Pop, colorido e pegajoso. Basta uma rápida audição para que o som produzido por Malli grude sem dificuldades na cabeça do ouvinte. Parte do primeiro álbum de estúdio da artista, previsto para estrear nos próximos meses, La Nave Va é um indie-axé-eletrônico que revela todas as nuances – sonoras e vocais – da jovem cantora. Um misto de Os Paralamas do Sucesso com Tulipa Ruiz, conceito temperado pelas guitarras e produção do músico Rafael Castro.

Enquanto os versos jogam com a temática do desapego, se livrando de um antigo (des)amor, musicalmente Malli e os parceiros de estúdio brincam com as possibilidades, detalhando batidas eletrônicas e arranjos levemente dançantes. No vídeo dirigido por Itaoâ Lara, uma mistura de cores, tendências e retalhos visuais. Sobram ainda pequenas coreografias, diferentes peças de roupas e um fino toque de bom humor que há tempos não se via no pop nacional.

 

MALLI – La Nave Va

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Artista: Luísa Maita
Gênero: Eletrônica, Samba, Alternativa
Acesse: http://www.luisamaita.com.br/

 

A imprevisibilidade talvez seja o principal traço do trabalho de Luísa Maita em Fio da Memória (2016, Cumbancha). Produzido em parceria com o músico Zé Nigro, o sucessor do elogiado Lero-Lero (2010), obra que apresentou a cantora e compositora paulistana ao grande público, reforça a essência experimental e naturalmente inventiva da artista. Uma quebra brusca em relação ao samba melódico e a voz limpa que orienta as canções do trabalho entregue há seis anos.

Com uma “gestação prolongada”, como resume o texto de apresentação do disco, o novo álbum precisou de quase meia década até ser finalizado. Em produção desde 2012, Fio da Memória nasce como uma extensão torta do material entregue por Maita no primeiro álbum de inéditas. Entre ruídos e bases eletrônicas, crônicas musicadas que dialogam com o samba, incorporam elementos tribais e diferentes gêneros musicais, como o jazz e o rock.

A julgar pelo preciosismo que orienta Ela, sétima canção do disco, é fácil perceber porquê o novo álbum de Maita levou tanto tempo até ser finalizado. Perceba como sintetizadores se espalham sem pressa ao fundo da canção, hipnóticos. Um jogo de batidas e vozes que se completam lentamente, resultando em uma canção que sussurra detalhes na cabeça do ouvinte. O mesmo cuidado acaba se refletindo em outros instantes do disco, seja na euforia de Porão ou no sopro tímido da derradeira Jump.

Composição escolhida para inaugurar o disco, a eletrônica Na Asa é apenas a ponta do imenso iceberg criativo que caracteriza o trabalho. A voz chiada, batidas cíclicas, entalhes econômicos. Longe da exposição imediata dos elementos, Maita e o parceiro de produção, Tejo Damasceno, uma das metades do Instituto, parecem jogar com o minimalismo dos arranjos. Minúcias, segredos e pequenas sobreposições que se espalham de forma a completar a voz firme da cantora.

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De fora mística, a essência de Rita Oliva se espalha sem pressa entre as canções do primeiro registro sob o título de Papisa. Autointitulado, o registro de apenas três músicas segue exatamente de onde a musicista parou há poucos dias, durante o lançamento do single/clipe Instinto. São versos intimistas, maquiados por nuances subjetivas e efeitos enevoados de guitarras e sintetizadores. Uma parcial fuga de tudo aquilo que a artista vem desenvolvendo como integrante dos projetos P A R A T I e Cabana Café.

Além da já conhecida Intinto, música que chega acompanhada do precioso clipe de Aline Belfort, Oliva reserva ao público outras duas composições inéditas. De um lado, os versos em inglês e a atmosfera “caseira” de Delusional. No outro, a psicodelia melancólica e guitarras crescentes de Intuição, música que flerta com o rock produzido na década de 1970 de forma autoral e renovada. Um estímulo para o primeiro álbum de inédita da Papisa, previsto para estrear no próximo ano.



Papisa – Papisa EP

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Reflexão, serenidade, mistério e feminilidade. Esses são alguns dos elementos que caracterizam a carta do Arcano II no Tarô, a Papisa. O mesmo símbolo escolhido pela cantora e compositora Rita Oliva para batizar o novo projeto em carreira solo. Mais conhecida pela atuação em projetos como Cabana Café e P A R A T I, a musicista paulistana reserva para o ano de 2017 a chegada do primeiro álbum dentro dessa nova fase. Um registro dominado em essência pela artista, dona da recém-lançada Instinto.

Nada nessa vida é muito real / Então eu posso ser natural e escutar o meu desejo / Dizer: eu amo você“, canta enquanto melodias inebriantes dançam na cabeça do ouvinte. Uma coleção de guitarras que sopram psicodelia, distorções serenos e versos ocultos por um véu de temas intimistas, essencialmente subjetivos. Sem pressa, uma caminho que circunda os dois principais projetos da cantora de forma particular, revelando ao público uma canção marcada pela sensibilidade.

 

Papisa – Instinto

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Artista: Tássia Reis
Gênero: Hip-Hop, Soul, R&B
Acesse: https://soundcloud.com/t-ssia-reis

 

Confundindo Sábios (2013) de Rashid ou Autorretrato de Nego E (2014), Quixote (2015) de Fino du Rap ou mesmo o recente Remonta (2016) do coletivo Liniker e os Caramelows. Se existe algum grande álbum brasileiro de Hip-Hop/Soul lançado nos últimos anos, basta um ouvido atento para perceber a delicada voz de Tássia Reis entre as composições. Um canto essencialmente doce, mas que se transforma em poesia política e versos marcados pelo empoderamento feminino dentro do novo registro de inéditas da cantora: Outra Esfera (2016, Independente).

A revolução será crespa / E não na TV / A revolução será crespa / Doa a quem doer”, rima em Ouça-Me, música que nasce como uma espécie de síntese do material produzido pela artista durante toda a obra. Versos que escapam do universo intimista de Reis (“Eu tentei falar baixinho, mas ninguém me ouviu”), dialogam com a questão racial (“Meu rap é crespo! Melanina nesse rolê”) e ainda reforçam o peso da cantora como um dos principais nomes da nossa música (“Se não me dão valor, cês vão pagar muito caro pra ver”).

Em Da Lama/Afrontamento, quinta faixa do disco, o peso político e social das rimas. “É revoltante e alarmante / Como eu me sinto impotente / E ainda me acho importante / Eu só quero ser decente, ser relevante”, explode Reis, abrindo espaço para a precisa interferência da convidada Stefanie MC – “Vejo pedras preciosas no meio do lamaçal / Muita gente conformada com o serviço braçal / Só conseguem se enxergar na posição de serviçal / Sendo pau mandado de um ser humano boçal”. Um jogo de rimas que atravessam diferentes aspectos, histórias e personagens da periferia.

Pontuado por pequenos respiros, o álbum ainda cria espaço para expressão do lado mais sonhador de Reis. “Tão solta quanto o vento indica / Voando por onde se quer e vai querer / Ninguém manda na tua vida / Ela criou um jeito novo de viver”, canta em Desapegada, música que discute sentimentos, empoderamento e a libertação da mulher de forma sutil, por vezes metafórica. Um estímulo para a ambientação pop de Semana Vem, faixa embalada pelo reggae e uma curiosa interpretação da artista sobre a temática dos relacionamentos abusivos.

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Artista: Carne Doce
Gênero: Indie, Rock Alternativo, Rock Psicodélico
Acesse: http://carnedoce.com/

Foto: Rodrigo Gianesirp_tumblr_ob0p40Glvl1r9ykrko1_1280.png

O caminho percorrido pelo Carne Doce em Princesa (2016, Independente) está longe de parecer o mesmo do trabalho que apresentou a banda em 2014. Ainda que a essência psicodélica do quinteto de Goiânia seja preservada em cada uma das canções do novo álbum, sobrevive na poesia feminista de Salma Jô, sussurros intimistas e instantes de puro experimento a base do presente trabalho. Uma colisão de fórmulas, ruídos e temas propositadamente instáveis, como se para além de um possível amadurecimento e da famigerada “prova do segundo disco”, o grupo continuasse a se reinventar.

