Artista: Visible Cloaks
Gênero: Experimental, Electronic, Ambient
Acesse: http://www.visiblecloaks.com/

 

Imagine tudo que foi produzido em termos de experimentação com a música eletrônica na última década. Da chillwave de Neon Indian e Ford & Lopatin ao som torto explorado por Oneohtrix Point Never e Laurel Halo. Da vaporwave de 2 8 1 4, Macintosh Plus e Blank Banshee ao detalhamento atmosférico que escapa das composições de artistas como Julianna Barwick, Emeralds e Fennesz. Ideias, reciclagens e possibilidades que se agrupam de forma propositadamente instável em Reassemblage (2017, RVNG INTL), segundo registro de inéditas da dupla Visible Cloaks.

Inicialmente pensado como um trabalho solo do produtor Spencer Doran e batizado apenas como Cloaks, o projeto ganhou novos contornos com a chegada do músico e parceiro de estúdio Ryan Carlile. Do encontro, veio o primeiro álbum homônimo como Visible Clocks, um curioso ensaio para as canções que assumem nova formatação dentro do presente registro. Músicas essencialmente curtas, dinâmicas, porém, compostas por camadas de melodias eletrônicas, quebras e ritmos diferentes.

Obra de incertezas, Reassemblage parece mudar de direção a cada novo fragmento musical. Basta uma audição da atmosférica Screen, faixa de abertura do disco, para mergulhar no universo produzido pela dupla de Portland. Em um intervalo de apenas três minutos, tempo de duração da música, sintetizadores etéreos, pinceladas minimalistas e ruídos delicadamente se espalham ao fundo da canção, resultando em uma improvável encontro entre Killing Time de Nicolas Jaar e a trilha sonora de Vangelis para Blade Runner (1982).

Na contramão de outros projetos do gênero, em sua maioria centrados na força das batidas, o álbum de 11 canções – 15 na versão digital –, encontra nas melodias e bases eletrônicas o ponto de partida para grande parte das canções. Terceira faixa do disco, Bloodstream reflete com naturalidade esse conceito. Sintetizadores e entalhes minimalistas que se espalham durante toda a formação da faixa. Uma fina tapeçaria que cresce e ocupa todo a composição, completa pelo uso de vozes eletrônicas à la Daft Punk em The Game of Love.

Continue Reading "Resenha: “Reassemblage”, Visible Cloaks"

Artista: Bing & Ruth
Gênero: Experimental, Ambient, Drone
Acesse: http://bingandruth.com/

 

Questionado pelo jornalista Philip Sherburne em uma extensa entrevista sobre a origem conceitual, evolução e novos rumos da Ambient Music, Brian Eno respondeu: “Para mim, a idéia central era sobre a música como um lugar que você pudesse visitar. Não uma narrativa, tampouco uma sequência que tenha algum tipo de direção teleológica. É realmente baseado no expressionismo abstrato: em vez da imagem de uma perspectiva estruturada, onde o olho aponta para uma determinada direção, temos um campo, e você pode passear sonicamente sobre esse campo”.

Inspirado de forma confessa pela obra do cantor, compositor e produtor inglês, o pianista nova-iorquino David Moore faz de cada novo álbum do Bing & Ruth a passagem para um cenário dominado por diferentes formas, estruturas instrumentais e melodias que dançam em torno do ouvinte. Oficialmente apresentado ao público durante o lançamento do álbum Tomorrow Was The Golden Age, de 2014, Moore retorna ao estúdio com um time de instrumentistas para a produção de um novo e delicado experimento atmosférico.

Em No Home of the Mind (2017), quinto registro de inéditas do músico norte-americano e primeiro trabalho do Bing & Ruth lançado pelo selo 4AD – casa de artistas como Tim Hecker e Deerhunter –, Moore mais uma vez conduz o ouvinte para dentro de um labirinto dominado por pianos e sons enevoados. Uma lenta sobreposição dos instrumentos que atravessa a obra de Brian Eno, dialoga com o trabalho de compositores como Phillip Glass e Max Richter, até se perder em um universo de formas abstratas.

Obra de repetições, como tudo que Moore vem produzindo nos últimos anos, o registro de dez faixas exige uma audição atenta até que ouvinte perceba todas as nuances e manobras instrumentais que o pianista detalha no interior do disco. Longe de garantir respostas, No Home of the Mind parece pensado de forma que o público se perca dentro dele. Passagens, brechas e espirais que mudam de forma a todo instante. Composições iluminadas por um brilho fosco, como a inaugural Starwood Choker, ou mesmo faixas marcadas pelo tom soturno dos arranjos, caso de Chonchos.

