Tag Archives: Brasil

ruído/mm: “Cromaqui”

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Quem acompanha a paranaense ruído/mm desde o álbum/EP Série Cinza, de 2004, talvez fique espantado com a ferocidade que invade o interior de Cromaqui. Mais recente invento do coletivo de Curitiba, a efêmera criação de dois minutos talvez seja a faixa mais distinta já lançada pela banda desde a estreia definitiva com o álbum A Praia, em 2008. Urgente, suja e até mesmo “pop” em alguns instantes, a nova música resume com naturalidade o material que o grupo reserva para o próximo registros de estúdio, o esperado Rasura.

Primeira composição inédita da banda desde o álbum de 2011, Introdução à Cortina do Sotão, Cromaqui rompe com a expectativa de quem esperava por um som delicado, na linha de Índios, interpretação da banda para o clássico de 1986 da Legião Urbana. Parte de uma compilação montada pela banda Labirinto e lançada no soundcloud da Brasil Music Exchange, a recente canção é parte do disco que estreia oficialmente no dia 27 deste mês.

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ruído/mm – Cromaqui

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Alice Caymmi: “Rainha dos Raios”

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Em um ano de grandes lançamentos nacionais assumidos por vozes femininas – como Caravana Sereia Bloom de Céu e Tudo Tanto de Tulipa Ruiz -, Alice Caymmi conquistou o próprio espaço ao investir em uma obra complexa, carregada de referências autorais e pequenas adaptações. Conduzido pela voz forte da cantora, neta de Dorival Caymmi, o álbum é casa de faixas imponentes como Água Marinha e Sargaço Mar, referências distorcidas dentro do novo trabalho em estúdio da artista, Rainha dos Raios (2014).

Livre do ambiente “litorâneo” retratado no disco de estreia, Caymmi passeia agora por entre diferentes gêneros musicais e adaptações particulares de músicas assinadas por outros artistas – caso de Homem de Caetano Veloso e Como Vês do grupo Tono. São nove regravações, algumas delas já conhecidas do público da cantora, como Iansã, parceria de Alice com o músico/produtor Strausz. Com lançamento pelo selo Joia Moderna e distribuição pela Tratore, Rainha dos Raios pode ser apreciado na íntegra logo abaixo.

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Alice Caymmi – Rainha dos Raios

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Adriano Cintra: “Animal”

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Se você está em busca de respostas sobre “a vida o universo e tudo mais”, desculpe, mas talvez seja melhor passar longe do trabalho de Adriano Cintra. Todavia, se a sua vontade é a de ouvir um som divertido, carregado de versos pegajosos e arranjos fáceis, então não perca mais tempo: Animal é a música certa para você. Faixa-título do primeiro álbum solo do ex-Cansei de Ser Sexy, a composição não apenas segue a trilha da antecessora Duda, lançada há poucas semanas, como reforça o contexto acessível do novo trabalho do multi-instrumentista.

Grudenta e carregada de sintetizadores, a faixa é uma bem sucedida parceria entre Cintra e o músico paulistano Marcelo Segreto, um dos integrantes da banda Filarmônica de Pasárgada. Como um complemento para a faixa, Cintra convidou a curitibana Marina Penny (Subburbia) para produzir o lyric video da canção, resultado explícito na soma de imagens tão atuais, como carregadas de referências e efeitos visuais das décadas de 1980 e 1990.  Com lançamento pela Deck Disc, Animal (o disco) estreia em outubro. Acima, a perturbadora capa do álbum.

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Adriano Cintra – Animal

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Carne Doce: “Passivo”

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A intimidade do casal Salma Jô e Macloys Aquino sempre foi a base do Carne Doce. Basta voltar os ouvidos para as primeiras canções da dupla e todo o material lançado em Dos Namorados EP, de 2013, para perceber isso. Todavia, ao visitar o território sujo-psicodélico desbravado em Passivo, mais recente composição da coletivo goiana, toda essa intimidade inicial se exalta de forma evidente, escapando do ambiente confessional inicialmente sustentado pela dupla, para mergulhar em um plano quente, provocante e profundamente erótico.

Como a própria banda apresentou em release, a nova música serve como uma representação de toda a sexualidade exposta no trabalho das principais cantoras de Funk Carioca no Brasil. Parte da faixa também serve como uma interpretação musical do acervo visual registrado em Erotica Universalis, livro do historiador Gilles Néret que reúne imagens eróticas lançadas desde a antiguidade até a idade moderna. É este mesmo material que inspira o vídeo da provocante composição, trabalho que conta com a edição assinada por Moisés Costa.