Sem pressa, o novo álbum se espalha preguiçoso, detalhando cada fragmento de voz, batida ou acorde que escapa das guitarras de Macloys Aquino e João Victor Santana. Das 11 composições que preenchem o registro, quatro ultrapassam os seis minutos de duração, como se parte das ambientações testadas pela banda nas apresentações ao vivo fossem incorporadas em estúdio. Da abertura do disco, em Cetapensâno, passando por músicas como Carne Lab e Açaí, o grupo – completo com os músicos Ricardo Machado e Aderson Maia –, parece seguir em uma medida própria de tempo.

Esqueça o ritmo crescente de Serão Urbano e toda a aceleração que movimenta faixas como Passivo e a colorida Fruta Elétrica. Em Princesa, mesmo as canções mais “urgentes” do trabalho se perdem em meio a distorções, vozes maquiadas pelo forte uso de efeitos e instantes de completa incerteza. Uma clara mudança de direção que perturba pelo uso de músicas exageradamente extensas – vide Carne Lab, um imenso bloco com 10 minutos de duração bem no centro do álbum –, mas que acaba convencendo pela capacidade do grupo em não se repetir.

Ponto central do disco, a poesia de Salma Jô se transforma e cresce durante toda a construção da obra. Bom exemplo disso está nos versos de Artemísia, música que discute de forma provocativa a temática do aborto, interpretando de maneira divina a responsabilidade assumida pelas mulheres. “Artemísia é a ideia de ‘meu corpo minhas regras’ levada ao máximo, ao ponto de ser assumidamente fantasioso, como se a dona do corpo fosse Deus. Quando nesta situação de decidir por um aborto, mesmo mulheres de muita fé escolhem romper com Deus por um momento, escolhem ser elas as maiores autoridades sobre as próprias vidas”, explicou em entrevista.

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Artista: Sammliz
Gênero: Rock, Rock Alternativo, Stoner Rock
Acesse: https://www.facebook.com/SammSammliz/

 

Fotos: Julia Rodrigues

Como vocalista do Madame Saatan, Sammliz e os parceiros de banda passaram grande parte da última década brincando com as possibilidades. Versos cantados em português, diálogos com a música regional produzida no Norte do país, e todo um conjunto de experimentos que bagunçaram o ambiente restritivo e, muitas vezes preconceituoso, do metal brasileiro. Um verdadeiro ensaio para o som que cresce livre no interior de Mamba (2016, Natura Musical), primeiro registro da cantora em carreira solo.

Denso do primeiro ao último acorde, o álbum de 10 faixas — primeiro registro da artista desde Peixe Homem (2011), ainda como integrante da Madame Saatan —, mostra Sammliz em um ambiente dominado pelas guitarras e versos obscuros. Personagem central da própria obra, a cantora sussurra, grita, encolhe e cresce a todo instante, mergulhando em uma série de ambientações que atravessam o rock da década de 1970 e rivalizam com o som de bandas como Queens of The Stone Age.

De fato, a relação com o material produzido por Josh Homme ecoa em diversos momentos da obra. Um bom exemplo disso está na segunda faixa do disco, Oya. Enquanto a letra da canção mergulha uma letra marcada pela subjetividade — “Sem trovões iguais em mim / Enquanto eu estou aqui / Sem trovões iguais em mim / Enquanto eu” —, guitarras robóticas, batidas e ruídos eletrônicos indicam a construção de um som urgente, íntimo de obras como Songs for the Deaf (2002) e …Like Clockwork (2013).

Ainda assim, está na música produzida há mais de quatro décadas a base para grande parte do trabalho apresentado pela cantora. Logo na homônima faixa de abertura, Sammliz mergulha em um oceano de temas psicodélicos, empoeirados e nostálgicos, detalhando de forma metafórica a transformação do próprio corpo em diferentes elementos da natureza e formas animalescas. Um verdadeiro delírio poético, estímulo para todo o catálogo de composições que surgem logo em sequência.

