Mais conhecida pelo trabalho em parceria com David Roback no Mazzy Star, no começo dos anos 200, Hope Sandoval decidiu partir em busca de um novo projeto em carreira solo. Intitulado Hope Sandoval and The Warm Inventions, a projeto que mantém a cantora como centro das atenções deu vida a dois ótimos discos. O primeiro, Bavarian Fruit Bread, lançado em meados de 2001, enquanto Through the Devil Softly, segundo álbum da banda, foi entregue ao público em idos de 2009.

De volta ao projeto, Sandoval anuncia a chegada de um novo álbum de inéditas. Intitulado Until The Hunter, o registro encanta logo no primeiro single: Let Me Get There. Trata-se de uma delicada parceria entre a cantora e o músico norte-americano Kurt Vile. Em um dueto sutil, o casal se esparrama lentamente no interior da composição. Sussurros românticos que ainda esbarram nos pequenos solos de guitarra produzidos por Vile.

Until The Hunter (2016) será lançado no dia 04/11 via Tendril Tales.

 

Hope Sandoval and The Warm Inventions – Let Me Get There (ft. Kurt Vile)

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Dois anos após o lançamento de Vigília (2014, Balaclava Records) – 27º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2014 –, os integrantes da banda paulistana Terno Rei anunciam a chegada de um novo álbum de inéditas. Sucessor do single Trem Leva Minhas Pernas, de 2015 o novo álbum mostra que desilusões, memórias da infância, medos e reflexões intimistas continuam a servir de base para o trabalho do grupo formado por Ale Sater (voz e baixo), Bruno Paschoal (guitarra), Greg Vinha (guitarra), Luis Cardoso (bateria) e Victor Souza (percussão).

Composição escolhida para apresentar o trabalho, Sinais delicadamente incorpora parte da sonoridade que caracteriza a presente fase da banda. Entre versos marcados pela solidão – “Conheço bem a madrugada / Ela é minha sina” – e sussurros angustiados – “Outro dia me encontrei sentado / na esquina do tempo“–, guitarras, vozes e batidas lentas não apenas cercam, como parecem confortar o ouvinte. Instantes que traduzem com naturalidade a melancolia e isolamento que sufoca de qualquer indivíduo.

 

Terno Rei – Sinais

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Artista: Cymbals Eat Guitars
Gênero: Indie Rock, Alternativo, Rock
Acesse: http://cymbalseatguitars.com/

 

Perto de completar uma década de carreira, os integrantes do Cymbals Eat Guitars parecem longe de alcançar uma possível zona de conforto. Inspirada pelo trabalho de grupos como Modest Mouse, The Wrens, Built To Spill e outros veteranos do rock alternativo dos anos 1990/2000, a banda de origem nova-iorquina deu vida a uma sequência de grandes obras, encontrando no quarto registro de inéditas, o recente Pretty Years (2016, Sinderlyn), a ponte para um novo universo de referências e possibilidades.

Sucessor do elogiado LOSE — 41º colocado na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 —, o novo álbum nasce como uma declarada fuga dos temas melódicos e diálogos com o pop explorados pelo grupo há dois anos. Raivosas, guitarras e vozes se esbarram a todo instante, resultando em um trabalho de essência ruidosa, caótico, mesmo na adaptação declarado de temas nostálgicos e arranjos inspirados no trabalho de veteranos como David Bowie, The Cure e The Smiths.

Parte da força que move o presente trabalho surge da clara interferência de John Congleton como produtor do disco. Um dos responsáveis pela construção de uma série de obras recentes – como Boy King (2016) do Wild Beasts e Abyss (2015) da cantora Chelsea Wolfe –, Congleton se concentra na montagem de um registro dinâmico, urgente, proposta também explícita em outros discos produzidos pelo norte-americano, caso do último álbum de estúdio de St. Vincent, lançado em 2014.

Assim como nos primeiros registros da banda – Why There Are Mountains (2009) e Lenses Alien (2011) –, o grande acerto do presente disco está na construção de músicas grandiosas, quase épicas. Seguindo a trilha de outras composições produzidas pelo grupo, caso de And The Hazy Sea e Indiana, faixa após faixa, a banda – formada por Joseph D’Agostino, Andrew Dole, Matt Whipple e Brian Hamilton –, costura vozes, batidas, berros e guitarras marcadas de forma explícita pelo peso das distorções e ruídos.

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HYMNS (2016) ainda nem esfriou e o Bloc Party já reserva ao público algumas composições inéditas. É o caso da recém-lançada Stunt Queen. Mais recente lançamento do quarteto britânico – agora completo com Kele Okereke, Russell Lissack, Justin Harris e Louise Bartle –, a faixa dominada pelo uso de guitarras dançantes e melodias íntimas do pop nasce como um perfeito resumo do material apresentado há poucos meses no quinto álbum de estúdio do grupo.

A letra pegajosa de Okereke, guitarras marcadas e batidas sob controle. A mesma fórmula exploradfa pelo quarteto em uma série de músicas recentes como Different Drugs, Only He Can Heal Me e The Love Within. Sucessor do mediano Four (2012), HYMNS é o primeiro registro de inéditas da banda em quatro anos, e o primeiro trabalho do vocalista da banda desde Trick (2014), último álbum de Okereke em carreira solo.

 

Bloc Party – Stunt Queen

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Quem ficou “desconfiado” pelo trabalho de Tom Krell em Lost Youth / Lost You, primeiro single do álbum Care (2016), quarto registro de inéditas do artista, acabou encontrando nos versos e melodias de What’s Up um porto seguro. Menos contida e marcada pelos detalhes, a canção não apenas parecia dialogar com o antigo trabalho do produtor, “What Is This Heart?” – 3º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 –, como parece servir de base para a recém lançada Can’t You Tell.

Fina representação do lado pop do músico, a canção que passeia pela obra de Michael Jackson e chega até o presente álbum de Blood Orange, soa como uma clara adaptação de diferentes conceitos da música pop/R&B. Fragmentos da educação musical de Krell, cada vez mais distante dos experimentos e sons atmosféricos que deram vida aos dois primeiros registros como How To Dress Well, Love Remains (2010) e Total Loss (2012).

Care (2016) será lançado no dia 23/09 pelo selo Domino.

How To Dress Well – Can’t You Tell

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Com exceção da voz de Olavo Rocha, pouco do material produzido pelo Lestics em mais de uma década de carreira parece ter sobrevivido no interior de A Matilha. Movida pelo peso e urgência das guitarras, a canção de versos descritivos, urbanos, revela ao público um som completamente distinto em relação ao material produzido nos últimos seis discos de inéditas da banda – 9 Sonhos (2007), Les Tics (2007), Aos Abutres (2010), História Universal do Esquecimento (2012) e Seis (2014).

Dominada pelo uso de versos que dialogam com o presente cenário político do país, A Matilha foi a composição escolhida para anunciar a chegada do novo registro de inéditas da banda: Torto (2016). Em entrevista ao site da Noisey, Rocha comentou o processo de construção da faixa – “É uma letra mais direta do que eu costumo escrever, menos sutil” –, e ainda entregou uma série de pistas sobre a sonoridade que orienta a presente fase do grupo.

 

Lestics – A Matilha

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Nunca antes as garotas do Warpaint pareceram tão íntimas do pop quanto em New Song. Composição escolhida para anunciar o 3º álbum de estúdio do quarteto norte-americano, a faixa dominada pelo uso de versos pegajosos, sintetizadores e guitarras dançantes surge como uma espécie de fuga do material produzido há pouco mais de dois anos no segundo disco da banda, obra que apresentou ao público músicas como Love Is To Die, Drive e Hi.

Em Whiteout, mais recente single do Warpaint, versos, batidas e guitarras delicadamente apontam para o mesmo material produzido em 2014 pelo grupo. Entre arranjos contidos e vozes que se completam, a faixa cresce curiosa, sem pressa, como uma fuga do som eufórico testado pelo quarteto em New Song. Um delicado mosaico de ideias e fragmentos criativos, como se cada integrante da banda atuasse de forma independente no interior da faixa.

Heads Up (2016) será lançado no dia 23/09 via Rough Trade.

 

Warpaint – Whiteout

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Artista: Preoccupations
Gênero: Alternativa, Pós-Punk, Experimental
Acesse: http://preoccupationsband.com/

 

Nós somos uma banda que quer fazer música e tocar para os nossos fãs. Não estamos aqui para causar dor ou lembrar as pessoas de atrocidades do passado”. Com um anúncio publicado no Facebook, Matt Flegel (baixo, vocal), Mike Wallace (bateria), Scott Munro (guitarra, sintetizadores) e Daniel Christiansen (guitarra) deram início a uma nova fase na carreira da banda, substituindo o polêmico título do projeto, Viet Cong, e apresentando ao público um novo nome: Preoccupations.

