Artista: Jóhann Jóhannsson
Gênero: Experimental, Ambient, Instrumental
Acesse: http://www.johannjohannsson.com/

 

Em 2013, Jóhann Jóhannsson foi convidado pelo diretor Denis Villeneuve a produzir a trilha sonora do filme Os Suspeitos. Estrelado por Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal, o suspense seria apenas o primeiro registro da parceria entre o diretor canadense e o músico islandês, estímulo para um novo projeto colaborativo dentro do elogiado Sicario, lançado dois anos mais tarde, mas que se completa na sutileza estética e instrumental de A Chegada (2016), mais recente encontro criativo entre os dois artistas.

Estrelado por Amy Adams e Jeremy Renner, a película mostra o esforço de uma linguista norte-americana e um time de especialistas em decifrar o misterioso aparecimento de 12 objetos voadores em diferentes regiões do planeta. No decorrer da obra, um delicado aprofundamento na história da protagonista, interpretada por Adams. Enquadramentos pouco convencionais, câmeras documentais, sempre próximas dos atores, base da ambientação intimista, por vezes claustrofóbica, lançada por Jóhannsson.

Naturalmente íntimo do mesmo universo de temas orquestrais explorados pelo músico islandês em quase duas décadas de carreira, Arrival (2016, Deutsche Grammophone) é uma obra que joga com as sensações. São pinceladas acústicas, vozes etéreas e instantes de plena sensibilidade que se abrem para a construção de pequenos atos catárticos. Um crescendo de emoções, batidas retumbantes e quebras bruscas que prendem a atenção do ouvinte durante toda a formação do álbum.

Mesmo repleto de referências ao trabalho de Villeneuve, como o uso das vozes e sons que replicam com naturalidade os diálogos entre humanos e alienígenas do filme, o trabalho de Jóhannsson sobrevive para além dos limites da tela. São composições hipnóticas, crescentes, como Properties Of Explosive Materials e Principle Of Least Time; instantes de profunda melancolia, vide Hydraulic Lift e Hazmat, além de faixas que flutuam com leveza na cabeça do ouvinte, caso das curtinhas Sapir-Whorf e Ultimatum.

Continue Reading "Resenha: “Arrival”, Jóhann Jóhannsson"

 

Três anos após o último EP, Rival Dealer (2013), William Bevan está de volta com um novo registro de inéditas: Young Death / Nightmarket. Posto à venda “sem querer” durante a última Black Friday, o álbum de apenas duas faixas segue uma trilha parcialmente distinta em relação aos últimos lançamentos do produtor inglês – principalmente os intensos Kindred (2012) e Truant / Rough Sleeper (2012). Duas canções, pouco mais de 13 minutos em que vozes picotadas, ruídos e samples urbanos dançam com leveza na cabeça do ouvinte.

Com as batidas em segundo plano, subvertendo a lógica dos principais trabalhos de Bevan, Young Death / Nightmarket encanta pela delicada tapeçaria instrumental montada pelo produtor. São batidas minimalistas, sussurradas, ruídos eletrônicos e samples que funcionam como pequenos instrumentos dentro de cada composição. Instantes em que o artista britânico amplia o território criativo apresentado dentro do clássico Untrue, obra que completa dez anos de lançamento em 2017.

 

Burial – Young Death / Nightmarket

Continue Reading "Burial: “Young Death” / “Nightmarket”"

Artista: Dedekind Cut
Gênero: Experimental, Ambient, Eletrônica
Acesse: https://leebannon.bandcamp.com/

 

Um ruído minimalista que se esconde em meio a melodias enevoadas de sintetizadores. O canto etéreo que se espalha ao fundo de cada composição, como um instrumento. Samples, colagens e batidas que se entrelaçam de forma sutil, sempre misteriosa. A música de Fred Warmsley parece montada a partir de detalhes, segredos e pequenas descobertas. Um universo próprio, estímulo para as canções hipnóticas de $uccessor (ded004) (2016, Non / Hospital), primeiro trabalho do produtor como Dedekind Cut.

Mais conhecido pelos experimentos abstratos lançados sob o título de Lee Bannon, além, claro, de músicas produzidas para diferentes artistas, como Pro Era e Joey Bada$$, Warmsley faz de cada composição dentro do presente álbum um ato de plena descoberta. Trata-se de uma versão minimalista, mas não menos inventiva do mesmo som produzido pelo norte-americano há poucos mais de um ano, durante o lançamento do também climático Pattern of Excel (2015).

