Artista: Carne Doce
Gênero: Indie, Rock Alternativo, Rock Psicodélico
Acesse: http://carnedoce.com/

Fotos: Rodrigo Gianesi

O caminho percorrido pelo Carne Doce em Princesa (2016, Independente) está longe de parecer o mesmo do trabalho que apresentou a banda em 2014. Ainda que a essência psicodélica do quinteto de Goiânia seja preservada em cada uma das canções do novo álbum, sobrevive na poesia feminista de Salma Jô, sussurros intimistas e instantes de puro experimento a base do presente trabalho. Uma colisão de fórmulas, ruídos e temas propositadamente instáveis, como se para além de um possível amadurecimento e da famigerada “prova do segundo disco”, o grupo continuasse a se reinventar.

Sem pressa, o novo álbum se espalha preguiçoso, detalhando cada fragmento de voz, batida ou acorde que escapa das guitarras de Macloys Aquino e João Victor Santana. Das 11 composições que preenchem o registro, quatro ultrapassam os seis minutos de duração, como se parte das ambientações testadas pela banda nas apresentações ao vivo fossem incorporadas em estúdio. Da abertura do disco, em Cetapensâno, passando por músicas como Carne Lab e Açaí, o grupo – completo com os músicos Ricardo Machado e Aderson Maia –, parece seguir em uma medida própria de tempo.

Esqueça o ritmo crescente de Serão Urbano e toda a aceleração que movimenta faixas como Passivo e a colorida Fruta Elétrica. Em Princesa, mesmo as canções mais “urgentes” do trabalho se perdem em meio a distorções, vozes maquiadas pelo forte uso de efeitos e instantes de completa incerteza. Uma clara mudança de direção que perturba pelo uso de músicas exageradamente extensas – vide Carne Lab, um imenso bloco com 10 minutos de duração bem no centro do álbum –, mas que acaba convencendo pela capacidade do grupo em não se repetir.

rp_tumblr_ob0p40Glvl1r9ykrko1_1280.png

Ponto central do disco, a poesia de Salma Jô se transforma e cresce durante toda a construção da obra. Bom exemplo disso está nos versos de Artemísia, música que discute de forma provocativa a temática do aborto, interpretando de maneira divina a responsabilidade assumida pelas mulheres. “Artemísia é a ideia de ‘meu corpo minhas regras’ levada ao máximo, ao ponto de ser assumidamente fantasioso, como se a dona do corpo fosse Deus. Quando nesta situação de decidir por um aborto, mesmo mulheres de muita fé escolhem romper com Deus por um momento, escolhem ser elas as maiores autoridades sobre as próprias vidas”, explicou em entrevista.

Continue Reading "Resenha: “Princesa”, Carne Doce"

Esqueça tudo que o pernambucano Vitor Araújo produziu até hoje. Quatro anos após o lançamento do primeiro registro de estúdio, o elogiado A/B – 15º lugar em nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2012 –, são os experimentos eletrônicos, batidas tribais e vozes submersas de Canto nº3 que indicam a nova direção assumida pelo músico. Um conjunto de ideias tortas, fragmentos instrumentais que dialogam com o trabalho de artistas como The Knife e Radiohead e a base do novo álbum de inéditas do compositor.

Produzido em parceria entre Araújo e Bruno Giorgi, Levaguiã Terê (2016) é o primeiro trabalho do artista pernambucano construído apenas com composições próprias. Junto do pianista – responsável pela gravação de parte expressiva dos instrumentos da presente faixa –, um time de músicos e colaboradores que auxiliam na formação do delicado arranjo de cordas, guitarras e instrumentos de percussão de toda o restante da obra. Para ouvir e baixar a canção clique aqui.

Levaguiã Terê (2016) será lançado em setembro pelo selo Natura Musical.

 

Vitor Araújo – Canto nº 3

Continue Reading "Vitor Araújo: “Canto nº 3”"

Bilhão, Meneio, Luneta Mágica, Supercordas e Catavento, esses são alguns dos artistas que integram a psicodélica coletânea No Abismo da Alma (2016). Trata-se de uma homenagem ao movimento de contra cultura Udigrudi, ponto de partida de uma intensa revolução cultural que tomou conta da música, teatro, poesia e diferentes formas de arte da cidade de Recife e, posteriormente, parte expressiva da cena nordestina em meados da década de 1970.

São reinterpretações de clássicos produzidos por artistas como Zé Ramalho, Lula Cortês, Ave Sangria, Geraldo Azevedo e outros nomes também importantes do mesmo movimento. Entre os destaques do registro, o som cósmico de Não Existe Molhado Igual ao Pranto, música originalmente gravada no clássico Paêbirú, de 1975, porém, reformulada dentro do universo de pequenos experimentos, ruídos e efeitos que movimentam a obra do Bike. Ouça a seleção completa:

Vários Artistas – No Abismo da Alma

Continue Reading "Vários Artistas: “No Abismo da Alma”"

O universo em preto e branco de Pluvero (2014) se abre para as cores de Planar Sobre o Invisível (2016). Dois anos após o lançamento do segundo álbum de estúdio da Kalouv – 15º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 –, o quinteto pernambucana está e volta duas canções inéditas. Para celebrar a passagem do grupo de Recife por uma série de cidades do Sul e Sudeste do país – veja a agenda completa –, Peixe Voador e Da Bravura, Inocência mais uma vez reforçam o preciosismo do coletivo em estúdio.

Enquanto a primeira, Peixe Voador, se espalha em um ato crescente, detalhando uma solução de pianos, guitarras coloridas e distorções que raspam de leve na música psicodélica, com a chegada de Da Bravura, Inocência, segunda composição do single, um regresso ao ambiente criativo do álbum lançado há dois anos. Experimentos minimalistas que servem de pano de fundo para uma composição essencialmente versátil, dominada pela uso de sintetizadores e pequenas quebras rítmicas.

Kalouv – Planar Sobre o Invisível

Continue Reading "Kalouv: “Planar Sobre o Invisível”"

Melodias descomplicadas, versos marcados pela saudade e uma coleção de temas nostálgicos. Assim é o trabalho produzido pelo cantor e compositor mineiro JP Cardoso. Próximo de lançar o primeiro álbum de estúdio da carreira, trabalho que conta com a colaboração de Leonardo Marques, um dos integrantes da banda Transmissor, Cardoso apresenta ao público a delicada I Met My Best Friend Skipping Waves On The Beach, faixa de abertura do inédito Submarine Dreams (2016).

Perfumada por fragmentos poéticos de um jovem adulto e memórias construídas na infância do cantor – “I met my best friend riding waves on the street / Falling and grinding the skin left on our knees” –, a canção encanta pela completa leveza dos arranjos e vozes. Melodias que dialogam de forma natural com o trabalho de bandas como The Shins, Death Cab for Cutie e toda a frente de artistas que invadiram o cenário norte-americano no começo da década passada.

Submarine Dreams (2016) será lançado no dia 26/08 pelo selo La Femme Qui Roule.

JP Cardoso – I Met My Best Friend Skipping Waves On The Beach

Continue Reading "JP Cardoso: “I Met My Best Friend Skipping Waves On The Beach”"

Dois anos após o lançamento de Primal Swag (2014), os paulistanos da INKY estão de volta com um novo registro de inéditas. Intitulado Animania (2016), o álbum que conta com produção de Guilherme Kastrup, – artista que trabalhou na construção do elogiado A Mulher do Fim do Mundo (2015), de Elza Soares –, mostra a transformação do quarteto, focado em explorar novas sonoridades e temas orgânicos, expandindo conceitos inicialmente testados no primeiro disco de inéditas.

Além de Parallax, música escolhida para anunciar o disco há poucas semanas e uma das criações mais intensas do rock (inter)nacional nos últimos meses, o grupo reserva ao público outras oito faixas. Canções como a experimental Devil`s Mark, faixa que conta com a presença dos músicos da Bixiga 70, e a derradeira In The Middle Of A Rising, uma colagem de vozes, ruídos controlados e batidas que parecem de algum terreiro.

INKY – Animania

Continue Reading "INKY: “Animania”"

Artista: Aíla
Gênero: Rock, Alternativa, MPB
Acesse: http://www.ailamusic.com/

Foto: Julia Rodrigues

Rápido / Tá tudo rápido / Acelerado / Demasiado / O tempo, o vento, o oi, o tchau / Tchau”. A aceleração que marca os versos de Rápido, canção escolhida para apresentar o inédito Em cada verso um contra-ataque (2016, Independente), segundo registro em estúdio de Aíla, diz muito sobre o som explorado pela artista. Quatro anos após o colorido Trelelê (2012), obra que apresentou o trabalho da paraense, sobrevive na poesia política e progressista das canções a base do novo álbum.

Urgente e enxuto — são apenas nove faixas dissolvidas em pouco mais de 30 minutos de duração —, o trabalho que conta com produção assinada por Lucas Santtana apresenta ao público uma cantora parcialmente transformada, intensa. Logo na abertura do disco, a “punk” Clã da Pá Virada, música que dialoga com a essência raivosa de veteranos como As Mercenárias e acaba apontando a direção seguida pela artista durante parte expressiva da obra.

Em Lesbigay, segunda faixa do disco e músico composta em parceria com Dona Onete, um respiro leve. Entre ruídos eletrônicos e batidas capazes de arrastar o ouvinte para as pistas, Aíla explora a temática da libertação sexual, estreitando (musicalmente) a relação com o trabalho apresentado há quatro anos. Logo em seguida, passada a aceleração de Rápido, Será, quarta faixa do disco, traz de volta o trabalho para o conceito político/social alavancado pela cantora.

A mesma proposta acaba servindo de base para a amarga Tijolo, música que discute a corrupção dos próprios indivíduos, mergulha no cenário político do Brasil e sintetiza parte da angústia presente no álbum. Não por acaso a leve Melanina, faixa composta pelo paraibano Chico César, chega logo em sequência. Um descomplicado jogo de vozes, guitarras e batidas quentes que trata da temática racial de forma acessível, bem-humorada – “Você precisa urgentemente amor / De um amiguinho de cor”.

Continue Reading "Resenha: “Em cada verso um contra-ataque”, Aíla"

Foto: Julia Rodrigues

Depois de mais de uma década como vocalista de uma das principais bandas de matal brasileiras, o Madame Saatan, Sammliz apresenta ao público o primeiro álbum de estúdio: Mamba (2016). Com lançamento pelo projeto Natura Musical, o registro de dez faixas mostra a busca da cantora paraense em busca de novas sonoridades, estreitando a natural relação com o stoner rock, elementos típicos da música eletrônica e gêneros que distanciam a artista de uma possível zona de conforto.

Com produção artística de Carlos Eduardo Miranda, músico que trabalho com nomes como Mahmundi e Boogarins nos últimos meses, o trabalho ainda conta com a produção de Leo Chermont e João Lemos, além, claro, da própria cantora. São dez composições inéditas, caso de Oya, um rock eletrônico típico do começo dos anos 2000, e a densa faixa-título, composição que mostra como seria o Queens Of The Stone Age com uma mulher nos vocais. Ouça o disco na íntegra aqui.

Sammliz – Mamba

Continue Reading "Sammliz: “Mamba”"

Originalmente apresentada no último ano como parte do disco Ava Patrya Yndia Yracema – 4º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 –, há poucos meses, Auto das Bacantes acabou se transformando em um provocativo clipe pelas mãos do diretor Pedro Paulo Rocha, irmão de Ava Rocha. Marcada pela temática feminista, a canção ressurge agora parcialmente transformada, efeito do novo conjunto de batidas e colagens assumidas pelo produtor paulistano Rico.

Ainda que preserve a voz da cantora, tão urgente e intensa quanto na versão original da composição, da abertura ao fechamento do “remix”, Rico brinca com as possibilidades. São sintetizadores levemente dançantes, batidas crescentes e interferências eletrônicas que acabam dialogando com a mesma ambientação produzida pelo artista em agosto do último ano, durante o lançamento do ótimo EP Ascender (2015).

 

Ava Rocha – Auto das Bacantes (RICO Edit)

Continue Reading "Ava Rocha: “Auto das Bacantes” (Rico Edit)"

Dona de um dos trabalhos mais obscuros e complexos da cena independente em 2014, Paola Rodrigues está de volta com um novo registro de inéditas. Sucessor do elogiado Perdida, <3 WIFI (2016) mostra o fascínio da cantora e produtora mineira pela internet. São apenas cinco faixas em que Rodrigues se divide entre a construção das rimas e a produção atmosférica que delicadamente preenche o trabalho, fazendo da obra um registro essencialmente intimista, doloroso.

Produzido em parceria com o músico André Pádua (Coletivo Minhoca da Terra), <3 WIFI foi gravado por Paola Rodrigues no estúdio caseiro da Geração Perdida de Minas Gerais, contando com a mixagem e masterização assinada por Vitor Brauer (Lupe de Lupe). Íntimo dos experimentos de artistas como FKA Twigs e Daniel Lopatin, o álbum pode ser apreciado e baixado gratuitamente pelo perfil da artista pelo Bandcamp.

 

Paola Rodriguez – <3 WIFI

Continue Reading "Paola Rodriguez: “<3 WIFI""