny), além de presentear o público com alguns dos melhores solos já produzidos por Mascis (Goin Down). De fato, para a divulgação do trabalho, o guitarrista concentrou todos os solos de guitarra do álbum em uma única playlist no Spotify, indicando a fúria do registro.

Inaugurado pela urgência de Goind Down, Give a Glimpse of What Yer Not segue em uma estrutura dinâmica até o último instante. Uma colisão de vozes berradas e arranjos que confirmam a boa fase do trio de veteranos. Um bom exemplo disso está na construção de Good To Know. Sexta faixa do disco, a canção dominada pelas guitarras de Mascis instantaneamente transporta o ouvinte para o final da década de 1980, como uma extensão do som produzido para clássicos como You’re Living All Over Me (1987) e Bug (1988).

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As guitarras e temas psicodélicos mais uma vez tomam conta do som produzido por Thee Oh Sees. Um ano após o lançamento do ótimo Mutilator Defeated At Last (2015), John Dwyer e seus parceiros de banda estão de volta com um novo registro de estúdio: A Weird Exits (2016). São oito composições inéditas, incluindo a já conhecida The Axis, canção com mais de seis minutos de duração apresentada pela banda em meados de julho.

Entre os destaques do disco, faixas como Dead Man’s GunTicklish Warrior, verdadeiros paredões de ruídos. Assim como o álbum apresentado em 2015, o novo trabalho conta com distribuição pelo selo Castle Face, ponto de partida de alguns dos principais exemplares do garage rock norte-americano. Quem assina a imagem de capa do registro é Robert Beatty, artista gráfico que já trabalhou com nomes como Neon Indian, Tame Impala e Oneohtrix Point Never.

 

Thee Oh Sees – A Weird Exits

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. Há tempos que o Dinosaur Jr. não presenteava o público com uma faixa tão suja e “caseira” quanto a recém-lançada Goin Down. Parte do novo álbum de estúdio do grupo norte-americano, o aguardado Give A Glimpse Of What Yer Not (2016), a canção de quatro minutos cresce em meio ao jogo de guitarras de J Mascis, revelando uma sonoridade abafada, inicialmente contida, mas que explode nos instantes finais da faixa, efeito do poderoso solo que corta a composição. Apresentada ao público poucas semanas após o lançamento do…Continue Reading “Dinosaur Jr.: “Goin Down””

. Seis anos após o lançamento do ótimo Breakdance (2010), os gaúchos da Walverdes estão de volta com mais um novo registro de inéditas. Intitulado Repuxo (2016), o trabalho que conta com sete composições e distribuição pelo selo Loop Records traz de volta o mesmo som cru produzido pela banda original de Porto Alegre desde o lançamento dos primeiros álbuns em estúdio, caso de clássicos como 90º (2000) e Anticontrole (2002). Aos comandos de Gustavo Mini (Guitarra e Voz), Marcos Rübenich (Bateria), Patrick Magalhães (Baixo e Voz) e Julio Porto…Continue Reading “Walverdes: “Repuxo””