Assim como a intensa Sertão Urbano, apresentada há poucos meses, Passivo é uma das faixas que integram o álbum de estreia do Carne Doce, registro de 10 composições e que deve aparecer até o fim de outubro.

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Carne Doce – Passivo 

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Jaloo: “Downtown”

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Três anos se passaram desde que falamos pela primeira vez sobre o trabalho de Jaloo – na seção Experimente. Se naquela época Jaime Melo parecia em busca de uma sonoridade autoral, cruzando referências tão íntimas do pop quanto do Technobrega concentrado na cena de Belém, ao se deparar com a inédita Downtown, mais novo invento do paraense, nada poderia ser mais satisfatório do que perceber que essa mesma curiosidade e busca constante do produtor ainda se faz presente, talvez até realçada.

Imensa colcha de retalhos temáticos, o novo lançamento ecoa tão próximo do trabalho apresentado em Couve EP, de 2013, como da fase “embrionária” do produtor, retratada com acerto na coletânea de remixes/versões Female & Brega, de 2012. Sobram transições honestas pela obra de Grimes – homenageada no cover de Oblivion – e toda a presente cena de artistas canadenses, além de um regresso ao ambiente pop do single Bai Bai, (hoje) um evidente aquecimento para o material lançado em Downtown.

Lançada pelo selo Braza no Bandcamp, a faixa ganha ainda mais destaque por conta das imagens de Fernando Moraes, diretor responsável pelo clipe da canção. Acima, a excelente capa do single, inspirada em Slave to the Rhythm da cantora Grace Jones.

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Jaloo – Downtown

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Disco: “Gana Pelo Bang”, Lurdez da Luz

Lurdez da Luz
Hip-Hop/Rap/Pop
http://www.lurdezdaluz.com/

Por: Cleber Facchi

Lurdez da Luz está longe de ser uma iniciante. Mesmo que o primeiro trabalho solo da rapper paulistana seja apresentado somente agora, Gana Pelo Bang (2014, YB Music), são quase duas décadas de projetos em parceria, colaborações e toda uma bagagem imensa de composições – experiência raramente igualada dentro do produção brasileira. Da parceria com Rodrigo Brandão no Mamelo Sound System, passando pela série de faixas ao lado de diferentes nomes do rap nacional – ou mesmo além dele, como Lucio Maia e Garotas Suecas -, maturidade é o que não falta para a presente “debutante”,  aspecto refletido na segurança do novo lançamento de estúdio.

Norteado pela mesma composição do EP homônimo de 2010, o trabalho de 10 faixas aos poucos se distancia da atmosfera inicial lançada por Da Luz, revelando ao público um material totalmente inédito. Mais do que um olhar atento sobre a periferia de São Paulo, Gana Pelo Bang dialoga de forma explícita com diferentes cenários, pessoas e principalmente ritmos nacionais. Uma espécie de passeio pela periferia brasileira sem necessariamente fugir do território urbano/cinza há décadas sustentado pela rapper – liricamente versátil em toda a construção do álbum.

Parte dessa carga de referências flutua com naturalidade na composição instrumental do disco. Funk carioca em Mente Aê, ritmos nordestinos no interior de Ping Pong e até passagens fragmentadas pela cultura nortista – como as variações de Technobrega na romântica Beijinho. Postura inédita para quem descobriu o trabalho da rapper no EP de 2010, grande parte dessa colagem de referências antecede a fase solo de Da Luz, esbarrando em temas e pequenas imposições musicais já alcançadas em Velha-Guarda 22 (2006), ainda com o Mamelo Sound System.

A diferença talvez esteja no ritmo (sempre) intenso dado ao disco, efeito reforçado pelo time de produtores que trabalham de forma cooperativa ao longo de toda a obra. Com Leo Justi, Nave e a dupla Stereodubs como produtores do álbum, Da Luz segue em ritmo frenético até o último instante do trabalho. Tão intenso (Fervo), quanto dançante (Poder), o disco cresce como uma colisão de temas, samples e batidas propositadamente instáveis, matéria volátil aos poucos amarrada pela rima firme e ainda melódica da rapper. Continue reading

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Disco: “Banda do Mar”, Banda do Mar

