Artista: CEP
Gênero: Ambient, Eletrônica, Experimental
Acesse: https://thecreativeindependent.com/

 

A voz sempre foi encarada como um componente fundamental dentro da carreira de Caroline Polachek. Seja no pop nostálgico do Chairlift, projeto em parceria com o músico Aaron Pfenning, em canções produzidas para artistas como Beyoncé, caso de No Angel, e até no curioso Arcadia (2014), primeiro registro da cantora sob o título de Ramona Lisa, grande parte do material assinado pela artista norte-americana fez dos versos e vozes um estímulo para seduzir e conquistar o ouvinte.

Curioso perceber em Drawing The Target Around The Arrow (2017, Independente), novo registro solo de Polachek, a passagem para um ambiente dominado pela completa ausência dos vocais. Em entrevista ao site The Creative Independent, por onde lançou o trabalho de temas minimalistas  gratuitamente, a artista comentou a decisão: “Naturalmente eu queria experimentar, inserir a voz, afinal, é isso o que eu faço. Gravei [os vocais] e percebi que a coisa toda parecia desmoronar”.

De essência atmosférica, o registro de 18 composições inéditas se espalha sem pressa, sempre de forma contida, tímida. São sintetizadores, ruídos e colagens eletrônicos que funcionam como uma fina tapeçaria instrumental. Músicas detalhadas em um curto espaço de tempo – dois ou três minutos –, conduzindo o ouvinte para dentro de um cenário livre de possíveis excessos, como se Polachek evitasse ao máximo ultrapassar uma possível linha conceitual.

Na contramão de qualquer trabalho recente produzido por Polachek, Drawing The Target Around The Arrow é um registro que investe no completo isolamento das canções. Trata-se de uma obra hermética, por vezes difícil de ser absorvido, efeito da forte similaridade entre as canções. Melodias tímidas e loops simples, despidos do mesmo universo de texturas e sobreposições complexas que alimentam grande parte dos trabalhos protegidos sob o rótulo de “ambient music”.

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Artista: Brian Eno
Gênero: Experimental, Ambient Music, Eletrônica
Acesse: http://www.brian-eno.net/

 

Em maio de 2016, Jeremy Allen, do site FACT Magazine, escreveu uma curiosa análise sobre o lançamento de obras cada vez mais extensas. Um possível reflexo das novas regras propostas por diferentes serviços de streaming – caso de Spotify e Apple Music. Trabalhos como The Colour in Anything, de James Blake, e Views, do rapper Drake que se perdem em meio a um número excessivo de composições, muitas delas desnecessárias, produzidas apenas para aumentar a renda captada em torno do registro.

Na contramão desse “movimento”, o britânico Brian Eno apresenta o atmosférico Reflection (2017, Warp). Entregue ao público poucos meses após o lançamento do elogiado The Ship (2016), obra marcada pela experimentação e uso atípico da voz dentro dos trabalhos do produtor, o novo disco segue a trilha de obras recentes como Lux (2012), fazendo da lenta sobreposição das melodias e temas eletrônicos a base da extensa (e única) composição do disco.

Longe de parecer uma novidade dentro da discografia de Eno, o trabalho de exatos 54 minutos de duração parece seguir a trilha de outro experimento produzido pelo artista em meados da década de 1980, Thursday Afternoon. Trata-se de uma peça única, 60 minutos de duração, uma versão reduzida da trilha sonora produzida para um vídeo que registra a montagem de sete telas da artista Christine Alicino, amiga de longa data do músico inglês.

Reflection, como o próprio título indica, estabelece um precioso de diálogo musical com os antigos trabalhos de Eno. Uma delicada reciclagem de conceitos e temas minimalistas, como se fragmentos de velhos registros produzidos pelo veterano fossem cuidadosamente resgatados e espalhados de forma sutil durante toda a construção do álbum. Um novo e, ao mesmo tempo, nostálgico capítulo dentro da extensa seleção de obras ambientais produzidas por Eno.

