É difícil não se deixar conduzir pelas experiências psicodélicas lançadas pelo coletivo gaúcho Catavento. Poucos meses após achada do segundo álbum de estúdio do sexteto, o excelente CHA (2016), a produtora Antro Filmes convida o ouvinte a mergulhar em um mundo de imagens e cores saturadas que abastecem o clipe de Red Lagoa. Um lisérgico dia no parque ao lado de um visitante e um coelho de pelúcia gigante.

Enquanto a dupla se diverte, o coro de vozes se espalha durante toda a construção da faixa, conduzindo a sequência de melodias eletrônicas e guitarras marcadas pela distorção. Segunda composição do disco, Red Lagoa nasce como uma coleção de ideias e referências distintas, soando como um improvável encontro entre a psicodelia de Ronnie Von e as texturas que escapam das guitarras de Kevin Shields no My Bloody Valentine.

 

Catavento – Red Lagoa

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Artista: Stella-viva
Gênero: Indie, Alternativo, Experimental
Acesse:  http://www.stellaviva.com.br/

 

Em uma medida própria de tempo, os integrantes do grupo curitibano Stella-viva passaram a última década se revezando na produção de pequenos experimentos e canções isoladas dentro de estúdio. Como resultado desse esforço coletivo, a construção de um delicado acervo de músicas marcadas pela singularidade dos arranjos e versos, ponto de partida para o primeiro álbum de estúdio da banda, Deus Não Tem Aviões (2011), e a base do recém-lançado Aprendiz do Sal (2016, Matraca Records / YB Music).

Minucioso, o trabalho produzido em um intervalo de quase um ano segue exatamente de onde o quarteto – Fernando Rischbieter (guitarra, teclado e voz), Matheus Barsotti (bateria e voz), Rafael Costa (baixo) e Sérgio Monteiro Freire (guitarra, teclados, saxofones e voz) – parou no último álbum de inéditas. Versos que flutuam em meio a guitarras econômicas, levemente dançantes, como uma extensão do samba-rock inicialmente testado pela banda.

Inaugurado pela fluidez sutil de Na Sombra, faixa de abertura do disco, Aprendiz do Sal resume logo nos primeiros minutos a “fórmula” conceitual que orienta grande parte do trabalho. Composições inicialmente serenas, contidas, mas que acabam encantando o ouvinte na lenta sobreposição de cada  elemento. Uma rica tapeçaria instrumental, delicadamente tecida em meio a arranjos complexos e vozes sempre crescentes, proposta evidente em cada uma das dez músicas do álbum.

Feito para ser apreciado em pequenas doses, Aprendiz do Sal faz de cada composição um objeto curioso, precioso. Fragmentos da poesia particular de Rischbieter que se espalham em meio a guitarras tortas, temas jazzísticos e pequenos diálogos com o samba. A cada novo passo dado no interior do disco, um convite para ir ainda mais longe, como se os experimentos entregues pela banda em Deus Não Tem Aviões fossem cuidadosamente ampliados.

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De todas as canções apresentadas por Emicida em Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… – 8º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 –, Mandume talvez seja a mais significativa. Distante da “MPB-Rap” incorporada pelo paulistano em grande parte do trabalho – vide faixas como Casa e Passarinho –, a faixa que conta com mais de oito minutos de duração cresce em meio ao uso preciso das rimas lançadas por um time de artistas convidados.

Junto de Emicida, os novatos Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin, responsáveis pela construção das rimas que movimentam a canção e convidados a participar do extenso clipe da Mandume. Dirigido por Gabi Jacob, o trabalho apresenta um elenco completo apenas com modelos, atrizes e atores negros. Fragmentos visuais que escancaram diferentes aspectos do racismo, aceitação, derrotas e conquistas.

 

Emicida – Mandume (ft. Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike, Raphão Alaafin)

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Artista: Hierofante Púrpura
Gênero: Rock Alternativo, Psicodélico, Experimental
Acesse: https://hierofantepurpura.bandcamp.com/

Foto: Hendi DuCarmo

“Seremos a banda do ano?”, pontua o coro de vozes ensandecidas nos instantes finais de Cachorrada. Ainda que o questionamento seja apenas um fragmento complementar à cômica narrativa assinada por Danilo Sevali, difícil passear pelas canções de Disco Demência (2016, Balaclava Records), mais recente álbum da Hierofante Púrpura, e não perceber o registro como um dos trabalhos mais significativas da cena independente nos últimos meses.

