Tag Archives: Alternative

Disco: “Eclipse”, Twin Shadow

Twin Shadow
Alternative/Electronic/Electropop
http://www.twinshadow.net/

 

Poucos artistas parecem entender tão bem o som explorado na década de 1980 quanto George Lewis Jr. Aos comandos do Twin Shadow, o produtor de origem dominicana e residente em Nova York, fez do projeto de versos confessionais um passeio voluntário por diferentes campos da música lançada na época; marca explícita no pós-punk-eletrônico-e-sujo incorporado em Forget, registro de estreia apresentado em 2010, e, posteriormente, na imposição pegajosa/melancólica exaltada no synthpop de Confess, registro entregue ao público dois anos mais tarde.

Com a chegada de Eclipse (2015), terceiro e mais recente álbum solo do produtor, uma nova visita aos conceitos e temas incorporados há mais de três décadas. Diferente dos últimos registros, Lewis Jr. encontra no presente trabalho um mecanismo de transição. Longe das maquinações pop-chiclete ou mesmo ambientações densas típicas da referencial década, cada peça do trabalho encaminha o som de Twin Shadow para um novo cenário, proposta que sobrevive (e ainda tropeça) nas mesmas referências “brega” que apontaram a direção da música pós-1985.

Preferência indicado logo nos primeiros instantes do álbum, assim que os pianos e voz forte ocupam toda a extensão de Flatliners, em Eclipse, a busca de Lewis Jr. não se concentra apenas no uso de sintetizadores e temas de natureza pulsantes da New Wave, mas na melancolia (quase caricata) que sustenta o R&B há mais de duas décadas. Não por acaso o cantor parece flertar a todo o instante com a obra de veteranos como Lionel Richie, Michael Jackson e Prince, este último, referência explicita em faixas de forte apelo sentimental, caso dos singles To The Top e Turn Me Up.

A mesma aproximação com a música negra parece reforçar o inevitável florescimento de pequenos duetos e parcerias ao longo da obra, algo raro nos últimos trabalhos de Twin Shadow. Enquanto Old Love / New Love amplia a parceria de Lewis Jr. com o produtor D’Angelo Lacy – colaborador na faixa Lost You, lançada em 2014 pelo duo canadense Zeds Dead -, a delicada Alone cresce como um dos momentos mais comoventes do registro. Inicialmente inaugurada pela voz amarga do cantor, a canção que mais parece resgatada do álbum Confess logo cria espaço para a convidada Lily Elise, revelando um dos pontos de maior acerto do disco. Continue reading

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Janelle Monáe & Jidenna: “Yoga”

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Como seria o trabalho de Janelle Monáe livre de todos os conceitos e referências temáticas de seus álbuns retrô-futurísticos? A resposta está no pop pegajosos de Yoga. Mais novo lançamento da cantora e compositora norte-americana, a faixa em parceria com o rapper/cantor Jidenna parece completamente distinta em relação ao trabalho da artista nos últimos cinco anos. Esqueça a música negra dos anos 1960/1970, com o novo single, Monáe prova ser capaz de replicar o mesmo som comercial de Beyoncé, Rihanna e todos os nomes de peso do R&B.

Batida quente, versos provocativos e refrão grudento, estes são os principais componentes da canção que parece pronta para as pistas. Infelizmente a nova faixa não faz parte de nenhum novo disco de Monáe. Trata-se de um dos fragmentos da coletânea Eephus (2015), um compilado de novos artistas (da música negra) apresentados pelo próprio selo da cantora, o Wondaland Arts Society.

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Janelle Monáe & Jidenna – Yoga

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Active Child: “Never Far Away”

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A voz doce de Pat Grossi ainda é a mesma de You Are All I See (2011), registro de estreia do Active Child, entretanto, a proposta do músico/produtor agora é outra. Como explícito desde o lançamento de Rapor EP, em meados de 2013, a relação do artista norte-americano com a música eletrônica e o R&B parece muito maior do que o envolvimento e interesse pelas texturas ambientais do primeiro disco. Melhor prova disso está no lançamento de Never Far Away, mais recente single apresentado por Grossi.

Parte do aguardado segundo álbum de estúdio do cantor, Mercy (2015), a canção precisa apenas dos primeiros segundos para despertar a atenção do ouvinte e mudar a direção do trabalho de Grossi. A harpa utilizada no álbum de 2011 continua lá, a diferença está no excesso de texturas eletrônicas e batidas assíncronas, conceitos mantido até o último segundo da composição e que adapta de forma particular uma série de experimentos típicos de Clams Casino, Shlohmo e outros conterrâneos do artista.

