Artista: Austra
Gênero: Eletrônica, Synthpop, Darkwave
Acesse: http://www.austramusic.com/

 

Katie Stelmanis e os parceiros Maya Postepski, Dorian Wolf e Ryan Wonsiak sabem exatamente que tipo de som eles querem alcançar com o Austra. Em Future Politics (2017, Domino), terceiro e mais recente álbum de inéditas do coletivo canadense, toda a ambientação eletrônica originalmente testada nos iniciais Feel It Break (2011) e Olympia (2013) serve de base para a construção de um som ainda mais complexo, maduro, efeito da poesia política que orienta o registro.

Inspirado em conceitos abordados nos livros Inventando o futuro: Pós-capitalismo e um mundo sem trabalho e Manifesto Aceleracionista, de Nick Srnicek e Alex Williams, Future Politics detalha um cenário que mesmo futurístico, acaba se aproximando da nossa realidade. Um universo urbano, caótico, produto da forte interferência humana e dos excessos causados pela sociedade de consumo. Canções marcadas pelo isolamento, angústia e melancolia de diferentes indivíduos.

Tamanha complexidade nas composição dos versos em nenhum momento faz do registro um trabalho arrastado, difícil de ser absorvido pelo ouvinte. Pelo contrário, ao mesmo tempo em que Stelmanis pinta um futuro sombrio, pessimista, musicalmente, grande parte das canções servem de passagem para as pistas. Sintetizadores, batidas e temas eletrônicos que ampliam parte expressiva do som produzido pela banda desde o primeiro álbum de estúdio.

Assim como em qualquer registro de inéditas do Austra, o grande destaque de Future Politics se concentra na voz forte, sempre presente, de Stelmanis. Influenciada pelo pop operístico da Kate Bush e outras veteranas dos anos 1980, a cantora canadense faz de cada composição um objeto de destaque. Faixa de abertura do álbum, We Were Alive reflete com naturalidade o verdadeiro esmero do quarteto, costurando melodias e temas eletrônicos em torno dos versos que movimentam a canção.

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Depois de mais uma década como vocalista do Mombojó, o cantor e compositor Felipe S. apresenta ao público o primeiro trabalho em carreira solo. Intitulado Cabeça de Felipe (2017), o registro de dez faixas e que conta com distribuição pelo selo Joia Moderna mostra a busca do músico por um som tão experimental (e curioso) quanto o material entregue ao público durante o lançamento do último disco de inéditas de sua principal banda, o ótimo Alexandre (2014).

De essência intimista, repleto de passagens que dialogam diretamente com o cotidiano do cantor, Cabeça de Felipe se espalha em meio a sambas (Santo Forte), canções que poderiam facilmente ser encontradas em algum disco da Mombojó (Vão) e faixas movidas pela completa serenidade dos arranjos e vozes (Trovador). Com capa produzida pelo artista plástico Maurício Silva, pai do cantor, o trabalho ainda conta com a participação de artistas como a atriz Juliana Didone e Ana Maria Maia, mulher de Felipe.

 

Felipe S. – Cabeça de Felipe

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O bom humor sempre fez parte dos trabalhos de Father John Misty, porém, nunca de forma tão explícita (e ácida) quanto na recém-lançada Pure Comedy. Mais recente composição inédita do cantor e compositor norte-americano, a faixa de quase sete minutos de duração detalha uma poesia sarcástica, por vezes amarga, pintando uma espécie de reflexão irônica de diferentes aspectos políticos e culturais da nossa sociedade.

Ponto de partida para o primeiro álbum de inéditas do cantor desde o elogiado I Love You, Honeybear – 18º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2015 –, a canção chega acompanhada de um curioso clipe produzido por Matthew Daniel Siskin e “todo mundo na América”, como indica a descrição do vídeo. São ilustrações em preto e branco, cenas de catástrofes, programas de TV e principalmente memes, resultando em um trabalho cômico e perturbador.

 

Father John Misty – Pure Comedy

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Formado pelo casal Chuck Blazevic e Alice Hansen, o You’ll Never Get To Heaven é um projeto de Dream Pop com brinca com as referências e temas instrumentais vindos de diferentes épocas. Com um bom EP entregue ao público em 2014, Adorn, o duo canadense anuncia para o final de março a chegada do primeiro grande álbum da carreira. Intitulado Images (2017), o registro de 11 faixas deve expandir o som atmosférico e doce que a dupla vem produzindo desde os primeiros anos de carreira.

Faixa-título do trabalho, a nova canção revela um claro amadurecimento no processo de composição do casal. Enquanto os versos passeiam em meio a recordações, temas intimistas e versos sussurrados, sintetizadores e guitarras se espalham sem pressa, esbarrando na mesma ambientação assumida por artistas como Chromatics. São pequenos atos e curvas sutis que conduzem o ouvinte para dentro de um território marcado pela incerteza.

 

You’ll Never Get To Heaven – Images

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Artista: Julie Byrne
Gênero: Folk, Dream Pop, Indie
Acesse: https://juliembyrne.bandcamp.com/

 

 

“Siga minha voz
Estou bem aqui
Além dessa luz
Além de todo o medo”

Como um precioso convite, a inaugural Follow My Voice conduz o ouvinte para dentro do ambiente acolhedor que se espalha entre as canções de Not Even Happiness (2017, Ba Da Bing). Segundo e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana Julie Byrne, o registro de apenas nove faixas amplia o conceito intimista apresentado no antecessor Rooms With Walls and Windows, de 2014, reforçando o folk sentimental e atmosférico que alimenta a obra da musicista.

Em ambiente enevoado, por vezes etéreo, efeito da voz marcada pelo som ecoado da captação e arranjos sutilmente espalhados ao longo do disco, Byrne convida o ouvinte a se perder. Como indicado durante o lançamento de Natural Blue, grande parte do registro flutua entre o folk melancólico da década de 1970 e o Dream Pop produzido nos anos 1990 e 2000. Instantes em que a obra da cantora nova-iorquina toca de forma referencial no trabalho de Joni Mitchell, Nico, Cat Power e Grouper, esta última, influência declarada na experimental Interlude.

De essência agridoce, Not Even Happiness se divide com naturalidade entre a melancolia dos versos e instantes de puro romantismo que crescem na voz de Byrne. “Caminhe em direção à ferida aberta / Viva em sonhos / Eu vou ficar para sempre / Dentro das cores que você mostrou”, canta em Natural Blue, uma canção que olha para o passado de forma honesta, resgatando fragmentos de um relacionamento que não deu certo, mas que continua a povoar a mente do eu lírico.

Posicionada no encerramento do disco, I Live Now As A Singer brinca de forma particular com a mesma temática. Enquanto os versos resgatam memórias recentes de Byrne (“E sim, eu fui ao chão, pedindo perdão / Quando eu não estava nem perto de me perdoar”), musicalmente, o ouvinte é conduzido para dentro de uma nuvem de sons inebriantes. Arranjos acústicos que se espalham em meio a sintetizadores densos, por vezes íntimos do som produzido por Angelo Badelamenti para a trilha sonora de Twin Peaks.

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Prontas para a primeira edição do Miojo Indie no Naïve Bar? Para a noite de abertura dos trabalhos na Rua Mato Grosso, 28, Cleber Facchi recebe os amigos Jorge Fofano e Lucas Guarnieri para uma noite marcada pela neo-psicodelia, R&B, pop e música eletrônica. Ao longo da noite, nomes como The XX, Run The Jewels, Kehlani, MØ, Bonobo, Sampha, Dirty Projectos e Arcade Fire abastecem a pista do sobradinho.

Em busca dos clássicos antigos e recentes? Prepare-se para ouvir David Boiwe, Beyoncé, The Smiths, Aaliyah, Mariah Carey, Björk e Cocteau Twins. Na dúvida, ouça a nossa playlist de aquecimento da festa com Tinashe, SZA, Los Campesinos!, Kelly Lee Owens, The Flaming Lips e um time de outros artistas que lançaram um novo álbum de inéditas no último mês. A entrada no Naïve é gratuita.

 

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Artista: Foxygen
Gênero: Psicodélico, Rock, Alternativo
Acesse: http://www.foxygentheband.com/

 

Em meio a conflitos declarados entre os membros da banda e uma suposta turnê de despedida, Sam France e Jonathan Rado conseguiram encontrar força para a produção de um novo registro de inéditas do Foxygen. Em Hang (2017, Jagjaguwar), quarto e mais recente álbum de estúdio da dupla californiana, todos os elementos testados no antecessor …And Star Power, de 2014, assumem um novo e delicado enquadramento, reforçando a psicodelia nostálgica que há tempos orienta os trabalhos do grupo.

Como indicado durante o lançamento de America, composição entregue ao público em outubro do último ano, grande parte do presente registro parece ancorada nos anos 1970. Melodias, vozes e arranjos que espelham o trabalho de artistas como The Rolling Stones, Lou Reed e, principalmente, David Bowie na fase Young Americans (1975), referência explícita no coro de vozes e toda a dramaticidade presente em músicas como Follow The Leader.

