Tag Archives: Brasil

Resenha: “Lua Degradê”, Supervão

Artista: Supervão
Gênero: Indie, Dream Pop, Electronic
Acesse: https://www.facebook.com/supervao/

 

Versos apaixonados que se dissolvem na voz abafada e sintetizadores cósmicos de Mario Arruda. Uma coleção de guitarras essencialmente sujas, por vezes climáticas, trabalho do músico Leonardo Serafini, responsável por ocupar as pequenas lacunas deixadas pela programação eletrônica do parceiro de banda. Em Lua Degradê (2016, Honey Bomb Records / Lezma Records), EP de estreia da dupla gaúcha Supervão, cada uma das cinco composições do registro sobrevivem da colisão de pequenos detalhes.

Inaugurado pelo som enevoado de Vitória Pós-Humana, o trabalho de apenas 20 minutos cresce sem pressa, em pequenas doses. São distorções leves que replicam os instantes iniciais de Is This It, da banda nova-iorquinos The Strokes, a letra ambientada em um cenário claramente particular, batidas e bases abafadas, como se todos os elementos da obra fossem organizados em um ambiente desvendado em essência apenas pela dupla.

Faixa mais “pop” do disco, Lua em Gêmeos, segunda canção do álbum, acaba se revelando como a peça mais curiosa e musicalmente versátil do curto acervo de canções. Enquanto as guitarras de Serafini se espalham lentamente, explorando o mesmo dream pop sóbrio de artistas como Terno Rei, Raça e outros coletivos próximos, batidas e vozes aceleram lentamente, revelando uma inusitada combinação de ritmos. Um funk soturno, claustrofóbico, oposto do material apresentado em sequência com Cadilac Ollodum.

Da forma como as vozes crescem delicadamente ao uso etéreo das guitarras, todos os elementos se organizam de forma a conduzir o mesmo som letárgico e provocante de gigantes como Portishead ou mesmo outros veteranos do Trip-Hop inglês. Versos arrastados, sussurros – “câmera de zoom, câmera de zoom” – e efeitos tecidos como leveza. Velha conhecida do público da banda, a canção apresentada no último ano surge retrabalhada de forma sutil, reforçando o peso das batidas. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , ,

Não Ao Futebol Moderno: “Janeiro”

rp_tumblr_o5kfzkVY7Z1r9ykrko1_1280.png

.

Poucas semanas após o lançamento de Cansado de Trampar, o grupo gaúcho Não Ao Futebol Moderno está de volta com uma nova e delicada canção. Em Janeiro, segunda e mais recente composição do ainda inédito registro de estreia da banda de Porto Alegre, vozes s e guitarras flutuam delicadamente, quase ao fundo da faixa. Uma coleção de melodias brandas e distorções semi-psicodélicas, conceito que se aproxima com naturalidade do trabalho de artistas como Mac Demarco e Real Estate.

No segundo ato da canção, um instante breve de silêncio, e a completa mudança de direção. Vozes e guitarras essencialmente aceleradas, reforçando a relação da banda com o material apresentado no EP Onde Anda Chico Flores?, de 2014. Como anunciado durante a apresentação de Cansado de Trampar, há poucos dias, o primeiro álbum de estúdio da banda conta com lançamento previsto para junho deste ano e distribuição pelo selo Umbaduba Records.

.

Não Ao Futebol Moderno – Janeiro

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , ,

Disco: “Xóõ”, Xóõ

Artista: Xóõ
Gênero: Rock, Alternative, Experimental
Acesse: http://projetoxoo.com.br/

 

As ideias ocupam toda a extensão do primeiro registro em estúdio do coletivo Xóõ. Entre versos marcados por temas existencialistas, conceitos políticos, medos e confissões sentimentais, uma chuva de ruídos, bases eletrônicas e experimentos orquestram de forma essencialmente instável o rumo de cada composição assinada pelo grupo. Caos transformado em música. Uma propositada ausência de ordem, estímulo para a construção do curto acervo que sustenta o disco homônimo da banda.

