Tag Archives: Ambient

Biosphere: “Sweet Dreams Form a Shade”

.

Responsável por algumas das principais obras da Ambient Music nos últimos 20 anos – caso de Microgravity (1991) e Substrata (1997) –, o norueguês Geir Jenssen está de volta com um novo álbum como Biosphere. Intitulado Departed Glories (2016) e inspirado em uma série de referências da música produzida em diferentes países do Leste Europeuo registro conta com 17 composições inéditas e pouco mais de 60 minutos de duração.

Um dos fragmentos do novo disco e canção escolhida para apresentar o disco, Sweet Dreams Form a Shade sintetiza parte do material que deve ser explorado pelo músico ao longo da obra. São vozes enevoadas, por vezes tenebrosas, que se misturam em meio a bases densas e texturas atmosféricas, típicas do trabalho de Jenssen. Pouco mais de cinco minutos em que o veterano parece preservar a própria essência, ao mesmo tempo em que se conecta com a nova geração, principalmente a norte-americana Julianna Barwick.

Departed Glories (2016) será lançado no dia 23/09 pelo selo Smalltown Supersound.

.

Biosphere – Sweet Dreams Form a Shade

Tagged , , , , , ,

Resenha: “Memoro Fantomo_Rio Preto”, Sentidor

Artista: Sentidor
Gênero: Ambient, Experimental, Electronic
Acesse: http://sentidor.bandcamp.com/

 

Fotos: Raíssa Galvão

Os cenários esverdeados e aconchegantes do interior do Brasil pouco a pouco são montados na cabeça do ouvinte durante a audição de Memoro Fantomo_Rio Preto (2016, Independente). Mais recente trabalho de inéditas do mineiro João Carvalho como Sentidor, o registro de treze faixas não apenas revela o uso atento de texturas e ambientações eletrônicas típicas de grandes nomes da cena estrangeira, como reflete com naturalidade sensação de mudança a cada novo fragmento instrumental, fazendo do registro uma obra viva.

Como indicado no próprio título do trabalho, o sucessor do também delicado Dilúvio, de 2015, se divide de forma explícita em dois atos distintos. Na primeira metade, Memoro Fantomo. São oito composições em que Caravalho parece confortar o ouvinte. Paisagens, cenas e pequenos acontecimentos cotidianos remontados de forma instrumental. Em Célula_1, por exemplo, terceira faixa do disco, é possível visualizar um grupo de crianças brincado em um fim de tarde, proposta que muito se assemelha ao clássico Music Has the Right to Children (1998), da dupla Boards of Canada.

Da abertura do disco, em Os Momentos Plenos Da Minha Vida São Verdes, passando por faixas como Dezembro, Guara Pari, Inverno até alcançar a derradeira Nascer Do Sol, Janeiro, Carvalho parece jogar com as sensações do ouvinte. Um jogo atento de sintetizadores sobrepostos, fragmentos de vozes e pequenos entalhes eletrônicos. Sem pressa, cada composição nasce como um ato isolado, curioso, histórias contadas mesmo na ausência de voz, como se diferentes personagens e cenários fossem apresentados ao público no interior de cada canção.

Em Rio Preto I, nona faixa do disco, a passagem para um novo universo de composições. Enquanto todo o primeiro ato do trabalho parece refletir uma atmosfera acolhedora, pueril e matutina, efeito da profunda leveza de cada fragmento eletrônico, Carvalho faz do segundo bloco de canções uma completa inversão desse resultado. São canções densas, obscuras e amargas, como se a música do artista mineiro dialogasse com a noite, esbarrando vez ou outra na obra de artistas como Oneohtrix Point Never e, principalmente, Tim Hecker, influência confessa do músico. Continue reading

Tagged , , , , , , , , ,

Resenha: “Sketches From An Island 2”, Mark Barrott

Artista: Mark Barrott
Gênero: Ambient, Balearic Beat, Electronic
Acesse: http://sketchesfromanisland.com/

 

Mark Barrott passou grande parte da década de 1990 e começo dos anos 2000 explorando a música eletrônica de forma sempre atmosférica, levemente experimental, estímulo para grande parte da discografia produzida sob o título de Future Loop Foundation. Também responsável pelo selo International Feel — casa de produtores como CFCF e José Padilla —, no início da presente década o produtor de origem inglesa partiu em busca de novas sonoridades, encontrando na essência litorânea da música produzida em  Ibiza a base para a série Sketches from an Island.

Cantos de pássaros, sons extraídos de fenômenos naturais, sintetizadores, ruídos eletrônicos, guitarras sempre contidas e climáticas, além do uso descompromissado de temas psicodélicos. Dois anos após o lançamento do primeiro “capítulo” da série de obras, Barrott regressa ao mesmo ambiente ensolarado que surge impresso na capa de cada registro para apresentar ao público o inédito Sketches from an Island 2 (2016, Internacional Feel).

