Tag Archives: Ambient

Disco: “The Space Project”, Vários Artistas

Vários Artistas
Experimental/Ambient/Psychedelic
http://www.lefserecords.com/

Por: Cleber Facchi

Em 1977, o governo dos Estados Unidos enviou ao espaço as sondas Voyager I e II com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre Júpiter, Saturno e o restante dos planetas que compõem o eixo final do sistema solar. Em quase quarenta anos de missão, as duas sondas coletaram informações técnicas, milhares de imagens e um efeito curioso: o “som” dos planetas. Resultado de variações eletromagnéticas de luas, planetas, asteróides e outros corpos celestes, os curiosos ruídos são agora trabalhados como música dentro do mágico Space Project (2014, Lefse), uma coletânea pensada para o Record Store Day e que apresenta um time de artistas brincando com os sons da fronteira final.

Longe de parecer uma ideia original – basta recuperar o eixo inicial de My Girls, do Animal Collective para reforçar a experiência -, o projeto tende ao ineditismo por conta do bem escalado grupo de artistas que definem cada canção da obra. Seja pela presença (quase óbvia) do “astronauta”/veterano Jason Pierce, do Spiritualized, ao conjunto de “novatos” como Youth Lagoon, Beach House e The Antlers, cada minuto do registro de 14 faixas se entrega ao esforço lisérgico das vozes, arranjos e temas com verdadeiro acerto. Viajantes espaciais que não precisam sair de terra firme para transportar a mente do público para longe.

Alimentado pela comunicação atenta dos sons, Space Project vai além de uma mera coletânea ou coleção de ideias avulsas. Partindo de uma mesma matéria-prima – os angustiantes ruídos eletromagnéticos -, cada um dos artistas, mesmo partindo de ideias particulares, encerram a jornada com proximidade, em um mesmo ambiente estético. São vocalizações sujas, sintetizadores ordenados de forma climática e todas uma massa ruidosa de elementos que fazem da inaugural Giove, do Porcelain Raft, e Sphere of lo, de Larry Gus, fragmentos de um mesmo universo. As possibilidades, tal qual o espaço, são infinitas.

Com um pé na psicodelia e outro na Ambient Music, cada instante do trabalho se fragmenta em diferentes essenciais musicais. É possível encontrar desde faixas orquestradas com firmeza pelo Blues – caso de Blues Danube, canção assinada pela dupla Blues Control -, até composições que interpretam a música Folk em uma linguagem mística – vide o esforço do norte-americano Mutual Benefit na delicada Terraform. A diversidade, explícita na eletrônica de Long Neglected Words (Benoit & Sergio) ou no Dream Pop de Saturn Song (Beach House), nunca ultrapassa um limite específico: o de produzir uma trilha sonora para um passeio pelo espaço. Continue reading

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10 discos (recentes) para ouvir fazendo amor

10 discos para ouvir fazendo amor

A história da música está repleta de obras marcadas por gemidos, suspiros e composições pontuadas do começo ao fim pelo erotismo. Trabalhos que vão do soul de Marvin Gaye ao trip-hop do trio britânico Portishead em uma atmosfera de pura provocação e sensualidade evidente. Mas quais são os trabalhos recentes que conseguem mergulhar na mesma sonoridade? Obras que amenizam letras provocantes e arranjos lascivos em um mesmo cenário musical? Pensando nisso, a lista abaixo resgata 10 discos (recentes) para ouvir fazendo amor. São trabalhos lançados de 2010 até hoje e que cruzam as experiências do R&B, eletrônica, pop e rock em um catálogo de sons que funcionam de maneira ainda mais intrigante embaixo dos lençóis. Respire fundo, morda os lábios e prepare-se para fortes sensações. Continue reading

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Disco: “Pelicano”, Constantina

Constantina
Post-Rock/Instrumental/Experimental
http://www.constantina.art.br/

Por: Cleber Facchi

Constantina

Depois do oceano imenso desbravado no interior de Haveno, de 2011, a banda mineira Constantina opta pela economia na formação do brando Pelicano (2014, Independente). Mais recente invento do grupo de Belo Horizonte desde a chegada do abrangente registro, o presente álbum encontra na serenidade automática um ponto de sustento para grande parte das composições. São quatro atos extensos – Pelicano, Escafandro, Puerto Vallarta e Salva Vidas -, faixas orquestradas com a mesma firmeza (e leveza proposital) que anunciou o grupo há quase uma década.

Tendo no mar e no infinito particular desse cenário um combustível natural para a formação do disco, cada música segue em busca de uma solução aquática, mutável e sempre aventureira aos ouvidos do público. São mais de 40 minutos em que guitarras atmosféricas, sintetizadores e encaixes precisos de bateria se acomodam em uma transformação homogênea. Canções costuradas, como se cada acréscimo proposto pelo grupo – Alex Fernandino (guitarra), André Veloso (baixo), Bruno Nunes (guitarra), Daniel Nunes (bateria) e GA Barulhista (percussão e eletrônicos) – fosse calculado de forma sempre precisa.

Enquanto Haveno era orquestra do princípio ao fim pelo impulso, como uma representação natural da irregularidade que movimenta as ondas do mar, Pelicano soa como o fim de uma jornada. Uma sensação de que os meses à deriva foram presenteados por um ambiente de conforto e profundo acolhimento. Não por acaso todas as quatro faixas carregam títulos que compactuam com esse cenário, fornecendo abrigo (Puerto Vallarta), proteção (Salva Vidas) e uma constante percepção de que é possível alcançar a terra firme (Pelicano).

Parte da imposição doce que abriga as faixas do disco surge como um efeito natural ao número reduzido de integrantes na banda. Enquanto Haveno, ou mesmo os demais registros da banda vinham do fluxo versátil dos sete integrantes, em Pelicano os cinco membros assumem no minimalismo uma proposta. São arranjos econômicos, travessias naturais pelo pós-rock dos anos 1990 (principalmente Tortoise e Mogwai), além de uma série de atributos acústicos que parecem típicos dos singles da banda. Como chegar em casa depois de uma longa viagem, o presente disco borbulha tranquilidade. Continue reading

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Disco: “Awake”, Tycho

Tycho
Ambient/Electronic/Post-Rock
http://tychomusic.com/awake/

Por: Fernanda Blammer

Tycho

A música de Scott Hansen é movida por uma única “ferramenta”: o detalhismo dos arranjos. Dividido entre a construção de projetos visuais e a música, o artista californiano alcança o quarto trabalho de estúdio, Awake (2014, Ghostly International), em um sentido de preservação autêntico da própria essência. Todavia, mais do que resgatar a colagem de ambientações sutis abordadas desde Sunrise Projector, de 2004, o norte-americano dá um passo além dentro da própria estética, transformando o presente disco em uma obra marcada com leveza pelo experimento.

Passo seguro em relação ao que Dive apresentou de forma madura há três anos, o novo disco vai além do orquestrado climático do disco que o antecede – uma obra, até então, centrada no uso de referências típicas da IDM. Trata-se de um disco alimentada do começo ao fim pelas possibilidades, fluxo que impera na maior inclusão de guitarras, batidas orgânicas e no uso pontual dos sintetizadores, ferramenta abordada como um complemento inteligente ao trabalho do californiano.

Desvendando a própria obra, Hansen busca observar cada composição individualmente. Enquanto músicas como Montana se acomodam no uso de guitarras ambientais, preferência que esbarra na obra de veteranos como Mark McGuire e Fennesz, outras como See reverberam o lado mais “eletrônico” do produtor. São transições pontuais pela década de 1980, um olhar atento para o som lançado pela IDM e até arranjos instrumentais que se manifestam como um produto típico da obra do Tycho. Um disco conduzido pelas possibilidades, mas nunca excessos.

Fazendo valer o título que carrega – em português “acordar”, “desperto” -, Awake cresce como uma obra de emanações matutinas. Traduzindo de forma particular as mesmas emanações acolhedoras que reverberam na obra de Boards Of Canada, além de outros artistas recentes, como Neon Indian e Washed Out, cada instante do registro evita o exagero em prol da calmaria ascendente. São nuvens de sintetizadores, guitarras controladas e uma sequência de colagens que circundam lentamente o espectador. Continue reading

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Fennesz: “Static Kings”

Fennesz

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Ainda que tenha se aventurado em uma série de registros colaborativos e outros inventos autorais, Black Sea, último grande lançamento do austríaco Christian Fennesz foi lançado há mais de meia década, em novembro de 2008. Inspiração para grande parte dos produtores e grandes instrumentistas da ambient music atual – entre eles Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) e Mark McGuire (ex-Emeralds), o criador da obra-prima Endless Summer (2001) retorna ao selo Editions Mego, para apresentar o mais novo trabalho de sua carreira: Bécs.

Em formação desde o último ano, e apresentado há poucas semanas, com o lançamento da faixa The Liar, o trabalho encontra na recém-lançada Static Kings um ponto de aprimoramento e natural continuação da obra do produtor. Menos sombria que a canção anterior, a nova faixa embarca nas mesmas colisões ensolaradas que lançaram o trabalho de Fennesz há mais de uma década. São guitarras pontuais, pequenos acréscimos eletrônicos e distorções orquestradas com calmaria, premissa para o que deve abastecer na íntegra o novo álbum do artista – anunciado oficialmente para o dia 29 de abril.

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Fennesz – Static Kings

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Disco: “Pluvero”, Kalouv

Kalouv
Post-Rock/Instrumental/Ambient
http://www.kalouv.com/

Por: Cleber Facchi

Kalouv

Se a maturidade um dia chega para qualquer artista, em se tratando do grupo pernambucano Kalouv ela não custou a florescer. Três anos depois de delimitar as próprias referências em Sky Swimmer (2011), registro de estreia do quinteto de Recife, Pluvero (2014, Sinewave) arremessa a banda para um cenário ainda mais amplo de possibilidades e doces essências instrumentais. Conduzido pela leveza e aglutinando pequenas gotas de chuva instrumentais, o novo álbum é a passagem direta para um cenário definido em totalidade pela banda, mas (ainda) deliciosamente inédito para os seguidores do grupo.

Dissolvido em pequenas frações isoladas, o registro encontra no hermetismo próprio de cada composição um universo abrangente para seus criadores. São tramas jazzísticas, pigmentos típicos do pós-rock e todo um catálogo de emanações atmosféricas que parecem feitas para confortar o espectador. Como um respiro profundo antes da agitação, Pluvero coleciona ruídos, absorve diferentes texturas e trata de distintas décadas musicais sem fugir da minucia que já parecia instalada no álbum de estreia do grupo. Aqui são os sons que orquestram o ouvinte, ditando uma medida de tempo que se desenrola com total particularidade.

Construído ao longo de dois anos – o processo de gravação teve início em 2012 -, o trabalho encontra na leveza das formas um senso de particularidade. Ainda que o efeito climático dos sons, evidente na extensa Boa Sorte, Santiago ou na curtinha Esquizo, esbarrem nas tendências típicas do rock instrumental, o cálculo exato de cada instrumento força a mente do ouvinte a viajar. São pequenos grãos de areia minimamente encaixados no castelo ascendente que o grupo projeta. Pianos que silenciam perante as guitarras, batidas que esperam o trompete passar e todo um conjunto de elementos que mais parecem se esfarelar no decorrer do disco.

Por mais que esse cuidado se manifestasse de forma constante em Sky Swimmer, o caráter urgente de algumas canções (vide Zéfiro) parecia quebrar o equilíbrio do disco. Em Pluvero, mesmo que cada composição seja observada isoladamente, a serenidade que preenche os arranjos materializa uma ponte única do começo ao fim da obra. Uma sensação de que a ruidosa Areno, no inicio do álbum, ou a derradeira Es muß Sein, com suas imposições noir, fazem parte de um mesmo terreno criativo. Tudo se comunica, o que torna a imersão uma experiência natural na estrutura do disco. Continue reading

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Jamie XX: “Sleep Sound”

Jamie XX

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Jamie XX vem dando sinais de que um novo projeto solo está por vir há bastante tempo. Depois da série de apresentações na BBC Radio, do trabalho em parceria com Four Tet e uma variedade de outras criações assinadas por ele, o artista britânico abre as portas de mais um novo single. Trata-se de Girl/Sleep Sound, projeto anunciado para o dia cinco de maio pelo selo Young Turks e o primeiro registro oficial do artista desde o lançamento do (ótimo) single Far Nearer/Beat For, em 2011.