No time de músicos aos comandos do Xóõ – pronuncia-se chó-on -, Vitor Brauer (vocalista da banda mineira Lupe de Lupe), Bruno Schulz (produtor e músico que já trabalhou ao lado de Cícero), Cairê Rego e Felipe Pacheco (ambos integrantes do coletivo Baleia), Gabriel Barbosa (SLVDR, também membro da banda de Duda Brack), além de Larissa Conforto, Gabriel Ventura e Hugo Noguchi, estes três últimos, responsáveis pelo Ventre. Oito colaboradores. Oito canções inéditas.

Escolhida para apresentar o trabalho, a descritiva Passado Futuro encontra em fragmentos históricos – que vão da antiguidade à era da informação – um eficiente ponto de partida. Trata-se de uma colisão alucinada de ideias e textos narrados por Brauer. Versos que observam o nascimento do homem, discutem religião, guerras, evolução e tecnologia, fixando no verso inaugural — “A humanidade nasceu da morte” — uma base pessimista que serve de estímulo para o restante da obra.

Sem ordem aparente, cada música assume uma direção específica, torta e sempre provocativa. Em Gente Boa, por exemplo, enquanto as guitarras flertam com a obra de Deftones e Queens Of The Stone Age, nos versos, Brauer mergulha em um cenário cinza, dominado por personagens tão instáveis (e sujos) quanto os arranjos que invadem a canção. Um completo oposto do som apresentado em Eu Te Amo, um axé-rock distorcido, “pegajoso” e talvez a composição mais acessível de toda a obra. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , ,

Vitor Brauer: “História do Brasil”

.

Vitor Brauer não para. Mesmo com o fim temporário das atividades da Lupe de Lupe, o cantor e compositor mineiro acaba de apresentar ao público mais um novo projeto. Trata-se de História do Brasil, uma coletânea virtual com 52 versões para o trabalho de diferentes artistas da cena alternativa brasileira. Dividido em três partes – a segunda e terceira partes serão lançadas respectivamente em outubro de 2016 e abril de 2017 -, o registro acaba de ter a primeira sequência de faixas disponíveis para audição e download no Bandcamp.

São 13 músicas originalmente assinadas por artistas como Boogarins (Cuerdo), Baleia (Breu), Ventre (Pernas), Nvblado (Angústia) e até pela dupla Cadu Tenório e Márcio Bulk (Estela). Utilizando apenas voz, pianos e violão, um resumo de toda a rica produção nacional nos últimos anos. O projeto contou com o estímulo de um time de apoiadores pelo https://apoia.se/vitorbrauer. Ouça:

.

Vitor Brauer – História do Brasil

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , ,

Quarup: “Quero ir pra a Bahia com você” (VÍDEO)

.

De todas as faixas que abastecem primeiro registro de estúdio da paulistana Quarup, Quero ir pra a Bahia com você talvez seja a composição mais acessível da obra, íntima do grande público. Das guitarras que dialogam diretamente com a obra de veteranos como Novos Baianos — ou seria Chiclete com Banana? –, passando refrão pegajoso e batidas que evocam a essência de coletivos aos moldes de Timbalada e Olodum, todos os elementos da canção se projetam de forma a convidar o ouvinte para um delicioso Carnaval fora de época.

Para o clipe da canção, trabalho produzido pela Rua Filmes, o quinteto decidiu viajar até o município de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, para se encontrar com o “fenômeno” Carreta Furacão. O resultado está em uma combinação de máscaras, fantasias, cores, poses arriscadas e passos de dança. Uma completa fuga do mesmo som anteriormente apresentado na psicodélica O Mensageiro, primeiro do registro que será lançado nas próximas semanas.

.

Quarup – Quero ir pra a Bahia com você

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , ,

Disco: “Bilhão”, Bilhão

Artista: Bilhão
Gênero: Indie, Indie Pop, Dream Pop
Acesse: https://www.facebook.com/bilhao.musica/

 

Versos que detalham a passagem do tempo, guitarras essencialmente sutis e a constante sensação de acolhimento. Em Bilhão (2016, Balaclava Records), delicado registro de estreia do projeto comandado pelos músicos Felipe Vellozo (Séculos Apaixonados, Mahmundi) e Gabriel Luz (Crombie), todos os elementos que abastecem a obra são apresentados ao público com leveza, como a passagem para um ambiente que se faz convidativo, um verdadeiro recanto instrumental e lírico.