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Artista: Dedekind Cut
Gênero: Experimental, Ambient, Eletrônica
Acesse: https://leebannon.bandcamp.com/

 

Um ruído minimalista que se esconde em meio a melodias enevoadas de sintetizadores. O canto etéreo que se espalha ao fundo de cada composição, como um instrumento. Samples, colagens e batidas que se entrelaçam de forma sutil, sempre misteriosa. A música de Fred Warmsley parece montada a partir de detalhes, segredos e pequenas descobertas. Um universo próprio, estímulo para as canções hipnóticas de $uccessor (ded004) (2016, Non / Hospital), primeiro trabalho do produtor como Dedekind Cut.

Mais conhecido pelos experimentos abstratos lançados sob o título de Lee Bannon, além, claro, de músicas produzidas para diferentes artistas, como Pro Era e Joey Bada$$, Warmsley faz de cada composição dentro do presente álbum um ato de plena descoberta. Trata-se de uma versão minimalista, mas não menos inventiva do mesmo som produzido pelo norte-americano há poucos mais de um ano, durante o lançamento do também climático Pattern of Excel (2015).

Em um sentido próprio, embora íntimo de veteranos (William Basinski, Keith Fullerton Whitman) e “novatos” (Jefre Cantu-Ledesma, Huerco S.) da música ambiente, Warmsley encara cada faixa ao longo do disco como um objeto isolado, precioso. São pinceladas atmosféricas que se espalham sem pressa, como um convite, conduzindo o ouvinte a provar de cada fragmento dissolvido pelo artista. Um cuidado que se estende da abertura do álbum, em Descend From Now até a derradeira 46:50.

Captações sujas e vozes quebradas em Fear In Reverse, sintetizadores emulando arranjos de cordas na delicada Maxine, uma densa massa sonora que abastece ☯. Assim como nas canções que levam a assinatura de Lee Bannon, cada faixa de $uccessor (ded004) transporta o ouvinte para um cenário completamente novo, inusitado. Instantes em que o ouvinte flutua entre nuvens de melodias eletrônicas, despencando lentamente em direção a um oceano de ruídos e detalhes minuciosos.

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Artista: Steve Hauschildt
Gênero: Experimental, Ambient, Electronic
Acesse: https://www.facebook.com/stevehauschildt/

 

Os últimos cinco anos foram bastante produtivos para Steve Hauschildt. Com o fim das atividades do Emeralds, projeto montado em parceria com os músicos John Elliott e Mark McGuire, o produtor original da cidade de Bay Village, Ohio passou a se dedicar na construção de obras marcadas pela sutileza dos detalhes. Registros como Tragedy & Geometry (2011), S/H (2013) e o último deles, o complexo Where All Is Fled, de 2015.

Em Strands (2016, Kranky), mais recente invento autoral de Hauschildt, melodias e bases minimalistas se espalham sem pressa, como se o produtor norte-americano se concentrasse apenas na manipulação dos detalhes. Uma lenta sobreposição de sintetizadores e ruídos eletrônicos, conceito explícito logo nos primeiros instantes do disco, em Horizon of Appearances, música que dialoga de forma nostálgica com a essência de veteranos da Kosmische Musik, como Tangerine Dream e Ash Ra Tempel.

São mantras eletrônicos que investem abertamente na completa repetição das bases e vozes ecoadas, percepção reforçada a cada novo ato do trabalho, mesmo na curtinha A False Seeming, música que se fecha em um cuidadoso looping instrumental. O mesmo conceito acaba se repetindo em Transience of Earthly Joys, faixa que utiliza de pianos delicadamente espalhados em uma atmosfera sombria – no melhor estilo Tim Hecker –, para prender a atenção do ouvinte.

Da curta discografia produzida com os parceiros do Emeralds, Hauschildt transporta para dentro do disco a lenta sobreposição de temas eletrônicos. Um bom exemplo disso está dentro de Same River Twice. Em intervalo de seis minutos, o músicos espalha uma sequência de melodias cósmicas, farelos instrumentais e bases eletrônicas que ocupam todas brechas da composição, a mesma atmosfera incorporada ao álbum Does It Look Like I’m Here?, de 2010.