Movido pelo uso de temas lisérgico-tropicais, Barrott faz do presente álbum uma coleção de ideias marcadas pela completa delicadeza dos arranjos. Logo na abertura do disco, Brunch With Suki, composição que vai do reggae à música disco em um exercício de puro descompromisso, como a trilha sonora para um fim de tarde à beira mar. Batidas e colagens tímidas, precisas, um aquecimento para o som deliciosamente acolhedor que marca a canção seguinte Over At Dieter’s Place.

Longe de parecer confortado em uma preguiçosa zona de conforto, reciclando conceitos anteriormente explorados no primeiro registro da série, Barrot aproveita do álbum para buscar por novas sonoridades e temas eletrônicos. Quarta faixa do disco, Winter Sunset Sky talvez seja a melhor representação desse resultado. Ao mesmo tempo em que dialoga com toda a sequência de composições do disco, a música de quase seis minutos cria uma delicada passagem para o final dos anos 1980, efeito do enquadramento nostálgico dos sintetizadores. Continue reading

Tagged , , , , , , , , , ,

Jefre Cantu-Ledesma: “Love’s Refrain”

.

Dono de uma extensa obra marcada pelo uso de experimentos atmosféricos, Jefre Cantu-Ledesma fez do delicado A Year With 13 Moons, de 2015, uma de suas obras mais acessíveis. Entre ruídos e ambientações drone, Love After Love, At the End of Spring e The Last Time I Saw Your Face reforçaram o peso das melodias dentro do trabalho assinado pelo produtor, sonoridade que se reforça dentro da mais nova criação do artista, Love’s Refrain.

São pouco mais de sete minutos em que guitarras contidas, sintetizadores brandos e ruídos se espalham ao fundo da composição, presenteando o público com um ato tão experimental e torto quanto acolhedor. Uma clara extensão do material apresentado no último ano pelo norte-americano, porém, detalhado de forma ainda mais complexa, hipnótica. A canção foi a escolhida para anunciar o novo álbum de inéditas de Cantu-Ledesma, In Summer (2016).

In Summer (2016) será lançado no dia 07/08 pelo selo Geographic North.

.

Jefre Cantu-Ledesma – Love’s Refrain

Tagged , , , , , ,

Sentidor: “Memoro Fantomo_Rio Preto”

.

Memoro Fantomo_Rio Preto é um disco duplo sobre a queda num abismo e os momentos antes dela. Um diário sensorial sobre a depressão e um estudo artístico sobre a mente e as memórias”. É assim que o músico/produtor João Carvalho define o cósmico Memoro Fantomo_Rio Preto (2016). Mais recente álbum do artista mineiro, também integrante da banda El Toro Fuerte, uma coleção de 13 faixas que, como o próprio título aponta, acaba se dividindo em duas partes.

Na primeira metade do trabalho, uma seleção de oito faixas, sempre extensas e marcadas pela lenta sobreposição de ruídos minimalistas, vozes contidas e temas que facilmente poderiam ser encontrados na obra de artistas como Boards of Canada e Keith Fullerton Whitman. No segundo ato do registro, a ponte para um ambiente sombrio. Cinco composições que se amarram em meio a experimentos obscuros e ruídos que esbarram na obra de gigantes da ambient music como Tim Hecker.

.



Sentidor – Memoro Fantomo_Rio Preto

Tagged , , , , , , ,

Arca: “Entrañas”

.

Entrañas (2016), esse é o nome do mais novo trabalho de Alejandro Ghersi como Arca. Trata-se de uma mixtape, pouco mais de 25 minutos em que o produtor venezuelano brinca com as texturas eletrônicas, ruídos e vozes em uma sequência de 14 faixas inéditas. Obra colaborativa, a seleção se abre para a rápida interferência de nomes como Mica Levi, Massacooraman e Total Freedom, parceiros de Ghersi em três faixas do registro.

Anunciado durante o lançamento de Sin Rumbo, composição escolhida para encerrar o trabalho, Entrañas parece seguir um caminho parcialmente distinto em relação aos últimos trabalhos de Arca – Xen (2014) e Mutant (2015). Mesmo a relação com antigas mixtapes, caso do perturbador &&&&&, de 2013, parece nitidamente alterada, como se Ghersi transportasse parte da parceria com a islandesa Björk para dentro do próprio trabalho. Entrañas pode ser baixado gratuitamente aqui.

m.

