Tag Archives: Ambient

Resenha: “Under The Sun”, Mark Pritchard

Artista: Mark Pritchard
Gênero: Electronic, Ambient, Experimental
Acesse: http://markprtchrd.com/

 

Harmonic 33, Africa Hitech, Troubleman, Link, Global Communication e todo um catálogo de remixes produzidos para nomes como Amy Winehouse, Aphex Twin, Radiohead e Depeche Mode. Em mais de duas décadas de atuação, esses são alguns dos projetos assumidos pelo produtor inglês Mark Pritchard. Dono de uma sequência de obras assinadas em parceria com diferentes produtores da cena britânica, Pritchard encontra no recém-lançado Under The Sun (2016, Warp), novo álbum em carreira solo, uma delicada extensão do mesmo acervo de obras colaborativas.

Fruto dos experimentos e temas atmosféricos de Pritchard, cada composição do presente disco busca conforto em um material essencialmente detalhista, tímido, como se todos os elementos – vozes, batidas, harmonias e samples – fossem apresentados ao público em pequenas doses. Uma completa fuga do conceito dançante, por vezes eufórico, explorado nos últimos cinco anos pelo produtor – em geral, responsável por trabalhos voltados ao Hip-Hop, grime e pós-dubstep.

Atento e sem pressa, Pritchard desenvolve cada composição de forma isolada, minuciosa. Basta observar a forma como os sintetizadores são lentamente sobrepostos na inaugural ?, música que flutua entre os temas cinematográficos de Brian Eno e as guitarras do austríaco Fennesz. São quase 70 minutos de duração, tempo suficiente para que Pritchard se aprofunde em criações alongadas, como Ems, e ainda desenvolva faixas mais curtas, caso da efêmera Hi Red.

Mesmo encarado como um produto do isolamento criativo de Pritchard, em diversos momentos do trabalho, diferentes vozes e interferências surgem para ocupar as paisagens instrumentais criadas pelo produtor. São artistas como Beans na declamada The Blind Cage, o conterrâneo Bibio em Give It Your Choir e a cantora Linda Perhacs na acústica You Wash My Soul. Nada que se compare ao trabalho gerado em parceria com Thom Yorke em Beautiful People. Continue reading

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Resenha: “Will”, Julianna Barwick

Artista: Julianna Barwick
Gênero: Experimental, Ambient, Dream Pop
Acesse: http://www.juliannabarwick.com/

 

É impressionante a forma como Julianna Barwick parece explorar um universo completamente novo a cada registro de inéditas. Do som “florestal” que marca o primeiro trabalho da cantora, The Magic Place, lançado em 2011, passando pelas melodias inebriantes de Nepenthe, obra de 2013, cada álbum assinado pela musicista norte-americana se revela de forma sutil ao ouvinte, convidado a experimentar o delicado conjunto de vozes e melodias orquestradas de forma sempre detalhista pela compositora.

Em Will (2016, Dead Oceans), primeiro trabalho desde o curioso Rosabi EP (2014), obra que serviu para apresentar a marca de cerveja da cantora, um delicado recomeço. De essência experimental, o álbum assume um leve distanciamento em relação aos dois últimos registros de Barwick, revelando ao público um catálogo de sintetizadores climáticos, o uso controlado de arranjos orquestrais e composições assinadas em parceria com diferentes nomes da cena norte-americana.

Trabalho mais “instável” de toda a discografia de Barwick, o registro de apenas nove faixas mostra o esforço da cantora em explorar novos territórios a cada curva do disco. Primeira canção a ser apresentada ao público, Nebula talvez funcione como um indicativo do material que invade o restante do disco. Ainda que a voz angelical da artista se faça presente do primeiro ao último ato da composição, está no uso do sintetizador o principal componente da canção, uma espécie de ponte para a New Age dos anos 1970.

Quarta faixa do disco, Same, parceria com o músico Thomas Arsenault, do projeto canadense Mas Ysa, é outra composição que reforça a transformação de Barwick dentro do presente disco. São quase cinco minutos em que a voz da cantora se dissolve como uma delicada peça instrumental, colidindo lentamente com a soma de harmonias eletrônicas assinadas pelo parceiro de estúdio. Uma versão futurística do mesmo material apresentado há cinco anos em The Magic Place. Continue reading

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Resenha: “A Moon Shaped Pool”, Radiohead

Artista: Radiohead
Gênero: Alternative, Experimental, Psychedelic
Acesse: http://www.radiohead.com/

 

Apenas não vá embora
Não vá embora
O verdadeiro amor espera
Em sótãos assombrados

Originalmente apresentada em 1995, durante a turnê de lançamento do álbum The Bends e, posteriormente, registrada como parte da coletânea ao vivo I Might Be Wrong: Live Recordings (2001), a derradeira True Love Waits nasce como o símbolo do novo registro de estúdio do Radiohead. Sucessor do eletrônico The King of Limbs (2011), A Moon Shaped Pool (2016, XL) chega ao público como uma obra segura, essencialmente precisa. Um regresso (in)voluntário ao imenso acervo de composições e temas instrumentais produzidos pelo quinteto inglês nas últimas duas décadas.

