Tag Archives: Brasil

Resenha: “Arco & Flecha”, Iara Rennó

Artista: Iara Rennó
Gênero: Rock, Alternative, Experimental
Acesse: http://iararenno.com/

 

Três anos após o lançamento de Iara (2013), obra que cobriu com guitarras o trabalho de Iara Rennó, a cantora e compositora paulistana está de volta não com um, mas dois álbuns repletos de composições inéditas. De um lado, a crueza e feminilidade do elétrico Arco, obra de nove canções assumidas em parceria com um time de mulheres que ocupam os versos e instrumentos do trabalho. No outro oposto, o complementar Flecha, disco que abraça a MPB e mostra a colaboração entre Rennó e um grupo de cantores, músicos e compositores em uma sequência de outras nove músicas.

Com Mama-me como faixa de abertura do primeiro disco, Rennó indica a forte sexualidade e temática do empoderamento feminino que ocupa grande parte das composições em Arco. “Sonha que me despe / E a festa acontece / Sem roupa nem confete / Só carne“, canta enquanto as guitarras e um jogo sujo de sintetizadores crescem ao fundo da canção. Uma espécie de preparativo para o agressivo jogo de palavras que abastece músicas como Corpo Selvagem e Vulva Viva, fragmentos extraídos do livro de poemas eróticos Língua Brasa Carne Flor, estreia literária de Rennó, além músicas que dialogam de forma explícita com a sonoridade crua, essencialmente caótica, que abastece o último álbum da cantora.

De fato, a semelhança com o som produzido em Iara é enorme. Do uso pulsante da voz em Instante ao completo descontrole das guitarras em Meus Vãos, instrumento que passeia livremente durante toda a obra, Rennó faz de Arco uma madura continuação do trabalho entregue há três anos. São quase 30 minutos em que a cantora se desdobra na construção dos arranjos e vozes, abrindo espaço para a precisa interferência da dupla Mariá Portugal (bateria/mpc) e Maria Beraldo Bastos (clarone), principais colaboradoras do trabalho e personagens fundamentais para a produção de um som essencialmente cru, urgente, completo oposto do material que detalha as canções do complementar Flecha.

Livre do minimalismo que orienta as canções de Arco, Rennó faz da segunda metade do trabalho – o lado “masculino” -, uma obra marcada pelas texturas e ritmos. Em parceria com a cantora, um time formado por Curumin (bateria, teclado, mpc e produção), Maurício Badé (percussão), Lucas Martins (baixo e violão), Gustavo Cabelo (guitarra), Maurício Fleury (teclados), Daniel Gralha (trompete e fluguelhorn) e Cuca Ferreira (sax barítono). O resultado não poderia ser outro: uma explosão de cores, vozes, texturas e instrumentos. De forma autoral, um curioso regresso ao mesmo universo de referências exploradas nas canções do DonaZica, antigo projeto de Rennó em parceria com Anelis Assumpção e Andréia Dias. Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , , , ,

Ombu: “Calma”

.

Calma“. É o que pede a letra do primeiro single de Pedro EP (2016), segundo e mais novo trabalho produzido pela banda paulistana de pós-rock/pós-hardcore Ombu. Formado por João Viegas (baixo e voz), Santiago Mazzoli (guitarra e voz) e Thiago Barros (bateria), o trio que no último ano apresentou o ótimo Mulher EP (2015) reserva para o final de junho a chegada de um novo e ainda mais complexo registro de inéditas.

Com lançamento pelo selo Balaclava Records – casa de grupos como Terno Rei e Cabana Café –, o novo álbum conta com cinco composições inéditas – Sem mais, Sina, Omça, Calma e Queria –, além de um esforço maior na pós-produção do material. Em Calma, um assertivo cruzamento entre melodias arrastadas e a voz forte do vocalista, tão intenso quanto na seleção de faixas entregues ao público no último ano.

.

Ombu – Calma

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , ,

Wado: “Alabama”

.

Depois de uma temporada de obras intimistas – como os ótimos Samba 808 (2011) e Vazio Tropical (2013) –, em 2015, Wado apresentou ao público 1977. Oitavo álbum de inéditas do cantor e compositor alagoano, o registro marcado por diferentes parceria ao redor do mundo parece anunciar uma espécie de regresso musical aos primeiros anos do cantor, quando a mistura entre samba e rock serviu para abastecer obras como A Farsa do Samba Nublado (2004).

Em Alabama, primeiro single do novo registro de estúdio de Wado, Ivete (2016), uma clara extensão dessa mesma sonoridade. Uma colagem de guitarras enérgicas, sempre dançantes e perfumadas pelo axé. No novo álbum – assumidamente inspirado em Ivete Sangalo –, o cantor ainda reserva versões para músicas de Gilberto Gil e Moreno Veloso, além de faixas em parceria com velhos colaboradores como Momo, Marcelo Camelo e Alvinho Lancelotti. Não sabe nada sobre o cantor? Aproveite para ler o nosso Cozinhando Discografias.