Em um sentido próprio, embora íntimo de veteranos (William Basinski, Keith Fullerton Whitman) e “novatos” (Jefre Cantu-Ledesma, Huerco S.) da música ambiente, Warmsley encara cada faixa ao longo do disco como um objeto isolado, precioso. São pinceladas atmosféricas que se espalham sem pressa, como um convite, conduzindo o ouvinte a provar de cada fragmento dissolvido pelo artista. Um cuidado que se estende da abertura do álbum, em Descend From Now até a derradeira 46:50.

Captações sujas e vozes quebradas em Fear In Reverse, sintetizadores emulando arranjos de cordas na delicada Maxine, uma densa massa sonora que abastece ☯. Assim como nas canções que levam a assinatura de Lee Bannon, cada faixa de $uccessor (ded004) transporta o ouvinte para um cenário completamente novo, inusitado. Instantes em que o ouvinte flutua entre nuvens de melodias eletrônicas, despencando lentamente em direção a um oceano de ruídos e detalhes minuciosos.

Continue Reading "Resenha: “$uccessor (ded004)”, Dedekind Cut"

Artista: Steve Hauschildt
Gênero: Experimental, Ambient, Electronic
Acesse: https://www.facebook.com/stevehauschildt/

 

Os últimos cinco anos foram bastante produtivos para Steve Hauschildt. Com o fim das atividades do Emeralds, projeto montado em parceria com os músicos John Elliott e Mark McGuire, o produtor original da cidade de Bay Village, Ohio passou a se dedicar na construção de obras marcadas pela sutileza dos detalhes. Registros como Tragedy & Geometry (2011), S/H (2013) e o último deles, o complexo Where All Is Fled, de 2015.

Em Strands (2016, Kranky), mais recente invento autoral de Hauschildt, melodias e bases minimalistas se espalham sem pressa, como se o produtor norte-americano se concentrasse apenas na manipulação dos detalhes. Uma lenta sobreposição de sintetizadores e ruídos eletrônicos, conceito explícito logo nos primeiros instantes do disco, em Horizon of Appearances, música que dialoga de forma nostálgica com a essência de veteranos da Kosmische Musik, como Tangerine Dream e Ash Ra Tempel.

São mantras eletrônicos que investem abertamente na completa repetição das bases e vozes ecoadas, percepção reforçada a cada novo ato do trabalho, mesmo na curtinha A False Seeming, música que se fecha em um cuidadoso looping instrumental. O mesmo conceito acaba se repetindo em Transience of Earthly Joys, faixa que utiliza de pianos delicadamente espalhados em uma atmosfera sombria – no melhor estilo Tim Hecker –, para prender a atenção do ouvinte.

Da curta discografia produzida com os parceiros do Emeralds, Hauschildt transporta para dentro do disco a lenta sobreposição de temas eletrônicos. Um bom exemplo disso está dentro de Same River Twice. Em intervalo de seis minutos, o músicos espalha uma sequência de melodias cósmicas, farelos instrumentais e bases eletrônicas que ocupam todas brechas da composição, a mesma atmosfera incorporada ao álbum Does It Look Like I’m Here?, de 2010.

Continue Reading "Resenha: “Strands”, Steve Hauschildt"

 

 

Basta um olhar atento para perceber uma série de referências e pequenas citações ao universo de animes e mangás dentro da extensa obra de Cadu Tenório – como na capa de Vozes (2014) e nas composições de Rimming Compilation (2016). Nada que se compare ao recém-lançado Lzana, primeiro registro da parceria entre o músico carioca e a conterrânea Melissa Daher, produtora responsável pelos improvisos que movem o projeto Salisme.

Do título do trabalho, uma alteração entre as letras “i” e “l” no nome de Izana, da série Knights of Sidonia, passando por Claudette (de Queen’s Blade) e Envy (de Full Metal Alchemist), todas personagens sem gênero, Tenório e Daher fazem de cada composição do trabalho uma curiosa “homenagem”. São ambientações minimalistas, ruídos e sobreposições produzidas de forma caseira durante uma rápida sessão da dupla que durou apenas duas horas.

 

Lzana – Lzana

Continue Reading "Lzana: “Lzana”"

Dona de uma extensa discografia, remixes e trilhas sonoras produzidas para diferentes filmes e instalações visuais, Kaitlyn Aurelia Smith está longe de ser encarada como uma novata. Todavia, foi com o lançamento de Euclid (2015), primeiro álbum distribuído por um selo de médio porte — o Western Vinyl —, que o trabalho da musicista de Orcas Island foi oficialmente apresentado ao público. Um registro de temas minimalistas, sempre curioso, estímulo para os dois principais lançamentos da artista nos últimos meses.