Continue Reading "Resenha: “No Home of the Mind”, Bing & Ruth"

 

Mais conhecido pelo trabalho como Lee Bannon, Fred Warmsley decidiu dar vida a um novo projeto em meados do último ano. Sob o título de Dedekind Cut, o produtor responsável pelo som de artistas como Pro Era e Joey Bada$$ deu vida ao atmosférico $uccessor (ded004) – 49º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos de 2016. Um jogo de melodias, samples e ruídos controlados que volta a se repetir dentro do novo single do artista: Lil Puffy Coat.

Livre do conceito “etéreo” explorado no último disco, a faixa de quase cinco minutos parece feita para bagunçar a cabeça do ouvinte. São bases densas, captações sujas e sintetizadores marcados que transportam o ouvinte para dentro de um território ritmado, quase dançante. Uma espécie de remix anárquico dos últimos trabalhos de Oneohtrix Point Never e Tim Hecker, artistas que partilham dos mesmos conceitos de Warmsley.

 

Dedekind Cut – Lil Puffy Coat

Continue Reading "Dedekind Cut: “Lil Puffy Coat”"

Artista: CEP
Gênero: Ambient, Eletrônica, Experimental
Acesse: https://thecreativeindependent.com/

 

A voz sempre foi encarada como um componente fundamental dentro da carreira de Caroline Polachek. Seja no pop nostálgico do Chairlift, projeto em parceria com o músico Aaron Pfenning, em canções produzidas para artistas como Beyoncé, caso de No Angel, e até no curioso Arcadia (2014), primeiro registro da cantora sob o título de Ramona Lisa, grande parte do material assinado pela artista norte-americana fez dos versos e vozes um estímulo para seduzir e conquistar o ouvinte.

Curioso perceber em Drawing The Target Around The Arrow (2017, Independente), novo registro solo de Polachek, a passagem para um ambiente dominado pela completa ausência dos vocais. Em entrevista ao site The Creative Independent, por onde lançou o trabalho de temas minimalistas  gratuitamente, a artista comentou a decisão: “Naturalmente eu queria experimentar, inserir a voz, afinal, é isso o que eu faço. Gravei [os vocais] e percebi que a coisa toda parecia desmoronar”.

De essência atmosférica, o registro de 18 composições inéditas se espalha sem pressa, sempre de forma contida, tímida. São sintetizadores, ruídos e colagens eletrônicos que funcionam como uma fina tapeçaria instrumental. Músicas detalhadas em um curto espaço de tempo – dois ou três minutos –, conduzindo o ouvinte para dentro de um cenário livre de possíveis excessos, como se Polachek evitasse ao máximo ultrapassar uma possível linha conceitual.

Na contramão de qualquer trabalho recente produzido por Polachek, Drawing The Target Around The Arrow é um registro que investe no completo isolamento das canções. Trata-se de uma obra hermética, por vezes difícil de ser absorvido, efeito da forte similaridade entre as canções. Melodias tímidas e loops simples, despidos do mesmo universo de texturas e sobreposições complexas que alimentam grande parte dos trabalhos protegidos sob o rótulo de “ambient music”.

Continue Reading "Resenha: “Drawing The Target Around The Arrow”, CEP"

Artista: William Basinski
Gênero: Experimental, Ambient, Drone
Acesse: https://williambasinski.bandcamp.com/

 

Mesmo sem dizer uma só palavra, os trabalhos de William Basinski sempre foram marcados pela emoção e força dos sentimentos. Basta uma rápida passagem pela série The Disintegration Loops (2003) ou mesmo obras recentes, caso de Cascade / The Deluge (2015), para perceber como os ruídos e ambientações assinadas pelo músico nova-iorquino se dobram de forma a reproduzir um som melancólico, tocante. Experimentos capazes de exaltar o que há de mais amargo no universo de qualquer indivíduo.

Em A Shadow In Time (2017, Temporary Residence), mais recente invento autoral de Basinski, cada fragmento, ruído ou mínima distorção assinada pelo produtor norte-americano se projeta como uma delicada homenagem ao músico britânico David Bowie (1947 – 2016). Em produção desde o começo do último ano, semanas após a morte do camaleão do rock, o álbum de apenas duas faixas encanta pela ambientação melancólica que sutilmente arrasta o ouvinte para dentro do registro.

Composição de abertura do trabalho, a extensa For David Robert Jones mostra a capacidade de Basinski em manter a atenção do ouvinte em alta durante mais de 20 minutos de duração. Orquestrada com sutileza, a faixa ocupa grande parte dos cinco minutos iniciais com a lenta sobreposição de ruídos e sintetizadores em loop, como se o nova-iorquino provasse da mesma temática experimental de artistas como Keith Fullerton Whitman e outros veteranos da música ambiental.