.

Wado – Alabama

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , ,

Bixiga 70: “The Copan Connection: Bixiga 70 meets Victor Rice”

.

Entregue ao público em abril do último ano, o terceiro álbum de estúdio do coletivo paulistano Bixiga 70 continua rendendo bons frutos. Um dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015, o registro de nove faixas surge transformado nas mãos do produtor Victor Rice. Assim como fez recentemente no segundo álbum de estúdio de Matheus Brant, Assume Que Gosta (2016), Rice transportou parte das canções para o universo de emanações jamaicanas do Dub.

O resultado está em uma sequência com sete composições marcadas pelo eco, reverberações e novas texturas que distanciam o coletivo paulistano do Funk/Soul dos anos 1970 que tanto inspira a obra original. Um trabalho dominado pelo uso sutil das batidas e pequenas interferências instrumentais que vez ou outra cortam a nuvem sonora produzida por Rice.

.

Bixiga 70 – The Copan Connection: Bixiga 70 meets Victor Rice

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , ,

Não Ao Futebol Moderno: “Saia”

.

Com o lançamento de Janeiro e Cansado de Trampar, os integrantes do grupo gaúcho Não Ao Futebol Moderno conseguiram reforçar a busca por uma nova sonoridade, rompendo parcialmente com o material originalmente apresentado em Onde Anda Chico Flores? EP, de 2014. Entretanto, a caminho do primeiro álbum de inéditas, o quarteto de Porto Alegre faz da recém-lançada Saia, última canção antes da chegada do aguardado registro, uma espécie de regresso ao material apresentado há dois anos, deixando os recentes temas psicodélicos em segundo plano.

Marcada pela precisão das guitarras, a canção de apenas dois minutos parece seguir em uma sequência de vozes, batidas e sintetizadores que se amarram perfeitamente, quase matemáticos. Uma curiosa interpretação do mesmo som produzido por bandas como American Football e The Wrens no começo dos anos 2000, mas que acaba indo além, lembrando em alguns aspectos as primeiras canções de grupos como Weezer e até Yo La Tengo, no começo da década de 1990.

.

Não Ao Futebol Moderno – Saia

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , ,

Kamau: “Produto”

.

Daniel Raillow, Jota Ghetto, MestreXim, Jhow Produz e DJ Nyack, esses são alguns dos artistas escolhidos pelo rapper paulistano Kamau para colaborar na recém-lançada Produto. Parte do projeto Pulso, da Red Bull, a composição que brinca com as diferentes formas de consumo – como drogas, sexo e a própria música – mostra a afinidade do coletivo que se reveza na construção das rimas e batidas durante todo o trabalho.

Enquanto a base da música aponta diretamente para a década de 1970, efeito do sample jazzístico que se espalha delicadamente, nos versos, o coletivo acelera, cresce e encolhe, jogando com as palavras a cada nova curva da faixa. “Tenho um produto e esse produto vende bem”, inaugura a sequência de rimas que leva o ouvinte a diferentes pontos de venda. No site da Noisey, Kamau explica o processo de composição do trabalho.

.

Kamau – Produto

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , ,

Resenha: “Paraíso”, Fernando Temporão

Artista: Fernando Temporão
Gênero: Pop Rock, MPB, Indie Pop
Acesso: http://www.fernandotemporao.com.br/

Fotos: Rafael Silva

Fernando Temporão nem parece o mesmo artista que foi apresentado ao público com o álbum De dentro da gaveta da alma da gente (2013). Entre versos sóbrios, canções amargas e declarações de amor sempre delicadas, confessionais, o cantor e compositor carioca esbanja maturidade no segundo registro em carreira solo, Paraíso (2016, Independente). Um trabalho de temática acinzentada, apaixonado e ensolarado em momentos específicos, porém, íntimo de diferentes aspectos que marcam o presente cenário político/cultural brasileiro

Com Dança como faixa de abertura do disco, Temporão e o parceiro Kassin, produtor desde o álbum passado, indicam a direção assumida em cada uma das 11 faixas que recheiam o presente trabalho. São arranjos sempre precisos, marcados pelos detalhes, passagem para a interferência de convidados como o paulistano Marcelo Jeneci, influência confessa do músico carioca e responsável pela sanfona que passeia ao fundo da canção. Nos versos, fragmentos da identidade político de Temporão: “Tira a cabeça daí / Olha de frente pro perigo … Não, eu não vou saber dizer / Pra vocês não vou dizer / Sim“.

Convidado a inaugurar o disco, Jeneci é apenas um dos artistas que interferem diretamente no segundo álbum de Temporão. São nomes como Filipe Catto, responsável por parte dos versos na densa Exílios, o conterrâneo César Lacerda na trinca Sem fantasia, Afinal e Um milhão de novas palavras, além de Bruno Di Lullo (Dois), Alberto Continentino (No Ar) e Thiago Camelo (Dia de seguir, Tudo o que é tristeza). Nada que se compare ao assertivo encontro entre Temporão e a convidada Ava Rocha na composição que garante título ao disco.