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Íntimo apenas de um público muito específico, David Moore acabou ganhando destaque há dois anos, durante o lançamento do álbum Tomorrow Was The Golden Age – 23º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2014. Um dos grandes nomes da Ambient Music atual, o compositor norte-americano anuncia para fevereiro do próximo ano a chegada de mais um novo álbum repleto de composições inéditas.

Intitulado No Home of the Mind (2017), o novo disco segue exatamente de onde o músico parou no último registro de inéditas, revelando ao público um universo de canções minimalistas, sempre atmosféricas. Composição escolhida para apresentar o registro, Starwood Chocker cresce preguiçosa, delicada, detelahando melodias que escapam do piano de Moore. Junto da canção, um bucólico clipe dirigido por Sébastien Cros.

No Home of the Mind (2017) será lançado no dia 17/02 via 4AD.

 

Bing & Ruth – Starwood Choker

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Basta um olhar atento para perceber uma série de referências e pequenas citações ao universo de animes e mangás dentro da extensa obra de Cadu Tenório – como na capa de Vozes (2014) e nas composições de Rimming Compilation (2016). Nada que se compare ao recém-lançado Lzana, primeiro registro da parceria entre o músico carioca e a conterrânea Melissa Daher, produtora responsável pelos improvisos que movem o projeto Salisme.

Do título do trabalho, uma alteração entre as letras “i” e “l” no nome de Izana, da série Knights of Sidonia, passando por Claudette (de Queen’s Blade) e Envy (de Full Metal Alchemist), todas personagens sem gênero, Tenório e Daher fazem de cada composição do trabalho uma curiosa “homenagem”. São ambientações minimalistas, ruídos e sobreposições produzidas de forma caseira durante uma rápida sessão da dupla que durou apenas duas horas.

 

Lzana – Lzana

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Seja em carreira solo ou como integrante do extinto Emeralds, a música produzida por Steve Hauschildt sempre transportou o público para um cenário marcado pela leveza das melodias e experimentos eletrônicos contidos. Em Strands não poderia ser diferente. Mais recente composição do músico norte-americano e faixa escolhida para anunciar o novo trabalho do artista parece dançar pela mente do ouvinte, transportado para um cenário de formas flutuantes.

Sem pressa, sintetizadores brandos cercam o ouvinte lentamente, revelando um catálogo de texturas atmosféricas e ambientações minimalistas que se escondem dentro de cada fragmento melódico conduzido pelo músico. Difícil não lembrar da série de obras produzidas por Brian Eno no final da década de 1970 ou mesmo dos registros em carreira solo dos velhos companheiros de banda, principalmente o guitarrista Mark McGuire.

Strands (2016), será lançado no dia 28/10 via Kranky.

Steve Hauschildt – Strands

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Artista: Sentidor
Gênero: Ambient, Experimental, Electronic
Acesse: http://sentidor.bandcamp.com/

 

Os cenários esverdeados e aconchegantes do interior do Brasil pouco a pouco são montados na cabeça do ouvinte durante a audição de Memoro Fantomo_Rio Preto (2016, Independente). Mais recente trabalho de inéditas do mineiro João Carvalho como Sentidor, o registro de treze faixas não apenas revela o uso atento de texturas e ambientações eletrônicas típicas de grandes nomes da cena estrangeira, como reflete com naturalidade sensação de mudança a cada novo fragmento instrumental, fazendo do registro uma obra viva.

Como indicado no próprio título do trabalho, o sucessor do também delicado Dilúvio, de 2015, se divide de forma explícita em dois atos distintos. Na primeira metade, Memoro Fantomo. São oito composições em que Caravalho parece confortar o ouvinte. Paisagens, cenas e pequenos acontecimentos cotidianos remontados de forma instrumental. Em Célula_1, por exemplo, terceira faixa do disco, é possível visualizar um grupo de crianças brincado em um fim de tarde, proposta que muito se assemelha ao clássico Music Has the Right to Children (1998), da dupla Boards of Canada.

