Artista: Weyes Blood
Gênero: Chamber Pop, Indie, Folk
Acesse: https://weyesblood.bandcamp.com/

 

Natalie Mering passou por um lento processo de amadurecimento nos últimos cinco anos. Do lançamento do primeiro disco como Weyes Blood, o obscuro The Outside Room (2011), passando pela produção de obras como The Innocents (2014) e até o EP Cardamom Times (2015), cada trabalho apresentado pela cantora e compositora nova-iorquina parece aproximar o público de um novo universo de possibilidades e temas instrumentais, proposta que se reforça com a chegada do doloroso Front Row Seat to Earth (2016, Mexican Summer).

Movida pela solidão, medos e saudade, Mering faz de cada composição ao longo do registro um claro exercício de exposição do próprio sofrimento. “Você precisa de mim do jeito que eu preciso de você? / Vamos ser sinceros para uma mudança / Você precisa de alguém? / Você precisa do meu amor?”, questiona em Do You Need My Love, um atormentado delírio confessional que resume com naturalidade a dor que abastece grande parte das canções do trabalho.

Em Seven Words, sétima faixa do disco, confissões românticas e versos marcados pelo sofrimento do eu lírico dançam sem pressa no interior da canção. “Com o tempo, ambos estaremos livres dessa bola com correntes … Quando a poeira baixar / E você esquecer que eu estava aqui / Esperando / Pendurada”, canta enquanto uma delicada cortina instrumental desce e cobre toda a base da canção, reforçando a temática dolorosa que Mering usa para dialogar com o ouvinte.

Nos poucos instantes em que a poesia romântica do trabalho deixa de ser um objeto de destaque, a cantora se concentra na produção de faixas que dialogam com o presente. É o caso de Generation Why, música que a artista discute a artificialidade da vida digital e os excessos da geração Y – os Millennials. “Leve-me através das ondas de mudança / Eu sei o meu lugar / É uma coisa bonita / Y-O-L-O, por quê? / Y-O-L-O, por quê? / Y-O-L-O, por quê?”, entrega a letra da canção.

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Artista: Bat For Lashes
Gênero: Baroque Pop, Dream Pop, Alternative
Acesse: http://www.batforlashes.com/

 

Prescilla e Sarah em Fur and Gold (2006), o romantismo pueril de Daniel no delicado Two Suns (2009), a completa melancolia de Laura em The Haunted Man (2012). Reais ou metafóricos, diferentes personagens e histórias sempre povoaram a obra de Natasha Khan dentro da discografia do Bat For Lashes. Delírios românticos, confissões amarguradas, tormentos e versos marcados pela subjetividade, proposta que ressurge de maneira ampliada dentro do quarto álbum de estúdio da cantora e compositora britânica, o conceitual The Bride (2016, Parlophone).

Centrado no melancólico relato de uma jovem noiva que vê o futuro marido (“Joe”) morrer a caminho da igreja e decide partir sozinha para a lua de mel, o álbum produzido em parceria com Ben Christophers, Dan Carey e Simon Felice Head talvez seja o registro em que Khan mais se distancia de uma possível zona de conforto. Trata-se de uma obra fechada, capítulos de uma pequena narrativa musical em que a cantora não apenas interpreta cenas e acontecimentos da sofredora personagem, como se aprofunda em diferentes debates sentimentais.

Liricamente orquestrado por um roteiro quase cinematográfico, The Bride nasce da profunda exposição do amor logo na faixa de abertura do disco, I Do. Um efusivo (e apaixonante) grito de “eu aceito”, ponto de partida para o arco dramático que tem início na terceira faixa do disco, In God’s House – “Através deste véu eles não podem ver / A névoa da morte me envolveu”. A partir desse ponto, Khan se entrega ao completo sofrimento do eu lírico, abraça a solidão em Honeymooning Alone, e segue até a libertação na delicada I Will Love Again – “Um dia desses / Eu amarei novamente”.

Muito além dos versos, a própria base instrumental montada para o trabalho parece dialogar com a temática de um casamento. São ambientações marcadas pelo uso constante de pianos, harpas, sinos e vozes em coro, como se a música de uma celebração religiosa fosse lentamente desconstruída. À medida que o álbum avança, faixas como Never Forgive the Angels e Close Encounters indicam a construção de um som cada vez mais denso, por vezes sufocante. Uma coleção de ruídos acinzentados, estímulo para a triste narrativa composta por Khan.

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Joanna Newsom
Folk/Chamber Pop/Singer-Songwriter
http://www.joanna-newsom.com/

 

Se você procurar por Joanna Newsom no Google, dificilmente encontrará um site oficial atualizado ou mesmo contas em diferentes redes sociais. Músicas no Spotify? Somente raras parcerias assinadas ao lado de outros artistas – caso de Right On, do coletivo The Roots. Em entrevistas recentes, a cantora reforçou o completo desprezo pela plataforma e outros serviços de streaming. Salve a seção no site do selo Drag Music, também responsável pela publicação dos vídeos da artista no Youtube, Newsom parece viver isolada, distante da tecnologia, temas e tendências que movimentam o cenário atual.

Prova explícita desse “distanciamento” ecoa no peculiar jogo de palavras que cresce em cada novo trabalho da cantora. Termos arcaicos, não convencionais, como “hydrocephilitic”, “antediluvian” e “Tulgeywood” que acabaram se transformando em objeto de análise (ou piada) em diferentes publicações. Longe da rima fácil, do canto comercial e descomplicado, Newsom parece acomodada em um ambiente próprio, detalhando faixas que ultrapassam os 10 minutos de duração em uma montagem quase textual.

Curioso perceber que mesmo isolada, habitante de um universo tão intimista, poucos artistas atuais exercem um fascínio tão grande no público quanto Joanna Newsom. Basta perceber a infinidade de artigos, publicações e especiais lançados em diferentes veículos nos últimos meses. Se faltam caminhos “oficiais” para chegar até o trabalho da artista, sobram publicações no Reddit e vídeos (ao vivo) compartilhados pelos próprios ouvintes da cantora. Uma euforia coletiva que se sustenta na coesa execução do recém-lançado Divers (2015, Drag City).

Quarto registro de inéditas da cantora e primeiro álbum de estúdio desde o lançamento do triplo Have One On Me, de 2010, Divers sobrevive como uma obra de possibilidades. Ainda que Newsom tenha provado de arranjos experimentais no registro apresentada há cinco anos, poucas vezes antes um disco da cantora norte-americana pareceu tão instável, curioso, quanto o presente lançamento. Longe da habitual zona de conforto testada nos “florestais” The Milk-Eyed Mender (2004) e Ys (2006), Newsom parece testar os próprios limites, costurando ruídos, versos colossais e novos instrumentos em cada uma das 11 faixas da presente obra.

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. Joanna Newsom costuma levar bastante tempo entre um trabalho e outro, nada que se compare com os cinco anos que a norte-americana precisou para finalizar Divers (2015). Quarto registro solo da cantora e musicista, o sucessor de Have One on Me, álbum triplo apresentado em 2010, parece seguir uma trilha completamente distinta em relação ao som “élfico” e bucólico dos primeiros trabalhos em estúdio da artista. Um explícito diálogo entre temas urbanos e elementos do Jazz que cresce de forma natural com a chegada de Sapokanikan, faixa de apresentação do…Continue Reading “Joanna Newsom: “Sapokanikan” (VÍDEO)”

Florence and The Machine
Indie Pop/Alternative/British
http://florenceandthemachine.net/

As guitarras “falam” mais alto em How Big, How Blue, How Beautiful (2015, Island). Terceiro registro de inéditas do Florence and The Machine, o novo álbum pode até seguir a trilha dos antecessores Lungs (2009) e Cerimonials (2011), entretanto, indica uma direção totalmente nova dentro da curta obra da artista britânica. Em um diálogo preciso com a música pop e o rock dos anos 1980, Florence Welch se despe de possíveis conceitos e temas complexos de forma a revelar um trabalho marcado pela coerência, rico acervo de composições melódicas e sentimentos nunca antes tão detalhadamente expostos.

Fuga dos atos cênicos e extensa duração do operístico álbum de 2011, com o novo disco, Welch e os parceiros de produção, Markus Dravs e Paul Epworth, trazem de volta o mesmo ritmo “acelerado” do inaugural Lungs. Enquanto Dravs – produtor responsável pelos últimos discos do Arcade Fire -, garante dinamismo ao trabalho, é responsabilidade de Epworth – com quem Florence vem colaborando desde o primeiro registro -, além de nomes como James Ford (Simian Mobile Disco), garantir maior polimento e delicada reprodução ao acervo de músicas comerciais que preenchem toda a obra.

Logo de cara, uma sequência de tirar o fôlego do ouvinte. Dosando entre a sonoridade grandiosa de Shake It Out e a urgência de Kiss With a Fist, a trinca composta por Ship To Wreck, What Kind Of Man e a própria faixa-título não apenas captura a atenção do ouvinte, como ainda serve de estímulo para a série de músicas que sustentam o eixo final do trabalho. Difícil não perceber a interferência de Dravs, aproximando o trabalho de Welch do mesmo universo de referências (nostálgicas) exaltadas pelo Arcade Fire desde o álbum The Suburbs, de 2010. A própria utilização de guitarras sombrias e arranjos orquestrais parece extraída da obra do coletivo canadense, referência presente em cada movimento de How Big, How Blue, How Beautiful.

Ao mesmo tempo em que abraça um catálogo de novas tendências musicais, curioso perceber como elementos reforçados desde o primeiro trabalho da cantora são enquadrados em uma estrutura jovial. Dos experimentos e conceitos “florestais” de Kate Bush, pouco parece ter sobrevivido; mesmo Siouxsie Sioux, confessa influência de Welch parece explorada de forma distinta, longe do som empoeirado que ecoa de forma explícita no disco anterior. PJ Harvey, Patti Smith e até mesmo Régine Chassagne (Arcade Fire) ecoam com naturalidade com o passar do álbum. Nada que interfira de fato na essência e, cada vez mais presente, sonoridade autoral da britânica.

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Susanna / Jenny Hval
Experimental/Baroque Pop/Alternative
http://susannamagical.com/
http://jennyhval.com/

Por: Cleber Facchi

Quem acompanha a obra de Jenny Hval desde a estreia, com To Sing You Apple Trees (2006), ou a partir de Viscera (2011), quando descoberta por grande parte da imprensa internacional, sabe que o “óbvio” nunca fez parte do trabalho da norueguesa. Mesmo que tenha explorado um som muito mais “pop” em Innocence is Kinky, de 2013, o caráter provocativo – lírico ou sonoro – se mantém o mesmo, expandido e reforçado de maneira complexa a cada novo disco.

Imersa em um cenário tão perturbador quanto o exaltado nos primeiros discos, Hval aparece agora acompanhada pela musicista Susanna Wallumrød. Representante da mesma cena experimental que borbulha em solo norueguês, a artista, também integrante do Magical Orchestra, não apenas partilha dos mesmos conceitos estéticos da conterrânea, como parece estimular o som de Hval a encontrar um novo estágio. Um constante diálogo obscuro que dita as regras e distorce as canções de Meshes of Voice (2014, SusannaSonata), o primeiro álbum em parceria da dupla.

Bloco denso de ruídos, pianos e bases instrumentais sempre aproximadas, o registro parece sobreviver da explícita formatação oculta de suas 15 canções. Diferente da parcial abertura iniciada por Hval em Mephisto In The Water ou mesmo na faixa-título do último álbum, nada ecoa de maneira acessível no decorrer do presente trabalho. Mesmo Susanna, responsável por boas melodias em Wild Dog (2012) e The Forester (2013), parece ressaltar apenas a atmosfera fúnebre que recheia todo o álbum.

Ainda que próximas, inclinadas ao desenvolvimento de um mesmo ambiente musical, tanto Hval como Wallumrød assumem direções opostas e bases musicalmente isoladas ao longo de todo o percurso da obra. Enquanto Hval mantém firme a relação com o presente, confessando o próprio apego ao trabalho de Björk – ouça Medusa -, além de nomes como Joanna Newsom e Julia Holter, a parceira estaciona no passado. De formação erudita, Wallumrød explora desde temas barrocos ao uso de pianos soturnos, esbarrando com naturalidade na obra de Leonard Cohen e Nico, algumas de suas influências confessas.

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Owen Pallett
Indie/Chamber Pop/Singer-Songwriter
http://www.owenpalletteternal.com/

Por: Cleber Facchi

Owen Pallett

O trabalho de Owen Pallett sempre foi guiado pelas confissões. Desde que apareceu para o mundo com o onírico Final Fantasy – e seus dois discos, Has a Good Home (2005) e He Poos Clouds (2006) -, a obra do músico canadense borbulha com naturalidade as particularidades de seu criador, preferência por vezes oculta nas alegorias fantasiosas e arranjos mágicos que flutuam cuidadosamente por entre as faixas. Contudo, desde a chegada de Heartland (2010), primeiro álbum “solo” do músico, Pallett parece inclinado a perverter essa ordem, transformando o sofrimento confessional de cada composição na passagem para um universo realista, mas não menos encantador para o ouvinte.

Com o recém-lançado In Conflict (2014, Domino), segundo álbum dentro da “nova fase”, Pallett não apenas se revela por inteiro ao público, como usa das experiências confessionais de forma a converter realidade em ficção. Personagem central da própria trama, o músico se acomoda em canções pessimistas (I Am Not Afraid), mergulha no turbilhão da própria mente (Infernal Fantasy) e ainda derrama emanações amorosas (The Passions) sem parecer sufocado pela redundância. Owen é apenas um personagem corriqueiro, um indivíduo cercado por conflitos simples e adversidades diárias – talvez, por isso, seja tão incrível embarcar em sua aventura particular.

Diferente do disco passado, em que o amor, mesmo sufocante em alguns aspectos, parecia encarado com exaltação pelo músico, em In Conflict o sentimentalismo de Pallett quebra a felicidade para crescer como uma obra livre de esperança. Trata-se de um disco em que o artista abandona a própria fé. “O mundo vai esquecer qualquer bem que você tenha feito“, expressa o amargurado poeta em um trecho de The Riverbed, faixa que parece assumir parte das alterações conceituais do novo disco. Mesmo quando ecoa esperançoso, em The Sky Behind the Flag, Pallett sempre tende ao (próprio) desprezo, fazendo valer o título dramático da obra – “Em conflito“.

Todavia, curioso observar que mesmo exposto como uma obra “triste” e “pessimista” em se tratando dos versos, In Conflict está longe de ser encarado como um álbum sufocante dentro de seus limites instrumentais. A julgar pelo andamento ascendente da faixa-título, ou a fluência “solar” de Song For Five & Six, o novo álbum do canadense é uma obra de pequenas glórias. Em um sentido explícito de continuação ao exercício iniciado em Heartland, o presente disco usa dos arranjos ora orgânicos, ora sintéticos como um salto criativo. Uma colagem (proposital) que beira o desequilíbrio, mas apenas auxilia o músico a consolidar um pano de fundo temático para a história cheia de altos e baixos que os versos buscam proclamar.

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Arcade Fire

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Bastaria ao Arcade Fire apenas o primeiro trabalho em estúdio, Funeral (2004), para firmar de vez o nome da banda na história recente da música. O cruzamento inteligente entre o rock de arena e o Baroque Pop da década de 1960 deu ao grupo canadense um campo ilimitado de possibilidades, exercício seguido de forma satisfatória no catálogo de registros seguintes do grupo. Mesmo com poucos trabalhos em estúdio, a banda mantém uma evidente posição de destaque na cena atual, acabamento que se reverte na orquestração firme do casal Win Butler e Régine Chassagne. Próximo de se apresentar no Lollapalooza Brasil – a última passagem da banda foi há quase uma década -, o grupo é o mais novo selecionado a integrar a seção Cozinhando Discografias, tendo todos os discos de estúdio organizados do “pior” para o “melhor” álbum.

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Descoberta no meio da década de 1970 por David Gilmour (Pink Floyd), e pouco depois contratada pela EMI (a fim de manter a jovem artista aos seus “domínios”), Kate Bush não precisou de muito tempo para se transformar em um dos nomes mais importantes da história da música. Dona de um pop místico, a cantora e compositora britânica fez da boa fase nos anos 1980 um período marcado de forma natural pelo experimento. Base para a obra de cantoras como Grimes, Florence Welch, Fiona Apple e outros nomes de peso da cena alternativa, Bush fez da curta discografia um ponto constante de transformação, algo que Hounds Of Love e The Sensual World mantém com explícita novidade até hoje. Com dez obras de estúdio, a artista teve cada um dos trabalhos posicionados do “pior” para o melhor em mais um especial da seção Cozinhando Discografias.

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Vampire Weekend
Indie/Alternative/Experimental
http://www.vampireweekend.com/

 

VW

Em novembro de 2009, enquanto o mundo ainda digeria Merriwheater Post Pavilion, se acomodava na calmaria do The XX e aproveitava dos experimentos de Grizzly Bear e Dirty Projectors, uma contagem regressiva preparava o terreno para a chegada de Horchata. Primeiro single do segundo registro em estúdio do Vampire Weekend, Contra (2010), a canção serviria como um ponto de ruptura e transformação para aquilo que o quarteto nova-iorquino havia iniciado em janeiro de 2008. Longe da aceleração de A-Punk, Campus, Walcott e um cardápio de canções divididas entre as raízes africanas e o rock alternativo, o grupo parecia naturalmente inclinado ao experimento, fazendo do segundo álbum uma matriz para o que é solucionado apenas agora.

Continuação quase exata de tudo o que a banda alcançou há três anos, Modern Vampires Of The City (2013, XL) surge como a musculatura para o emaranhado de ossos sustentados pelo quarteto em 2010. Mais completo e arriscado trabalho do grupo até aqui, o novo álbum sobrepõe os ritmos tropicais e étnicos para movimentar um trabalho entregue às melodias do Chamber Pop. Próximo do épico, mas sem abandonar as qualidades pop que apresentaram a banda, cada etapa do registro se apresenta como um ponto de identidade para o quarteto. É como se a banda caminhasse o tempo todo entre o apelo do grande público e as barreiras do underground, experiência vivida de forma similar por Beach House e Grizzly Bear no último ano, e seguida com maturidade pelos nova-iorquinos.

Se em 2008 Ezra Koenig parecia cantar sobre o cotidiano de um jovem universitário – marca mais do que evidente em Campus e outras faixas do registro -, com o presente álbum as temáticas se ampliam. Espécie de passeio atento e quase descritivo pela cidade de Nova York, o registro vai além dos limites do quarteto. Assim como nos dois primeiros discos as letras pareciam alimentadas por recortes cotidianos e personagens aleatórios que surgiam como metáforas, em Modern Vampires Of The City esse propósito é ampliado. Os personagens agora são cuidadosamente delineados (Hannah Hunt) e as histórias esculpidas de forma atenta ao cenário do grupo (Step), resultando na construção de um ambiente quase hermético, íntimo apenas da poesia instável que se fragmenta pela obra.

Ao mesmo tempo em que se distancia da produção de faixas monumentais e pegajosas – à exemplo de Cousins no último disco e a quase totalidade do primeiro álbum -, o grupo encontra artifícios para lidar com o pop em um encaminhamento experimental e naturalmente criativo. Ainda que a excentricidade colorida de Ya Hey – mistura entre The Clash e Paul Simon – se manifeste como o principal exemplar dessa nova fase, faixa após faixa o grupo derrama sonorizações mergulhadas na transformação. Por conta do destaque maior nas letras, os vocais são trabalhados com limpidez, ressaltando pequenos coros de vozes, rimas velozes e um caleidoscópio vocálico que acompanha o álbum até a última música.

Cada vez menos íntimo da herança africana que cobria todo o primeiro álbum, com o novo disco é clara a aproximação do grupo em relação aos sons da década de 1960. A julgar pelos teclados cuidadosamente delineados por Rostam Batmanglij, o álbum se movimenta entre o colorido leve do Beach Boys pós-Pet Sounds (1967) e o baroque pop de Odessey and Oracle (1968), na melhor fase do The Zombies. Um cardápio de referências que atravessam mais de quatro décadas até estacionar logo na abertura do álbum, afinal, o que é Obvious Bicycle se não um puro exemplar das emanações sonoras de Brian Wilson? É somado à isso os épicos controlados de Everlasting Arms e a melancolia de Hannah Hunt, instantes menos comerciais do registro, porém, de extrema relevância para o aprimoramento sonoro do trabalho.

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