Sem pressa, Basinski detalha pequenas quebras, interferências angustiadas e ambientações que tocam de leve na obra do canadense Tim Hecker. Como um sinal, a partir de 6:05, uma espécie de sirene atravessa a massa de sons atmosféricos criados pelo músico. Instantes de breve ruptura, como se o artista provasse da mesma quebra conceitual assumida por Bowie durante o período criativo que resultou na famigerada “Era Berlim” – Low (1977), “Heroes” (1977) e Lodger (1979).

Continue Reading "Resenha: “A Shadow In Time”, William Basinski"

Artista: Julie Byrne
Gênero: Folk, Dream Pop, Indie
Acesse: https://juliembyrne.bandcamp.com/

 

 

“Siga minha voz
Estou bem aqui
Além dessa luz
Além de todo o medo”

Como um precioso convite, a inaugural Follow My Voice conduz o ouvinte para dentro do ambiente acolhedor que se espalha entre as canções de Not Even Happiness (2017, Ba Da Bing). Segundo e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana Julie Byrne, o registro de apenas nove faixas amplia o conceito intimista apresentado no antecessor Rooms With Walls and Windows, de 2014, reforçando o folk sentimental e atmosférico que alimenta a obra da musicista.

Em ambiente enevoado, por vezes etéreo, efeito da voz marcada pelo som ecoado da captação e arranjos sutilmente espalhados ao longo do disco, Byrne convida o ouvinte a se perder. Como indicado durante o lançamento de Natural Blue, grande parte do registro flutua entre o folk melancólico da década de 1970 e o Dream Pop produzido nos anos 1990 e 2000. Instantes em que a obra da cantora nova-iorquina toca de forma referencial no trabalho de Joni Mitchell, Nico, Cat Power e Grouper, esta última, influência declarada na experimental Interlude.

De essência agridoce, Not Even Happiness se divide com naturalidade entre a melancolia dos versos e instantes de puro romantismo que crescem na voz de Byrne. “Caminhe em direção à ferida aberta / Viva em sonhos / Eu vou ficar para sempre / Dentro das cores que você mostrou”, canta em Natural Blue, uma canção que olha para o passado de forma honesta, resgatando fragmentos de um relacionamento que não deu certo, mas que continua a povoar a mente do eu lírico.

Posicionada no encerramento do disco, I Live Now As A Singer brinca de forma particular com a mesma temática. Enquanto os versos resgatam memórias recentes de Byrne (“E sim, eu fui ao chão, pedindo perdão / Quando eu não estava nem perto de me perdoar”), musicalmente, o ouvinte é conduzido para dentro de uma nuvem de sons inebriantes. Arranjos acústicos que se espalham em meio a sintetizadores densos, por vezes íntimos do som produzido por Angelo Badelamenti para a trilha sonora de Twin Peaks.

Continue Reading "Resenha: “Not Even Happiness”, Julie Byrne"

Artista: De Repente, Vivo
Gênero: Pós-Rock, Experimental, Indie
Acesse: https://www.facebook.com/derepentevivo/

 

Idealizações e Contratempos Que Resultam Em Música é um trabalho precioso. Do momento em que tem início O Idealista, faixa de abertura do disco, cada fragmento da música produzida pelo cantor, compositor e multi-instrumentista gaúcho Juliano Lacerda se projeta de forma a confortar o ouvinte. Ambientações sutis, guitarras etéreas, sempre minimalistas, ponto de partida para a construção de cada uma das composições que recheiam o primeiro grande registro do projeto De Repente, Vivo.

Produto do isolamento do músico gaúcho, responsável pelos instrumentos, vozes e mixagem do trabalho, o registro de oito faixas revela um claro amadurecimento em relação ao EP de cinco faixas apresentado por Lacerda em 2015. Livre do parcial experimento e ziguezaguear de ideias que marcam o curto registro, cada canção do presente álbum serve de estímulo para a música seguinte, resultando na construção de um álbum homogêneo, mesmo rico em detalhes e possibilidades.

Entre temas acústicos e sobreposições eletrônicas, sempre próximas da música ambiental, Idealizações e Contratempos… encanta pela fluidez tímida e hipnótica dos arranjos. Ainda que a faixa de abertura do disco estreite a relação com o trabalho do Explosions in the Sky e outros representantes de peso do pós-rock, à medida que o álbum avança, novos ritmos e temas instrumentais escapam do som produzido por Lacerda, revelando a identidade do trabalho.

Um bom exemplo disso está na segunda faixa do disco, Se o Sol Não Nos Deixar. Em um intervalo de quase seis minutos, o músico gaúcho detalha uma fina tapeçaria eletrônica, pano de fundo para a inclusão de vozes sintéticas, uma espécie de novo instrumento nas mãos do artista. O mesmo cuidado se reflete ainda em Ecos Em Curto-circuito, quarta faixa do disco. Um jogo de melodias eletrônicas, naturalmente íntimas do trabalho produzido por artistas como Brian Eno, influência confessa de Lacerda.

Continue Reading "Resenha: “Idealizações e Contratempos Que Resultam Em Música”, De Repente, Vivo"

Artista: Brian Eno
Gênero: Experimental, Ambient Music, Eletrônica
Acesse: http://www.brian-eno.net/

 

Em maio de 2016, Jeremy Allen, do site FACT Magazine, escreveu uma curiosa análise sobre o lançamento de obras cada vez mais extensas. Um possível reflexo das novas regras propostas por diferentes serviços de streaming – caso de Spotify e Apple Music. Trabalhos como The Colour in Anything, de James Blake, e Views, do rapper Drake que se perdem em meio a um número excessivo de composições, muitas delas desnecessárias, produzidas apenas para aumentar a renda captada em torno do registro.

Na contramão desse “movimento”, o britânico Brian Eno apresenta o atmosférico Reflection (2017, Warp). Entregue ao público poucos meses após o lançamento do elogiado The Ship (2016), obra marcada pela experimentação e uso atípico da voz dentro dos trabalhos do produtor, o novo disco segue a trilha de obras recentes como Lux (2012), fazendo da lenta sobreposição das melodias e temas eletrônicos a base da extensa (e única) composição do disco.

Longe de parecer uma novidade dentro da discografia de Eno, o trabalho de exatos 54 minutos de duração parece seguir a trilha de outro experimento produzido pelo artista em meados da década de 1980, Thursday Afternoon. Trata-se de uma peça única, 60 minutos de duração, uma versão reduzida da trilha sonora produzida para um vídeo que registra a montagem de sete telas da artista Christine Alicino, amiga de longa data do músico inglês.

Reflection, como o próprio título indica, estabelece um precioso de diálogo musical com os antigos trabalhos de Eno. Uma delicada reciclagem de conceitos e temas minimalistas, como se fragmentos de velhos registros produzidos pelo veterano fossem cuidadosamente resgatados e espalhados de forma sutil durante toda a construção do álbum. Um novo e, ao mesmo tempo, nostálgico capítulo dentro da extensa seleção de obras ambientais produzidas por Eno.

Continue Reading "Resenha: “Reflection”, Brian Eno"

 

Quem acompanha o Unknown Mortal Orchestra no Soundcloud já deve ter se deparado com uma série de composições extensas intitulada SB. Trata-se de uma série de experimentos produzidos pelo grupo desde dezembro de 2013, meses após o lançamento do elogiado II, segundo álbum de estúdio da banda. Depois de duas variações do mesmo trabalho apresentadas ao público nos anos seguintes – SB-02 e SB-03 –, os integrantes da banda neo-zelandesa/norte-americana estão de volta com a inédita SB-04.

Trata-se de um extenso ato instrumental. Pouco mais de 20 minutos em que guitarras e sintetizadores passeiam pelas principais referências do grupo comandado por Ruban Nielson. Melodias eletrônicas, sons empoeirados e pequenas ambientações psicodélicas, como uma extensão curiosa do som produzido pelo grupo há pouco mais de um ano, durante o lançamento do ótimo Multi-Love (2015), terceiro álbum de estúdio do UMO.

 

Unknown Mortal Orchestra – SB-04

Continue Reading "Unknown Mortal Orchestra: “SB-04”"

 

A atmosfera acolhedora criada por Liz Harris em Ruins – 7º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 –, continua se espalhando delicadamente, sem pressa. Dois anos após o lançamento do bem-sucedido registro, a cantora e produtora norte-americana está de volta com um novo material. Trata-se da dobradinha Headache e I’m Clean Now, uma lenta sobreposição de vozes e guitarras ambientais que evidenciam o completo detalhismo da musicista.

Enquanto Headache cresce de forma hipnótica, sugando o ouvinte para dentro dela, em I’m Clean Now, Harris entrega uma canção que parece esfarelar nos ouvidos. Entre guitarras dedilhadas de forma tímida, uma manta ruidosa, sutil, parece cobrir os versos lançados pela cantora. Para divulgar o material, Grouper foi em busca do diretor Paul Clipson, responsável pelas imagens bucólicas que movimentam de forma sutil o clipe de Headache.

 

Grouper – Headache

Grouper – I’m Clean Now

Continue Reading "Grouper: “Headache” / “I’m Clean Now”"