Da abertura do disco, em Os Momentos Plenos Da Minha Vida São Verdes, passando por faixas como Dezembro, Guara Pari, Inverno até alcançar a derradeira Nascer Do Sol, Janeiro, Carvalho parece jogar com as sensações do ouvinte. Um jogo atento de sintetizadores sobrepostos, fragmentos de vozes e pequenos entalhes eletrônicos. Sem pressa, cada composição nasce como um ato isolado, curioso, histórias contadas mesmo na ausência de voz, como se diferentes personagens e cenários fossem apresentados ao público no interior de cada canção.

Em Rio Preto I, nona faixa do disco, a passagem para um novo universo de composições. Enquanto todo o primeiro ato do trabalho parece refletir uma atmosfera acolhedora, pueril e matutina, efeito da profunda leveza de cada fragmento eletrônico, Carvalho faz do segundo bloco de canções uma completa inversão desse resultado. São canções densas, obscuras e amargas, como se a música do artista mineiro dialogasse com a noite, esbarrando vez ou outra na obra de artistas como Oneohtrix Point Never e, principalmente, Tim Hecker, influência confessa do músico.

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. Mais conhecido pelo música de abertura da excelente série da Netflix, Stranger Things (2016), o S U R V I V E é um projeto de Ambient Music/Synthpop original da cidade Austin, Texas. Aos comandos da dupla Kyle Dixon e Michael Stein, a banda acumula uma sequência de obras distribuídas de forma independente pelo Bandcamp. São registros essencialmente climáticos, nostálgicos e sombrios, íntimos da mesma atmosfera que marca a música tema da recente série de Sci-Fi/Horror. Com um novo álbum a caminho, RR7349 (2016), a dupla decidiu apresentar…Continue Reading “S U R V I V E: “A.H.B.””

Artista: Brian Eno
Gênero: Ambient, Experimental, Electronic
Acesse: http://www.brian-eno.net/

 

Perto de completar 70 anos de vida – dos quais 40 foram dedicados ao trabalho como músico, produtor e pesquisador musical –, Brian Eno continua tão ativo quanto no início dos anos 1970, quando foi oficialmente apresentado ao público. Em The Ship (2016, Warp), primeiro registro solo do compositor inglês desde o premiado Lux, de 2012, Eno reinventa aspectos curiosos da própria discografia, detalhando uma coleção de vozes e texturas atmosféricas que se espalham até o último instante da obra.

Em um imenso plano de detalhes, sussurros, captações de voz, pianos e bases etéreas, Eno se movimenta com tranquilidade, esmiuçando com atenção a extensa obra que se fragmenta em duas canções – The Ship e os três atos de Fickle Sun. Trata-se de uma completa desconstrução do trabalho apresentado há quatro anos pelo artista, proposta explícita na continua utilização de ruídos e ambientações soturnas que lentamente transportam o ouvinte para um cenário de agitações pouco morosas.

Enquanto Lux parecia dialogar com a mesma composição sublime de clássicos como Ambient 1: Music for Airports (1978), vide a manipulação controlada dos pianos e efeitos ambientais, em The Ship, Eno ruma em direção ao mesmo terreno sombrio de obras como Ambient 4: On Land (1982) e Apollo: Atmospheres and Soundtracks (1983). Composições que distorcem o pano de fundo criado pelo músico para reproduzir um cenário que parece interagir diretamente com o ouvinte, arremessado de um canto a outro do trabalho.

Basta um passeio pela faixa de abertura do disco, com seus mais de 20 minutos de duração, para perceber o universo de referências, colagens e inúmeras fórmulas instrumentais testadas pelo veterano. Sintetizadores inicialmente serenos, mas que acabam alcançando um detalhamento cósmico, passagem para a precisa utilização de vocais semi-robóticos na segunda metade da faixa – elemento “abandonado” pelo músico desde o álbum Another Day on Earth, de 2005.

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