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90′s R&B: 12 Discos Essenciais

Por: Cleber Facchi

Em um cenário dominado por gigantes do Rock Alternativo – Nirvana, Pearl Jam – e pequenos duelos que abasteceram o Britpop – Oasis, Blur -, quem realmente conquistou a década de 1990 foram os entusiastas do R&B. Abastecidos pelas referências que abasteceram nomes como Marvin Gaye, Stevie Wonder, Prince e outros artistas influentes das décadas de 1970/1980, um time de novatos tomou o topo das principais paradas de sucesso e, ao mesmo tempo, solucionaram alguns dos principais exemplares da música negra do período.

Entre artistas cultuados como D’Angelo, Lauryn Hill e nomes comerciais como Mariah Carey, Aaliyah e TLC, voltamos duas décadas no tempo para resgatar 12 obras essenciais do R&B nos anos 90. Trabalhos que se entregam ao Pop, como The Writing’s on the Wall (1999), do Destiny’s Child, ou mesmo obras como Baduizm (1997), de Erykah Badu, capazes de referenciar o trabalho de veteranos e ainda assim manter o toque atual. Uma dúzia de obras marcadas pela sedução, versos confessionais e batidas que colam nos ouvidos em segundos.

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Boyz II Men
II (1994, Motown)

De todos os projetos que abasteceram o R&B dos anos 1990, poucos são tão caricatos quanto o Boyz II Men. Produto típico do período, o projeto nada mais é do que um coletivo de vocalistas inclinados a revisitar a essência da música negra. Pertencentes ao casting da Motown – por onde passaram Michael Jackson e Marvin Gaye -, o grupo da Filadélfia fez do segundo álbum de estúdio, II, sua obra mais duradoura e influente de todo o período. Entusiasmados pelo sucesso do single End of the Road, que havia alcançado o 1º lugar de diversas paradas de sucesso, o grupo se trancou em estúdio no final de 1993 para só aparecer no ano seguinte com o maior cardápio de hits Boyz II Men. Com a dinâmica Thank You na abertura do álbum, estava anunciada a proposta do trabalho, dividido entre composições puramente românticas (I’ll Make Love to You), e canções marcadas pela dança (U Know). Mesmo em atuação e com uma série de discos lançados, o projeto comandado pelo trio Nathan Morris, Shawn Stockman e Wanya Morris ainda não conseguiu superar musicalmente o acervo conquistado no segundo álbum da carreira.

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TLC
CrazySexyCool (1994, LaFace/Arista)

A boa repercussão comercial em cima do debut Ooooooohhh… On the TLC Tip (1992) fez com que a gravadora prestasse mais atenção nas garotas do TLC. Além de investir na maior divulgação do trio – Rozonda “Chilli” Thomas, Tionne “T-Boz” Watkins e Lisa “Left Eye” Lopes -, o selo não poupou esforços na produção do segundo álbum de estúdio, efeito perceptível no cuidado e na maturidade (lírica e instrumental) que ecoa por todo CrazySexyCool. Cravejado de hits – entre eles Creep, Red Light Special e Waterfalls -, o álbum segue em direção contrária ao exercício testado no primeiro disco, reforçando o teor provocativo e o caráter sexual criado em torno do trio. Com participações de Busta Rhymes, André 3000 (Outkast) e Phife Dawg, o disco se divide do primeiro ao último acorde entre faixas dançantes (Kick Your Game) e composição essencialmente sedutoras (Diggin’ on You), acertado em cheio o grande público. O resultado não poderia ser outro: CrazySexyCool passou dois anos em destaque nas principais paradas de sucesso, vendeu 23 milhões de cópias ao redor do mundo e ainda posicionou o TLC no grupo dos gigantes do R&B.