Das 11 faixas que recheiam o disco, pelo menos seis foram executadas em apresentações ao vivo ou exploradas em diferentes fases e projetos do grupo inglês. Escolhida para a abertura do disco, Burn The Witch, por exemplo, teve fragmentos da própria letra publicados na contracapa do álbum Hail To The Thief, de 2003. A mesma canção ainda foi objeto de discussão entre os integrantes durante as sessões de Kid A (2001) e In Rainbows (2007), sendo finalizada há poucos meses. Mesmo ancorado no passado, A Moon Shaped Pool está longe de parecer uma preguiçosa reciclagem de conceitos antigos. Prova disso está na busca do quinteto por uma som remodelado, orquestral, estímulo para a série de colaborações com os músicos da London Contemporary Orchestra.

Se há cinco anos The King of Limbs nascia como uma continuação do material produzido por Thom Yorke em carreira solo, ao visitar faixas como Glass Eyes e True Love Waits é fácil perceber o interesse da banda pela carreira solo do guitarrista Jonny Greenwood. Uma delicada tapeçaria de vozes e sons atmosféricos, por vezes oníricos. Não por acaso, Paul Thomas Anderson, cineasta que convidou Greenwood a produzir a trilha sonora de filmes como There Will Be Blood (2007) e The Master (2012) assume a direção do delicado clipe de Daydreaming.

A mesma sutileza empregada na construção dos arranjos ainda serve de estímulo para a projeção dos versos que lentamente dançam no interior do trabalho. Letras sufocadas por temas existencialistas – “nós estamos felizes apenas em servir”–, relacionamentos fracassados – “Corações partidos fazer chover / Corações partidos”–, medos – “Amor, venha até mim antes que seja tarde demais” – e declarações de amor angustiadas – “Apenas não vá / Não vá”. Uma fuga parcial dos temas políticos que sempre acompanharam a banda, preferência que faz do registro um dos trabalhos mais delicados e intimistas de toda a discografia do grupo britânico. Continue reading

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Julianna Barwick: “Same” (VÍDEO)

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Ainda que a voz continue servindo como principal “instrumento” de atuação para Julianna Barwick, desde o lançamento de Nepenthe, em 2013, a cantora e compositora norte-americana vem buscando por novas possibilidades em estúdio. Prova disso está na apresentação de Nebula, primeiro single do novo álbum de estúdio da artista, Will (2016), e um evidente recomeço dentro da carreira de Barwick, cada vez mais íntima do som etéreo e experimentos que abasteceram a música ambiental dos anos 1970.

Em Same, composição também pensada para o novo álbum de inéditas, Barwick e o convidado Thomas Arsenault, do projeto canadense Mas Ysa, criam uma faixa que parece crescer lentamente, carregada de detalhes e nuances de vozes. Uma sobreposição de ruídos, bases atmosféricas e sintetizados que tentam delicadamente ocultar uma letra marcada por sentimentos obscuros e os tradicionais versos alongados que marcam a carreira da cantora. Para o clipe da composição, Barwick convidou a conceituada Zia Anger, parceira em outros projetos e diretora que já trabalhou com nomes como Angel Olsen e Mitski.

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Julianna Barwick – Same (ft. Mas Ysa)

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Forest Swords: “Shrine”

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Três anos após o lançamento do atmosférico Engravings – um dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2016 –, o produtor britânico Matthew Barnes está de volta com um novo e inusitado projeto. Trata-se do recém-lançado Shrine, uma trilha sonora feita sob encomenda do projeto Boiler Room para um espetáculo de dança coreografado por Carmel Koster e que conta com a performance do bailarino Owen Ridley-Demonick.

São seis composições inéditas em que Barnes abandona temporariamente o uso da guitarra – principal componente explorado desde o “debut” Dagger Paths, de 2010 –, para se concentrar no uso de samples e manipulações utilizando o corpo humano. Vozes, a respiração, ruídos e batidas, o simples toque na pele se transforma nas mãos do artista inglês. Todo o material – além de outros registros de Barnes – está disponível para audição gratuita pelo bandcamp do produtor,

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Forest Swords – Shrines

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Disco: “The Ship”, Brian Eno

Artista: Brian Eno
Gênero: Ambient, Experimental, Electronic
Acesse: http://www.brian-eno.net/

 

Perto de completar 70 anos de vida – dos quais 40 foram dedicados ao trabalho como músico, produtor e pesquisador musical –, Brian Eno continua tão ativo quanto no início dos anos 1970, quando foi oficialmente apresentado ao público. Em The Ship (2016, Warp), primeiro registro solo do compositor inglês desde o premiado Lux, de 2012, Eno reinventa aspectos curiosos da própria discografia, detalhando uma coleção de vozes e texturas atmosféricas que se espalham até o último instante da obra.

Em um imenso plano de detalhes, sussurros, captações de voz, pianos e bases etéreas, Eno se movimenta com tranquilidade, esmiuçando com atenção a extensa obra que se fragmenta em duas canções – The Ship e os três atos de Fickle Sun. Trata-se de uma completa desconstrução do trabalho apresentado há quatro anos pelo artista, proposta explícita na continua utilização de ruídos e ambientações soturnas que lentamente transportam o ouvinte para um cenário de agitações pouco morosas.

Enquanto Lux parecia dialogar com a mesma composição sublime de clássicos como Ambient 1: Music for Airports (1978), vide a manipulação controlada dos pianos e efeitos ambientais, em The Ship, Eno ruma em direção ao mesmo terreno sombrio de obras como Ambient 4: On Land (1982) e Apollo: Atmospheres and Soundtracks (1983). Composições que distorcem o pano de fundo criado pelo músico para reproduzir um cenário que parece interagir diretamente com o ouvinte, arremessado de um canto a outro do trabalho.

Basta um passeio pela faixa de abertura do disco, com seus mais de 20 minutos de duração, para perceber o universo de referências, colagens e inúmeras fórmulas instrumentais testadas pelo veterano. Sintetizadores inicialmente serenos, mas que acabam alcançando um detalhamento cósmico, passagem para a precisa utilização de vocais semi-robóticos na segunda metade da faixa – elemento “abandonado” pelo músico desde o álbum Another Day on Earth, de 2005. Continue reading

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Mark Pritchard: “Under The Sun”

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Mark Pritchard decidiu apresentar o novo álbum de inéditas, Under The Sun (2016), em uma crescente de canções hipnóticas. Primeiro veio a atmosférica Sad Alron, com seus dois minutos de emanações ambientais e temas minimalistas. Depois foi a vez de Bautiful People, bem-sucedida parceria com o conterrâneo Thom Yorke e um verdadeiro salto em relação ao material originalmente apresentado pelo produtor inglês.

Com a chegada da faixa-título de Under The Sun, um novo salto criativo. São quase sete minutos em que um sample picotado dança delicadamente em cima da base etérea incorporada por Pritchard. Uma lenta colisão de vozes, sintetizadores e pequenos ruídos eletrônicos que instantaneamente criam uma espécie de ponte para o trabalho apresentado anteriormente pelo produtor.

Under the Sun (2016) será lançado no dia 13/05 pelo selo Warp

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Mark Pritchard – Under The Sun

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Harrison: “Vanilla” (ft. Ryan Hemsworth)

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Tudo que passa pelas mãos do produtor canadense Ryan Hemsworth se transforma. O resultado? Algo normalmente “fofo”, delicado, como se tivesse saído de alguma animação japonesa para crianças. Em Vanilla, mais recente trabalho do norte-americano Harrison, não poderia ser diferente. Uma canção dominada por sintetizadores e batidas quebradas que acaba mergulhando em um som essencialmente doce, pueril, efeito da bem-sucedida colaboração com Hemsworth.

Parte do novo registro de inéditas de Harrison, a canção também conta com distribuição pelo selo Secret Songs, do próprio Hemsworth. Entre os artistas que já contribuíram para a série de singles, nomes como Disasterpeace (responsável pela excelente trilha do filme It Follows), a neo-zelandesa Madeira (também integrante do Yumi Zouma), além de outros produtores como Mister Lies, o rapper Rome Fortune e dd elle.