Com uma sensação de proximidade em relação aos anteriores inventos do britânico, o primeiro ato do novo single, Sleep Sound, resgata com exatidão tudo aquilo que XX apresentou há três anos. Das batidas que caminham pelo mesmo território sombrio de Burial, aos experimentos testados ao lado do falecido Gil-Scott Heron, cada segundo da faixa – que ultrapassa os seis minutos de duração – carrega um pouco da essência de Jamie. Originalmente apresentada em uma mixtape entregue por Pional no último ano, a canção (e o vídeo minimalista dela) podem ser apreciados logo abaixo.

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Jamie XX – Sleep Sound

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Kalouv: “Pluvero”

Kalouv

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O tempo trouxe verdadeiras melhorias para o trabalho exposto pela banda pernambucana Kalouv. Responsáveis por uma das estreias mais interessantes que ocuparam a música nacional em 2011, o atento Sky Swimmer, o grupo retorna ao território apresentado há três anos para incorporar uma gama ainda maior de referências e possibilidades dentro do segundo álbum de estúdio, o recém-lançado Pluvero.

Livre das experiências sutis que apresentaram o coletivo – formado por Túlio Albuquerque  (Guitarra), Saulo Mesquita (Guitarra), Basílio Queiroz (Baixo),  Bruno Saraiva (Teclado) e Rennar Pires (Bateria) -, o novo álbum firma no experimento um ponto de ascensão. Desenvolvido em cima de dez composições inéditas, algumas delas extensas e complementares, o presente disco encontra nas paisagens instrumentais uma ponte para se comunicar com o ouvinte. Recomendado para os ouvintes de Tortoise, Sigur Rós e Explosions in the Sky, o álbum pode ser apreciado na íntegra logo abaixo, ou baixado gratuitamente na página da banda.

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Kalouv – Pluvero

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Pessoas Que Eu Conheço: “Uma Carta de Amor Para SEGA EP”

Lucas de Paiva

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O ano ainda está só no começo, mas já tem sido bastante produtivo para o selo carioca 40% Foda/Maneiríssimo. Como se não bastasse o EP de estreia do paulistano seixlaK – Seu Lugar é o Cemitério -, agora é a vez de Lucas de Paiva, uma das mentes aos comandos do coletivo, apresentar seu mais novo invento particular: Uma Carta de Amor Para SEGA, primeiro registro à frente do Pessoas Que Eu Conheço – a versão “brasileira” do People I Know.

Seguindo a mesma composição experimental do projeto apresentado há dois anos, Brasil EP (2012), o produtor carioca atravessa os limites da IDM/Techno para produzir um som tão dançante quanto climático. Em um sentido de afastamento ao resultado produzido com o Opala ou mesmo ao lado do Mahmundi, Paiva brinca com três criações inéditas de puro minimalismo eletrônico. Faixas que parecem funcionar em uma medida própria de tempo, utilizando da composição hipnótica dos arranjos como uma ferramenta para atrair o ouvinte. O trabalho pode ser ouvido na íntegra logo abaixo, ou comprado na própria página do selo.

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Pessoas Que Eu Conheço – Uma Carta de Amor Para SEGA EP

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Cozinhando Discografias: New Order

Por: Cleber Facchi

New Order

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Nascido das cinzas ainda recentes do Joy Division, o New Order é mais do que uma sequência daquilo que Bernard Sumner, Stephen Morris e Peter Hook haviam testado na década de 1970, mas a base para um dos projetos mais transformadores da cena musical dos anos 1980. Com um catálogo de obras adoradas pelo público e crítica – caso de Technique, Power, Corruption & Lies e Movement -, a banda britânica conseguiu aproximar pós-punk, eletrônica e uma série de outros conceitos dentro de um só universo. Uma seleção inteligente de obras que se estende por mais de três décadas e chega agora em mais um Cozinhando Discografias especial com as bandas que integram o Lollapalooza Brasil 2014. Continue reading

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