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Artista: Aíla
Gênero: Rock, Alternativa, MPB
Acesse: http://www.ailamusic.com/

Foto: Julia Rodrigues

Rápido / Tá tudo rápido / Acelerado / Demasiado / O tempo, o vento, o oi, o tchau / Tchau”. A aceleração que marca os versos de Rápido, canção escolhida para apresentar o inédito Em cada verso um contra-ataque (2016, Independente), segundo registro em estúdio de Aíla, diz muito sobre o som explorado pela artista. Quatro anos após o colorido Trelelê (2012), obra que apresentou o trabalho da paraense, sobrevive na poesia política e progressista das canções a base do novo álbum.

Urgente e enxuto — são apenas nove faixas dissolvidas em pouco mais de 30 minutos de duração —, o trabalho que conta com produção assinada por Lucas Santtana apresenta ao público uma cantora parcialmente transformada, intensa. Logo na abertura do disco, a “punk” Clã da Pá Virada, música que dialoga com a essência raivosa de veteranos como As Mercenárias e acaba apontando a direção seguida pela artista durante parte expressiva da obra.

Em Lesbigay, segunda faixa do disco e músico composta em parceria com Dona Onete, um respiro leve. Entre ruídos eletrônicos e batidas capazes de arrastar o ouvinte para as pistas, Aíla explora a temática da libertação sexual, estreitando (musicalmente) a relação com o trabalho apresentado há quatro anos. Logo em seguida, passada a aceleração de Rápido, Será, quarta faixa do disco, traz de volta o trabalho para o conceito político/social alavancado pela cantora.

A mesma proposta acaba servindo de base para a amarga Tijolo, música que discute a corrupção dos próprios indivíduos, mergulha no cenário político do Brasil e sintetiza parte da angústia presente no álbum. Não por acaso a leve Melanina, faixa composta pelo paraibano Chico César, chega logo em sequência. Um descomplicado jogo de vozes, guitarras e batidas quentes que trata da temática racial de forma acessível, bem-humorada – “Você precisa urgentemente amor / De um amiguinho de cor”.

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Foto: Julia Rodrigues

Depois de mais de uma década como vocalista de uma das principais bandas de matal brasileiras, o Madame Saatan, Sammliz apresenta ao público o primeiro álbum de estúdio: Mamba (2016). Com lançamento pelo projeto Natura Musical, o registro de dez faixas mostra a busca da cantora paraense em busca de novas sonoridades, estreitando a natural relação com o stoner rock, elementos típicos da música eletrônica e gêneros que distanciam a artista de uma possível zona de conforto.

Com produção artística de Carlos Eduardo Miranda, músico que trabalho com nomes como Mahmundi e Boogarins nos últimos meses, o trabalho ainda conta com a produção de Leo Chermont e João Lemos, além, claro, da própria cantora. São dez composições inéditas, caso de Oya, um rock eletrônico típico do começo dos anos 2000, e a densa faixa-título, composição que mostra como seria o Queens Of The Stone Age com uma mulher nos vocais. Ouça o disco na íntegra aqui.

Sammliz – Mamba

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Há poucos dias, Aíla presenteou o público com o curioso clipe da inédita Rápido, primeiro single do sucessor de Trelelê (2012), álbum de estreia da cantora e um dos grandes exemplares da música paraense naquele ano. Dirigido por Roberta Carvalho, o vídeo é apenas um fragmento do material que já pode ser apreciado na íntegra – e baixado gratuitamente – dentro do novo álbum da artista: Em Cada Verso Um Contra-Ataque (2016).

Com distribuição pelo projeto Natura Musical, o trabalho conta com produção assinada pelo músico Lucas Santtana e mostra a busca da cantora por uma nova sonoridade, por vezes íntima do rock. Entre os colaboradores que surgem ao longo do disco, nomes como Dona Onete, Chico César, César Lacerda, Siba, Paulo Monarco, Posada e Manoel Cordeiro.

Aíla – Em Cada Verso Um Contra-Ataque

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