Tag Archives: Alternative

Disco: “Tomorrow’s Modern Boxes”, Thom Yorke

Thom Yorke
Electronic/Alternative/Indie
https://twitter.com/thomyorke

Por: Cleber Facchi

Em algum momento dos anos 2000, Thom Yorke parece ter estacionado criativamente. A natureza mutável dos arranjos e versos explorados desde o começo da década de 1990, encontraram na série de obras pós-The Eraser (2006) uma evidente zona de conforto. Mesmo que In Rainbows (2007), sétimo disco do Radiohead, tenha mais uma vez balançado a cena musical – muito pela forma como foi lançado -, em se tratando da estrutura das canções, o músico britânico parece perdido em um loop criado por ele próprio. Um ruído sujo entre o universo imenso descoberto em Kid A (2000) e os beats matemáticos do primeiro álbum solo.

Em Tomorrow’s Modern Boxes (2014, Independente), segundo e mais recente trabalho em carreira solo, Yorke parece incapaz de ir além do mesmo resultado auto-imposto. Encaixes minimalistas, batidas assíncronas e tradicional voz subaquáticas. A mesma estratégia que inaugura que álbum solo de 2006, orienta a direção de The King Of Limbs (do Radiohead) em 2011 e parece sair de fábrica no ambiente previsível de AMOK (2013), estreia do Atoms For Peace – a nova banda velha do músico britânico.

Estranho que mesmo em um ambiente tão similar, Thom Yorke consiga parecer diferente com o novo álbum. Como uma versão abortada desse mesmo universo de batidas e vozes sempre precisas, o presente disco – obra lançada via torrent – convence pela imperfeição. Cortes bruscos, ausência de linearidade e completa instabilidade na formação dos sons. Se há 14 anos o cantor se transformou em instrumento para emular as vozes e harmonias que ocupam faixas como Everything In Its Right Place e Idieoteque, hoje pouco disso parece ter sobrevivido. Tudo é som.

Tão subjetivo quanto o primeiro disco solo do cantor, TMB é uma obra que lida durante todo o tempo com a urgência. Ainda que ponderado em se tratando do uso das vozes e colisão dos temas instrumentais, basta a inaugural A Brain In A Bottle para perceber o terreno conturbado que o ouvinte enfrente ao longo da obra. É como se Yorke acordasse de um pesadelo e imediatamente finalizasse o disco, ainda sonolento, deixando evidente cada rachadura ou forma torta que preenche o material. Não existem respostas, apenas a necessidade transportar o ouvinte para o mesmo cenário onírico há pouco rompido. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Mergulhar, Mergulhei”, Pipo Pegoraro

Pipo Pegoraro
Brazilian/Alternative/Indie
http://pipopegoraro.com/

Por: Cleber Facchi

Difícil encarar Mergulhar, Mergulhei (2014, YB) como um registro solo de Pipo Pegoraro. Terceiro e mais recente invento “individual” do músico paulistano, o trabalho de 10 faixas rápidas cresce como um constante cruzar de referências autorais e emprestadas. Coluna vertebral do registro, o também autor de Intro (2008) e Taxi Imã (2011) faz do trabalho um amplo espaço criativo; um território em que diferentes épocas, gêneros e nomes ativos da música brasileira possam borbulhar pelas composições – peças tão próprias do cantor, quanto partilhadas entre os diferentes convidados.

Em uma sequência exata ao material lançado há três anos, Pegoraro assume logo na inaugural Aiye a coesa relação entre os sons nacionais e arranjos emprestados da música africana. Instrumental, a música de cinco minutos funciona como um coeso resumo de toda a composição do álbum – sempre marcado por improvisos, bruscas adaptações orquestrais e a constante leveza no andamento das melodias. Uma sensação de olhar para o mesmo material de Taxi Imã, porém, em um ângulo totalmente inédito.

Dentro de um ambiente segundo, Pegoraro transporta para dentro de estúdio a mesma banda de apoio que o acompanha durante as apresentações ao vivo – Décio 7 (bateria), Gustavo Cék (percussão), Marcelo Dworecki (baixo), Cuca Ferreira (saxofone e flauta), Fernando TRZ (piano) e Lucas Cirillo (gaita). A estrutura musicalmente familiar funciona como um sustento evidente para a voz do cantor, ainda mais convincente do que no trabalho anterior e agora gigante no desenrolar de faixas como O Que Cabe Em Nós e Sabão de Coco.