Banda do Mar
Indie/Alternative/Indie Pop
https://www.facebook.com/bandadomar

Por: Cleber Facchi

É difícil não ser convencido pelo primeiro álbum da Banda do Mar. Projeto paralelo do casal Mallu Magalhães e Marcelo Camelo, o disco lançado em parceria com o português Fred Ferreira cresce como uma tapeçaria de sons cantaroláveis, raros e capazes de cruzar o Atlântico com velocidade, invadindo a mente do ouvinte sem grandes bloqueios. Mesmo incapaz de lançar um material verdadeiramente novo – trata-se de uma adaptação do arsenal testado em Ventura (2003) do Los Hermanos, gracejos pop vindos de Pitanga (2011) com uma pitada de Surf Music -, cada curva do disco luso-brasileiro encanta pelo tratamento dos arranjos e a forma honesta dada aos versos, formato que se estende e acompanha o ouvinte até o ecoar da última faixa.

Composto e gravado em Portugal – país adotado por Camelo e Magalhães desde 2013 -, o trabalho de essência radiante não oculta a seriedade dos próprios temas, postura explícita no caráter “libertador” carimbado em cada canção. Da expressão declamada em Me Sinto Ótima – quase uma “faixa irmã” de Velha e Louca -, ao inaugurar do disco com Cidade Nova - “Eu não deixo o tempo parar” -, todas as dobras do álbum soam como uma resposta sorridente aos que não acreditavam na união do casal de músicos, no afastamento de Camelo do Los Hermanos, ou na capacidade da cantora em crescer além do Folk pueril dos primeiros anos. Nada de rancor, apenas sorrisos.

São estes mesmos sorrisos que preenchem parte da poesia da obra e ainda garantem ritmo ao trabalho. Entre declarações de amor (Mais Ninguém) e faixas de puro descompromisso (Muitos Chocolates), o debut é um disco que flui com leveza e ao mesmo tempo energia, atingindo em cheio o espectador. É possível afirmar que desde o grito final na faixa De Onde Vem A Calma que Marcelo Camelo não soava tão liberto. Mesmo Magalhães dança pelo disco entre vocalizações crescentes, postura delineada com acerto no último disco solo, de 2011, mas ainda mais fascinante no pop batucado de Mia e outras criações do álbum. Vozes sorridentes (Pode Ser), assovios (Me Sinto Ótima) e celebração (Vamo embora), como definiu o jornalista Thales de Menezes: este é o disco mais agradável do ano.

Delineado com simplicidade, o álbum carrega nas guitarras a principal ferramenta de movimento para as faixas. Da abertura, com Cidade Nova, passando por Mais Ninguém, Hey Nana e Faz Tempo, cada instante do trabalho abre espaço para o uso dos solos versáteis de Camelo – tão enérgico quanto no primeiro álbum do Los Hermanos. São rajadas eufóricas de distorção, como no eixo final de Muitos Chocolates, instantes brandos que explodem sob controle, vide Seja Como For, além de um suingue raro, posicionamento que rompe com a serenidade da fase solo do músico – principalmente em Sou (2008) – para encontrar a mesma desenvoltura do hermano Rodrigo Amarante na fase pré-Cavalo (2013). Continue reading

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Disco: “Paraíso da Miragem”, Russo Passapusso

Russo Passapusso
Brazilian/Alternative/Dub
http://www.russopassapusso.net/

Por: Cleber Facchi

Não é preciso muito esforço para perceber todas as nuances e referências que compõem o plano de Russo Passapusso em Paraíso da Miragem (2014, Independente). Uma pitada de Novos Baianos na faixa Areia, diálogos com o Rock dos anos 1970 em Remédio, tropeços pelo samba em Sangue do Brasil e Flor de Plástico, além de toda uma sobrecarga de emanações densas, quase letárgicas, típicas do Dub robótico já incorporado pelo artista baiano ao lado dos parceiros do BaianaSystem.

De forma simples, um amontoado de texturas e sons talvez previsíveis quando voltamos para faixas como Calandu e Magnata – esta última com os parceiros do Bemba Trio -, mas que encontram um formato “inusitado” em meio ao conjunto de novas imposições do cantor. Do uso de falsetes em músicas aos moldes de Flor de Plástico – estrutura já “criticada” pelo público, como apontou em entrevista -, passando pela coleção de melodias cada vez mais delicadas, a estreia solo de Passapusso é uma obra a ser observada de forma atenta, sutil, coletando cada ruído doce reinterpretada pelo artista.