Mais do que uma simples alteração no nome, um explícito exercício de transformação – o antigo título, considerado pejorativo por membros da comunidade vietnamita, fez com que a banda tivesse de cancelar uma série de shows pelos Estados Unidos. Da capa do novo disco – claramente inspirada em clássico da Factory Records –, passando pelo uso de temas experimentais e ambientações íntimas do som produzido no final da década de 1970, faixa após faixa, o quarteto de Calgary continua a provar de novas sonoridades.

Um bom exemplo disso está em Memory. Quarta faixa do disco, a composição de quase 12 minutos mostra a força do grupo em costurar diferentes atos instrumentais dentro de uma mesma canção. Uma lenta sobreposição de guitarras, batidas e vozes que vão do uso de melodias acessíveis ao mais complexo experimento, criando um espaço para a rápida interferência do convidado Dan Boeckner, uma das mentes por trás do Wolf Parade e também da extinta dupla de synthpop/pós-punk Handsome Furs.

O mesmo cuidado acaba se repetindo em outros instantes da obra. Faixa de abertura do disco, Anxiety, por exemplo, cresce nas sombras, detalhando um pequeno exercício atmosférico que logo se abre para a interferência dos vocais e sintetizadores. Mais do que uma lembrança nostálgica do mesmo som produzido por veteranos como Public Image Ltd. e Joy Division, uma clara extensão do som produzido há poucos meses dentro do primeiro álbum de inéditas da banda.

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Mesmo com dois trabalhos de peso em mãos – Dive (2011) e Awake (2014) –, a grande beleza da música de Scott Hansen como Tycho está na construção de uma série de faixas independentes. É o caso da climática Division, composição apresentada há poucos meses pelo produtor californiano e uma perfeita representação do diálogo entre a eletrônica e o pós-rock que Hansen vem desenvolvendo desde o começo da presente década.

Em Epoch, mais recente single do artista, um novo mundo de possibilidades. Trata-se de um delicado experimento eletrônico, repleto de texturas, pequenas alterações e quebras rítmicas, como se Hansen provasse de diferentes sonoridades dentro de uma mesma canção. Guitarras e batidas eletrônicas que se fragmentam em pequenos atos, dialogando de forma natural com o som produzido por veteranos como Aphex Twin e Four Tet.

 

Tycho – Epoch

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Artista: Nick Cave and the Bad Seeds
Gênero: Alternativa, Pós-Punk, Experimental
Acesse: http://www.nickcave.com/

 

A dor sempre foi encarada como uma peça fundamental dentro de qualquer trabalho produzido por Nick Cave. Seja no romantismo amargo de Let Love In (1994), ou nos versos sangrentos que escorrem pelas canções de Murder Ballads (1996), basta um ouvido atento para perceber como o músico sempre dialogou de forma explícita com um universo de temas consumidos pela melancolia. Confissões, tormentos, medos e delírios angustiados que assumem um enquadramento ainda mais tocante em Skeleton Tree (2016, Bad Seed Ltd.), 16º registro da parceria com os integrantes do Bad Seeds e um fino retrato da poesia sorumbática que há décadas corrompe a discografia do cantor e compositor australiano.

Produzido em um intervalo de dois anos e gravado em diferentes estúdios, o sucessor do elogiado Push the Sky Away (2013) mostra a busca de Cave por som alimentado pelo uso de referências e temas eletrônicos. Sintetizadores, encaixes minimalistas e ruídos abafados, como uma extensão do material originalmente testado por Brian Eno em obras como Before and After Science (1977) e até mesmo por David Bowie no recente Blackstar (2016). Musicalmente, um registro silencioso, porém, turbulento e essencialmente doloroso em cada fragmento de voz.

Mergulhado em temas que falam sobre a morte, separação, saudade, culpa e aceitação, Skeleton Tree reflete com naturalidade a tristeza que tomou conta de Cave logo após o enterro do filho Arthur Cave, de 15 anos, morto após a queda de um penhasco no meio das gravações do trabalho. Ainda que parte expressiva das composições tenha sido finalizada antes do incidente, ainda em estúdio, Cave decidiu alterar os versos de determinadas canções, reforçando o caráter melancólico que sustenta o trabalho desde a abertura, com Jesus Alone, até a derradeira faixa-título.

Eu preciso de você / Em meu coração, eu preciso de você … Apenas respire, apenas respire”, desaba o compositor em I Need You. Sexta canção do disco, a faixa abastecida pelo uso de sintetizadores densos e batidas lentas funciona como uma perfeita representação de todo o material presente no interior do trabalho. Uma arrastada sequência de versos em que o músico australiano não apenas lamenta a morte precoce do próprio filho, como visita uma série de memórias nostálgicas, diferentes personagens e cenas entristecidas que dialogam com o sofrimento de qualquer indivíduo.

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