Sucessor do elogiado “debut”, Ears (2016, Western Vinyl) nasce como uma clara extensão dos experimentos, melodias e ruídos eletrônicos inicialmente incorporados pela artista. Um emaranhado de pequenas emanações cósmicas que tanto dialogam com os primórdios da ambient music, vide a inaugural First Flight, como elementos extraídos de outros estilos e frentes musicais, caso do dream pop que cresce dentro da sutil Envelop. Leia o texto completo.

Deixada de fora do corte final de Ears, mais recente registro solo de Kaitlyn Aurelia Smith, a delicada Riparian, música que parece ter saído de algum disco da dupla The Knife, foi justamente a escolhida para se transformar no mais novo clipe da musicista. De forma a completar as melodias da artista norte-americana, uma delicada animação produzida por Andrew Benson.

Kaitlyn Aurelia Smith – Riparian

Continue Reading "Kaitlyn Aurelia Smith: “Riparian” (VÍDEO)"

Artista: Kaitlyn Aurelia Smith / Suzanne Ciani
Gênero: Experimental, Eletrônica, Ambient Music
Acesse: http://www.kaitlynaureliasmith.com/

 

Dona de uma extensa discografia, remixes e trilhas sonoras produzidas para diferentes filmes e instalações visuais, Kaitlyn Aurelia Smith está longe de ser encarada como uma novata. Todavia, foi com o lançamento de Euclid (2015), primeiro álbum distribuído por um selo de médio porte — o Western Vinyl —, que o trabalho da musicista de Orcas Island foi oficialmente apresentado ao público. Um registro de temas minimalistas, sempre curioso, estímulo para os dois principais lançamentos da artista nos últimos meses.

Sucessor do elogiado “debut”, Ears (2016, Western Vinyl) nasce como uma clara extensão dos experimentos, melodias e ruídos eletrônicos inicialmente incorporados pela artista. Um emaranhado de pequenas emanações cósmicas que tanto dialogam com os primórdios da ambient music, vide a inaugural First Flight, como elementos extraídos de outros estilos e frentes musicais, caso do dream pop que cresce dentro da sutil Envelop.

Observado com atenção, Smith transporta para dentro do disco a mesma atmosfera colorida que aparece estampada na capa do álbum. Fragmentos orgânicos e eletrônicos que se agrupam de forma a revelar uma estrutura maior, essencialmente complexa. Não é difícil se perder no interior do trabalho, afinal, dentro de cada composição sobrevive um imenso mosaico repleto de cores, referências e incontáveis variações instrumentais.

O mesmo cuidado acaba se repetindo dentro do cósmico Sunergy. Produzido em parceria com a compositora italiana Suzanne Ciani, um dos grandes nomes da música eletrônica dos anos 1970 e 1980, o registro de apenas duas faixas – três na versão digital –, revela ao público o perfeito diálogo entre duas personagens vindas de épocas e cenários completamente distintos. De um lado, o quebra-cabeça eletrônico de Smith, no outro, a delicada tapeçaria sintética de Ciani, íntima das mesmas ambientações etéreas lançadas por veteranos da New Age.

Continue Reading "Resenha: “Ears” / “Sunergy”, Kaitlyn Aurelia Smith"

Artista: Nicolas Jaar
Gênero: Eletrônica, Experimental, Ambient
Acesse: http://nicolasjaar.net/

 

Os últimos cinco anos foram bastante produtivos para Nicolas Jaar. Entre remixes produzidos para nomes como Grizzly Bear (Sleeping Ute) e Florence and The Machine (What Kind of Man), o produtor nova-iorquino ainda presenteou o público com uma sequência de músicas inéditas – como Fight, parte da série Nymphs –, deu vida à coletânea Don’t Break My Love (2012), trabalho lançado pelo próprio selo, o Sunset & Clown, além de revisitar o clássico filme A Cor da Romã (1969), de Sergei Parajanov, em Pomegranates (2015). Isso sem contar os trabalhos em parceria com Dave Harrington no Darkside – caso do ótimo Psychic, de 2013.

Com a chegada de Sirens (2016, Other People), segundo registro de estúdio de Jaar e sucessor do elogiado Space Is Only Noise (2011), uma lenta desconstrução de tudo aquilo que artista vem produzindo na última meia década. Em um intervalo de apenas seis faixas – Killing Time, The Governor, Leaves, No, Three Sides of Nazareth e History Lesson –, Jaar costura fragmentos instrumentais, brinca com a própria essência e ainda prova de novas sonoridades de forma sempre curiosa, experimental.