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Mary J. Blige
My Life (1994, Uptown)

Mary J. Blige é dona de um catálogo invejável de obras lançadas nos anos 1990. Do bem sucedido debut What’s the 411? (1992), passando por Share My World (1996), até alcançar o sóbrio Mary (1999), cada disco assinado pela nova-iorquina transmite confissão e plena maturidade. Todavia, mesmo dentro desse universo de obras memoráveis, poucos trabalhos da cantora refletem a mesma carga de acertos do melancólico My Life. Autobiográfico e fragmentado entre o Hip-Hop e o R&B, o segundo álbum solo de Blige é um passeio pela vida conturbada da artista durante o período em que foi composto. Separação, problemas com as drogas, depressão e medo, cada faixa do trabalho usa de uma série de artifícios contidianos da cantora para crescer lírica e sentimentalmente. Comandado por Puff Daddy, o disco concentra algumas das composições mais importantes da carreira da Blige, caso de Be Happy, I Never Wanna Live Without You e I’m Goin’ Down, faixas que transportaram a cantora para o topo das paradas de R&B/Hip-Hop da época e parecem tão atuais hoje, quanto na época em que foram lançadas.

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D’Angelo
Sugar Brown (1995, EMI)

Os detalhes se espalham por toda a composição de Sugar Brown. Registro de estreia do cantor e multi-instrumentista D’Angelo, o álbum lançado em julho de 1995 levou um ano até ser finalizado, efeito do isolamento do músico – responsável pela gravação de praticamente todos os instrumentos do disco, bem como pela assinatura dos arranjos que o definem. O resultado está impresso em uma obra intimista, propósito que inicia na autointitulada música de abertura e segue em meio a composições como Alright e Smooth. Carregado de referências aos clássicos do R&B / Soul da década de 1970 – principalmente Al Green e Prince -, Sugar Brown foi todo concebido a partir de instrumentos vintage e aparelhos de gravação analógicos, o que explica o caráter “empoeirado” impregnado em cada falsete ou acorde do disco. Registro mais importante do gênero durante o período, a estreia de D’Angelo não apenas foi bem recebida pela crítica, como viu o público levar músicas como Cruisin’ e Lady para as principais paradas de sucesso da época. Influência para Erykah Badu, Lauryn Hill e outros nomes de peso do período, Sugar Brown é a base para toda a geração do Neo-Soul nos anos 2000 – como Justin Timberlake e Janelle Monáe -, além de servir como base para o também brilhante Voodoo (2000).

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Groove Theory
Groove Theory (1995, Epic)

A estreia do Groove Theory é o típico caso de um disco que não chegou a alcançar o grande público, mas conquistou e influenciou um grupo importante de seguidores fieis. Aos comandos de Bryce Wilson, produtor executivo e principal compositor do trabalho, o registro é uma coleção de temas ora melancólicos, ora sedutores, típicos do R&B da época. A diferença em relação ao abrangente time de cantores e grupos que ocupavam a música da época está no completo minimalismo da obra, orquestrada por Wilson e traduzida nos vocais de Amel Larrieux. Longe da gama de registros referenciais, a autointitulada estreia é uma obra atenta ao próprio tempo, sonoridade traduzida nas batidas eletrônicas e colagens sintéticas – por vezes íntimas do Trip-Hop. Mesmo com faixas voltadas ao grande público – caso de Baby Luv e Keep Trying -, o disco nunca ultrapassou a atmosfera tímida que havia construído, fugindo das massas para atingir nomes como Beyoncé e Mary J. Blige. Com a saída de Larrieux, em 1999, Wilson até tentou seguir com o projeto, abandonado em 2000 durante a produção de The Answer.