Tendo como base Atlântico Lunar e Horizontalidade, composições que apresentaram o trabalho da dupla carioca há poucos meses, vozes e arranjos flutuam em um aconchegante colchão de melodias tímidas e litorâneas. Sem pressa, ainda que efêmero – são apenas sete faixas e pouco mais de 20 minutos de duração -, o álbum segue à risca o verso central que salta da canção de abertura: “…que o tempo passa / Gordo e devagar”.

Em uma nuvem de sons e versos oníricos, típicos da recente safra do Dream Pop norte-americano, cada uma das sete composições que abastecem o disco seguem dentro uma medida própria de tempo. Nada de exageros, quebras bruscas ou possíveis alterações na ordem inicialmente apontada pela canção de abertura. Do jangle pop de Três da Tarde, passando pelo som acústico de Tô pra ver o tempo, até alcançar as derradeiras Mar de Vapor e The Effect, tudo flui com tranquilidade.

São letras ancoradas em elementos como “sol”, “céu”, “calor”, “mar” e “vapor”, detalhando de forma colorida o nascimento de pequenas paisagens – reais ou poéticas – que se espalham de forma sempre aconchegante até o último instante do trabalho. Uma espécie de fuga para um paraíso possível, talvez uma praia isolada em algum ponto distante do Rio de Janeiro, ou simplesmente um refúgio criativo que cresce na mente do próprio ouvinte. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , ,

Não ao Futebol Moderno: “Cansado de Trampar”

.

Depois de um bom EP lançado em outubro de 2014 pelo selo Umbaduba RecordsOnde Anda Chico Flores? -, é hora de ter acesso ao primeiro álbum de estúdio do quarteto gaúcho Não Ao Futebol Moderno. Composição escolhida para apresentar o registro – previsto para junho deste ano -, Cansado de Trampar mostra um diálogo cada vez mais seguro da banda de Porto Alegre com todo o universo de representantes do dream pop/indie norte-americano.

Enquanto o registro de 2014 parecia flertar com a obra de gigantes do real emo como American Football e Mineral, bastam as guitarras que abrem a presente canção para indicar um novo universo de possibilidades. Entre vozes ecoadas, típicas do pós-punk dos anos 1980, uma chuva de acordes semi-psicodelicos reforçam a transformação do quarteto, hoje próximo de artistas como Craft Spells e Beach Fossils, além, claro, do coletivo carioca Séculos Apaixonados.

ep[.

Não Ao Futebol Moderno – Cansado de Trampar

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , ,

Mauricio Avila: “Spiral”

.

Já faz algum tempo desde que Mauricio Avila apresentou ao público suas últimas composições. Para ser mais exato, um ano desde o lançamento de faixas como Blissful Attraction e um tempo ainda maior para canções como Glass e Swell. Entretanto, toda a espera do produtor vale à pena quando voltamos os ouvidos para a recém-lançada Spiral, mais recente composição do artista original do município de Franca, interior de São Paulo.

Com três atos bem-definidos, a composição de quase sete minutos passeia por um mundo de nuances, pequenos fragmentos de vozes e batidas essencialmente tropicais. Uma ponte curiosa para o mesmo som produzido por veteranos como Lone, Lindstrøm e Four Tet – vide o cuidado com os vocais, similares ao trabalho em There Is Love In You (2010) -, mas que em nenhum momento se distancia da identidade conquistado por Avila desde o lançamento das primeiras canções.

.