Sem pressa – grande parte das faixas ultrapassam os seis minutos de duração –, Jaar testa diferentes combinações e ritmos. Um bom exemplo disso está em No. Quarta faixa do disco, a canção de batidas  lentas cresce com leveza, mergulhando em uma atmosfera quente, por vezes íntima das batidas e do romantismo presente na cúmbia. Nos versos, o peso político e um retrato da luta pela democracia no Chile no final dos anos 1980. Um resgate de frases e fragmentos que mostram a articulação para a derrubada do ditador Augusto Pinochet e o início do período democrático no país. A própria frase estampada na capa do disco –“Ya dijimos no pero el si esta en todo” –, dialoga de forma explícita com plebiscito de 1988, campanha perfeitamente retratada no filme No (2013), de Pablo Larraín.

Dividido entre a euforia e instantes de maior serenidade, Jaar brinca com os contrastes durante toda a construção da obra. Se em minutos são os ruídos atmosféricos de Killing Time que cercam o ouvinte, logo em seguida, os temas eletrônicos, batidas e até guitarras Three Sides of Nazareth tomam conta do trabalho. Um ato turbulento. Pouco menos de dez minutos em que Jaar prova de diferentes fases e conceitos da música Techno, mergulha em ambientações soturnas e ainda flerta com o trabalho de outros produtores e obras recentes, como Wolfgang Tillmans em Device Control (2016).

Continue Reading "Resenha: “Sirens”, Nicolas Jaar"

Artista: S U R V I V E
Gênero: Eletrônica, Synthpop, Alternativa
Acesse: http://survive.bandcamp.com/

 

Kyle Dixon e Michael Stein passaram grande parte da presente década experimentando. Sob o título de S U R V I V E, a dupla norte-americana esteve envolvida em uma série de obras independentes, como os ótimos Mnq025 e LLR002, ambos de 2012, a trilha sonora do filme The Guest, em 2014, além, claro, de uma sequência de composições avulsas e músicas feitas sob encomenda para a TV. Nada que se compare ao sucesso alcançado pelos produtores na trilha sonora de Stranger Things, da Netflix.

Em RR7349 (2016, Relapse), primeiro registro da dupla como S U R V I V E desde o sucesso em torno da série, uma clara extensão do material produzido desde o começo da presente década. Em um intervalo de pouco mais de 40 minutos e apenas nove faixas, Dixon, Stein e os novos parceiros, Adam Jones e Mark Donica, fazem do presente registro uma delicada colcha de retalhos, ruídos sintéticos e ambientações climáticas sempre perturbadoras, obscuras.

São músicas como a densa Other, segunda faixa do disco e uma espécie de sobra de algum clássico do terror lançado na década de 1980. Difícil não lembrar dos trabalhos produzidos pelo veterano John Carpenter quando os sintetizadores emulam batidas e temas sempre provocativos. Mais do que uma coleção de ideias e fragmentos eletrônicos, uma obra que cerca e sufoca o ouvinte a cada novo movimento, como se o ouvinte fosse arrastado para dentro de um universo próprio da banda.

Composição escolhida para apresentar o disco, a inaugural A.H.B. mostra como os detalhes dançam no interior de cada música produzida pela banda. Entre batidas e sintetizadores cósmicos, o quarteto estabelece pequenos respiros criativos, costurando temas atmosféricos e transições propositadamente instáveis. Uma constante sensação de que diferentes faixas do material produzido para a trilha sonora de Stranger Things foram amarradas dentro de uma mesma canção.

Continue Reading "Resenha: “RR7349”, S U R V I V E"

 

Quem acompanha o trabalho de Chaz Bundick desde os primeiros anos do Toro Y Moi sabe do interesse do produtor norte-americano em brincar com diferentes texturas ambientais. Basta voltar os ouvidos para a construção de obras como Causers of This, de 2010, e perceber a forma como o artista explora o uso de temas atmosféricos e pequenos ruídos eletrônicos. Ainda que a sonoridade do projeto tenha mudado ao longo dos anos – vide o recente Live From Trona (2016) –, o interesse do músico pelo estilo permanece.

Assim como fez com o Les Sins, projeto paralelo do artista e uma ode à música techno, Bundick acaba de inaugurar mais um novo trabalho. Trata-se do PLUM, projeto de ambient music e experimentações claramente ancoradas no som produzido por gigantes do estilo – principalmente Brian Eno. Em New Globe, primeira criação desse novo projeto de Bundick, pouco mais de sete minutos em que sintetizadores serenos dançam de forma minimalista pela mente do ouvinte.

PLUM – New Globe

Continue Reading "PLUM: “New Globe”"