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R. Kelly
R. Kelly (1995, Jive/Zomba)

Enquanto D’Angelo transformou Sugar Brown em uma obra nostálgica, transportando a música negra para o passado, ao alcançar o segundo disco solo no mesmo ano, R. Kelly manteve os dois pés no presente. Urbano, o registro apresentado em novembro de 1995 é um passo além em relação ao que o cantor havia testado em 12 Play, de 1993, ou mesmo em relação ao pop Born into the 90′s (1990), registro em parceria com o Public Announcement. Trata-se de uma obra confessional, tecida por romantismo (Not Gonna Hold On), sensualidade (You Remind Me Of Something) e todas as ferramentas líticas necessárias para um trabalho bem sucedido do gênero. Dosando a sutileza das vozes e bases com elementos típicos do Hip-Hop, Kelly cria um ambiente coeso para que nomes como The Notorious B.I.G. possam circular pela obra – preferência reforçada no sucessor R. (1998). Com críticas favoráveis e comparações ao trabalho de Marvin Gaye e Prince, Kelly ainda veria o trabalho alcançar o topo das paradas de sucesso, encontrando na atmosfera delicada o caminho seguro para toda uma sequência de obras que seriam lançadas nos anos 2000.

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Mariah Carey
Daydream (1995, Columbia)

Butterfly (1997) pode até ser o grande sucesso comercial de Mariah Carey na década de 1990, contudo, é no interior de Daydream que sobrevivem algumas das faixas mais significativas da carreira da cantora. Inaugurado pelo toque dançante de Fantasy - música que resgata samples de Genius of Love do Tom Tom Club -, o quinto álbum de Carey dosa instantes de evidente comunicação com o pop, caso de Always Be My Baby, e faixas que se acomodam no típico cenário do R&B da época, vide a parceria com o Boyz II Man em One Sweet Day. Grandioso, o álbum sobrepõem uma sequência rara de faixas essencialmente comerciais e ainda assim distantes de qualquer teor descartável. Da abertura quente, passando por composições mais lentas (Underneath the Stars), faixas orquestrais (When I Saw You) e até criações de arranjos minimalistas (Melt Away), cada música espalhada pelo registro reforça o perfumada dos sentimentos de Carey, pela primeira vez responsável por grande parte dos versos encaixados no disco. Ponto de partida para o ápice comercial da artista, Daydream é o registro que marca a transformação e explícita maturidade de Carey, pronta para seduzir o grande público.

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Maxwell
Maxwell’s Urban Hang Suite (1996, Columbia)

Se Erykah Badu carrega o título de “rainha do Neo Soul” e D’Angelo o de “rei”, então Maxwell talvez seja o “príncipe” responsável por todas as mudanças que orientaram a música negra nos anos 1990. Naturalmente inclinado a produzir uma obra autoral, o multi-instrumentista original de Nova York fez do debut Maxwell’s Urban Hang Suite uma espécie de regresso aos bons anos da Funk Music na década de 1970. Sedutor, o disco recicla de forma transformada uma série de conceitos antes apresentados por Marvin Gaye, Curtis Mayfield e Barry White, fazendo da voz de Maxwell o ponto central da obra. Conceitual (e ao mesmo tempo autobiográfico), o álbum acompanha todo o ciclo de um casal, partindo do primeiro encontro (Welcome), até o desfecho triste que surge nas últimas faixas do disco. Curioso observar que mesmo o hermetismo proposital da obra não custou a impressionar o público. Com boas vendas, Maxwell’s Urban Hang Suite garantiu ao músico uma série de obras assertivas – todas elas guiadas pelo mesmo tratamento dado ao debut.

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Aaliyah
One in a Million (1996, Blackground, Atlantic)

A forte relação com o Hip-Hop, expressa logo no debut Age Ain’t Nothing but a Number, de 1994, surge delicadamente adaptada em One in a Million. Segundo registro em estúdio de Aaliyah, o álbum ecoa letargia em meio a experimentos atípicos para o R&B plástico que crescia na época. Produzido e composto em grande parte pela dupla Missy Elliott e Timbaland, o registro transforma a cantora nova-iorquina em uma assertiva ferramenta, conduzida de forma precisa a cada novo ato do trabalho. Econômico, o disco borbulha samples sutis e batidas encobertas pelo grave, espalhando de forma aleatória elementos percussivos assinados pelo brasileiro Paulinho da Costa. Ainda que acompanhada por nomes como Slick Rick (Got to Give It Up) e Treach (A Girl Like You), além dos próprios produtores do álbum em algums faixas, One in a Million é um disco em que a voz da cantora que se destaca em essência. Entre músicas provocantes (Hot Like Fire) e confessionais (The One I Gave My Heart To), Aaliyah viria a estabelecer as bases para toda a nova safra de representantes do Soul/R&B.