Mauricio Avila – Spiral

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , ,

Disco: “Saboroso”, Raça

Artista: Raça
Gênero: Alternative, Rock, Post-Hardcore
Acesse: https://soundcloud.com/bandaraca/ 

 

De vozes e arranjos minimalistas, propositadamente restritos, Saboroso (2016, Freak), segundo álbum de estúdio da banda paulistana Raça, sustenta nos detalhes a real beleza de cada composição. Músicas ancoradas em conflitos pessoais, medos e temas cotidianos que se destacam dentro do ambiente urbano, por vezes claustrofóbico, musicalmente incorporado pelo grupo – Popoto Martins Ferreira (voz e guitarra), Thiago Barros (bateria), Novato Calmon (voz e baixo) e Lucas Tamashiro (guitarra).

Como a lancheira escolar que estampa a capa do disco logo indica, Saboroso, diferente do antecessor Deu Branco, de 2014, encontra em versos nostálgicos e histórias de um passado ainda recente um curioso ponto de partida para grande parte das composições. Não se trata de um álbum marcado pela saudade, como reforçou o vocalista Popoto em recente entrevista, mas “memórias de uma fase extremamente instável” de cada integrante da banda.

Quarta faixa do disco, a crescente É pra copiar? sintetiza com naturalidade a sequência de pontes que o grupo levanta em direção ao passado. Entre guitarras fragmentadas e batidas inicialmente contidas, o vocalista despeja uma seleção de versos como “o sinal já bateu”, “só não vá copiar muitas palavras” e “corre, agiliza, eles vão te pegar”. Uma visita voluntária ao universo de pequenos conflitos, personagens e cenas típicas de uma sala de aula durante a infância e adolescência.

Em composições como Dez (“Contei até dez mais de dez vezes /  Não me acalmei”) e Garras (“Não tem erro / Se eles me entendem, por que você não?”), o cenário, antes específico, restrito e real, se transporta para a mente conturbada de um possível “protagonista”. Versos sempre melancólicos, amargos, que refletem o isolamento de qualquer indivíduo, conceito também explorado em Sossego, terceira faixa do disco – “Difícil não é gostar de mim / De você / De Nós / Difícil é sossegar em casa”. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , ,

Disco: “Mantra Happening”, Lê Almeida

Lê Almeida
Nacional/Indie Rock/Psychedelic
http://lealmeida.bandcamp.com/

 

Com o lançamento de Paraleloplasmos, em março de 2015, o cantor e compositor fluminense Lê Almeida parecia indicar a busca por um novo conjunto de referências e sonoridades. Entre composições essencialmente efêmeras, guitarras sujas e ruídos caseiros, Fuck The New School, com mais de 11 minutos de duração, e Câncer dos Trópicos, com quase nove, sutilmente conseguiram transportar o ouvinte para um cenário parcialmente renovado, marcado pela psicodelia. Uma extensão torta do mesmo som produzido pelo músico durante quase uma década de atuação.

Em Mantra Happening (2016, Transfusão Noise Records), terceiro e mais recente registro de inéditas do guitarrista, um delicado regresso ao mesmo ambiente cósmico apresentado há poucos meses. Cinco composições extensas, pouco mais de 50 minutos de duração, tempo suficiente para que Almeida e o time de instrumentistas formado por João Casaes (guitarra), Bigú Medine (baixo) e Joab Régis (bateria) brinque com os ruídos, ondas de distorção e vozes de forma sempre mutável.

Escolhida para inaugurar o disco, a longa Oração da Noite Cheia, com mais de 15 minutos de duração, cria uma ponte involuntária para o trabalho apresentado no último ano. Emanações psicodélicas, imensos paredões de guitarra e a voz pueril de Almeida, assim como em grande parte dos registros do artista, explorada como um “instrumento” complementar. Dois atos distintos, mas que se completam ao longo da execução da faixa, como uma visita o rock da década de 1970, mas sem necessariamente abandonar o presente.

Fina representação do lado mais “experimental” da obra, Maré, segunda canção do disco, não apenas garante sequência ao material apresentado nos primeiros minutos de Mantra Happening, como ainda estabelece uma série de regras para o restante da obra. São quase 13 minutos de texturas sobrepostas e vozes carregadas de efeitos. Arranjos e conceitos que esbarram de forma autoral na obra de Ty Segall, Thee Oh Sees e outros representantes da cena norte-americana. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , , ,