Em meio a tantas composições fortes que abastecem o segundo álbum de estúdio do Carne Doce, Princesa (2016), a tímida Eu Te Odeio nasce como um precioso respiro. Entre arranjos contidos de guitarras, a voz doce de Salma Jô se derrete, espalhando pequenas provocações, dúvidas e declarações de amor que alimentam o cotidiano de qualquer casal – “Vai, me fotografa / Diz, você me acha bonita? / Eu tenho tanto medo de esquecer o seu cheiro“,

A mesma intimidade que movimenta os versos acaba se refletindo no clipe produzido pelo Estúdio BÃO. Embaixo do chuveiro, Jô e marido, Macloys Aquino, guitarrista do Carne Doce, trocam carícias e as próprias roupas enquanto a música sutilmente se espalha ao fundo das imagens. Um perfeito diálogo entre som e imagem, cuidado também explícito no vídeo de Artemísia, trabalho lançado pela banda no último ano e um dos Melhores Clipes de 2016.

 



Carne Doce – Eu Te Odeio

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Artista: Jude
Gênero: Rock Psicodélico, Alternativo, Rock
Acesse: https://soundcloud.com/jude-banda

 

Não faltam registros inspirados na boa safra do rock psicodélico produzido entre o final dos anos 1960 e começo da década de 1970. Trabalhos ancorados de forma explícita na obra de veteranos da música nacional – como Os Mutantes e Clube da Esquina –, ou mesmo gigantes da cena estrangeira – principalmente The Beatles e Pink Floyd. Todavia, poucos são os registros capazes de ir além da mera reciclagem de conceitos, sufocando pela completa ausência de identidade.

Prazeroso encontrar em Ainda Que de Ouro e Metais (2016, Crooked Tree Records), álbum de estreia do grupo alagoano Jude, uma seleção de músicas que vão além do empoeirado resgate de velhas ideias e melodias. Dividido com naturalidade entre a nostalgia e o frescor dos arranjos, o trabalho entregue ao público em dezembro do último ano confirma o esmero e verdadeira entrega do trio Reuel Albuquerque (guitarras, violão, baixo, teclados, programações, bateria e vocais) Fernando Brasileiro (vocais e violão) Alex Moreira (baixo e violão) em estúdio.

A cada nova composição, um precioso diálogo com o passado. Entre falsetes e arranjos descomplicados, a homônima música de abertura do disco orienta a direção seguido pela trinca de Maceió. Guitarras, pianos e batidas que se espalham de maneira sutil, detalhando um colorido pano de fundo para o canto melódico da faixa, por vezes íntima do clássico Pet Sounds (1966), dos Beach Boys. O mesmo cuidado se repete ainda na divertida Vá Ser Feliz Como o Arnaldo Baptista, faixa assinada em parceria com o músico João Paulo, vocalista e líder da conterrânea Mopho.

Por falar no trabalho da Mopho, sobrevive em Ainda Que de Ouro e Metais parte da essência lisérgica e grande parte das referências que abasteceram a curta discografia da banda alagoana. Difícil ouvir músicas como Gigante de Aço e Com Olhos Serenos e não lembrar de obras como Volume 3 (2011) ou o homônimo registro de estreia do grupo – 56º lugar na nossa lista dos 100 Melhores Discos Nacionais dos Anos 2000. A mesma ambientação psicodélica, louca. Arranjos e vozes que analisam o passado de forma curiosa, porém, mantendo firme os dois pés no presente.

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Desde o último ano, os integrantes da Luziluzia vem trabalhando em uma série de três EPs marcados pela experimentação. Intitulado EP 1​/​3 (concerto pra caixas pequenas), o registro de quatro faixas – uma delas com mais de 11 minutos –, se espalha em meio a ruídos, vozes desconexas e ambientações caseiras, sujas, proposta que volta a se repetir dentro do segundo e mais recente trabalho da banda: EP 2​/​3 (autofarra – trilha pra uma festa boa) (2017).

Em um intervalo de apenas cinco faixas – Caverninha, Provador, Temporada 2014, Love co n5 e Rufião, à espera da festa boa –, a banda forma por integrantes do Boogarins e Carne Doce parece jogar com o uso de fragmentos musicais vindos de diferentes sessões. Retalhos musicais que se completam com o uso de temas eletrônicos. Assim como o trabalho lançado pela banda em 2016, o novo EP pode ser baixado gratuitamente no perfil da Luziluzia no Bandcamp.

