Tag Archives: Ambient

Ellie Herring: “Gem Landing”

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Você já teve a sensação de que conseguiria passar dias ouvindo uma mesma música? Horas e mais horas dentro de uma mesma faixa sem que isso cause algum desconforto? Se a resposta for “não”, Gem Landing talvez seja capaz de despertar esse sentimento. Trabalho recente da produtora norte-americana Ellie Herring, a música escapa com leveza de um possível gênero ou cena específica, picotando referências ao longo de toda sua extensão.

Tão próxima do Cloud Rap de Clams Casino e Ryan Hemsworth, como da Ambient Music dos anos 1990, Herring encontra o próprio caminho ao explorar com sutileza diversos aspectos da música pop. Ainda que doce, a faixa causa “desconforto” ao se esquivar de uma possível letra. Durante todo o percurso a Herring instiga, brinca e até entrega pistas de que uma voz está por vir, finalizando a música em específico ato instrumental.

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Ellie Herring – Gem Landing

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Caribou: “Our Love”

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Com míseros três minutos de duração, Can’t Do Without You consegue ser mais expressiva do que muitos trabalhos inteiros lançados nos últimos oito meses. Primeira composição lançada pelo canadense Daniel Snaith para o novo álbum do Caribou – Our Love (2014) -, a quase transcendeste canção está longe de ser o único exemplar assertivo do disco que chega oficialmente em outubro.

Pouco mais extensa, a música que concede título ao sucessor de Swim (2010) mantém firme o caráter etéreo do single passado, confirmado a ambientação etérea do projeto. Em uma formatação similar, Our Love cresce lentamente, reservando para os últimos segundos todo um arsenal de ruídos sintéticos, samples e vozes tão acolhedoras quanto projetadas com eficácia para as pistas. Mais uma vez, sublime.

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Caribou – Our Love

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Disco: “Vozes”, Cadu Tenório

Cadu Tenório
Experimental/Ambient/Electronic
http://victimnoise.bandcamp.com/
http://sinewave.com.br/

Por: Cleber Facchi

Desde o lançamento de Pulso, faixa mais “volátil” encontrada no álbum de 2012 do Sobre A Máquina, que a vontade de Cadu Tenório em diluir novas tendências “eletrônicas” parecia reforçada pelo músico. Não por acaso em Lua (2013), obra lançada pelo Ceticências logo no ano seguinte, Tenório e o parceiro Sávio de Queiroz aproveitaram do espaço para ampliar ainda mais esse aspecto “sintético” das canções – expressivo em cada faixa do álbum. É justamente dentro dessa atmosfera que nasce o recém-lançado Vozes (2014, Sinewave), mais novo invento solo do produtor carioca e base para a trama sutil lentamente exposta nos quatro atos do registro.

Mesmo acomodado em uma trama de experimentos eletrônicos, Vozes, como o próprio logo entrega, é um trabalho marcado pela expressiva colagem e manipulação de vocais. Seja na abertura, com a extensa Fragmentos, aos ruídos finais de Lamento e Bebê, Tenório aos poucos se esquiva do uso característico de bases experimentais – típicas do Drone / Dark Ambient – para investir em um contexto muito mais “humano”, sempre “orgânico” – premissa para o cenário de contraste que conduz a obra.

A diferença em relação ao exercício já proposto em músicas como Prematuro, do álbum Cassettes (2014), está no completo destaque aos retalhos de voz. Do loop etéreo na faixa de abertura, passando pelos gritos sussurrados de Procissão ao uso de palavras como “violência” e “bebê”, os vocais lentamente assumem o controle da “trama” imposta ao disco. Mais do que uma ferramenta de movimento – como no trabalho anterior -, Tenório encontra na voz um ponto de distanciamento do “personagem” sombrio antes ressaltado em projetos como Sobre a Máquina e VICTIM!. Trata-se da obra mais sutil e, naturalmente, acessível já lançada pelo músico.