Distante da atmosfera “hippie” que apresentou o trabalho da banda em We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic (2013), Hang se projeta como um registro sóbrio, maduro pela forma como os arranjos são explorados ao longo do disco. Um bom exemplo disso está em Trauma, música que flutua em meio a arranjos orquestrais, versos entristecidos e vozes em coro que transitam com naturalidade pela música gospel – elemento presente em grande parte da obra.

Curtinha, Upon a Hill talvez seja a composição que mais se aproxima dos primeiros registros da banda. Pouco mais de um minuto em que a banda se revela por completo, criando pequenas curvas rítmicas que jogam com a percepção do ouvinte. Um fragmento isolado, independente, como uma fuga do detalhamento complexo explícito em músicas como Rise Up, faixa de encerramento do disco e um imenso quebra-cabeça instrumental que transporta o ouvinte para diferentes cenários.

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A viagem ao passado iniciada pelo Arcade Fire em Reflektor – 2º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2013 –, parece longe de chegar ao fim. Primeira composição inédita da banda em três anos, I Give You Power indica a busca do coletivo canadense por um material cada vez mais empoeirado, repleto de referências ao som produzido entre o final da década de 1970 e começo dos anos 1980. Um estímulo para a recém-lançada canção em parceria com a cantora e ativista norte-americana Mavis Staples.

Naturalmente íntima do mesmo incorporado pela banda em faixas como Porno, I Give You Power se espalha em meio a sintetizadores, vozes e batidas sujas, como uma canção abandonada em estúdio por algum grupo esquecido de pós-punk. Uma linha de baixo funkeada, ruídos, melodias crescentes e versos que poderiam facilmente ser encontrado em algum clássico do Hip-Hop – acertou quem lembrou de Fight The Power, do grupo Public Enemy.

 

Arcade Fire – I Give You Power (ft. Mavis Staples)

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Quem esperava por um novo arrasa-quarteirões como Feel Good Inc. ou o pop melódico de On Melancholy Hill acabou encontrando algo mais em Hallelujah Money. Primeira composição inédita do Gorillaz em seis anos, a faixa que prepara o terreno para o novo álbum de estúdio do coletivo criado por Damon Albarn e Jamie Hewlett reforça o fino conceito sarcástico que há mais de uma década orienta grande parte das canções da banda.

Com versos assumidos pelo cantor e compositor inglês Benjamin Clementine, também personagem central do estranho vídeo que acompanha a canção, Hallelujah Money debate o culto e toda a adoração (quase) religiosa em torno do dinheiro. Repleto de referências políticas, o vídeo dirigido por Giorgio Testi ainda serve como um ataque ao novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Há poucas semanas, Noodle, uma das integrantes da banda, apresentou uma mixtape repleta de músicas compostas por mulheres fortes.

 

Gorillaz – Hallelujah Money (feat. Benjamin Clementine)

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Artista: SOHN
Gênero: Eletrônica, R&B, Alternativo
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A busca por um som cada vez mais pop parece ter impactado diretamente no trabalho produzido por Christopher Taylor. Três anos após o lançamento do bem-recebido Tremors (2014), álbum de estreia do SOHN, o cantor e produtor britânico está de volta com um novo registro de inéditas. Em Rennen (2017, 4AD), cada uma das dez músicas assinadas pelo artista se projeta de forma segura, detalhando angústias e confissões amargas do primeiro ao último instante da obra.

Anunciado ao público durante o lançamento da inédita Signal, ainda em 2016, Rennen segue exatamente de onde Taylor parou durante a produção do primeiro álbum de estúdio. São batidas sufocantes, sempre densas, ponto de partida para a construção de versos marcados por desilusões amorosas, confissões e medos. Um registro tocante, doloroso, porém, acessível e envolvente, efeito da sequência de vozes delicadamente tecidas pelo artista inglês durante toda a construção do disco.

Eu posso sentir isso vindo, nós nunca poderemos voltar É um incêndio no vale e está chegando para nos queimar / Como um cometa batendo no planeta / E nós somos dinossauros vivendo em negação”, canta em Conrad, um resumo da poesia romântica (e melancólica) que orienta o trabalho. A diferença em relação ao som produzido em Tremors está na forma como as vozes orientam o ritmo e batidas do trabalho, fazendo de cada verso um instrumento complementar.

Faixa de abertura do disco, Hard Liquor partilha do mesmo conceito. Perceba como a voz delicadamente se converte na base da canção, cercando o ouvinte durante toda a execução dos versos. São gemidos, samples e vozes complementares, sonoridade que acaba esbarrando em toda a sequência de obras produzidas pelo Kanye West nos últimos anos. Um poderoso estímulo para a dezena de músicas que SOHN detalha ao longo do presente registro.

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