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Cozinhando Discografias: Hurtmold

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em analisar todos os trabalhos de estúdio de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores envolvidos, que vão da recepção crítica do disco, além, claro, da própria trajetória do artista e seus projetos anteriores. Além dos integrantes do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado “democrático”.

No cardápio de hoje: Hurtmold. Formado no final da década de 1990, o grupo paulistano – comandado por Maurício Takara, Guilherme Granado, Marcos Gerez, Mário Cappi, Fernando Cappi e Rogério Martins – é um dos principais e mais influentes projetos da cena independente nacional. Com quase duas décadas de atuação, a banda que acaba de relançar em vinil o clássico Mestro, trabalho originalmente apresentado em 2004, é uma das principais atrações do festival Fora da Casinha II, evento que conta com nomes como Cidadão Instigado, Jaloo, Ventre e Maglore. Continue reading

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Filipe Alvim: “Vida Sem Sentido” (VÍDEO)

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Você pensa que está bom / Mas podia estar melhor / Não queria estar ali / Mas podia ser pior“, canta Filipe Alvim em Vida Sem Sentido. Mais recente composição do cantor e compositor original de Juiz de Fora, a faixa de temática “existencialista” se divide entre o brega dos cantores brasileiros que apareceram na década 1970 e o mesmo universo de artistas canadenses como TOPS, Sean Nicholas Savage e, principalmente, Mac DeMarco.

Com distribuição pelo selo mineiro Pug Records – casa de bandas como duplodeck e Top Surpise –, a nova criação de Alvim também contou com lançamento em formato físico, sendo vendido como compacto sete polegadas com cópias limitadíssimas. No registro, duas versões para a mesma composição. De um lado, uma interpretação lenta e melancólica do som produzido pelo músico, no outro, um toque leve, descompromissado, como se Alvim brincasse com as próprias dúvidas e sofrimento.

Parte do próximo álbum do cantor, Beijos, a canção acaba de se transformar em clipe. A direção do vídeo é de Francisco Franco, diretor que já trabalhou com outros nomes da cena nacional, como Lê Almeida. No Bandcamp de Felipe Alvim você pode baixar o single gratuitamente.

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Filipe Alvim – Vida Sem Sentido

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Carne Doce: “Artemísia” (VÍDEO)

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Não vai nascer / Porque eu não quero / Porque eu não quero e basta eu não querer“. A essência feminina do Carne Doce parece ter aflorado em Artemísia. Primeiro fragmento do novo registro de estúdio da banda, previsto para agosto, a canção centrada na temática do aborto parece indicar a mudança de direção assumida pelo quinteto goiano em relação ao trabalho apresentado em 2014. Versos que ultrapassam o ambiente intimista e essencialmente delicado de faixas como Benzin e Amigo dos Bichos de forma a dialogar com a realidade.

Junto da canção, gravada no Red Bull Studios de São Paulo, a banda apresenta um claustrofóbico clipe produzido e dirigido por Muto. No vídeo, Salma Jô dança no interior de um túnel construído em 1918, no centro da cidade de Campinas. Para o clipe, a cantora contou com o apoio da coreógrafa Gabriela Branco que usou um “método de improviso baseado em estados corporais”. Abaixo, além do clipe de Artemísia, você encontra uma breve entrevista com Jô em que ela discute a temática da nova faixa, além, claro, do processo de gravação do clipe.

 

Em um cenário político marcado pelo retrocesso e forte controle da bancada evangélica, Artemísia nasce como uma espécie de hino feminista que se estende para além do polêmico debate sobre o aborto. Gostaria que você comentasse o processo de construção da letra da canção. Esse conceito “feminino” é a base para o novo álbum da Carne Doce? Que outros temas serão explorados no trabalho?

Eu tenho um pouco de receio dessa ideia de hino. Eu não tenho segurança para criar um estatuto, uma oração, para dizer tudo o que precisa ser dito sobre o assunto, não estou militando. Eu sou pelo feminismo, quem não é geralmente não nos interessa muito, mas eu não pretendo falar pelas feministas. Sei que eu acabo por assumir uma responsabilidade política, mas a minha perspectiva ao fazer as letras é no geral pegar um fato autobiográfico e universal e me divertir com o que há de poder nele.

O feminismo está aí, é pauta do dia, eu falo das coisas do dia, eu acabei falando muito disso no novo disco, mas tentando ser sincera sobre as minhas contradições, personagens, mentiras. E são muitas as questões: lugar de fala, o feminino, gênero, o depoimento como denúncia, o feminismo branco. Eu não sei respondê-las, mas eu gosto de me encucar com elas. Artemísia é a ideia de “meu corpo minhas regras” levada ao máximo, ao ponto de ser assumidamente fantasioso como se a dona do corpo fosse Deus. Quando nesta situação de decidir por um aborto, mesmo mulheres de muita fé escolhem romper com Deus por um momento, escolhem ser elas as maiores autoridades sobre as próprias vidas. É uma experiência muito íntima e ao mesmo tempo de compromisso com a vida, de poder sobre a descendência, de uma responsabilidade divina.

O clipe de Artemísia parece fortemente influenciado pela clássica cena do metrô no filme Possessão (1981), de Andrzej Zulawski. Existe esse diálogo com o trabalho do diretor polonês? Como foi o processo de preparação corporal e o trabalho com a coreógrafa Gabriela Branco?

A cena foi certamente uma inspiração, e eu até preferia não lidar com referência de tanto peso, mas todas as circunstâncias casavam demais com o sentido da letra: o túnel, a passagem, a espontaneidade da dança. O filme mesmo, no entanto, não é uma inspiração. A Gabriela me ensinou a dançar no sentido de explorar meus movimentos e impulsos e lapidá-los mais ou menos numa obra improvisada, mas com uma base emocional.

Não havia música, não havia coreografia e nem espelho durante a preparação, apenas a voz dela me guiando. Para mim foi como me atirar no abismo, confiar meu corpo a ela, baixar a vaidade, tentar não pensar de modo coreografado, um exercício de entrega que ainda me deixa ansiosa de pensar a respeito, mas gostei muito de fazer.

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Carne Doce – Artemísia

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Aíla: “Rápido” (VÍDEO)

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A mudança de direção é clara dentro do novo álbum de Aíla. Um dos principais nomes da nova cena paraense, a cantora que em 2012 presenteou o público com o ótimo Trelelê parece em busca de novas possibilidades e ritmos. Um bom exemplo disso está na enérgica Rápido. Primeiro single do novo registro de inéditas da cantora, previsto para o começo de agosto, a nova faixa pesa nas guitarras ao mesmo tempo em que mantém firme a relação com a música nortista do primeiro disco.

Com produção de Lucas Santtana, a faixa anuncia a transformação da cantora, completamente intensa e teatral dentro do clipe que acompanha a canção. Com direção de Roberta Carvalho, também parceira de Aíla na composição da música, o vídeo mostra a cantora em diferentes pontos da cidade de São Paulo, como um personagem isolado, brincando com a aceleração das imagens de forma a dialogar com os versos da canção.

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Aíla – Rápido

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Opala: “Opala”

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Três anos após o lançamento do primeiro EP, Maria Luiza Jobim e Lucas de Paiva estão de volta com o primeiro álbum de estúdio do Opala. Autointitulado, o registro que conta com 11 composições passeia pelo mesmo som etéreo apresentado pela dupla em meados de 2013. A diferença está na maior interferência das guitarras e outros instrumentos antes ocultos pelos sintetizadores, batidas e vozes abafadas que marcam as primeiras criações do duo carioca.

Com distribuição pelo selo RockIt! de Dado Villa-Lobos, o registro conta com uma série de faixas já conhecidas do Opala. É o caso da climática The Noise, apresentada ao público há poucos dias, além, claro, de Absence To Excess, canção originalmente apresentada pela dupla dentro do primeiro EP de inéditas. Disponível para audição no Spotify, o trabalho também pode ser apreciado na íntegra pelo perfil da Opala no Bandcamp.

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Opala – Opala

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Walverdes: “Repuxo”

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Seis anos após o lançamento do ótimo Breakdance (2010), os gaúchos da Walverdes estão de volta com mais um novo registro de inéditas. Intitulado Repuxo (2016), o trabalho que conta com sete composições e distribuição pelo selo Loop Records traz de volta o mesmo som cru produzido pela banda original de Porto Alegre desde o lançamento dos primeiros álbuns em estúdio, caso de clássicos como 90º (2000) e Anticontrole (2002).

Aos comandos de Gustavo Mini (Guitarra e Voz), Marcos Rübenich (Bateria), Patrick Magalhães (Baixo e Voz) e Julio Porto (Guitarra), o álbum vai do Punk ao Dub em pouco menos de 20 minutos de duração. No Facebook, a banda listou todos os diferentes canais onde o novo disco pode ser ouvido na íntegra. Junto do trabalho, o grupo aproveita para lançar o clipe de É Muita Gente, quarta faixa do registro e vídeo que conta com a direção de Julio Porto e Leandro Sá.

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Walverdes – É Muita Gente

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Walverdes – Repuxo

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Resenha: “Ó”, Juliana Perdigão

Artista: Juliana Perdigão
Gênero: Nacional, MPB, Rock
Acesse: https://www.facebook.com/perdigaoju/

 

Juliana Perdigão passou os últimos cinco anos pulando de um trabalho para outro. Em meio ao processo de divulgação do primeiro registro em estúdio, Álbum Desconhecido, obra entregue ao público em 2011, a cantora e compositora mineira criou pequenas brechas criativas, colaborando com diferentes nomes da música brasileira, caso de Maurilio Nunes, em Choro Doce (2013), Matheus Brant no recente Assume Que Gosta (2016) e até na coletânea Mulheres de Péricles (2013), um disco/homenagem ao músico Péricles Cavalcanti que ainda contou com nomes como Céu e Mallu Magalhães.

Com a chegada de Ó (2016, YB), segundo álbum de estúdio de Perdigão e obra que conta com a produção de Romulo Fróes, a cantora revela ao público uma delicada extensão de toda a sequência de parcerias, experimentos e conceitos musicalmente explorados nos últimos anos. São 17 faixas em que a artista converte em música fragmentos de poemas cotidianos, apresenta versões para o trabalho de outros compositores e ainda finaliza uma série de canções inéditas.

Acompanhada de perto pelos integrantes da banda Os Kurva — coletivo formado por Chicão (piano e teclados), Moita (guitarra e baixo) João Antunes (baixo, guitarra e violão) e Pedro Gongom (bateria e percussão) —, Perdigão parece testar os próprios limites. O samba encontra o rock de forma sempre curiosa, ruídos controlados esbarram em melodias íntimas do pop, temas atmosféricos que se abrem para a precisa interferência vocal da artista, também responsável pela flauta transversal e clarinete que costura o disco.

Dentro de uma estrutura que se desprende do óbvio, a cantora parece seguir uma trilha distinta em relação ao trabalho de outras representantes da música nacional. A cada nova faixa, um exercício isolado, como se diferentes retalhos fossem agrupados no interior do registro. Se em instantes Perdigão mergulha em temas semi-esotéricos, caso de Mãe da Lua, música que parece feita para o Secos e Molhados, no minuto seguinte, a cantora inverte a ordem do próprio trabalho, revelando canções marcadas pelo cenário urbano, caso da bem-sucedida adaptação de Pierrô Lunático. Continue reading

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Resenha: “Vida Que Segue”, Não Ao Futebol Moderno

Artista: Não Ao Futebol Moderno
Gênero: Indie Rock, Alternative, Dream Pop
Acesse: https://umbadubarecords.bandcamp.com/

Foto: Tuany Areze

Dois anos após o lançamento do EP Onde Anda Chico Flores? (2014), obra que apresentou ao público o trabalho da Não Ao Futebol Moderno, pouco parece ter sobrevivido da essência triste que marca a sequência de seis canções produzidas pela banda gaúcha. Em Vida Que Segue (2016, Umbaduba), primeiro álbum de estúdio do coletivo de Porto Alegre, guitarras empoeiradas flutuam em meio a versos marcadas por relacionamentos tediosos, fracassos, personagens e conflitos típicos de jovens adultos.

Como indicado durante o lançamento de Cansado de Trampar, faixa escolhida para anunciar o novo disco, todos os elementos do trabalho parecem pensados de forma a emular um som parcialmente nostálgico. Se há dois anos o quarteto – formado por Felipe, Kílary, Pedro e Marco – apontava para clássicos do real emo – como a estreia do American Football e EndSerenading (1998), do Mineral –, hoje, a proposta é outra. Temas que resgatam o Jangle Pop/Pós-Punk dos anos 1980, porém, mantém firme o diálogo com o presente cenário, explorando a obra de Mac DeMarco, Real Estate e outros nomes fortes da cena norte-americana.

Um bom exemplo disso está em Janeiro. Sétima faixa do disco, a canção de guitarras e vozes arrastadas delicadamente parece confortar o ouvinte, transportado para o mesmo universo de obras recentes como Salad Days e Atlas – ambos lançados em 2014. “Olhar pra cama e ver você me faz enlouquecer / Viajar pra dentro de você / Para te conhecer melhor”, sussurra a letra enquanto a base “litorânea” da composição se espalha sem pressa, proposta também incorporada em Laços de Família.

Claro que a “mudança de direção” por parte da banda em nenhum momento interfere na construção de pequenos atos criativos que apontam para o registro apresentado há dois anos. Basta se concentrar na quinta faixa do disco, a dolorosa Saia. Enquanto os versos sufocam pela temática existencialista – “Eu sei que o que eu vou fazer vocês já fizeram antes de eu nascer / Eu só quero tentar” –, musicalmente a canção parece romper com a trilha psicodélica que inaugura o álbum, apontando de maneira explícita para o rock alternativo do final dos anos 1990. Continue reading

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O Nó: “Vão”

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Com o lançamento de EP1 (2015), em outubro do último ano, o quarteto paulistano O Nó parecia preparar o terreno para uma obra maior, brincando com as possibilidades a cada cada nova faixa do curto registro. Em Vão, mais recente single da banda e fragmento escolhido para apresentar o primeiro álbum de estúdio do grupo, um claro amadurecimento, percepção que se reforça no uso atento da voz, instrumentos e, principalmente, na letra assumida por Luísa Moreira.

Ao mesmo tempo em que o grupo – formado por Alexandre Drobac (Guitarra), Mateus Bentivegna (Bateria), Rodolfo Almeida (Baixo) e Matheus Perelmutter (Sintetizadores) – brinca com os temas psicodélicos que deram vida ao último EP, esbarrando na obra de artistas como Tame Impala, sintetizadores, guitarras e pequenas ambientações climáticas indicam uma forte mudança de direção por parte da banda. Uma explícita visita ao cenário musical dos anos 1980, como se a banda mergulhasse de cabeça no pop nostálgico que abasteceu a cena brasileira durante o período.

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O Nó – Vão

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Catavento: “Plantinha”

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Uma avalanche de ruídos psicodélicos. Assim pode ser definida a recém-lançada Plantinha, mais recente single do coletivo gaúcho Catavento. Tão instável quanto o material apresentado há poucos dias durante o lançamento de City’s Angel, canção escolhida para anunciar o segundo álbum de estúdio do grupo, CHA (2016), a nova faixa flutua em meio a doses consideráveis de distorções e vozes em coro, como uma extensão do som produzido há dois anos em Lost Youth Against The Rush (2014).

Enquanto mergulha no mesmo universo de artistas estrangeiros como Ty Segall e Thees Oh Sees, difícil ignorar a forte relação da banda com uma série de obras recentes da nossa música. Ruídos cósmicos que dialogam com a obra de artistas como BIKE e até representantes do selo Midsummer Madness no começo dos anos 2000, principalmente a extinta Astromato. Um bem-sucedido exercício de pura insanidade musical.

CHA (2016) será lançado em agosto pelo selo Honey Bomb Records.

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Catavento – Plantinha

 

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