Ao mesmo tempo em que reforça um conjunto de (novos) traços autorais, Vozes é um trabalho em que as influências de Tenório ecoam de forma expressiva. Entre pequenas reciclagens de conceitos, o músico vai além do hermetismo sombrio de The Haxan Cloak e Tim Hecker, mergulhando de cabeça no território de Richard David James e todo o abrangente catálogo lançado pelo Aphex Twin. De fato, bastam os primeiros minutos de Fragmentos para notar a ponte que leva o ouvinte até Cliff e todo o material entregue há duas décadas em Selected Ambient Works Volume II (1994), inspiração evidente em cada faixa do novo disco. Continue reading

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Cadu Tenório: “Vozes”

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A fonte criativa de Cadu Tenório parece longe de secar. Produtivo e envolvido em diferentes projetos, o músico/produtor carioca não consegue passar mais do que alguns meses sem revelar ao público um novo registro de inéditas. Somente em 2014 foram lançados dois álbuns solo – Cassettes e 1987/1990 -, além de um novo EP pelo Ceticências, projeto (agora) dividido com o conterrâneo Sávio de Queiroz.

De forma a ampliar o próprio acervo, Tenório entrega agora Vozes (2014), mais recente trabalho solo e obra abastecida por quatro canções inéditas. Menos “sombrio” em relação aos primeiros registros do músico – principalmente ao lado dos parceiros do Sobre a Máquina -, o novo álbum muda a fórmula de Tenório, temporariamente íntimo de ambientações eletrônicas. Com lançamento/download gratuito pelo selo Sinewave, o disco pode ser apreciado abaixo. Aproveite e assista ao clipe de Fragmentos, uma das composições do novo álbum.

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Cadu Tenório – Vozes

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Cadu Tenório – Fragmentos

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Disco: “Someday World” / “High Life” Brian Eno & Karl Hyde

Brian Eno & Karl Hyde
Alternative/Experimental/Electronic
http://brian-eno.net/
http://www.karlhyde.com/


Brian Eno é um ser colaborativo. Do começo de carreira com o Roxy Music, passando por obras ao lado de Nico, Cluster, parcerias com David Byrne e Talking Heads, até a produção de álbuns de David Bowie, U2, Coldplay e, recentemente, trabalhos desenvolvidos com James Blake e Owen Pallett, grande parte dos lançamentos que carregam a assinatura do britânico são tecidos a partir bem solucionadas parcerias. Não diferente é a dobradinha gerada em Someday World e High Life, projeto construído ao lado de Karl Hyde (Underworld) e que parece resumir parte do processo criativo imposto por Eno ao longo dos anos.

De maneira fracionada, o projeto intitulado Eno • Hyde usa de marcas há muito delineadas pela dupla de forma a sustentar cada composição. Primeira metade do projeto a ser apresentada, Someday World (2014, Warp) assume no teor comercial das faixas um território típico da obra de Hyde com o Underworld. Não por acaso os sintetizadores sobrepõem durante todo o tempo o uso das guitarras, transportando o ouvinte para um cenário nostálgico, ora voltado ao Synthpop da década de 1980, ora adaptado ao plano eletrônico dos anos 1990 – com todas suas batidas e traços típicos da Acid House.

Claro que a troca de referências permanece constante durante toda a formação da obra. Dessa forma, ainda que o plano musical do disco pareça projetar a imagem de Hyde, a interferência de Eno lentamente rompe com uma possível estrutura óbvia do trabalho. Passada a inaugural The Satellites, é visível a composição de elementos típicos da discografia do veterano. São as guitarras em A Man Wakes Up, os sintetizadores drone em Witness e até mesmo o teor político / existencial dos versos que recheiam o bloco final do álbum, principalmente Who Rings the Bell e When I Built This World, estas duas, ainda mais íntimas dos conceitos musicais lançados por Hyde.

High Life (2014, Warp), por sua vez, é uma obra em essência voltada aos temas particulares de Eno. Como as guitarras de Return (similares às de David Byrne) logo revelam, há uma necessidade clara do músico / produtor em resgatar aspectos específicos da própria obra. Sejam os arranjos carregados de suingue em DBF – que logo remetem à fórmula de Remain in Light (1980) -, passando pelas ambientações em Cells & Bells – um regresso ao som ambiental de Before and After Science, em 1977 -, cada instante do álbum surge perfumado pela nostalgia. Continue reading

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Disco: “Lese Majesty”, Shabazz Palaces

Shabazz Palaces
Experimental/Hip-Hop/Psychedelic
http://www.shabazzpalaces.com/

Por: Cleber Facchi

A grande beleza de Black Up (2011), registro de estreia do Shabazz Palaces, sempre esteve na ausência de linearidade da obra. Da abertura, em Free Press And Curl, até alcançar a derradeira Swerve…, a corrupção de ideias lançadas por Ishmael Butler e Tendai Maraire forçaram o ouvinte a atravessar diferentes esferas musicais, sem que isso resultasse em uma experiência confusa. Ainda que o Hip-Hop seja a base do trabalho sustentado pela dupla, cada segundo dentro da obra revela mutação, proposta mantida em Lese Majesty (2014, Sub Pop), porém, parcialmente adaptada dentro de uma nova estrutura.

Desenvolvido em cima de 18 composições inéditas, o novo álbum reforça organização, rompendo com o caráter abstrato do trabalho anterior de forma a solucionar uma obra dividida em sete “suites” (ou blocos) diferentes. Entretanto, a principal mudança dentro do presente disco não está no efeito “ordenado” das canções, mas na temática que parece dissolvida de forma precisa ao longo de toda a obra.

Assim como em Black Up ou mesmo nos dois primeiros EPs da dupla – Shabazz Palaces e Of Light, ambos de 2009 -, as viagens pelo espaço e outros elementos típicos dos livros / filmes de Ficção Científica recheiam com liberdade o conteúdo da obra. São músicas como Solemn Swears e Harem Aria em que a rima soterrada de Butler atenta de forma decidida para a psicodelia. Um reforço para o caráter essencialmente etéreo que habita em grande parte das composições da dupla.

Como um passeio pelo cosmos, Lese Majesty, mais do que Black Up, é uma obra conduzida pela sutileza musical de Maraire. Tendo no “espaço” o ponto central do disco, o produtor resgata desde ruídos expostos em clássicos Sci-Fi na década de 1970, até homenagens ao trabalho de veteranos do Krautrock / Ambient Music, também lançados no mesmo período. Por todos os cantos da obra borbulham referências à obra de Brian Eno, Tangerine Dream e até figuras esquecidas da New Age. Logo, a julgar pelos sete “capítulos” do álbum, não seria errado afirmar que o Shabazz Palaces transformou o trabalho em uma lisérgica novela musicada, ou mesmo em um filme psicodélico de ficção científica, deixando que as imagens sejam projetadas na cabeça do espectador. Continue reading

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Quays: “Tres”

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O trabalho do produtor nova-iorquino Quays sobrevive de forma evidente dos detalhes. Depois de caminhar pelo terreno da ambient music em Physisicks – faixa inicialmente apresentada em uma ligação telefônica -, o misterioso artista assume na recém-lançada Tres uma continuação doce da faixa apresentada há poucas semanas. Entretanto, mais do que investir no resgate de velhas ideias, a nova faixa entrega em elementos do R&B um mecanismo leve de transformação.

Construída lentamente, Tres abre em meio bips eletrônicos, revela uma dose tímida de sintetizadores e, aos poucos, dissolve o principal elemento da nova criação de Quays: a voz. Claro que nada ultrapassa o teor abstrato já apontado pelo artista, que parece ao mesmo tempo se isolar e crescer com o passar da faixa. A canção é parte de uma série de lançamentos que o artista vem arquivando no Soundclod. Só não esqueça de ouvir com fones de ouvido.

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Quays – Tres

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Gouveia Phill: “Therd´ominia”

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Responsável por algumas das composições mais viajantes que surgiram nos últimos meses, o paraibano Gouveia Phill surge agora com mais uma faixa guiada pelo delírio. Com quase oito minutos de duração, Therd´ominia brilha como uma expansão dos arranjos e bases instaladas nas antecessoras Salvat’oria e Serena, espalhando em ambientações versáteis a abertura para um território novo dentro curta obra do músico.

Dividida em três partes, a canção abre em meio a flertes com o pós-rock, se acomoda em uma atmosfera tímida e encerra de forma hipnótica, com Phill espalhando de forma sutil guitarras e vocais enevoados. Menos “acústica” que as demais criações do músico, Therd´ominia se sustenta pelos detalhes, obrigando a completa atenção do espectador.

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Gouveia Phill – Therd´ominia

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Disco: “Celestite”, Wolves in the Throne Room

Wolves in the Throne Room
Ambient/Drone/Instrumental
http://www.wittr.com/

Por: Cleber Facchi

A lenta transformação iniciada pelos irmãos Nathan e Aaron Weaver em Celestial Lineage, de 2011, atinge somente agora seu estágio final. Em Celestite (2014, Artemisia), quinto trabalho em estúdio do Wolves in the Throne Room, toda imposição caótica lançada nos primeiros anos da banda se organiza por completo. Completa desarticulação do Atmospheric Black Metal antes testado pelo duo, o novo álbum é a passagem para um cenário delicado e etéreo, trazendo na leveza o novo acervo instrumental do grupo.

Da mesma forma que os discos que o antecedem, o presente registro articula em atos lentos a estrutura de cada nova composição. Livre dos vocais, a dupla se concentra no uso apurado de texturas harmônicas, fazendo com que mesmo Bridge of Leaves, a canção mais curta do álbum, cresça substancialmente, como uma imensa colagem de ideias. Toda essa transformação vem da nova estrutura da banda, parcialmente livre das guitarras e investindo pesado no uso de sintetizadores – a principal “arma” do trabalho.

Mais do que substituir um instrumento por outro, ao entrar no território do quinto disco, o público mais uma vez é apresentado a todo um novo catálogo de referências. Se antes a dupla norte-americana parecia trilhar com firmeza em um caminho sombreado do Black Metal, aqui ela flutua. São faixas que escapam do delineamento orgânico e terreno – bem representado na capa do último disco -, para seguir em direção ao cosmos. Não por acaso Celestite carrega este título, um resumo das pequenas adequações da banda rumo ao espaço.

Espécie de trilha sonora para algum clássico da ficção científica nos anos 1970 – talvez Solaris (1972) ou Logan’s Run (1976) -, o novo álbum WITTR é uma obra que sobrevive de pequenas adaptações de conceitos – grande parte delas lançadas há três ou mais décadas. Há desde referências ao trabalho de veteranos da New Age, como Vangelis em Turning Ever Towards the Sun, até flertes com o Krautrock, relação escancarada no diálogo com o Tangerine Dream em Celestite Mirror. Continue reading

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Cozinhando Discografias: Kraftwerk

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Fruto de um dos períodos mais criativos da música germânica, o Kraftwerk talvez seja a melhor representação de toda a variedade de tendências que ocuparam a produção musical nos anos 1970. Inicialmente centrado na lisergia do Krautrock, o grupo comandado por Ralf Hütter e Florian Schneider não custou a alcançar o terreno da música eletrônica, revelando em arranjos minimalistas uma série de conceitos pioneiros para o gênero. Dona de um catálogo de clássicos como Autobahn (1974), Trans-Europe Express (1977) e The Man-Machine (1978), a banda é a nova escolhida da seção, tendo cada um dos dez registros de estúdio organizados do pior para o melhor exemplar. Continue reading

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