Por: Cleber Facchi

10 Discos Para Gostar de Krautrock

.

Resposta aos anos de declínio criativo impulsionados pelo pós-guerra, ao final dos anos 1960 uma frente de artistas davam início a um novo cenário cultural germânico. Longe de repetir as experiências musicais expostas na cena britânica e estadunidense, grupos como Can, Faust e Neu! trouxeram no experimento a chave para a renovação, definindo não apenas as bases para Krautrock, mas uma série de conceitos que seriam expandidas para além do cerco alemão.

Inicialmente observado de forma negativa pela crítica musical da época – o próprio termo Krautrock, é uma “brincadeira” com as palavras “rock” e “repolho azedo” -, o estilo em poucos tempos tomou conta do público, resultado do esforço coletivo de seus idealizadores em construir uma identidade artística, ainda que isso não fosse necessariamente uma intenção. Embora riquíssimo, seguindo as demais listas já publicadas, separamos apenas 10 discos para gostar de Krautrock, classificando em diferentes “níveis” – 1, 2 e 3 – de forma a facilitar a audição dos novos ouvintes.

Continue Reading "10 Discos Para Gostar de Krautrock"

Fuck Buttons
Experimental/Electronic/Ambient
https://www.facebook.com/pages/Fuck-Buttons/

Por: Cleber Facchi

Fuck Buttons

Uma avalanche de sons e experimentos impulsiona o trabalho de Andrew Hung e Benjamin John Power em Slow Focus (2013, ATP). Terceiro registro da dupla britânica com o Fuck Buttons, o novo álbum é ao mesmo tempo uma extensão e uma completa reformulação dos sons alcançados previamente pelos produtores. Ao passo que Street Horrrsing (2008) se posicionava como uma necessidade do duo em brincar com os ruídos em um estágio próximo da anarquia, Tarot Sport trouxe logo no ano seguinte um nítido alinhamento da métrica torta da dupla, revelando um planejamento que brincava com o Drone, a eletrônica e o pós-rock em um esforço de natureza crescente. Era apenas o princípio para as invenções agora solucionadas em totalidade.

Longe de se ater ao passado, a dupla assume com o novo disco um efeito visível de composição hermética. Enquanto os álbuns anteriores, mesmo resolvidos em uma estrutura específica, dançam pelos sons em uma carga intencional de multiplicidade, com a chegada de Slow Focus a aproximação entre os temas conduz com maior efetividade a estética da dupla. Um passo firme em relação ao composto melhor entendido de 2009 e um aproveitamento naturalmente adulto dos sons – principalmente na forma como os instrumentos surgem pelo novo disco. O experimento é constante e expressivo, porém, delimitado.

Com as canções apresentadas em um estágio pleno de relação musical, surge ao longo do disco um esforço de entender cada faixa como um ato isolado a ser alinhado. A julgar pela maneira como os sons crescem em um teor épico até a chegada da música de encerramento, Hidden XS, o disco incorpora de forma decidida a manipulação de um efeito temático, como se a dupla buscasse “contar uma história” até o fecho do disco. Isso fica evidente na maneira como cada música parece colada na canção seguinte, evitando respiros e resumindo o disco em uma faixa única, imensa. Slow Focus não é apenas um maior entendimento sob o trabalho do Fuck Buttons, mas sobre a própria obra em si.

Tratados em um estágio claro de limpidez, os sintetizadores deixam de guiar a estrutura musical do disco para se entregar ao percurso estipulado em totalidade pelas batidas. A escolha possibilita ao duo uma maior oxigenação dos sons, que arrastam a composição final do disco para um meio termo entre o Krautrock alavancado na década de 1970 (principalmente no trabalho de Can e Neu), e a eletrônica tribal que ocupou parte expressiva da década de 1990. Logo de cara, Brainfreeze indica quais são as novas escolhas da dupla britânica. Grandiosa, a composição orquestra nas batidas um princípio para o que é resolvido em maior acerto com Sentients e The Red Wing, esta última, música capaz de revelar o lado mais “pop” do projeto.

Continue Reading "Disco: “Slow Focus”, Fuck Buttons"

Por: Cleber Facchi e Fernanda Blammer

Já passamos por 1967, 1979 e até pelo ano de 1993, entretanto, nenhuma especial da seção 10 Discos foi tão difícil de ser construído quanto eleger uma seleção de obras que marcaram 1972. Ano riquíssimo para a produção nacional – marcada pelo rock e a psicodelia – ou mesmo para a cena estrangeira – inclinada ao experimento e novas aproximações com a música pop -, expandimos nosso especial para eleger não apenas uma dezena de obras, mas 20 Discos de 1972. São trabalhos que mantém a influência constante, passeando pelo R&B, Krautrock, Rock Progressivo, Folk e Samba. Ainda assim alguns trabalhos que gostamos muito acabaram de fora da seleção final, entre eles Araçá Azul de Caetano Veloso e Let’s Stay Together de Al Green – optamos por manter apenas um disco de cada artista -, as trilhas sonoras de Superfly (Curtis Meyfield) e The Harder They Come, além de Obscured By Clouds do Pink Floyd. Aproveite para indicar nos comentários do post qual o próximo ano a ser analisado pelo Miojo Indie.

Continue Reading "20 Discos de 1972"

D MinGus
Experimental/Alternative/Psychedelic

Por: Cleber Facchi

D MinGus

Domingos Sávio é uma espécie de mago ou criatura fantástica que parece ter atravessado o tempo. Mantendo base na sonoridade firmada nos anos 1970, o cantor e compositor pernambucano traz no resgates específicos do que foi conquistado há três ou mais décadas o componente básico para abastecer as excentricidades sonoras e poéticas de Fricção (2013, Independente), terceiro e mais novo registro da carreira à frente do D MinGus. Filho pródigo do Krautrock e bastardo da psicodelia tropical que tomou conta da música brasileira no passado, o músico usa de cada uma das estranhas faixas que se espalham pelo disco como um exercício claro de experimentação.