Resultado da ativa interferência de cada integrante da banda – além de Sevali (voz, teclados, guitarra), completa com Helena Duarte (baixo, voz), Gabriel Lima (guitarra, voz) e Rodrigo Silva (bateria) –, o álbum construído a partir de cinco composições extensas reflete o que há de melhor no material produzido pelo grupo de Mogi das Cruzes: a loucura. Em um intervalo de apenas 40 minutos, cada canção se transforma em um experimento torto, insano.

Um bom exemplo disso está na curiosa montagem de Acalenta Lua, segunda faixa do disco. Inaugurada pelo canto arrastado dos integrantes, a canção de melodias inebriantes se espalha sem pressa, detalhando delírios típicos do trabalho de Arnaldo Baptista no clássico Lóki? (1974). No segundo ato da canção, uma quebra brusca. Pianos melancólicos que flutuam em meio ao som ruidoso que escapa das guitarras de Lima. Distorções, batidas e vozes que dançam em meio a pequenas curvas rítmicas.

Mesmo que a relação com o trabalho de gigantes da música psicodélica seja percebida durante toda a construção da obra, faixa após faixa, o quarteto paulista se concentra na formação de uma identidade musical própria. No interior de cada composições, diferentes blocos instrumentais, sempre complexos, ricos em detalhes e texturas. Uma constante sensação de que pequenos fragmentos vindos de diversas canções foram espalhados de forma aleatória no interior do trabalho.

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Os últimos meses foram bastante corridos para os integrantes do Carne Doce. Além de finalizar e lançar o segundo álbum de estúdio, o elogiado Princesa (2016), a banda goiana se desdobrou em uma série de apresentações por diferentes cidades brasileiras, deu vida ao delicado clipe de Artemísia – uma das canções mais sensíveis do novo disco – e, no meio de tudo isso, ainda teve tempo para registrar parte dessa agitação dentro do recém-lançado clipe de Açaí.

Produzido no intervalo das gravações e shows produzidos pela banda nos últimos meses, o trabalho que conta com imagens de Larry Sullivan, Lucas Santos e trechos gravadas pelo próprio quinteto reflete o bom humor que ronda o universo do Carne Doce. Entre as imagens, o grupo contratou atores para espalhar mensagens cômicas/reflexivas pelo centro da cidade de Goiânia; trechos como “Mais Açaí por Favor“,”Arroz, Feijão e Cama” e “Fora Trampo“.

 



Carne Doce – Açaí

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Artista: Nego E.
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Acesse: https://www.facebook.com/negoe.sp/

 

O oceano desbravado no segundo álbum de estúdio de Nego E. é imenso, turbulento e propositadamente instável. Navegando em uma embarcação resistente, segura, projetada a partir do uso preciso das rimas, o princípio de um constante embate contra ondas de preconceito, criminalidade, racismo e perseguição policial. Uma extensão madura do mesmo conceito caótico e urbano explorado pelo rapper há dois anos, durante a produção do primeiro álbum de inéditas, o ótimo Autorretrato (2014).

Anunciado durante o lançamento de Lua Negra, primeiro single do disco, Oceano (2016, Independente) joga com as rimas e referências dentro de uma atmosfera essencialmente densa, sombria. “Cadê a lei do ventre livre quando uma preta é estuprada? / A noite vi minha mãe com insônia / Por não saber se eu ia cair numa cena forjada”, questiona o rapper, preparando o terreno para ápice dramático da canção – “Eu não consigo respirar, ainda pareço suspeito? / Para de atirar, eu parecia suspeito?” –, uma delicada ponte para o movimento Vidas Negras Importam.

Matéria-prima do registro, o preconceito racial serve de base para grande parte das canções dissolvidas pela obra. Da abertura do disco, em Homem ao Mar, passando por músicas como Insônias e Melhor de Mim, não são poucos os momentos em que as rimas de Nego E. escancaram a opressão sofrida pela comunidade negra e outros grupos marginalizados. Um bom exemplo disso está em D M P a D Q P C, parceria com Rincon Sapiência que utiliza de uma cena do Big Brother Brasil – “Meu amor, tá aqui ó, sou preta, quer afrontar?” – como ponto de partida para a construção dos versos.

Em um constante diálogo com o presente, Oceano revela ao público uma série de faixas que detalham diferentes aspectos da nossa sociedade. Segunda canção do disco, Senhor Ninguém nasce como uma crítica atenta ao consumismo e suas novas formas de escravidão – “Marionetes com correntes ou cordas / Velhos engenhos, novos senhores”. Em, Valsalva, uma reflexão sobre os relacionamentos e identidades forjadas dentro das redes sociais – “Punho cerrado aqui não é só pelo close do Snapchat”.

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Artista: Luísa Maita
Gênero: Eletrônica, Samba, Alternativa
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A imprevisibilidade talvez seja o principal traço do trabalho de Luísa Maita em Fio da Memória (2016, Cumbancha). Produzido em parceria com o músico Zé Nigro, o sucessor do elogiado Lero-Lero (2010), obra que apresentou a cantora e compositora paulistana ao grande público, reforça a essência experimental e naturalmente inventiva da artista. Uma quebra brusca em relação ao samba melódico e a voz limpa que orienta as canções do trabalho entregue há seis anos.

Com uma “gestação prolongada”, como resume o texto de apresentação do disco, o novo álbum precisou de quase meia década até ser finalizado. Em produção desde 2012, Fio da Memória nasce como uma extensão torta do material entregue por Maita no primeiro álbum de inéditas. Entre ruídos e bases eletrônicas, crônicas musicadas que dialogam com o samba, incorporam elementos tribais e diferentes gêneros musicais, como o jazz e o rock.

A julgar pelo preciosismo que orienta Ela, sétima canção do disco, é fácil perceber porquê o novo álbum de Maita levou tanto tempo até ser finalizado. Perceba como sintetizadores se espalham sem pressa ao fundo da canção, hipnóticos. Um jogo de batidas e vozes que se completam lentamente, resultando em uma canção que sussurra detalhes na cabeça do ouvinte. O mesmo cuidado acaba se refletindo em outros instantes do disco, seja na euforia de Porão ou no sopro tímido da derradeira Jump.

Composição escolhida para inaugurar o disco, a eletrônica Na Asa é apenas a ponta do imenso iceberg criativo que caracteriza o trabalho. A voz chiada, batidas cíclicas, entalhes econômicos. Longe da exposição imediata dos elementos, Maita e o parceiro de produção, Tejo Damasceno, uma das metades do Instituto, parecem jogar com o minimalismo dos arranjos. Minúcias, segredos e pequenas sobreposições que se espalham de forma a completar a voz firme da cantora.

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Artista: Rio Sem Nome
Gênero: Experimental, Alternativo, Indie
Acesse: https://riosemnome.bandcamp.com/

 

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Os últimos meses foram bastante produtivos para o cantor e produtor mineiro João Carvalho. Ao lado dos parceiros da El Toro Fuerte, um universo de confissões intimistas, medos e tormentos que marcam as composições do inaugural Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo (2016). Em carreira solo, a passagem para um ambiente etéreo, marcado pelo uso de temas eletrônicos e minimalistas que alimentam as canções de Memoro Fantomo_Rio Preto (2016), mais recente trabalho do músico como Sentidor.

Ponto de encontro entre esses dois universos, Rio Sem Nome (2016, Geração Perdida), novo registro autoral de Carvalho, mostra o esforço do artista mineiro em explorar novas sensações e temas intimistas, porém, mantendo firme a mesma atmosfera que orienta as músicas do Sentidor. Em um intervalo de 50 minutos e apenas dez faixas, memórias de um passado ainda recente, angústias e declarações de amor se espalham em meio a sintetizadores e texturas eletrônicas.

Produzido e gravada durante a turnê “Bons Amigos, Maus Hábitos”, projeto que envolveu os integrantes da El Toro Fuerte, Jonathan Tadeu, Fernando Motta e Sentidor em uma série de apresentações por diversas cidades do Nordeste do país, a estreia de Carvalho como Rio Sem Nome cresce com leveza, em uma medida própria de tempo. São canções extensas, algumas com mais de seis minutos, em que a voz arrastada do artista se apoia em uma poesia sensível, preciosa, movida em essência pela saudade.

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Dói mais é tão bom / Seu sonho pode ser minha raiz / Meu sonho sempre foi tudo que eu fiz / Não te assusta com a ferida aberta”, canta na delicada Cosmorama, composição que utiliza de uma melodia ensolarada, crescente, de forma a contrastar com a letra dolorosa lançada por Carvalho. O mesmo conceito sorumbático acaba se repetindo em outros instantes do disco, caso de Liberdade, nona faixa do disco e, principalmente, na dolorosa Teca – “E eu nunca mais senti / Outra saudade tão fria assim”.

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Artista: Silva
Gênero: Pop, Eletrônica, R&B
Acesse: http://www.silva.tv/

 

Em setembro de 2015, Silva deu início a um novo e inusitado projeto. Durante duas noites no SESC Vila Mariana, em São Paulo, uma homenagem à cantora e compositora carioca Marisa Monte. No repertório, músicas como Beija Eu e Não É Fácil, fragmentos do lado pop da artista, conceito explícito em obras como o Mais (1991) e Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000). Delicada continuação desse trabalho, o recém-lançado Silva Canta Marisa (2016, Slap) lentamente sintetiza toda a admiração do músico capixaba em relação à obra da veterana da MPB.

Quarto álbum de estúdio de Silva, o sucessor do mediano Júpiter (2015) mostra a busca do artista em produzir um som cada vez mais comercial, pop, íntimo do grande público. Entre peças radiofônicas, como Ainda Lembro e Não Vá Embora, a particular adaptação de quase três décadas da rica trajetória de Monte. Composições que vão do clássico Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão, de 1994, até o recente O Que Você Quer Saber de Verdade (2011), último registro de inéditas da cantora.

Em um jogo de batidas e bases minimalistas, versos que detalham a poesia envolvente de Monte. Estão lá canções pegajosas e comercialmente bem-recebidas, caso de Eu Sei e Não Vá Embora, além, claro, de outras pouco conhecidas, mas não menos significativas. Um bom exemplo disso é a melancólica Pecado É Lhe Deixar De Molho, música originalmente gravada em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown para o álbum dos Tribalistas, mas que se transforma na ambientação serena e sintetizadores econômicos da remodelada composição.

De fato, a economia dos arranjos, por vezes íntimos do R&B/Soul, acaba se revelando como o grande charme da obra. Difícil não lembrar de artistas como The XX e James Blake ao passear pelas batidas de Infinito Particular. Décima faixa do disco, Verdade, Uma Ilusão encanta pelo som empoeirado que escapa das guitarras e vozes de Silva. No samba O Bonde do Dom, originalmente gravado em Universo ao Meu Redor, de 2006, sintetizadores e batidas secas que se dobram de forma a cercar os versos tímidos da canção.

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Escorpião (2016), esse é o título do segundo e mais recente álbum da dupla Godasdog. Projeto dividido entre Victor Meira (vocalista da Bratislava) e o produtor musical Adam Matschulat, o trabalho de apenas oito faixas chega para ocupar o espaço do álbum Hoje (2013), primeiro registro de inéditas da dupla. Melodias eletrônicas, batidas e vozes esculpiadas à distância, aproximando Meira, morador da cidade de São Paulo, de Matschulat, residente na Inglaterra.

Entre as composições do disco, faixas como Infância, montada a partir de retalhos musicais da década de 1990 – como a música de abertura do desenho Yu Yu Hakusho –, além de outras como a frenética Espera, um jogo de vozes e batidas eletrônicas instáveis. Assim como o álbum entregue ao público há três anos, Escorpião pode ser baixado gratuitamente no perfil da dupla no Bandcamp. O espaço ainda conta com outros singles, remixes e EPs também produzidos pelos músicos.

 

Godasdog – Escorpião

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