. Mais conhecido pelo trabalho com o The Fiery Furnaces, projeto divido com a irmã, Eleanor, Matthew Friedberger está de volta com uma nova banda. Trata-se da Saqqara Mastabas, projeto que também conta com a participação do músico Bob D’Amico, baterista que trabalhou com nomes como Sebadoh e Lou Reed, colaborando no final da década passada com dois álbuns do antigo grupo de Friedberger, Widow City (2007) e I’m Going Away (2009). Em Uto On The Upswing, primeira canção do álbum de estreia da dupla, Libras (2016), uma perfeita síntese…Continue Reading “Saqqara Mastabas: “Uto On The Upswing””

Artista: Colin Stetson
Gênero: Avant-Garde, Experimental, Contemporary Classical
Acesse: http://colinstetson.bandcamp.com/

 

Poucas vezes antes o trabalho de Colin Stetson pareceu tão “ameaçador” e ainda assim musicalmente acessível quanto em Sorrow – A Reimagining of Gorecki’s 3rd Symphony (2016, 52HZ). Mais recente álbum de estúdio do saxofonista norte-americano, o registro de apenas três faixas nasce como um curioso exercício de reinterpretação. A visão distorcida, por vezes obscura e caótica de Stetson sobre a 3ª sinfonia do compositor polonês Henryk Górecki.

Trabalho que mais se distancia de toda a sequência de álbuns apresentados por Stetson nos últimos anos – caso da série New History Warfare e o colaborativo Never Were the Way She Was (2015), disco lançado em parceria com a violinista Sarah Neufeld –, Sorrow é uma obra de ruptura. Longe da melancolia tradicionalmente despejada pelo saxofone do músico estadunidense, um catálogo de novas regras, melodias e ambientações instrumentais.

Música de abertura do disco, Sorrow: I – Lento — Sostenuto Tranquillo Ma Cantabile nasce como uma passagem brusca para esse novo universo explorado por Stetson. São pouco mais de 28 minutos em que arranjos orquestrais tecem uma preciosa e sufocante tapeçaria instrumental. Ideias sobrepostas que garantem novo significado ao saxofone versátil do músico norte-americano e toda o conjunto de instrumentos, ruídos e até mesmo vozes operísticas que ocupam o ato final da canção.

Na segunda parte do disco, Sorrow: II – Lento E Largo — Tranquillissimo, a manipulação sutil das melodias mostra o diálogo de Stetson com outros campos da música. Ao mesmo tempo em que a voz cresce e se espalha ao fundo da composição, bases lentas, sempre arrastadas e atmosféricas revelam um curioso interesse pelo trabalho de veteranos do pós rock. É fácil lembrar de grupos como Godspeed You! Black Emperor e, principalmente, o Sigur Rós dos discos Valtari (2012) e Kveikur (2013).

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Artista: Vijay Iyer & Wadada Leo Smith
Gênero: Jazz, Ambient, Experimental
Acesse: http://vijay-iyer.com/

 

A tristeza corrompe cada nota apresentada em A Cosmic Rhythm With Each Stroke (2016, ECM). Trabalho desenvolvido em parceria entre o pianista e compositor nova-iorquino Vijay Iyer e o trompetista Wadada Leo Smith, um dos veteranos do avant-garde jazz norte-americano, a obra de ambientação sorumbática se espalha lentamente, revelando uma imensa colcha de retalhos marcada por temas intimistas, profundamente sombrios e emocionais.

Em um movimento conjunto que vai da abertura do registro, com Passage, e segue até a execução da extensa Marian Anderson, no encerramento da obra, Iyer e o parceiro de estúdio trocam confissões e sentimentos que sutilmente ocupam o interior do trabalho. Uma espécie de canto silencioso, por vezes perturbador, capaz de ocupar os pequenos respiros deixados pelo trompete de Smith e a imensa base instrumental que o pianista detalha até o último instante do álbum.

Extensão cuidadosa do mesmo material produzido em obras como Solo (2010) e Accelerando (2012) – este último, lançado como parte do projeto Vijay Iyer Trio -, A Cosmic Rhythm… vai além de uma longa composição atmosférica, íntima de toda a série de registros assinados pelo pianista norte-americano. Trata-se de uma obra conduzida pela emoção, como se o “canto” melancólico despejado pelo trompete de Smith fosse capaz de interferir na tapeçaria que flutua em faixas como Labyrinths e A Divine Courage.

Ainda que seja fácil lembrar de obras assinadas por veteranos como Miles Davis e outros gigantes do Jazz norte-americano, durante toda a construção da obra, Iyer e Smith tentam estabelecer um conjunto de regras próprias. São instantes de isolamento rompidos por inserções crescentes de piano e gritos melancólicos que escapam do instrumento de Smith. Segunda canção do disco, All Become Alive sintetiza com acerto essa permanente estrutura montada para o álbum. Pouco mais de nove minutos em que os arranjos se alteram de acordo com as orquestrações da dupla.

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. Colaborador frequente de uma série de artistas como Arcade Fire, Bon Iver, TV On The Radio e, mais recentemente, Animal Collective, o saxofonista Collin Stetson anuncia para o dia oito de abril a chegada de um novo álbum de estúdio: SORROW. Trata-se de uma reinterpretação da 3ª sinfonia do compositor polonês Henryk Górecki, músico que faleceu em meados de 2010 e uma das principais influências na carreira do artista norte-americano. Depois de SORROW I (Extract) e SORROW III (Extract II), apresentadas há poucos dias, Stetson…Continue Reading “Colin Stetson: “SORROW II (Extract)””

Anna Meredith
Experimental/Alternative/Indie
http://www.annameredith.com/

 

As ideias cobrem toda a extensão do curioso Varmints (2016, Moshi Moshi). Primeiro registro de estúdio da cantora, compositora e multi-instrumentista britânica Anna Meredith, o trabalho que flutua entre temas acústicos e ensaios eletrônicos delicadamente expande o rico catálogo de experimentos compilados pela artista nos dois últimos registros de inéditas, os bem-sucedidos Black Prince Fury EP (2012) e Jet Black Raider EP (2013).

Entre diálogos com a “música clássica” (Scrimshaw, Nautilus), experimentos que flertam abertamente com o Math Rock (Taken) e composições marcadas pela delicadeza das vozes e arranjos (Something Helpful, Dowager), Meredith cria um imenso conjunto de fórmulas pensadas para bagunçar a cabeça do ouvinte. Sintetizadores, arranjos de cordas, guitarras, vozes e batidas que vão de um ambiente introspectivo à explosão em poucos segundos.

Com Nautilus como faixa de abertura, Meredith indica a construção de obra essencialmente grandiosa, épica. Originalmente apresentada em Black Prince Fury EP, a canção de base orquestral encontra na continua repetição dos elementos um estímulo para prender a atenção do ouvinte. Um crescente turbilhão que em poucos minutos autoriza a inserção de batidas, ruídos sintéticos e toda uma avalanche de retalhos eletrônicos, ponte para grande parte da obra.

De fato, cada uma das 11 composições de Varmints sustenta na propositada repetição de ideias um inusitado ponto de partida. São versos cíclicos na delicada Something Helpful, guitarras e batidas no interior da crescente The Vapours, a programação eletrônica em Shill. Arranjos, vozes e batidas que se entrelaçam revelando pequenos turbilhões criativos. Uma extensão do material anteriormente explorado pela musicista nos dois primeiros EPs.

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. Colaborador frequente de uma série de artistas como Arcade Fire, Bon Iver, TV On The Radio e, mais recentemente, Animal Collective, o saxofonista Collin Stetson anuncia para o dia oito de abril a chegada de um novo álbum de estúdio: SORROW. Trata-se de uma reinterpretação da 3ª sinfonia do compositor polonês Henryk Górecki, músico que faleceu em meados de 2010 e uma das principais influências na carreira do artista norte-americano. Em processo de divulgação do novo trabalho, o primeiro registro particular desde New History Warfare Vol….Continue Reading “Colin Stetson: “SORROW I (Extract)” / “SORROW III (Extract II)””

. Como montar uma lista de apenas dez faixas quando o artista em questão faz de cada novo registro em estúdio uma obra completamente distinta, singular? Grupo responsável por alguns dos trabalhos mais importantes da cena norte-americana na última década, o Animal Collective, banda original da cidade de Baltimore, Maryland, chega ao décimo álbum da carreira, Painting With (2016), reciclando uma série de conceitos explorados desde o começo dos anos 2000. São temas eletrônicos, acústicos e psicodélicos que passam por obras significativas como Spirit They’re Gone Spirit They’ve Vanished…Continue Reading “Aperitivo: 10 Músicas Para Gostar de Animal Collective”

Joanna Newsom
Folk/Chamber Pop/Singer-Songwriter
http://www.joanna-newsom.com/

 

Se você procurar por Joanna Newsom no Google, dificilmente encontrará um site oficial atualizado ou mesmo contas em diferentes redes sociais. Músicas no Spotify? Somente raras parcerias assinadas ao lado de outros artistas – caso de Right On, do coletivo The Roots. Em entrevistas recentes, a cantora reforçou o completo desprezo pela plataforma e outros serviços de streaming. Salve a seção no site do selo Drag Music, também responsável pela publicação dos vídeos da artista no Youtube, Newsom parece viver isolada, distante da tecnologia, temas e tendências que movimentam o cenário atual.

Prova explícita desse “distanciamento” ecoa no peculiar jogo de palavras que cresce em cada novo trabalho da cantora. Termos arcaicos, não convencionais, como “hydrocephilitic”, “antediluvian” e “Tulgeywood” que acabaram se transformando em objeto de análise (ou piada) em diferentes publicações. Longe da rima fácil, do canto comercial e descomplicado, Newsom parece acomodada em um ambiente próprio, detalhando faixas que ultrapassam os 10 minutos de duração em uma montagem quase textual.

Curioso perceber que mesmo isolada, habitante de um universo tão intimista, poucos artistas atuais exercem um fascínio tão grande no público quanto Joanna Newsom. Basta perceber a infinidade de artigos, publicações e especiais lançados em diferentes veículos nos últimos meses. Se faltam caminhos “oficiais” para chegar até o trabalho da artista, sobram publicações no Reddit e vídeos (ao vivo) compartilhados pelos próprios ouvintes da cantora. Uma euforia coletiva que se sustenta na coesa execução do recém-lançado Divers (2015, Drag City).

Quarto registro de inéditas da cantora e primeiro álbum de estúdio desde o lançamento do triplo Have One On Me, de 2010, Divers sobrevive como uma obra de possibilidades. Ainda que Newsom tenha provado de arranjos experimentais no registro apresentada há cinco anos, poucas vezes antes um disco da cantora norte-americana pareceu tão instável, curioso, quanto o presente lançamento. Longe da habitual zona de conforto testada nos “florestais” The Milk-Eyed Mender (2004) e Ys (2006), Newsom parece testar os próprios limites, costurando ruídos, versos colossais e novos instrumentos em cada uma das 11 faixas da presente obra.

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Guizado
Jazz/Experimental/Electronic
https://www.facebook.com/guizado.man

Da estreia com Punx (2008) ao cruzamento de referências que marca Calavera (2010), Guilherme Mendonça nunca demonstrou interesse em produzir um som fácil ou “acessível” com o Guizado. Ritmos nacionais desconstruídos, interferências eletrônicas, vozes e versos robóticos, além do trompete fluido, sempre explorado com liberdade, sem rumo ou direção definida. Um curioso jogo de referências instáveis, estímulo para o uso de temas ainda mais provocativos no terceiro álbum de estúdio do trompetista, O Voo do Dragão (2015, Independente).

Nascido do “cruzamento” entre os dois últimos registros de Mendonça, o trabalho gravado por M. Takara e Fernando Sanches no estúdio El Rocha entrega oito faixas de puro delírio e constante transformação. Da abertura com Sete Lâminas ao fechamento em Luzes, um intenso revezamento do time formado por Guizado (trompete e programações), Caetano Malta (sintetizadores), Thiago Duar (baixo), Alle Alencar (guitarra) e Thiago Babalú (bateria). Artistas capazes de prender a atenção e estimular o ouvinte – sempre hipnotizado pelas estranhas formas musicais que abastecem a obra.

Como explícito no título do trabalho – O Voo do Dragão, nome inspirado no filme de 1972 estrelado por Bruce Lee -, parte expressiva do presente álbum está ancorada em elementos da cultura oriental. Entretanto, assim como Criolo no recente Convoque Seu Buda (2014), não se trata de uma obra conceitual, temática, mas uma sutil interpretação desse universo. Samples e colagens encaixados de forma complementar, como fragmentos utilizados para preencher as lacunas da obra.

Mesmo encarado de forma não linear, esquivo de qualquer traço de previsibilidade, não é difícil perceber dois agrupamentos distintos de canções. Como uma obra dividida em duas metades, O Voo do Dragão sustenta no ato inicial sua porção mais complexa e versátil. Músicas como Sete Lâminas e a própria faixa-título, faixas quebradas em diferentes atos e ambientações rítmicas, como se várias composições fossem amarradas dentro de um mesmo bloco de experiências. A julgar pelo uso de samples e sobreposições Lo-Fi em O Cachorro na Estrada, é possível perceber um diálogo (não intencional) com os mesmos temas orientais de Gold Panda em Lucky Shiner (2010) ou mesmo com o trabalho de Steve Ellison no “jazzístico” You’re Dead! (2014), último disco do Flying Lotus.

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Holly Herndon
Experimental/Avant-Garde/Electronic
http://www.hollyherndon.com/

Vozes recortadas de forma abstrata e encaixadas sem ordem aparente; sintetizadores ambientais, ruídos eletrônicos e batidas movidos pelo etéreo; gritos, sussurros e provocações. Quem acompanha o trabalho de Holly Herndon sabe que o “óbvio” passa longe dos arranjos assinados pela artista. Misto de personagem e matéria-prima da própria obra, ao alcançar o recente Platform (2015, 4AD), segundo trabalho em carreira solo, a compositora norte-americana dá um passo além em relação aos últimos lançamentos de estúdio, colidindo melodias, conceitos e até imagens dentro de um cenário que parece modificado a todo o instante.

Primeiro registro de Herndon lançado por um selo de médio porte – 4AD Records, casa de Grimes, St. Vincent e Ariel Pink -, Platform pode até seguir a trilha do álbum antecessor Movement, de 2012, entretanto, aos poucos revela evidências sobre os novos interesses da artista. Ainda que a voz seja o principal ingrediente da obra, refletindo a mesma temática orgânica do disco passado, cada ato, canto ou melodia torta de Herndon encontra no uso de temas eletrônicos um sustento renovado. Ruídos, manipulações e até batidas eletrônicas que apontam a lenta “digitalização” da artista – preferência que se estende da faixa de abertura ao visual futurístico que aparece na capa do álbum.

Sem começo, meio ou final, Platform parece brincar com a linearidade de um registro comum. De fato, grande parte das faixas crescem substancialmente quando observadas além dos limites das melodias, invadindo o campo das imagens. Música (ou clipes) como Chorus, Home e Interference; pequenos ambientes criativos onde Herndon se transforma em instrumento para o trabalho de diferentes diretores. Diálogos com diferentes mídias, porém, incapazes de prejudicar a autonomia musical do trabalho – uma interpretação particular da artista em relação a elementos da música pop ou mesmo da cultura de internet.

Mais do que um experimento particular, Herndon autoriza a interferência de diversos colaboradores. Conterrâneos da música californiana – caso de Spencer Longo em Locker Leak -, representantes da cena nova-iorquina – como Colin Self em Unequal -, ou mesmo nomes que ultrapassam os limites da música, posto reforçado pela presença de Akihiko Taniguchi, responsável pela criação do software utilizado pela musicista em boa parte trabalho. Até a identidade visual que ocupa o encarte do álbum – projeto assinado pela agência Metahaven – pode ser encarada como um instrumento complementar para o registro.

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