Arca – Entrañas 

Tagged , , , , , , , ,

Resenha: “Weval”, Weval

Artista: Weval
Gênero: Electronic, Techno, Ambient
Acesse: https://soundcloud.com/weval

 

Harm Coolen e Merijn Scholte passaram os últimos seis anos em busca de um ponto de equilíbrio entre as experiências que abasteceram o trabalho de cada produtor em carreira solo. Como resultado dessa parceria, uma coleção de músicas avulsas, remixes e EPs em que o duo holandês colide ideias e experiências que tanto incorporam a House Music – base do trabalho de Coolen –, como esbarram em elementos do Trip-Hop/Ambient Music – ponto de partida da carreira solo de Scholte –, estímulo para o material seguro que cresce delicadamente no interior da homônima estreia da dupla como Weval.

Com distribuição pelo selo alemão Kompakt – casa de artistas como The Field e Gui Boratto –, o registro de 12 faixas e pouco mais de 50 minutos de duração parece seguir um caminho isolado em relação a outros trabalhos relacionados ao selo. Trata-se de uma obra que não apenas incorpora uma série de elementos típicos de diferentes produtores do mesmo grupo, como fragmenta cada batida e base de forma a reproduzir um material essencialmente climático, sutil.

Em I Don’t Need It, terceira faixa do disco, um resumo preciso de grande parte das canções produzidas pela dupla. Enquanto o verso central da composição flutua livremente – “I Don’t Need It / I Don’t Need It”–, funcionando como um instrumento complementar, batidas e pequenos ruídos eletrônicos crescem lentamente, sempre pontuais, criando uma espécie de alicerce para o delicada base de sintetizadores produzida pelos holandeses.

De fato, sobrevive no delicado uso dos sintetizadores o principal componente da obra. Da abertura do disco, em Intro, passando por músicas como The Battle, Just In Case e Years To Build, Coolen e Scholte apresentam um mundo de pequenas ambientações instrumentais, não economizando nos detalhes e no uso de pequenas manobras eletrônicas que distanciam o registro de uma possível repetição, fazendo do disco um trabalho sempre mutável, rica em detalhes. Continue reading

Tagged , , , , , , , , , ,

Resenha: “Under The Sun”, Mark Pritchard

Artista: Mark Pritchard
Gênero: Electronic, Ambient, Experimental
Acesse: http://markprtchrd.com/

 

Harmonic 33, Africa Hitech, Troubleman, Link, Global Communication e todo um catálogo de remixes produzidos para nomes como Amy Winehouse, Aphex Twin, Radiohead e Depeche Mode. Em mais de duas décadas de atuação, esses são alguns dos projetos assumidos pelo produtor inglês Mark Pritchard. Dono de uma sequência de obras assinadas em parceria com diferentes produtores da cena britânica, Pritchard encontra no recém-lançado Under The Sun (2016, Warp), novo álbum em carreira solo, uma delicada extensão do mesmo acervo de obras colaborativas.

Fruto dos experimentos e temas atmosféricos de Pritchard, cada composição do presente disco busca conforto em um material essencialmente detalhista, tímido, como se todos os elementos – vozes, batidas, harmonias e samples – fossem apresentados ao público em pequenas doses. Uma completa fuga do conceito dançante, por vezes eufórico, explorado nos últimos cinco anos pelo produtor – em geral, responsável por trabalhos voltados ao Hip-Hop, grime e pós-dubstep.

Atento e sem pressa, Pritchard desenvolve cada composição de forma isolada, minuciosa. Basta observar a forma como os sintetizadores são lentamente sobrepostos na inaugural ?, música que flutua entre os temas cinematográficos de Brian Eno e as guitarras do austríaco Fennesz. São quase 70 minutos de duração, tempo suficiente para que Pritchard se aprofunde em criações alongadas, como Ems, e ainda desenvolva faixas mais curtas, caso da efêmera Hi Red.

Mesmo encarado como um produto do isolamento criativo de Pritchard, em diversos momentos do trabalho, diferentes vozes e interferências surgem para ocupar as paisagens instrumentais criadas pelo produtor. São artistas como Beans na declamada The Blind Cage, o conterrâneo Bibio em Give It Your Choir e a cantora Linda Perhacs na acústica You Wash My Soul. Nada que se compare ao trabalho gerado em parceria com Thom Yorke em Beautiful People. Continue reading

Tagged , , , , , , , , ,

Resenha: “Will”, Julianna Barwick

Artista: Julianna Barwick
Gênero: Experimental, Ambient, Dream Pop
Acesse: http://www.juliannabarwick.com/

 

É impressionante a forma como Julianna Barwick parece explorar um universo completamente novo a cada registro de inéditas. Do som “florestal” que marca o primeiro trabalho da cantora, The Magic Place, lançado em 2011, passando pelas melodias inebriantes de Nepenthe, obra de 2013, cada álbum assinado pela musicista norte-americana se revela de forma sutil ao ouvinte, convidado a experimentar o delicado conjunto de vozes e melodias orquestradas de forma sempre detalhista pela compositora.

Em Will (2016, Dead Oceans), primeiro trabalho desde o curioso Rosabi EP (2014), obra que serviu para apresentar a marca de cerveja da cantora, um delicado recomeço. De essência experimental, o álbum assume um leve distanciamento em relação aos dois últimos registros de Barwick, revelando ao público um catálogo de sintetizadores climáticos, o uso controlado de arranjos orquestrais e composições assinadas em parceria com diferentes nomes da cena norte-americana.

Trabalho mais “instável” de toda a discografia de Barwick, o registro de apenas nove faixas mostra o esforço da cantora em explorar novos territórios a cada curva do disco. Primeira canção a ser apresentada ao público, Nebula talvez funcione como um indicativo do material que invade o restante do disco. Ainda que a voz angelical da artista se faça presente do primeiro ao último ato da composição, está no uso do sintetizador o principal componente da canção, uma espécie de ponte para a New Age dos anos 1970.

Quarta faixa do disco, Same, parceria com o músico Thomas Arsenault, do projeto canadense Mas Ysa, é outra composição que reforça a transformação de Barwick dentro do presente disco. São quase cinco minutos em que a voz da cantora se dissolve como uma delicada peça instrumental, colidindo lentamente com a soma de harmonias eletrônicas assinadas pelo parceiro de estúdio. Uma versão futurística do mesmo material apresentado há cinco anos em The Magic Place. Continue reading

Tagged , , , , , , ,

Resenha: “A Moon Shaped Pool”, Radiohead

Artista: Radiohead
Gênero: Alternative, Experimental, Psychedelic
Acesse: http://www.radiohead.com/

 

Apenas não vá embora
Não vá embora
O verdadeiro amor espera
Em sótãos assombrados

Originalmente apresentada em 1995, durante a turnê de lançamento do álbum The Bends e, posteriormente, registrada como parte da coletânea ao vivo I Might Be Wrong: Live Recordings (2001), a derradeira True Love Waits nasce como o símbolo do novo registro de estúdio do Radiohead. Sucessor do eletrônico The King of Limbs (2011), A Moon Shaped Pool (2016, XL) chega ao público como uma obra segura, essencialmente precisa. Um regresso (in)voluntário ao imenso acervo de composições e temas instrumentais produzidos pelo quinteto inglês nas últimas duas décadas.

Das 11 faixas que recheiam o disco, pelo menos seis foram executadas em apresentações ao vivo ou exploradas em diferentes fases e projetos do grupo inglês. Escolhida para a abertura do disco, Burn The Witch, por exemplo, teve fragmentos da própria letra publicados na contracapa do álbum Hail To The Thief, de 2003. A mesma canção ainda foi objeto de discussão entre os integrantes durante as sessões de Kid A (2001) e In Rainbows (2007), sendo finalizada há poucos meses. Mesmo ancorado no passado, A Moon Shaped Pool está longe de parecer uma preguiçosa reciclagem de conceitos antigos. Prova disso está na busca do quinteto por uma som remodelado, orquestral, estímulo para a série de colaborações com os músicos da London Contemporary Orchestra.

Se há cinco anos The King of Limbs nascia como uma continuação do material produzido por Thom Yorke em carreira solo, ao visitar faixas como Glass Eyes e True Love Waits é fácil perceber o interesse da banda pela carreira solo do guitarrista Jonny Greenwood. Uma delicada tapeçaria de vozes e sons atmosféricos, por vezes oníricos. Não por acaso, Paul Thomas Anderson, cineasta que convidou Greenwood a produzir a trilha sonora de filmes como There Will Be Blood (2007) e The Master (2012) assume a direção do delicado clipe de Daydreaming.

A mesma sutileza empregada na construção dos arranjos ainda serve de estímulo para a projeção dos versos que lentamente dançam no interior do trabalho. Letras sufocadas por temas existencialistas – “nós estamos felizes apenas em servir”–, relacionamentos fracassados – “Corações partidos fazer chover / Corações partidos”–, medos – “Amor, venha até mim antes que seja tarde demais” – e declarações de amor angustiadas – “Apenas não vá / Não vá”. Uma fuga parcial dos temas políticos que sempre acompanharam a banda, preferência que faz do registro um dos trabalhos mais delicados e intimistas de toda a discografia do grupo britânico. Continue reading

Tagged , , , , , , , , , , , ,