Entre versos marcados pela subjetividade, Temporão e Rocha evocam o mesmo romantismo incorporado por Caetano Veloso em obras fundamentais como Qualquer Coisa (1975) e Bicho (1977). “Todo o teu território no teu rosto / Sinto o gosto, sinto amargar … Explosões sentimentais / Confissões abissais”, canta o músico carioca enquanto a guitarra passeia suavemente, pintando um delicado pano de fundo que ainda ecoa em outras composições espalhadas pela da obra.   Continue reading

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , , ,

Quarup: “Lila”

.

Depois de brincar com a música psicodélica em O Mensageiro e apresentar uma das letras mais pegajosas do ano em Quero Ir Pra a Bahia Com Você, os integrantes da Quarup estão de volta com mais uma inédita composição. Em Lila, terceiro e mais recente single do quinteto paulistano, Guta Batalha (vocais), Ione Aguiar (guitarras, violões e vocais), Beni Teixeira (teclados, piano e vocais), Marcelo Maia (baixo e vocais) e Lucas Cassoli (bateria, percussão e vocais) continuam a brincar com as referências e com o passado da música popular brasileira sem necessariamente perder a própria identidade.

Enquanto os versos em coro se projetam de forma a revelar uma delicada carta musicada – “Só Deus sabe o que eu passo / Eu amo cada passo que você ainda não deu” –, nos arranjos, o grupo se reveza, brinca com os gêneros e passeia por diferentes décadas de forma sutil, acolhedora, detalhando pianos e batidas durante toda a construção da faixa. Uma colagem de ideias vindas de diferentes períodos da nossa música, mas que em nenhum momento oculta o explícito tempero “pop”que ocupa com naturalidade toda a superfície da canção.

.

Quarup – Lila

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , ,

Jair Naves: “5/4 (Trovões Vêm Me Atingir)” [VÍDEO]

.

Descrença, solidão, medo e morte; temas corriqueiros dentro do acervo poético de Jair Naves enquanto vocalista da extinta Ludovic, porém, um catálogo de experiências cada vez menos significativas no universo autoral que define a carreira solo do cantor. Se em 2006, quando apresentou o derradeiro Idioma Morto, Naves gritava a plenos pulmões, exaltando sentimentos e toda sua raiva em relação ao mês de janeiro – “o pior dos meses” -, curioso perceber no mesmo mês, data escolhida para o lançamento do segundo disco solo do músico, Trovões a Me Atingir(2015, Independente), uma completa oposição desse resultado.

Da capa iluminada aos arranjos suavizados, dos versos marcados pela esperança ao refrão vívido da faixa-título – “meu corpo volta a ter pulsação” -, difícil ignorar a transformação que define a presente obra do paulistano. Ainda que a melancolia tome conta de boa parte do trabalho, marca explícita nos instantes finais e respiros breves do registro, seria um erro não observar o conceito “sorridente” que sustenta a atual fase de Naves. As angústias e trovões – como indicado no título da obra -, ainda atingem o compositor, por todos os lados, entretanto o nítido senso de superação parece maior, raro quando voltamos os ouvidos para o contexto macambúzio do ainda recente E Você Se Sente Numa Cela Escura… (2012). Leia o texto completo

Segunda faixa do último álbum de estúdio de Jair Naves, 5/4 (Trovões Vêm Me Atingir) foi a escolhida para se transformar no mais novo clipe do cantor. No material dirigido por Daniel Barosa e José Menezes, imagens quase estáticas e sombras tomam conta do cenário, detalhando as imagens enquadradas pelo diretor de fotografia André Dip.

.

Jair Naves – 5/4 (Trovões Vêm Me Atingir)

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , , ,

Formafluida: “Linha Reta”

.

Linha Reta (2016), esse é o nome do mais recente EP do projeto paulistano Formafluida. Comandado pelo produtor Lucas Dimitri, também responsável pelo ótimo Jungleworks, o trabalho de quatro faixas se espalha em meio a experimentos, batidas e vozes típicas dos trabalhos assinados por estrangeiros como Caribou e Bonobo. Uma coleção ilimitada de ideias e temas instrumentais anteriormente testados em outros lançamentos do artista.

Trabalho mais “pop” de Dimitri até aqui, o registro sustenta nos versos em português um evidente distanciamento em relação ao trabalho de outros produtores locais. Entretanto, está na “instrumental” Serana, terceira faixa do disco e canção anteriormente apresentada pelo produtor, o grande destaque do novo EP. Para aqueles que se interessarem pelo projeto, no soundcloud do Formafluida é possível ouvir outras canções assinadas pelo produtor.

.

Formafluida – Linha Reta

Compartilhe

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
Tagged , , , , , , ,