Sob direção artística de músico Romulo Fróes, o álbum flutua com nitidez entre os gracejos pop explorados no registro anterior e doses consideráveis de experimento. Parte dessa procura por uma sonoridade menos “óbvia”, quase jazzística em faixas como Nos Olhos de Henri, vem do confesso interesse de Pegoraro pela obra de Steve Reich. Um dos nomes mais importantes da música minimalista, o autor de Music for 18 Musicians (1978) e outras peças da música de Avant-Garde sobrevive nas lacunas da obra, autorizando o paulistano a espalhar complementos sutis, adaptações instrumentais e pequenas desconstruções acústicas que vão do samba ao Afrobeat. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , ,

Aperitivo: Real Estate

Um novo disco a caminho? Aquele artista que você tanto gosta vai lançar um projeto inédito nas próximas semanas? Então se delicie com o nosso Aperitivo. São 15 composições – autorais, remixes, mixtapes – ou mesmo versões criativas de faixas de outros artistas que resumem o trabalho daquela banda ou produtor que você tanto gosta. Nada de ordem, preferência ou classificação aparente. Apenas um conjunto de músicas capazes de resumir a proposta do artista selecionado.

Boas melodias, um punhado de versos honestos e a banda norte-americana Real Estate fez da curta discografia uma das peças mais importantes do rock atual. Com três obras de estúdio – Real Estate (2009), Days (2011) e Atlas (2014) -, o grupo formado em Ridgewood, New Jersey chega ao Brasil em novembro para uma série de apresentações. Ainda desconhece o trabalho do grupo? Ora, sem problemas, basta tocar cada uma das 15 faixas de nosso especial e ser lentamente seduzido pelas harmonias que Alex Bleeker e seus parceiros de banda projetaram em cada uma delas. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , ,

Les Sins: “Why” (Feat. Nate Salman)

.

Chaz Bundick pode até vender o Les Sins como um projeto distinto em relação ao Toro Y Moi, porém, não é preciso muito esforço para perceber a nítida relação entre as duas “bandas” do músico. Em Why, faixa lançada em parceria com o cantor Nate Salman, todas as referências da década de 1970 testadas nos dois últimos discos do TYM são prontamente recuperadas, apenas adaptadas ao contexto “eletrônico” que orienta a presente fase de Bundick.

Bem diferente do som proposto em Bother, primeiro single do álbum de estreia como Les Sins, Michael (2014), a nova canção reforça a capacidade de Bundick em criar pequenas composições dentro de uma mesma faixa. São pequenos atos instrumentais que visitam tanto a Disco-Funk Music lançada há quatro décadas, como o ambiente tropical que resume o trabalho do produtor em parte da “cena” Chillwave. Com lançamento previsto para quatro de dezembro, Michael chega pelo selo Carpark.

.

Les Sins – Why (Feat. Nate Salman)

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , ,

Iceage: “Plowing Into The Field Of Love”

.

Desde o lançamento da faixa The Lord’s Favorite no final de julho e o natural anúncio de Plowing Into The Field Of Love (2014), terceiro álbum do Iceage, os membros da banda dinamarquesa se esforçaram para impressionar o próprio público. Com uma sequência de faixas intensas, tomadas por novas referências – Forever, How Many e Glassy Eyed, Dormant And Veiled – chega a hora de ter acesso ao conteúdo total do trabalho que chega para ocupar o lugar de New Brigade (2011) e Your Are Nothing (2013).

Com distribuição pelo selo Matador, o trabalho de 12 faixas pode ser apreciado na íntegra em uma playlist divulgada pela banda no Youtube. Além das quatro faixas apresentadas inicialmente – em clipe ou mesmo lançadas em vídeos promocionais -, músicas como Let It Vanish, Against the Moon ou mesmo a própria faixa-título podem ser ouvidas gratuitamente logo abaixo. O texto completo sobre o disco – de longe, um dos melhores do ano -, você encontra no site na próxima semana.

.

Iceage – Plowing Into The Field Of Love

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , ,

Disco: “Mr. Twin Sister”, Mr. Twin Sister

Mr. Twin Sister
Indie Pop/Dream Pop/Electronic
http://mrtwinsister.com/

Por: Cleber Facchi

A mudança de nome do coletivo nova-iorquino Twin Sister para Mr. Twin Sister está longe de ser apenas “estética”. Basta regressar ao ambiente empoeirado de Daniel, Bad Street e demais faixas instaladas no debut In Heaven, de 2011, para perceber a completa alteração de estrutura em torno da autointitulada e mais recente obra do grupo. Orquestrada pelas voz doce de Andrea Estella, o grupo, antes instalado na década de 1980, agora brinca com todo um novo acervo musical, flutuando por entre décadas sem necessariamente assumir qualquer apego específico.

Tão voltado aos suspiros finais da Disco Music (In The House Of Yes), como de elementos típicos do Soft Rock (Sensitive), o álbum sustentado por apenas oito faixas é um emular constante de novas experiências. Um exercício lento de adaptação, como se cada nota, voz ou verso efêmero proclamado ao longo da obra fosse tratado com nítida parcimônia, convidando o ouvinte a saborear todas as sensações (agora) encaradas pela banda.

Ainda que instalado no mesmo ambiente temático de Kill For Love (2012) Chromatics, Anything In Return (2013) de Toro Y Moi e outras obras musicalmente próximas – todas consumidas pela nostalgia não vivenciada -, a reestreia do coletivo de Nova York segue de forma evidente em uma medida de tempo própria, desacelerada. Da mesma forma que cada porção do registro merece ser degustada pelo espectador, não diferente é o ritmo solucionado pelo quinteto, sereno mesmo nos instantes mais “acelerados” – vide a dançante Out Of Dark.

Dentro dessa estrutura ponderada, sóbria, é evidente como o colorido grupo montado por Gabe D’Amico hoje tenta esconder suas formas musicais. Um contínuo espalhar de experiências e peças, deixando que elas sejam montadas na cabeça do ouvinte. Canções como Sensitive e Twelve Angels, atos precisos de quase sete minutos e solucionados em um loop preciso, dançando em uma atmosfera de segredos e lentos encaixes instrumentais. A julgar pela explícita relação com a década de 1970, o novo álbum do Mr.TS talvez seja uma interpretação menos óbvia para o material lançado pelo Daft Punk em Random Access Memories (2013). Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , ,

ruído/mm: “Transibéria”

.

Passada a euforia encontrada em Cromaqui, primeiro exemplar de Rasura (2014), novo álbum da banda curitibana ruído/mm, Transibéria traz de volta um pouco da essência do grupo. Na trilha do material conquistado pela banda em A Praia (2006) e Introdução à Cortina do Sotão (2011), o recente lançamento surpreende pela capacidade de provocar os sentimentos do espectador. Sem dizer uma só palavra, os quatro minutos e quarenta segundos da canção resumem com maestria a capacidade rara da banda em contar histórias com os arranjos.

Timidamente psicodélica, a faixa caminha entre ruídos, harmonias de pianos e toda uma tapeçaria melódica capaz de envolver o espectador. Mesmo íntima do trabalho de gigantes como Sigur Rós, a delicada peça em nenhum momento se distancia do território autoral dos paranaenses, expressivos em cada singelo manuseio da criação. Previsto para estrear no dia 27 de setembro, o novo álbum chega para completar a série de bons lançamentos instrumentais em solo nacional, caso de Pluvero da Kalouv e Pelicano do grupo Constantina.

.

ruído/mm – Transibéria

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , ,

TĀLĀ: “Alchemy”

.

Não há como negar: o pop (felizmente) não é mais o mesmo. Ainda que diferentes fatores tenham contribuído para a construção de um som menos descartável, ainda que comercial, a boa repercussão sobre a obra de Haim, Charli XCX, Sky Ferreira e outros nomes de peso do último ano acarretou em uma carga de mudanças significativas dentro da produção recente. Mesmo Ariana Grande, Miley Cyrus e outros gigantes da música parecem lidar com uma série de referências adaptadas, flertando vez ou outras com os conceitos “alternativos” que ocupam parte da mesma cena.

O resultado está na presença cada vez maior de nomes como Allie X e Ryn Weaver, personagens tão íntimas do pop tradicional, como de arranjos sujos testados pela cena alternativa. É dentro desse mesmo universo que nasce o trabalho da cantora britânica TĀLĀ. Com um ótimo acervo já compilado no soundcloud, a artista londrina apresenta agora um novo invento: Alchemy. Meio termo entre FKA Twigs, M.I.A. e grande parte dos nomes acima citados, a faixa entrega as experiências que a cantora reserva para o próximo EP, trabalho reservado para o dia 17 de novembro e que chega em complemento ao antecessor The Duchess EP.

.

TĀLĀ – Alchemy

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , ,

Baths: “Disorderly”

.

Há tempos Will Wiesenfeld não parecia tão “feliz” quanto em Disorderly. Desde o lançamento do gracioso Cerulean, primeiro álbum do Baths apresentado em 2010, cada peça instrumental assinada pelo californiano parecia mergulhar cada vez mais em depressão. Representação evidente desse foco amargurado está em Obsidian, segundo registro de estúdio lançado em 2013, ou mesmo Ocean Death EP, obra partidária da mesma essência e apresentada há pouquíssimos meses.

Com a recente faixa, entretanto, é evidente a mudança de conceitos por parte do produtor. Ainda que comportada, Disorderly carrega nos sintetizadores e imposição quase solar dos vocais um efeito doce, sorridente por vezes. Quase cinco minutos de projeções eletrônicas minimalistas, criando espaço para que a voz e sentimentos (românticos) do músico sejam encarados pela mesma formação mágica do trabalho entregue há quatro anos. Longe de ser um projeto individual de Baths, a presente faixa é parte do EP What’s Good Los Angeles?, projeto comandado pelo selo Friends Of Friends e que ainda conta com nomes como Jerome LOL, Salva e Hodgy Beats.

.

Baths – Disorderly

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , ,

Disco: “Too Bright”, Perfume Genius

Perfume Genius
Indie/Chamber Pop/Experimental
https://www.facebook.com/perfumegeniusofficial

Por: Cleber Facchi

Mike Hadreas é um especialista em brincar com os contrastes. Desde o primeiro álbum como Perfume Genius, Learning (2010), o enquadramento sutil dos arranjos segue em oposição ao lirismo grandioso, quase cênico, incorporado em cada verso. Não diferente é a estrutura abordada em Put Your Back N 2 It, obra entregue dois anos mais tarde e uma espécie de extensão (ainda mais) dolorosa do ambiente construído no disco de estreia. Contudo, ao abrir as cortinas do terceiro álbum da carreira, Too Bright (2014, Matador), o compositor revela ao ouvinte uma série de elementos surpresa.

Imenso palco iluminado pelo experimento, o presente registro é uma obra que se expande grandiosa, seduzindo com naturalidade o espectador, sem elementos opositivos. Ainda que marcado por sóbrios instantes de minimalismo, referências típicas do músico, grande parte das canções surgem de forma intensa, “brilhantes” e espalhafatosas,  fazendo valer o título do álbum. Mais uma vez acompanhado pelo produtor Ali Chant e Adrian Utley, do Portishead – responsável pelos sintetizadores do disco -, Hadreas soluciona uma obra em que arranjos e temas funcionam paralelamente, tratando na fluidez dos elementos uma espécie de espetáculo triste.

Parcialmente livre do Chamber Pop claustrofóbico dos dois primeiros álbuns, em Too Bright o compositor deixa de soar como um filho adorado de Antony Hegarty para flertar abertamente com a obra de David Bowie. Ainda que a capa plástica do disco sirva de referência imediata ao trabalho do músico britânico, o uso de arranjos sintéticos – típicos de Station to Station (1976) -, além da estrutura teatral – no melhor estilo Ziggy Stardust -, apenas reforçam a confessa devoção de Hadreas.

Personagem central de própria obra, o cantor regressa ao mesmo território melancólico do álbum de 2012, ressuscitando histórias particulares de seu último relacionamento fracassado. A diferença em relação ao material exposto em faixas como Hood e Dark Parts – todas focadas com amargura no ex-namorado -, está na forma como o cantor parece aos poucos seguir em frente, algo explícito na inaugural I Decline - “Eu posso ver por milhas / A mesma linha velha / Não, obrigado / Eu recuso“. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , , , , , , ,