Com A Montanha Mágica e O Enigma dos Doze Sapos já é possível ter uma boa noção do material produzido pelos integrantes da banda paulistana BIKE para o segundo álbum da carreira. Intitulado Em Busca da Viagem Eterna (2017), o sucessor de 1943 – 17º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 –, revela a busca por um som delirante e etéreo, como uma extensão cósmica do som explorado há pouco mais de dois anos.

Em Do Caos ao Cosmos, mais recente single do grupo paulista, um som ainda mais complexo e louco. Inaugurada pela força das guitarras e vozes ásperas, a canção lentamente se transforma em um ato de pura lisergia e libertação. Um som reconfortante, quase espiritual, conceito que dialoga de forma explícita com o clipe produzido pela dupla Matias Borgström e Rodrigo Notari. A relação de proximidade entre homem e natureza a partir de ritual de meditação.

 

Bike – Do Caos ao Cosmos

Continue Reading "Bike: “Do Caos ao Cosmos” (VÍDEO)"

Artista: Luneta Mágica
Gênero: Psicodélico, Indie Pop, Alternativo
Acesse: https://lunetamagica.bandcamp.com/

 

Com o lançamento de No Meu Peito, em maio em 2015, os integrantes da banda amazonense Luneta Mágica encontraram um claro ponto de equilíbrio. De um lado, a psicodelia nostálgica inspirada pelo trabalho de veteranos como The Beach Boys e The Beatles, no outro oposto, a busca por um material essencialmente acessível, como um precioso diálogo com a música produzida por artistas como Skank, Los Hermanos e outros representantes de peso do pop-rock nacional.

Interessante perceber em NMP (2017, Independente), coleção de remixes e músicas adaptadas do trabalho entregue há dois anos, uma lenta desconstrução de todo esse som particular, pop, assumido pela banda. Ruídos eletrônicos, vozes ecoadas, efeitos e distorções que delicadamente conduzem o ouvinte para dentro do mesmo ambiente conceitual explorado no experimental Amanhã Vai Ser o Melhor Dia da Sua Vida (2012), álbum de estreia do grupo de Manaus.

Para a produção do disco, a banda – hoje formada por Pablo Araújo, Erick Omena, Eron Oliveira e Daniel Freire –, decidiu se cercar de amigos e demais representantes da presente safra do rock brasileira. No time de convidados, nomes como Benke Ferraz (Boogarins), Bonifrate (ex-Supercordas), Bike, os conterrâneos da Supercolisor e o músico carioca Jonas Sá. Nas mãos de cada artista, a possibilidade de desmontar e brincar com faixas como Tua Presença, Mantra, Rita e Acima Das Nuvens.

Sem ordem aparente, NMP faz de cada composição um ato isolado, curioso. Logo na abertura do disco, a introdutória No Meu Peito se converte em uma típica canção do Supercordas, esbarrando na mesma experimentação testada em Teceira Terra (2015), último álbum de estúdio da banda carioca. O mesmo som delirante se repete na construção de Preciso, 11ª faixa do disco e uma cósmica adaptação produzida pela banda paulista Bike.

Continue Reading "Resenhas: “NMP”, Luneta Mágica"

 

A cada nova faixa lançada pelo BIKE, mais o ouvinte é arrastado para dentro do ambiente colorido de Em Busca da Viagem Eterna (2017). Segundo álbum de inéditas da banda paulista, o sucessor de 1943 (2015) parece jogar com o uso de temas cósmicos e ambientações psicodélicas que passeiam por diferentes fases do gênero. Um som marcado pelos detalhes e complexa construção dos arranjos e vozes, marca do primeiro single do disco, o delírio intitulado A Montanha Sagrada.

Em Enigma dos Doze Sapos, mais recente lançamento do grupo, um novo e delicado jogo de melodias etéreas, deliciosamente costuradas. Reflexo dos principais conflitos que a banda encontrou durante a turnê do último disco, a canção de quase quatro minutos acaba se conectando de forma natural ao primeiro registro do grupo, efeito da sutil referência ao título de Enigma do Dente Falso, música acompanhada de um clipe dirigido por Júlia Maury e Lídia Ganhito.

 



Bike – Enigma Dos Doze Sapos

Continue Reading "Bike: “Enigma Dos Doze Sapos”"

 

No último ano, os integrantes do Bike foram convidados a participar da coletânea No Abismo da Alma (2016), uma homenagem ao movimento Udigrudi e artistas como Zé Ramalho, Lula Cortês e Ave Sangria. Canção escolhida pela banda, a psicodélica Não Existe Molhado Igual ao Pranto, música originalmente gravada no clássico Paêbirú, de 1975, mostra a busca do grupo por um som cada vez mais complexo e experimental, como uma extensão madura do material apresentado no debut 1943, de 2015.

Mais recente criação do grupo paulista, A Montanha Sagrada reforça com naturalidade esse mesmo conceito, se espalhando em meio ambientações lisérgicas, ruídos e camadas de efeitos. Com versos orquestrados como um mantra – “Subi a montanha para ficar mais perto do céu” –, e mais de sete minutos de duração, a nova faixa indica a direção seguida pela banda para o segundo álbum de estúdio, o aguardado Em Busca da Viagem Eterna (2017). Em entrevista à Revista Rolling Stone Brasil, o grupo comentou o processo de composição do novo disco, previsto para o primeiro semestre.

 

Bike – A Montanha Sagrada

Continue Reading "Bike: “A Montanha Sagrada”"

Bilhão, Meneio, Luneta Mágica, Supercordas e Catavento, esses são alguns dos artistas que integram a psicodélica coletânea No Abismo da Alma (2016). Trata-se de uma homenagem ao movimento de contra cultura Udigrudi, ponto de partida de uma intensa revolução cultural que tomou conta da música, teatro, poesia e diferentes formas de arte da cidade de Recife e, posteriormente, parte expressiva da cena nordestina em meados da década de 1970.

São reinterpretações de clássicos produzidos por artistas como Zé Ramalho, Lula Cortês, Ave Sangria, Geraldo Azevedo e outros nomes também importantes do mesmo movimento. Entre os destaques do registro, o som cósmico de Não Existe Molhado Igual ao Pranto, música originalmente gravada no clássico Paêbirú, de 1975, porém, reformulada dentro do universo de pequenos experimentos, ruídos e efeitos que movimentam a obra do Bike. Ouça a seleção completa:

Vários Artistas – No Abismo da Alma

Continue Reading "Vários Artistas: “No Abismo da Alma”"

Sara Não Tem Nome
Nacional/Indie/Alternative
http://saranaotemnome.com/

 

É difícil não se identificar com o trabalho da mineira Sara Não Tem Nome. Em Ômega III (2015, Independente), primeiro registro de estúdio de Sara Braga, cantora e compositora original da cidade de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, temas como isolamento, tédio, medo e separação invadem o delicado conjunto de versos assinados pela jovem adulta. Uma coleção de recordações compostos durante a adolescência da artista, mas que permanecem atuais, dolorosas, durante toda a construção da obra.

Basta uma rápida passagem por composições como Água Viva (“Nessa grande piscina de mentiras / Eu não dou pé / Não dou pé / Vou me afogar”) e Páscoa de Noel (“Deus esqueceu de mim / Deus esqueceu de nós”) para que a identificação com o trabalho de Braga seja imediata. Salve o isolamento (quase nonsense) da faixa-título, nada é tão particular dentro do álbum que não possa ser absorvido pelo ouvinte, sempre íntimo do universo de conflitos detalhados no lento desenrolar dos versos.

É são dias difíceis de se viver / É são dias difíceis de se entender”, suspira a cantora na inaugural Dias Difíceis, um retrato tímido de qualquer jovem atormentado, mas também uma faixa que também parece dialogar com o mesmo cenário político, social e econômico do país nos últimos meses. De maneira involuntária, vozes e versos aos poucos se distanciam de um ambiente essencialmente claustrofóbico, estreitando de forma provocativa a relação com o ouvinte.  

Dosando entre instantes de euforia e completo recolhimento, Sara Não Tem Nome parece testar os próprios limites e possibilidades. Enquanto faixas como Ajuda-Me e Atemporal dançam em meio a arranjos de cordas e dedilhados tímidos de violão, composições aos moldes de Água Viva e Carne Vermelha autorizam a interferência direta de guitarras e arranjos fluidos, enérgicos. Um jogo contrastado que serve de estímulo para o ambiente de incertezas moldado pela cantora em grande parte do registro.

Continue Reading "Disco: “Ômega III”, Sara Não Tem Nome"

Bike
Psychedelic/Indie Rock/Alternative
https://www.facebook.com/BIKEoficial/

Que viagem. Durante os mais de 30 minutos de duração de 1943 (2015, Independente), estreia da banda paulista Bike, vozes, melodias e doses consideráveis de distorção se articulam de forma a distanciar o ouvinte da realidade. Como uma verdadeira experiência lisérgica, cada verso ou ruído dissolvido pela obra transporta o espectador para um mundo de sons, cores e emanações cósmicas. Arranjos e letras que mudam de direção a todo o instante, crescendo e diminuindo, como se reações típicas do consumo de LSD fossem transformadas em música.

Com título inspirado no ano em que o cientista suíço Albert Hoffman descobriu o LSD – abril de 1943 -, e deu uma volta de bicicleta ao tomar a primeira grande dose da substância, cada uma das oito faixas que marcam a estreia do Bike se projetam com pequenas viagens. Sem necessariamente perder o caráter homogêneo das canções – sempre próximas, como se tudo não passasse de um mesmo ato instrumental -, o grupo parece brincar com a mente do ouvinte, dançando em meio a reverbs, distorções e solos de guitarra que explodem a todo o instante.

Nos versos, o mais completo delírio. Músicas que relatam experiências cósmicas, falam sobre o amor e até temas existencialistas. “Arco-íris distorcem a minha visão / Me guiando à outra dimensão / E amanhã será um belo dia / Outra tarde de psicodelia”, canta o vocalista Julito Cavalcante na mágica Alucinações e Viagens Astrais, música que resume toda a estrutura montada pela banda ao longo do disco.

Ainda que lembrar de Beatles, Tame Impala e outros gigantes da música psicodélica seja um ato natural no decorrer do álbum, muito do que orienta a estreia do Bike parece ancorado em conceitos e distorções típicas do Shoegaze / Rock Alternativo da década de 1990. Basta voltar os ouvidos para os antigos projetos de boa parte dos integrantes da banda – completa com Diego Xavier (guitarra e voz), Gustavo Athayde (bateria e voz) e Hafa Bulleto (baixo e voz) -; grupos como Sin Ayuda e The Vain, que conseguiram relativo destaque no meio independente no começo da presente década.

Continue Reading "Disco: “1943”, Bike"