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Erykah Badu
Baduizm (1997, Kedar/Universal)

Em um sentido oposto ao que direcionava o R&B no final da década de 1990 – cada vez mais eletrônico e eufórico -, Erykah Badu apareceu com o primeiro álbum de estúdio acomodada em arranjos minimalistas e vozes límpidas. Intitulado Baduizm, o tratado de 14 faixas – algumas delas pequenas vinhetas – é uma fuga parcial das experiências alcançadas no Soul da década de 1970, bebendo diretamente dos clubes de Jazz e outras referências instaladas nos primórdios da música negra – vide a presença do jazzista Bobby Bradford. A linha de baixo segura parece servir de base para a voz hipnótica da cantora, sempre a destilar os próprios sentimentos em composições como No Love, Otherside of the Game e demais blocos melancólicos da obra. Ponto de partida para a série de registros que dariam vida ao Neo Soul, Baduizm é uma obra de encontros. Ainda que o caráter nostálgico das vozes, temas e arranjos transportem o ouvinte ao passado, parte significativa da obra se mantém voltado ao presente da época em que foi lançado. Não por acaso nomes como The Roots e outros músicos da época passeiam pelo registro, forçando Badu a se dividir por entre diferentes décadas e tendências.

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Lauryn Hill
The Miseducation of Lauryn Hill (1998, Columbia)

Por mais que The Miseducation of Lauryn Hill seja encarado como o primeiro álbum da carreira de Lauryn Hill, considerar a cantora/rapper uma iniciante em 1998 seria um erro brutal. Outrora integrante do coletivo Fugees e colaboradora frequente em uma série de obras lançadas nos anos 1990, Hill encontrou no próprio debut um espaço para comprovar toda a maturidade que havia acumulado. Carregado por referências e temas autobiográficos, o disco é um passeio por pela trajetória da artista, indo dos corais de música gospel que a artista frequentou na infância, passando pelos flertes com o reggae do Fugees, até o espaço conquistado dentro da cena Hip-Hop. Único registro em estúdio de Hill, The Miseducation… é a casa de um grupo de faixas que acertaram em cheio o grande público – Everything Is Everything e Doo Wop (That Thing) – e ao mesmo tempo obrigaram a crítica a se curvar perante a cantora. Resumo não intencional de tudo o que definiu a produção do período, o trabalho ainda abre passagem para que D’Angelo, Mary J. Blige e outros personagens relevantes da época circulem com liberdade, tirando Hill do isolamento da própria obra.

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Destiny’s Child
The Writing’s on the Wall (1999, Columbia)

Dos cinco registros em estúdio lançados pelo Destiny’s Child, The Writing’s on the Wall talvez seja o álbum que melhor traduz a proposta e a plena colaboração do coletivo texano. Menos “controlado” em relação ao debut apresentado um ano antes, o registro de 1999 comprova o acerto na maior participação e interferência do grupo de vocalistas – na época formado por Beyoncé Knowles, LaTavia Roberson, Kelly Rowland e LeToya Luckett -, assumindo parte dos versos e produção da obra. Claro que comandar as rédeas do trabalho não distanciou as garotas de um típico exemplar da música pop. A julgar pela boa repercussão em cima dos quatro singles - Bills, Bills, Bills, Bug a Boo, Say My Name e Jumpin, Jumpin -, o segundo trabalho em estúdio do grupo é o mais acessível comercialmente e, ainda hoje, o mais lembrado pelos fãs. Parte do acerto do registro vem do time de produtores encabeçado por Missy Elliott, além, claro, da própria Beyoncé, capaz de resumir aspectos que viriam a ser reforçados no debut solo Dangerously in Love (2003).