Mercy conta com lançamento previsto para o dia 16 de junho pelo selo Vagrant. Acima, a capa do trabalho.

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Active Child – Never Far Away

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SBTRKT: “Roulette”, “No Less” & “Renegade”

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Parece até “provocação”. Depois de ter cancelado a apresentação no Lollpalooza Brasil 2015 – tudo bem, a gente entende -, Aaron Jerome resolveu “brincar” com o público (e não apenas o brasileiro) apresentado três ótimas composições inéditas: Roulette, No Less e Renegade. Nada do som experimental testado em Wonder Where We Land (2014); a julgar pelo uso de batidas limpas e pequenas doses de melancolia diluídas nos sintetizadores, um regresso (in)voluntário aos últimos singles e EPs apresentados pelo produtor, vez ou outra, capaz de dialogar com o bem sucedido registro de estreia lançado em 2011.

Enquanto No Less segue a trilha “dubstep melódico” de Jerome, equilibrando instantes de morosidade e pequenas explosões controladas, em Roulette e Renegade SBTRKT investe no oposto. São beats quebrados, encaixes assíncronos e toda a uma variedade de referências eletrônicas que lembram a série de EPs pré-Wonder Where We Land. Por enquanto, nenhuma das três canções conta com lançamento em formato físico, sendo apresentadas apenas no soundcloud do artista. Ouça:

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SBTRKT – Roulette

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SBTRKT – No Less

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SBTRKT – Renegade

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Disco: “Goon”, Tobias Jesso Jr.

Tobias Jesso Jr.
Indie/Alternative/Singer-Songwriter
http://www.tobiasjessojr.com/

 

Emoção“, “tristeza“, “sofrimento“. Palavras que invadem a mente do ouvinte tão logo a enxurrada sentimental de Goon (2015, True Panther) tem início em Can’t Stop Thinking About You. Harmonias tímidas de piano, uso controlado, quase imperceptível, de temas percussivos; vocal limpo, esculpido pela angústia do cantor; conceitos, personagens e pequenas confissões redundantes, há décadas desgastadas em diferentes campos da música. Os mesmos versos tristes de amor e separação, o mesmo coração partido, porém, retratado de forma honesta e estranhamente acolhedora por Tobias Jesso Jr.

Mary Ann, eu perdi você em um sonho / Em seguida, o sonho se tornou realidade“. Os versos que inauguram o primeiro registro solo do músico canadense apontam a direção triste que define o restante da obra. São quase 50 minutos em que tormentos pessoais, personagens (femininos) e incontáveis delírios alcoólicos brincam com a percepção amargurada de Jesso Jr, em poucos minutos, uma representação compatível de qualquer ouvinte sofredor. Ainda que vocais “sorridentes” tentem sobreviver ao longo do trabalho, é a tristeza que sustenta e ocupa as brechas de cada canção.

Em um ambiente soturno, o mesmo de Randy Newman no começo da década de 1970, talvez Paul McCartney nos primeiros anos pós-Beatles, Jesso Jr. caminha pelo passado de maneira inevitável. Não se trata de um disco nostálgico, tampouco referencial ou plágio, mas uma obra que dialoga, absorve e partilha dos mesmos sentimentos de outros gigantes da melancolia. É fácil encontrar Harry Nilsson, tropeçar na angústia de Tom Waits e até mesmo artistas recentes; românticos como Cass McCombs e Kurt Ville ou, em menor escala, Phosphorescent e Justin Vernon.

Por vezes sufocado, talvez oculto sob a imensa colcha de retalhos musicais que servem de estrutura para o álbum, Jesso Jr. encontra na “simplicidade” um mecanismo de imposição da própria identidade. Hollywood, Without You, Can We Still Be Friends ou Just a Dream; não importa o pronto do disco em que você estaciona: dos arranjos tristes aos versos confessionais, possíveis bloqueios são logo derrubados. Em Goon, o diálogo com o ouvinte é imediato, natural. Uma armadilha nítida, esquiva da desgastada soma entre “amor e dor”, porém, hipnótica pelo efeito de confissões como “Eu não consigo parar de pensar em você” ou “Porque você não pode me amar?“. Continue reading

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Cícero: “A Praia”

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Quando Canções de Apartamento apareceu em meados de 2011, acompanhado de um email de Cícero, talvez fosse impossível prever o sucesso e rápido crescimento no número de seguidores em torno da obra do músico carioca. Mesmo com a parcial divisão de público e crítica durante o lançamento de Sábado, em 2013, a busca por novas referências líricas e instrumentais continua a servir de base para o trabalho do artista, mais uma vez “transformado” no interior de A Praia (2015), terceiro registro de inéditas em carreira solo.

Tão econômico quanto o antecessor, o presente álbum busca conforto em dez faixas curtas, pouco mais de 30 minutos de duração. A diferença em relação ao instável disco entregue há dois anos está no reforço das ambientações eletrônicas, além do natural regresso e uso constante de temas festivos, típicos do primeiro álbum solo do cantor. Lançado de forma independente, A Praia, assim como os dois últimos registros de Cícero, pode ser baixado gratuitamente no site do músico.

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Cícero – A Praia

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Disco: “Um Chopp e um Sundae”, Rafael Castro

Rafael Castro
Indie/Alternative/Nacional
http://rafaelcastro.com.br/

 

Os primeiros anos de Rafael Castro como músico profissional foram marcados pelos excessos. Não falo sobre exageros lisérgicos ou noites perfumadas pelo cheiro de sexo, mas pelo excesso de composições. Em apenas três anos, entre 2006 e 2009, o cantor e compositor paulistano entregou ao público um acervo de oito registros oficiais. Obras gravadas de forma amadora, dentro de estúdios caseiros e, na maioria dos casos, desprovidas de um mínimo cuidado estético ou refinamento lírico/instrumental. Um amadorismo convincente, porém, sufocado pela quantidade de canções costuradas por temas sempre aleatórios, demasiado instáveis, talvez desorganizados.

A surpresa veio com o lançamento de Lembra?, em 2012. Embora anárquico, amarrado pela mesma pluralidade de histórias particulares do músico – capaz de colidir temas como religiosidade, vida boêmia e romantismo em um mesmo cenário – o uso de uma máscara “brega-moderna” trouxe homogeneidade ao trabalho do cantor, agora maduro e linear. Dentro de um mesmo cercado temático, porém, longe de solucionar uma obra conceitual, o paulistano encontrou o ponto de equilíbrio para a própria esquizofrenia, condensando um catálogo de Hits que pareciam ter escapado do romantismo nacional nos anos 1970 atee alcançar o presente.

De forma nostálgica, em Um Chopp e um Sundae (2015, Independente), mais recente trabalho de Castro, o passado ainda funciona como a principal fonte inspiração do compositor, porém, agora dentro de uma nova década: os anos 1980. Além do confesso grupo de artistas românticos que há tempos inspiram o trabalho do artista – caso de Roberto Carlos e Odair José -, durante todo o registro, nomes como Ritchie (Preocupado), Blitz (Vou Parar de Beber) e Léo Jaime (Aquela) surgem com naturalidade entre as canções. Referências propositais (ou involuntárias) enquadradas com propriedade dentro do jogo cômico do paulistano – tão honesto, quanto sarcástico.

Em um explícito senso de transformação, musicalmente Um Chopp e um Sundae se comportas como o trabalho mais desafiador do artista. Nada de guitarras ruidosas, sujas, típicas do último registro. Mesmo as bases acústicas, como os violões “hippie” dos primeiros trabalhos do cantor foram “abandonados”. Da abertura com a pop Ciúme, até o encerramento em Vou Parar de Beber, são os sintetizadores, efeitos eletrônicos e toda uma carga de referências empoeiradas de 1980 que ditam as regras da obra. Uma espécie de “adaptação” das mesmas melodias e arranjos lançadas pelo Cidadão Instigado em faixas como a pegajosa (e hoje clássica) Contando Estrelas. Continue reading

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Disco: “Future Brown”, Future Brown

Future Brown
Electronic/Experimental/Hip-Hop
http://futurebrown.com/

 

Uma sonoridade ampla em referências, porém, concisa. Esta talvez seja a melhor interpretação sobre o conceito que rege o homônimo álbum de estreia do Future Brown. Coletivo formado pelo produtor J-Cush – responsável pelo selo Lil City Trax -, Asma Maroof e Daniel Pineda – da dupla Nguzunguzu – e, também, pela musicista Fatima Al Qadiri, o projeto é um mosaico de ideias tão vasto, instável e experimental que, curiosamente, encontra na própria flexibilidade e pluralidade de ideias a base para um alinhamento coeso.

Da colaboração entre Maroof e Pineda – como Nguzunguzu -, é montado todo o esqueleto da obra. Um alicerce de encaixes minimalistas, fruto da utilização de batidas secas, típicas do Grime e UK Garage, além costuras eletrônicas que flertam (sem pudor) com a música negra do final dos anos 1980. Do trabalho (recente) de Al Qadiri em Asiatisch, de 2014, nascem as bases delicadas e toda a ambientação movida por sintetizadores etéreos, estrutura reforçada pelo colaborador J-Cush, possivelmente, o principal responsável pelo convite e distribuição do time de artistas que ocupam o restante da obra.

Com estrutura típica de mixtape, o registro se esquiva da apropriação de um único gênero ou fórmula. Trata-se de uma coleção de fragmentos pinçados de diferentes décadas, cenas e experimentos. Um passeio que começa pelos ensaios climáticos da Ambient Music, ainda nos anos 1970, flerta com o Lado B do Synthpop/Eletrônica na década seguinte, até mergulhar no Hip-Hop, R&B, IDM e toda uma variedade de essências que detalharam os últimos anos da década de 1990. Ao final, uma amarra complexa, moderna e íntima de cada colaborador – seja ele parte do coletivo, ou músico convidado.

Ora detalhado com suavidade, ora intenso, como uma extensão dos temas dançantes do Nguzunguzu, Future Brown é um registro que utiliza da própria esquizofrenia como uma ferramenta de sedução e constante diálogo com o ouvinte. Na primeira metade do disco, uma escadaria marcada por pequenas subidas e quedas rítmicas. Ferramenta ativa para o reforça no diálogo do quarteto com a parceira de longa data Tink, logo na inaugural Room 302 e, ainda, base para as rimas lançadas por nomes como Sicko Mobb, Shawanna e Timberlee, esta última, responsável pelo acerto no dancehall de No Apology. Continue reading

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Godspeed You! Black Emperor: “Asunder, Sweet and Other Distress'”

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Passado o hiato de uma década que separou Yanqui U.X.O. (2002) e ‘Allelujah! Don’t Bend! Ascend! (2012), os membros do Godspeed You! Black Emperor seguem inspirados, apresentando ao público mais um novo registro de inéditas: Asunder, Sweet and Other Distress’ (2015). Dotado de quatro composições extensas, a presente obra, quinta na discografia da banda, segue a trilha dos últimos registros, intercalando instantes de calmaria e atos orquestrais grandiosos, naturalmente típicos do grupo canadense.

Com distribuição (física) prevista para o dia 31 de março pelo selo Constellation, casa do coletivo de Montreal desde os primeiros registros, o recente trabalho já pode ser apreciado na íntegra pelo Soundcloud da gravadora. Para quem acompanha o grupo desde os clássicos F♯ A♯ ∞ (1997) e Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven (2000), os mais de quarenta minutos do novo álbum não devem decepcionar. Ouça:

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Godspeed You! Black Emperor – Asunder, Sweet and Other Distress’

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Tei Shi: “Go Slow”

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A passagem de Valerie Teicher para um ambiente típico do R&B/Soul dos anos 1980 em Bassicaly parece servir de estímulo para todo o recente arsenal da cantora nova-iorquina. Com o novo trabalho do Tei Shi a caminho, Verde EP (2015), a jovem não apenas garante continuidade ao som produzido nos últimos meses, como ainda encontra uma passagem segura para o material desenvolvido no (ótimo) primeiro EP da carreira, Saudade, lançado ainda em 2012.

Fragmento mais recente a escapar do novo registro, Go Slow revela todo o arsenal de referências da artista – sejam elas atuais ou resgatadas dos primeiros anos dentro do Tei Shi. Esculpida pelos vocais de Teicher, a composição parece se encaminhar para um terreno etéreo, entretanto, logo é puxada de volta pela cantora, para “o chão”. Um tecido delicado de pianos, guitarras que tropeçam na obra de Blood Orange, mas sem escapar da confessa influência da musicista pelo trabalho de St. Vincent – principalmente nos últimos discos.

Verde EP conta com lançamento previsto para o dia 14 de abril.

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Tei Shi – Go Slow

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