 

Luziluzia – EP 2​/​3 (autofarra – trilha pra uma festa boa)

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Artista: De Repente, Vivo
Gênero: Pós-Rock, Experimental, Indie
Acesse: https://www.facebook.com/derepentevivo/

 

Idealizações e Contratempos Que Resultam Em Música é um trabalho precioso. Do momento em que tem início O Idealista, faixa de abertura do disco, cada fragmento da música produzida pelo cantor, compositor e multi-instrumentista gaúcho Juliano Lacerda se projeta de forma a confortar o ouvinte. Ambientações sutis, guitarras etéreas, sempre minimalistas, ponto de partida para a construção de cada uma das composições que recheiam o primeiro grande registro do projeto De Repente, Vivo.

Produto do isolamento do músico gaúcho, responsável pelos instrumentos, vozes e mixagem do trabalho, o registro de oito faixas revela um claro amadurecimento em relação ao EP de cinco faixas apresentado por Lacerda em 2015. Livre do parcial experimento e ziguezaguear de ideias que marcam o curto registro, cada canção do presente álbum serve de estímulo para a música seguinte, resultando na construção de um álbum homogêneo, mesmo rico em detalhes e possibilidades.

Entre temas acústicos e sobreposições eletrônicas, sempre próximas da música ambiental, Idealizações e Contratempos… encanta pela fluidez tímida e hipnótica dos arranjos. Ainda que a faixa de abertura do disco estreite a relação com o trabalho do Explosions in the Sky e outros representantes de peso do pós-rock, à medida que o álbum avança, novos ritmos e temas instrumentais escapam do som produzido por Lacerda, revelando a identidade do trabalho.

Um bom exemplo disso está na segunda faixa do disco, Se o Sol Não Nos Deixar. Em um intervalo de quase seis minutos, o músico gaúcho detalha uma fina tapeçaria eletrônica, pano de fundo para a inclusão de vozes sintéticas, uma espécie de novo instrumento nas mãos do artista. O mesmo cuidado se reflete ainda em Ecos Em Curto-circuito, quarta faixa do disco. Um jogo de melodias eletrônicas, naturalmente íntimas do trabalho produzido por artistas como Brian Eno, influência confessa de Lacerda.

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Original da cidade de Porto Alegre, De Repente, Vivo é um projeto de música instrumental comandado pelo músico Juliano Lacerda. Com um EP homônimo entregue ao público em 2015, o artista gaúcho acaba de finalizar o inédito Idealizações e Contratempos Que Resultam Em Música (2017). Uma delicada seleção com oito faixas capazes de dialogar com o que há de mais sutil no rock instrumental/pós-rock, esbarrando no mesmo universo de artistas como Explosions in the Sky.

Entre as referências apontadas por Lacerda, nomes como Brian Eno, Trent Reznor (Nine Inch Nails) e David Lynch. Nomes e referências que surgem com naturalidade em músicas como a minimalista Se o Sol Não Nos DeixarAté o Outono Aparecer. Disponível para download gratuito pelo Bandacamp, o trabalho ainda pode ser apreciado em outras plataformas, como no souncloud do músico. Para mais novidades sobre o artista, basta seguir o perfil no Facebook.

 

De Repente, Vivo – Idealizações e Contratempos Que Resultam Em Música

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Original da cidade de Salvador, Bagum é um coletivo de Jazz, Hip-Hop, Funk e ritmos africanos que parece flutuar por entre diferentes gêneros musicais. Formado há poucos meses por Gabriel Burgos (bateria), Pedro Tourinho (baixo) e Pedro Leonelli (guitarra), o grupo que já conta com um EP em mãos – Dá um tapa e corre (2016) –, acaba de apresentar um novo trabalho de inéditas. Trata-se de É o que, registro de apenas quatro faixas que resume com naturalidade o som versátil do trio.

A julgar pelo som hipnótico que escapa de composições como Sopro e a inaugural Curto, trata-se de uma versão descomplicada do mesmo material produzido por outros coletivos de jazz/rock instrumental recentes. O possível resultado de um encontro entre os experimentos do grupo canadense BADBADNOTGOOD e o ritmo quente que escapa das canções produzidos pelo grupo paulistano Bixiga 70. Para ouvir os dois trabalhos da banda, basta uma visita ao Facebook ou Youtube do trio.