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Disco: “Hyperdub 10.2″, Vários Artistas

Vários Artistas
Electronic/R&B/Experimental
http://www.hyperdub.net/

Por: Cleber Facchi

Durante grande parte dos anos 2000, a maioria dos trabalhos lançados pela Hyperdub Records partiram de uma mesma base musical: o dubstep. Sob o comando de Steve Goodman (Kode9), o selo britânico entregou ao público desde clássicos como Untrue (2007), do Burial, até singles e EPs assinados por nomes de peso da época, caso de Zomby, The Bug e Mark Pritchard. Não por acaso Hyperdub 10.1 (2014), coletânea comemorativa de dez anos do selo lançada há poucas semanas, trouxe um conjunto de faixas alimentadas pelo gênero.

Em um sentido oposto aos primeiros anos do selo e centrado no recente casting da gravadora, Hyperdub 10.2 (2014) apresenta ao público o lado mais “estranho” e, ainda assim, comercial do coletivo. Com um pé no R&B e outro nas ambientações eletrônicas que circulam pelo ainda quente novo acervo do selo, nomes como Dean Blunt, Inga Copeland, Jessy Lanza e Cooly G dividem espaço com veteranos como Burial e Kode9 em meio a faixas marcadas em essência pela melancolia.

Livre da euforia, batidas instáveis e toda a atmosfera construída da primeira (e extensa) parte da coletânea, 10.2 carrega na sobreposição dos temas uma atmosfera envolvente. Mesmo os parceiros Dean Blunt e Inga Copeland, tradicionalmente marcados pela construção de faixas sujas e complexas, usam da inaugural Signal 2012 de forma a confortar o ouvinte. Dentro desse propósito, vocalizações lentas e arranjos típicos do Soul/R&B dos anos 1990, servem de base para o surgimento de faixas inéditas – como Obsessed, de Cooly G -, ou mesmo o resgate de criações já conhecidas – caso de 5785021, da cantora Jessy Lanza.

Tal qual a coletânea lançada em maio, o presente compilado se divide em dois blocos de composições quase aproximadas. Para a primeira metade do trabalho, músicas como Shell Of Light e Solid tentam amarrar as pontas com a seleção de 10.1, emulando referências do 2-Step, ou mesmo reformulando o R&B dentro da fase inicial da Hyperdub. Uma espécie de continuação do último álbum e ao mesmo tempo um aquecimento para o restante da obra, delineada pela grandiosidade dos temas e faixas que esbarram no pop. Continue reading

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TOPS: “Way to be Loved”

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Se você é um daqueles apaixonados pela reciclagem de ritmos da década de 1980, então o trabalho da TOPS é mais do que obrigatório. Um dos projetos mais interessantes da presente cena californiana, a banda de Montreal reserva para o dia dois de setembro a chegada de mais um novo registro de estúdio. Lançado pelo selo Arbutus Records, Picture You Staring teve as portas abertas com o lançamento de Way to be Loved, novo single da banda.

Perfumado pela música lançada há três décadas, a composição sujinha percorre a trilha dos últimos inventos do grupo – desde o começo de carreira focado na mesma sonoridade. Recomendada para quem já acompanha o trabalho de Sean Nicholas Savage, Ariel Pink e outros artistas do gênero, Way to be Loved conduz o ouvinte por quatro minutos de guitarras brandas, batidas comportadas e a voz doce de Jane Penny, vocalista do quarteto.