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Harrison – Vanilla (ft. Ryan Hemsworth)

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Disco: “Love Streams”, Tim Hecker

Artista: Tim Hecker
Gênero: Experimental, Drone, Ambient
Acesse: http://sunblind.net/

 

Mesmo responsável por uma sequência de obras que marcaram o começo dos anos 2000, caso de Haunt Me, Haunt Me Do It Again (2001) e Harmony in Ultraviolet (2006), Tim Hecker passou os últimos seis anos se reinventando de forma tão criativa quanto em início de carreira. São trabalhos lançados em parceria com Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) – Instrumental Tourist (2012) -, além de uma sequência de obras maduras – Ravedeath, 1972 (2011) e Virgins (2013) – que se completam com a chegada de Love Streams (2016, 4AD / Paper Bag).

Terceiro “capítulo” da série de registros gravados no Greenhouse Studios, em Reykjavík, Islândia, o álbum tecido por ruídos, distorções e sobreposições etéreas lentamente afasta Hecker do som produzido até o último registro de inéditas. Trata-se de uma passagem para um cenário marcado pelo uso de vozes e ambientações eletrônicas, uma edição condensada de grande parte do material produzido pelo músico na última meia década.

Obra de segredos e encaixes minimalistas, detalhes que flutuam ao fundo da onda de distorções que cobre o disco, Love Streams, diferente dos dois últimos discos de Hecker, encontra na interferência restrita dos vocais um poderoso componente. Junto do produtor, Kara-Lis Coverdale e Grímur Helgason, colaboradoras desde Virgins, espalham uma corredeira de vozes que se movimentam de acordo com as exigências de Hecker. Um canto sombrio, por vezes operístico, como se um novo “instrumento” fosse explorado ao longo da obra.

Em Castrati Stack, oitava faixa do disco e composição escolhida para apresentar Love Streams, uma perfeita síntese do canto experimental que se projeta ao longo da obra. Canção mais intensa do disco – junto de Music of The Air -, a peça de quatro minutos encolhe, cresce, passa por um labirinto de sintetizadores, ruídos claustrofóbicos e estática até desembocar em uma solução de vozes atmosféricas, semi-angelicais, como o remix de um canto fúnebre gravado dentro de uma igreja. De fato, a temática religiosa se revela em grande parte do disco. Uma confessa extensão do mesmo conceito assumido por Kanye West em 2013, durante o lançamento do álbum Yeezus. Continue reading

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Disco: “Capsule’s Pride”, Bwana

Artista: Bwana
Gênero: Electronic, Experimental, Ambient
Acesse: http://luckyme.net/bwana/

– Nós ainda não temos o poder
– Mas um dia teremos
– Por que já começou

Ainda que a frase de encerramento de Akira, filme de 1988 dirigido e criado por Katsuhiro Ôtomo, se relacione diretamente com a trama apresenta na obra, difícil não perceber a evolução do trabalho – película ou mangá – como um poderoso fenômeno cultural. Uma ativa herança conceitual que se manifesta em diferentes produtos midiáticos – como séries, filmes e livros -, alcançando no recente Capsule’s Pride (2016, LuckyMe) um de seus melhores exemplares.

Produzido pelo canadense Nathan Micay – que aqui se apresenta sob o título de Bwana -, o registro de nove composições “inéditas” nasce como uma inteligente reciclagem de grande parte da obra apresentada há quase três décadas. Diálogos, ruídos, efeitos e até mesmo trechos extraídos da trilha sonora original do filme – assinada pelo coletivo japonês Geinō Yamashirogumi – se transformam em instrumentos nas mãos do artista de Toronto.

Em uma estrutura linear, seguindo de perto a sequência de eventos que marcam a animação de 1988, Micay brinca com grande parte da obra assinada por Ôtomo de forma instável, criando uma espécie de ponte para um território dançante, particular. Da abertura do disco, com The Capsule’s Pride (Bikes), passando por faixas como Failed Escape (Where you Belong) e The Colonel’s Mistake, The Scientist’s Regret, cenas e diálogos são cuidadosamente adaptados em um poderoso remix.

Nomes de personagens – “Akira”, “Tetsuo”, “Kaneda” e “Kei” – e até cenas inteiras que se repetem de forma cíclica dentro das batidas e temas eletrônicas do canadense, alimentando a base urgente que conduz o álbum até o últimos instante. Mesmo a trilha sonora de Geinō Yamashirogumi surge de forma picotada no interior obra, como se Micay extraísse apenas o que há de mais marcante no trabalho – vide a reciclagem das vozes em coro e toda a percussão “futurística” pensada para a película. Continue reading

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