 

Bagum – É o que EP

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Um ano para ser esquecido lembrado. Em meio a diversos acontecimentos que marcaram de forma trágica o cenário político, econômico e cultural brasileiro nos últimos meses, sobrevive na rica produção musical um considerável acervo de pequenos clássicos da recente fase da música popular brasileira. Uma coleção de acertos que passa pelo explícito amadurecimento do pop nacional – vide os trabalhos de Mahmundi, O Terno e Céu –, as diferentes tonalidades do rock – caso do “rock triste” de Belo Horizonte e o sempre colorido rock goiano –, além, claro, rico acervo de videoclipes brasileiros. Um imenso conjunto de ideias, sonoridades e conceitos em constante expansão. Nesta lista, um resumo particular dos principais trabalhos lançados entre janeiro e dezembro de 2016.

 

[50 – 41] [40 – 31] [30 – 21] [20 – 11] [10 – 01] 

Os Melhores Clipes | As Melhores Capas

Os 50 Melhores Discos Internacionais de 2016

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Dias após o lançamento do clipe de Elogio à Instituição do Cinismo, os integrantes da banda goiana Boogarins estão de volta com uma composição “inédita”. Na trilha do material produzido em parceria com Pedro Bonifrate (Supercordas), a já conhecida Olhos mostra um fortalecimento dos temas psicodélicos e experimentos testados pela banda desde o último registro de inéditas, o ótimo Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos – 5º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015.

Olhos nos olhos / Vejo seu mundo / E as voltas de sua translação / Fecho os meus olhos / e vou ao fundo / entre as frestas da percepção“, canta o vocalista Dinho Almeida enquanto batidas comportadas e guitarras etéreas, carregadas de efeito, se espalham lentamente ao fundo da composição. Um ato curto, pouco mais de três minutos, como uma espécie de indicativo do som que deve abastecer o novo registro de inéditas do quarteto de Goiás.

 

Boogarins – Olhos

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Longe de um novo álbum em carreira solo, o cantor e compositor Marcelo Camelo se concentra de forma explícita na produção de diferentes projetos da cena brasileira. Dias após o lançamento de Esse Mar, canção produzida pelo músico para o quinto álbum de estúdio do conterrâneo Momo, Camelo anuncia no Facebook a chegada de um novo e inusitado projeto. Trata-se de Acalanto (2017), obra que conta com poemas e ilustrações produzidas pela mãe do cantor, a artista Ana Camelo, e melodias assinadas em parceria com o músico Luís Otávio, tio de Camelo.

Canção escolhida para apresentar o trabalho, a delicada Noite passeia em meio a acordes descomplicados, uma percussão detalhista e o precioso dueto entre Camelo e Otávio. De essência familiar, o registro, anunciado para o primeiro semestre de 2017, ainda reserva algumas surpresas para o público, como a presença da cantora Mallu Magalhães na inédita Atraente, Thaís Howart (esposa de Luis) cantando em Lamento e a própria Ana, responsável pelos vocais na faixa-título do álbum.

 

Luís Otávio e Ana Camelo – Noite (ft. Marcelo Camelo)

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Fernando Temporão nem parece o mesmo artista que foi apresentado ao público com o álbum De dentro da gaveta da alma da gente (2013). Entre versos sóbrios, canções amargas e declarações de amor sempre delicadas, confessionais, o cantor e compositor carioca esbanja maturidade no segundo registro em carreira solo, Paraíso (2016, Independente). Um trabalho de temática acinzentada, apaixonado e ensolarado em momentos específicos, porém, íntimo de diferentes aspectos que marcam o presente cenário político/cultural brasileiro

Com Dança como faixa de abertura do disco, Temporão e o parceiro Kassin, produtor desde o álbum passado, indicam a direção assumida em cada uma das 11 faixas que recheiam o presente trabalho. São arranjos sempre precisos, marcados pelos detalhes, passagem para a interferência de convidados como o paulistano Marcelo Jeneci, influência confessa do músico carioca e responsável pela sanfona que passeia ao fundo da canção. Nos versos, fragmentos da identidade político de Temporão: “Tira a cabeça daí / Olha de frente pro perigo … Não, eu não vou saber dizer / Pra vocês não vou dizer / Sim“. Leia o texto completo.

Composta em parceria com a cantora e compositora Ava Rocha, Paraíso, faixa-título do novo álbum de Fernando Temporão, se transforma agora em um delicado clipe. São imagens captadas em San Andres (Colômbia) e Mamanguá (Rio de Janeiro) e editadas pelo próprio cantor.

 

Fernando Temporão – Paraíso

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