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TOPS – Way to be Loved

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Disco: “Vigília”, Terno Rei

Terno Rei
Dream Pop/Lo-Fi/Experimental
https://soundcloud.com/ternorei/

Por: Cleber Facchi
Fotos: Fabio Ayrosa

Vigília
s.f. Privação (voluntária ou involuntária) do sono durante a noite: longas noites de vigília prejudicam a saúde. / Estado de quem se conserva desperto durante a noite. / Véspera de dia festivo.

É preciso tempo até ser inteiramente seduzido pelo ambiente instável que a paulistana Terno Rei sustenta em Vigília (2014, Balaclava). E não é por menos. Do momento em que lisérgica Manga Rosa abre o registro, até a chegada de Saudade, composição escolhida para o encerramento da obra, cada faixa, voz, ritmo e sentimento expresso pelo quinteto – Bruno Rodrigues (Guitarra), Gregui Vinha (Guitarra), Luis Cardoso (Bateria), Victor Souza (Percussão) e Ale (Voz e Baixo) -, ecoa estranheza.

Como um labirinto instável que movimenta lentamente suas paredes, o trabalho de 10 faixas arrasta com o ouvinte para um universo de brandas, porém, constantes inquietações. Os vocais chegam como suspiros, as guitarras borbulham pequenos ruídos, deixando aos versos um flutuar proposital entre o nonsense e o sorumbático. Não seria errado deduzir que tudo o que os integrantes da banda procuram é o isolamento em relação ao público médio, efeito das maquinações preguiçosas (ainda que complexas) que sussurram a ordem do disco.

Todavia, longe de afastar o publico, Vigília aos poucos seduz e se apodera com cuidado a mente do espectador. Salvo o dinamismo (controlado) de faixas como Passagem, cada música do álbum cresce sob precisa timidez, como se estivesse prestes a se desfazer nos fones de ouvido. Mesmo que o caráter “Lo-Fi” da obra pareça bloquear tal aspecto, todas as composições do disco sobrevivem em essência do detalhe, acomodando acordes atmosféricos – típicos do Pós-Rock – com uma precisão rara dentro de outras obras recentes da cena nacional.

Regressar uma dezena de vezes ao território delicado do álbum é uma imposição que parte da banda, mas que merece ser seguida por qualquer espectador. Embaixo dos escombros sujos que as guitarras de Bruno Rodrigues e Gregui Vinha deixam pelo disco, há sempre um componente novo a ser filtrado. É o trompete que cria contraste em Salto da pedra da Gavea, a base doce que passeia ao fundo de Ela – no melhor estilo The Pastels – e até as vozes duplicadas de O Fogo Queimaria. Vigília. Livre de qualquer urgência natural, é uma obra que se entrega ao público, pronta para ser desvendada. Continue reading

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Disco: “Trouble in Paradise”, La Roux

La Roux
Electronic/Synthpop/Female Vocalists
http://www.laroux.co.uk/

Por: Cleber Facchi

La Roux

Elly Jackson não poderia ter assumido uma estratégia mais corajosa do que os quatro anos de hiato que antecedem Trouble in Paradise (2014, Polydor). Longe da euforia, sintetizadores chiclete e versos fáceis que se projetam de Bulletproof e I’m Not Your Toy – algumas das faixas mais comerciais do álbum de estreia, lançado em 2009 -, a cantora/produtora britânica alcança o segundo registro de estúdio reforçando uma postura rara em tempos de produções urgentes e obras que normalmente chegam cruas aos ouvintes.

Lento, mas não estático, o presente disco é um passo além em relação ao furor oitentista que organizou grande parte da produção musical na década passada. Ainda íntima da New Wave instalada no single de estreia Quicksand, de 2008, Jackson transforma o novo álbum em uma obra de transição. Por mais que a inaugural Uptight Downtown estenda o exercício projetado no disco de estreia, à medida que a cantora atravessa a obra, o teor nostálgico da década de 1980 se encontra com os anos 1990 e 1970, reforçando a base conceitual do La Roux. Onde antes reinavam projetos como Eurythmics, A-Ha e The Human League, agora surgem gigantes como Grace Jones e Donna Summer.

Apresentado em idos de maio pela extensa Let Me Down Gently, Trouble in Paradise logo foi encarado como uma obra de oposição ao exercício frenético exposto no debut de Jackson. Todavia, não é preciso muito esforço para perceber como a mesma música pop da britânica ainda permanece a mesma, apenas detalhada em uma nova estrutura. Mesmo que canções como Tropical Chancer ou a inaugural Uptight Downtown apostem em uma tonalidade calorosa e propositadamente letárgica, por todo o trabalho músicas como Kiss and Not Tell e Sexotheque resgatam a essência do álbum anterior, arrastando o ouvinte para a pista.

É dentro desse universo de colagens, resgates e pequenas adequações que reside o grande acerto do disco. Enquanto The Ting Tings, Ladyhawke e outros artistas que surgiram na mesma época se acomodaram em uma terrível zona de conforto, Elly Jackson foi além, investindo na transformação. Sim, Trouble in Paradise está longe de ser um álbum encarado como “clássico”, tampouco parece capaz de igualar o acervo de faixas pegajosas do álbum passado, todavia, longe da redundância imediata e do autoplágio autoral que sobrevive do fanatismo cego do público, Jackson evita a redundância e aposta no novo. Trata-se de uma obra de passagem, uma seta indicando os acertos, tropeços e novas possibilidades da cantora ao velho público. Continue reading

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Cozinhando Discografias: R.E.M.

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado muito mais democrático.

Formado em 1980 por Bill Berry, Peter Buck, Mike Mills e Michael Stipe, o R.E.M. ocupa um lugar de destaque como uma das pioneiras do Rock Alternativo. Inspiração confessa para o trabalho de grupos como Pavement, Nirvana, Pearl Jam, Guided By Voices e outros gigantes da música, o quarteto original da cidade de Athens, Geórgia sustentou ao longo de três décadas – e três fases distintas – uma coleção de obras tão influentes, quanto referenciais.

Inicialmente voltado ao College Rock/Jangle Pop que homenageava bandas como Big Star e The Byrds, o grupo aos poucos dissolveu elementos do folk e country, flertou eletrônica e ainda brincou com uma série outros experimentos ocasionais. Com uma sonoridade diferente a cada novo álbum, o grupo que encerrou suas atividades em meados de 2011 é de longe o responsável pela discografia mais difícil de ser organizada que já passou pela seção. Continue reading

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Aperitivo: Zola Jesus

Zola Jesus

Um novo disco a caminho? Aquele artista que você tanto gosta vai lançar um projeto inédito nas próximas semanas? Então se delicie com o nosso Aperitivo. São 15 composições – autorais, remixes, mixtapes – ou mesmo versões criativas de faixas de outros artistas que resumem o trabalho daquela banda ou produtor que você tanto gosta. Nada de ordem, preferência ou classificação aparente. Apenas um conjunto de músicas capazes de resumir a proposta do artista selecionado.

Depois de três registros de inéditas - The Spoils (2009), Stridulum II (2010) e Conatus (2011) -, uma série de EPs e um trabalho de regravações, Nika Danilova reserva para o dia sete de outubro a chegada de Taiga (2014), o quarto álbum à frente do Zola Jesus. Passada a transformação exposta em Dangerous Days, primeiro single do novo álbum, nada melhor do que visitar a obra da cantora e resgatar algumas de suas criações mais significativas – pelo menos até agora. Singles, versões e até mixtapes (antigas ou recentes) que resumem a extensa produção de Danilova e ainda servem como aquecimento para o próximo disco. Continue reading

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Gouveia Phill: “Therd´ominia”

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Responsável por algumas das composições mais viajantes que surgiram nos últimos meses, o paraibano Gouveia Phill surge agora com mais uma faixa guiada pelo delírio. Com quase oito minutos de duração, Therd´ominia brilha como uma expansão dos arranjos e bases instaladas nas antecessoras Salvat’oria e Serena, espalhando em ambientações versáteis a abertura para um território novo dentro curta obra do músico.

Dividida em três partes, a canção abre em meio a flertes com o pós-rock, se acomoda em uma atmosfera tímida e encerra de forma hipnótica, com Phill espalhando de forma sutil guitarras e vocais enevoados. Menos “acústica” que as demais criações do músico, Therd´ominia se sustenta pelos detalhes, obrigando a completa atenção do espectador.

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Gouveia Phill – Therd´ominia

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Disco: “Celestite”, Wolves in the Throne Room

Wolves in the Throne Room
Ambient/Drone/Instrumental
http://www.wittr.com/

Por: Cleber Facchi

A lenta transformação iniciada pelos irmãos Nathan e Aaron Weaver em Celestial Lineage, de 2011, atinge somente agora seu estágio final. Em Celestite (2014, Artemisia), quinto trabalho em estúdio do Wolves in the Throne Room, toda imposição caótica lançada nos primeiros anos da banda se organiza por completo. Completa desarticulação do Atmospheric Black Metal antes testado pelo duo, o novo álbum é a passagem para um cenário delicado e etéreo, trazendo na leveza o novo acervo instrumental do grupo.

Da mesma forma que os discos que o antecedem, o presente registro articula em atos lentos a estrutura de cada nova composição. Livre dos vocais, a dupla se concentra no uso apurado de texturas harmônicas, fazendo com que mesmo Bridge of Leaves, a canção mais curta do álbum, cresça substancialmente, como uma imensa colagem de ideias. Toda essa transformação vem da nova estrutura da banda, parcialmente livre das guitarras e investindo pesado no uso de sintetizadores – a principal “arma” do trabalho.

Mais do que substituir um instrumento por outro, ao entrar no território do quinto disco, o público mais uma vez é apresentado a todo um novo catálogo de referências. Se antes a dupla norte-americana parecia trilhar com firmeza em um caminho sombreado do Black Metal, aqui ela flutua. São faixas que escapam do delineamento orgânico e terreno – bem representado na capa do último disco -, para seguir em direção ao cosmos. Não por acaso Celestite carrega este título, um resumo das pequenas adequações da banda rumo ao espaço.

Espécie de trilha sonora para algum clássico da ficção científica nos anos 1970 – talvez Solaris (1972) ou Logan’s Run (1976) -, o novo álbum WITTR é uma obra que sobrevive de pequenas adaptações de conceitos – grande parte delas lançadas há três ou mais décadas. Há desde referências ao trabalho de veteranos da New Age, como Vangelis em Turning Ever Towards the Sun, até flertes com o Krautrock, relação escancarada no diálogo com o Tangerine Dream em Celestite Mirror. Continue reading

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Alt-J: “Left Hand Free”

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Ao que tudo indica, This Is All Yours (2014), segundo e mais novo álbum do Alt-J, não deve se concentrar em uma mesma base instrumental. Contrariando o teor homogêneo do debut An Awesome Wave (2012), e diferente do resultado experimental/climático de Hunger Of The Pine, faixa lançada há poucas semanas, a nova música do trio britânico, Left Hand Free, entrega ao ouvinte o lado mais enérgico e comercial do projeto.

Pequena mostra do lado “rock” do grupo, a faixa de quase três minutos acumula guitarras rápidas, ruídos e elementos que quase esbarram no Arctic Monkeys do disco AM (2013). Com os dois pés na década de 1970, a música rompe com a complexidade natural do grupo, que mesmo ao soar acessível, não oculta a própria maturidade – já reforçada no lançamento do single anterior. This Is All Yours estreia no dia 23 de setembro.

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Alt-J – Left Hand Free

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