Interessado na mesma essência nostálgica que acompanha o propósito da bandas como Cidadão Instigado e Mopho, Sávio atravessa o novo disco em um esforço constante de nítida descoberta. Completamente oposto das afinações com o Folk e o bucolismo acústico que decidiram os rumos dos trabalhos anteriores – principalmente o caseiro Canções do Quarto de Trás (2012) -, o músico e os parceiros de grupo trazem na convergência de elementos sintéticos um princípio para uma obra que vai muito além de qualquer limite prévio. Ora lisérgico, ora onírico, o álbum incorpora em cada escolha uma mutação sonora crescente, exercício que intencionalmente parece montado para confundir o ouvinte.

Não se deixe enganar, ainda que o Dream Pop essencialmente ambiental de Frágil penugem nos ares gelados, faixa de abertura do disco dê a entender que temos em mãos um trabalho de certezas, música após música o oposto dessa percepção é o que sustenta a recente obra de D MinGus. Apresentada logo em sequência, De corpo presente é um misto de Os Mutantes da fase progressiva com o romantismo brega de Odair José, um encontro que parece temperado pelas experiências tortas do Kraftwerk (ou seria Can?). Sobram ainda heranças volumosas de bandas como Neu! (Buraco no tempo-espaço) e até arranjos que esbarram em Secos e Molhados (Naturalmente punks), uma visita ao passado, sem desgrudar do presente.

Assim como a capa que acompanha o disco, Fricção é a abertura para um universo próprio. São formas instrumentais flutuantes, vozes que brincam entre o acessível e o esquizofrênico, além de uma variedade de sons que se alteram do princípio ao fim de cada nova música. Sem o compromisso em assumir qualquer esforço de linearidade, o disco faz de uma colagem imensa de ritmos e referências o princípio para abastecer a obra. Fino exemplo dessa transformação se encontra em músicas como Devoniano e Quatro ventos, afinal, enquanto a primeira brinca com a temática sintética do 8-Bit para depois se perder em um mar de arranjos voltados ao pós-rock, a segunda se permite flutuar em um misto de psicodelia e ambient music. Aproximações de natureza oposta, mas capazes de se encaixar no princípio ilógico do álbum.

Continue Reading "Disco: “Fricção”, D MinGus"

K-X-P
Krautrock/Electronic/Experimental
https://www.facebook.com/kxp.official

Por: Fernanda Blammer

K-X-P

A repetição marcada das formas instrumentais, acordes, vozes e todo o aparato de elementos sonoros se revela de maneira necessária para aqueles que passeiam pelos ciclos marcados do Krautrock. Redundância instrumental à favor de um resultado que invariavelmente tende ao experimento. Dos veteranos do Can, Neu! e Faust à artistas recentes como Fujiya & Miyagi, Ultraísta e, talvez o melhor deles, Here We Go Magic, a repetição constante dos derivados musicais é o que garante continuidade ao gênero. Entretanto, é necessário perceber que o mesmo elemento capaz de garantir forças ao gênero, é o mesmo que o aprisiona em uma atmosfera de pouca inventividade, álbuns que olham para o passado de maneira coerente, mas se esquecem do presente.

Talvez a resposta para esse questionamento esteja nas mãos do trio de Helsinki, Finlândia K-X-P. Depois de um bem sucedido álbum lançado em 2010, o uso apurado de sintetizadores, encaixes conceituais que tendem ao sombrio e composições recheadas por melodias acessíveis estimulam o grupo a continuar com o trabalho de forma ainda mais inventiva e estranhamente acessível aos ouvintes não iniciados. Não por acaso a primeira faixa de II (2013, Minimal/Melodic) atende pelo nome de Melody, canção que perverte as redundâncias naturais do estilo em que está inserida, de forma a se transformar em um composto dançante, rápido e que cresce em uma mistura que percorre a eletrônica, o pós-punk e a música dance de forma vasta.

Contrariando a proposta que marca toda a extensão do primeiro disco, faixa após faixa a banda converte a atmosfera de estúdio para um ambiente instrumental voltado para o ao vivo. Dentro dessa proposta, não é estranho compreender o registro como uma imensa Jam Session soturna e consequentemente imprevisível, marca que a banda alimenta na transformação constante das faixas, incertas e capazes de romper com qualquer relação provavelmente alicerçada no trabalho anterior. Ora mergulhando em túneis de ruídos, ora possibilitando o surgimento de uma verdadeira massa de sintetizadores intransponíveis, o uso assertivo das reformulações musicais é o que alimenta a atual fase da banda.


Em alguma medida, as sequências bem amarradas de guitarras dançantes, vozes complementares e batidas eletrônicas aproximam a banda da mesma proposta que caracteriza boa parte da formação do primeiro álbum da alemã Neu!. Lançado em 1972 e um dos maiores marcos do Krautrock, o disco é absorvido de forma cinzenta pelos finlandeses, transformando faixas como Magnetic North e Flags & Crosses em composições capazes de olhar para o passado, ao mesmo tempo em que mantém firme uma relação com o presente. É quase uma quebra do que naturalmente direciona outros trabalhos do gênero, com a tríade se mostrando capaz de manipular toda e qualquer referência de forma a produzir algo novo.

Continue Reading "Disco: “II”, K-X-P"