Ainda que exposto dentro do mesmo contexto tecido nos projetos paralelos de Passapusso, Paraíso da Miragem é um disco que cresce a partir de em uma rápida curva de possibilidades. De forma acessível, diálogos contínuos com o pop ocupam todas as dimensões do álbum, solucionando desde vocalizações radiofônicas em Paraquedas, até os arranjos nostálgicos (no melhor estilo Tim Maia) na faixa Sapato. Uma cruzamento amplo de tendências entre passado e presente que parecem orientadas de acordo com as atuais imposições do cantor – voltado à descoberta.

Como a capa colorida bem revela, Paraíso da Miragem é um ponto de encontro não apenas para diferentes gêneros e temas musicais, mas principalmente pessoas, amigos e parceiros de longa data de Passapusso. São nomes como Marcelo Jeneci e Edgar Scandurra que preenchem tanto as lacunas vocais das músicas, como os arranjos em determinadas faixas. Interferências rápidas, como Anelis Assumpção em Sem Sol, capaz de atravessar o disco com leveza, ou mesmo outros como BNegão em Autodidata, convidado para balançar a estrutura projetada por Passapusso e preservada pelos produtores Zé Nigro, Lucas Martins e Curumin. Continue reading

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Duplodeck: “Verões”

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Quem foi surpreendido pelo trabalho da mineira Duplodeck em Brisa, faixa apresentada há poucas semanas, dificilmente vai se desmotivar com as canções lançadas em Verões (2014). Primeiro álbum de estúdio do grupo de Juíz de Fora, o registro de oito faixas é mais do que uma desconstrução do Indie-Rock-Gringo do EP de estreia, de 2011, mas a busca do coletivo em produzir uma obra essencialmente nacional, ou melhor, tropical.

Como o título do álbum resume, Verões é uma obra costurada por temas leves, descompromissados e veranis, proposta explícita logo nas inaugurais Saint-Tropez e Uns Braços. Recomendado para os amantes do Rock Alternativo – de hoje ou dos anos 1990 -, o trabalho “sujinho” pode ser baixado gratuitamente no próprio Bandcamp do grupo. Abaixo você encontra o disco – um dos melhores lançamentos nacionais do ano – para audição na íntegra.

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Duplodeck – Verões

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Disco: “Mundotigre”, M. Takara

M. Takara
Electronic/Experimental/Ambient
https://soundcloud.com/mtakara

Por: Cleber Facchi
Foto: Rodrigo A Hara

Quem já experimentou qualquer registro em estúdio – ou apresentação ao vivo – de Maurício Takara sabe da “incerteza” que ronda o trabalho do músico/produtor. Seja na extensa discografia ao lado dos parceiros da Hurtmold, ou mesmo em projetos paralelos, caso do São Paulo Underground, a pluralidade de temas, gêneros e sonoridades sempre frescas prevalece como uma dinâmica ferramenta criativa para o artista, por ora voltado à sutileza eletrônica de Mundotigre (2014, Desmonta).

Mais recente projeto solo do músico, o álbum lançado pelo selo Desmonta é uma obra que se divide com naturalidade entre a expansão e o isolamento quando comparada com outros trabalhos de Takara. Ao mesmo tempo em que abraça o som jazzístico lançado há uma década no primeiro disco solo, grande parte dos ensaios sintéticos do novo álbum revelam uma sonoridade quase oculta na obra produtor, voltado à eletrônica apenas no ambiente hermético do disco Conta, de 2007.

Observado com bastante atenção, grande parte dos conceitos lançados em Mundotigre ainda são os mesmos do trabalho apresentado há sete anos. Ruídos eletrônicos aprisionados em loops tímidos (Portão), bases minimalistas acumuladas em pequenas doses de eco (Aaawww), além do uso detalhado e naturalmente incerto das batidas (Pra tnick poder dançar), preferência que reforça a completa maturidade e desafios autorais lançados pelo próprio Takara quanto baterista.

A principal diferença em relação ao disco de 2007 está na composição essencialmente sintética escolhida para o disco. São bases, batidas e até mesmo samples que parecem “esculpidos” artificialmente pelo produtor – único responsável pelas gravações, mixagem e masterização do álbum. Não por acaso o disco projeta com naturalidade a imagem de um artista isolado, sentado em frente a um MacBook pincelado virtualmente suas criações. Basta se concentrar na serena Te Chamando ou no encaixe tímidos das batidas de Linhas para sentir isso. Continue reading

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