Artista: Laura Marling
Gênero: Folk, Indie, Alternativa
Acesse: https://www.lauramarling.com/

 

Retirado de um trecho do poema Eneida, obra do poeta romano Virgílio, varium et mutabile semper femina – em português, “a mulher é sempre uma coisa inconstante e mutável” –, o título do novo álbum de Laura Marling, mais do que uma tatuagem da própria artista, indica a força das composições e parte do conceito explorado pela cantora e compositora britânica. Um trabalho marcado pelas emoções, sexualidade, conquistas e medos compartilhados por diferentes mulheres.

Comecei a escrever Sempre Femina como se um homem estivesse escrevendo sobre uma mulher. Então pensei: ‘Não é um homem, sou eu’. Não preciso fingir que sou um homem para justificar a intimidade, a maneira como observo e o que sinto sobre as mulheres”, respondeu em entrevista à Clash. O resultado dessa decisão está na montagem de uma obra “empática”, como sintetiza Marling. Versos que ultrapassam a poesia intimista da cantora para dialogar com o próprio público.

Eu bani você com amor / Você não pode entrar / Você não mora mais aqui”, canta em Soothing, música que reflete sobre a libertação do eu lírico depois do longo período em um relacionamento abusivo. O mesmo conceito se repete na descritiva Wild Fire, o distanciamento de um casal por conta do uso abusivo de drogas. “Há algo em sua mente? Você chora às vezes?”, questiona Marling enquanto guitarras e batidas fortes se espalham ao fundo da canção, reforçando aspecto dramático da obra.

Longe de parecer um registro amargo, produto da mesma angústia retratada em obras como A Creature I Don’t Know (2011) e Once I Was an Eagle (2013), Marling passeia pelo disco detalhando a composição de versos sensíveis e canções marcadas pela leveza dos temas. Um lirismo precioso, por vezes aconchegante, base para a formação de músicas como The Valley (“Talvez ela tenha tido muito amor … É por isso que ela chora o orvalho da manhã”) e Always This Way (“Deve todo coração quebrar / Como uma onda na baía?”).

Continue Reading "Resenha: “Semper Femina”, Laura Marling"

Artista: Jay Som
Gênero: Indie, Alternativa, Dream Pop
Acesse: https://jaysom.bandcamp.com/

 

Se você observar a ficha técnica ou encarte de qualquer trabalho recente produzido por Melina Duterte vai encontrar uma assinatura padrão: “Gravado, mixado e masterizado no quarto de Melina”. Inspirada pelo trabalho de veteranos da cena independente dos Estados Unidos, como Yo La Tengo e Pixies, a cantora e compositora original de Oakland, Califórnia, decidiu não perder tempo, assumindo ela mesma o total controle e produção de cada trabalho lançado sob o título de Jay Som nos últimos anos.

Em Everybody Works (2017, Polyvinil / Doble Denim), segundo trabalho de Duterte com distribuição em um selo de médio porte, a mesma atmosfera “caseira” na composição dos arranjos e vozes. Um som deliciosamente artesanal, particular, porém, polido pela forma como a cantora e produtora detalha cada elemento no interior do disco. Guitarras, sintetizadores, batidas e vozes que escapam do som Lo-Fi de clássicos recentes do bedroom-pop para um terreno marcado pela limpidez e refinamento.

Uma explosão das guitarras e vozes em 1 Billion Dogs, música que lembra o Dinosaur Jr. no final dos anos 1980. A melancolia doce em The Bus Song, um passeio breve pelo rock psicodélico. O som melódico, quase pop, de Baybee, possivelmente a canção mais acessível de todo o trabalho. Ruídos de um celular e pequenas interferências em Take It. Batidas tropicais em One More Time, Please. De forma curiosa, sempre atenta, Duterte faz de cada composição um objeto precioso, grudento, como uma típica canção radiofônica.

Parte desse cuidado na formação de Everybody Works vem do confesso interesse da musicista pelo último trabalho da cantora canadense Carly Rae Jepsen. “Eu estava ouvindo muito Carly Rae Jepsen para ser honesta. E • MO • TION (2015) realmente inspirou muitas composições em Everybody Works”, respondeu no texto de lançamento do trabalho. Da abertura ao fechamento do disco, a busca declarada por um som cada vez mais acessível, conceito anteriormente explorado pela artista durante o lançamento do antecessor Turn Into (2016).

Continue Reading "Resenha: “Everybody Works”, Jay Som"

 

Mesmo com poucos dias para o lançamento oficial do aguardado Semper Femina (2017), Laura Marling continua presenteando o próprio público com uma sequência de faixas inéditas. Depois de passear por diferentes universos e sonoridades em músicas como como Soothing, Wild Fire e Next Time, a cantora e compositora de origem britânica decidiu reforçar o peso das guitarras dentro do trabalho, principal componente da recém-lançada Nothing, Not Nearly.

Com uma cara de rock triste da década de 1990 ou música esquecida do Wilco, a canção de quase cinco minutos parece quebrada em pequenos atos, tendo no ruído das guitarras uma espécie de divisão entre os pequenos blocos instrumentais. Nos versos, a mesma melancolia retratada em grande parte da discografia de Marling, ainda próxima de obras como Once I Was an Eagle (2013) e Short Movie (2015), dois últimos trabalhos de estúdio da cantora.

Semper Femina (2017) será lançado no dia 10/03 via More Alarming Records.

 

Laura Marling – Nothing, Not Nearly

Continue Reading "Laura Marling: “Nothing, Not Nearly”"

Artista: Angel Olsen
Gênero: Indie, Folk, Alternativo
Acesse: http://angelolsen.com/

 

Versos sufocados de forma explícita pelos sentimentos – “Eu vou me apaixonar por você um dia desses / Eu vou me apaixonar e fugir”; sintetizadores e ambientações eletrônicas, sempre contidas, como um reforço para a delicada construção dos vocais. Com o lançamento de Intern, em junho deste ano, Angel Olsen não apenas conseguiu se distanciar das canções produzidas para o elogiado Burn Your Fire for No Witness, de 2014, como parecia indicar a busca por um novo catálogo de sonoridades, conceitos e temas confessionais.

Em My Woman (2016, Jagjaguwar), terceiro registro em estúdio da cantora, pela primeira vez desde o inaugural Half Way Home, de 2012, Olsen deixa de se apresentar ao público como a figura central do trabalho, interpretando diferentes personagens e histórias entristecidas ao longo da obra. Uma mudança que se faz evidente tanto na sonoridade que rege o disco, costurada por temas eletrônicos e guitarras firmes, como na imagem adotada pela artista para os vídeos de Intern e Shut Up an Kiss Me.

Por falar em Shut Up Kiss Me, nítida é a busca da cantora por um som comercialmente acessível, pop. Entre versos que descrevem o desejo ardente do eu lírico – “Cale a boca, me beije e me amarre com força” –, Olsen detalha uma seleção de guitarras encorpadas por melodias sujas, por vezes íntimas do mesmo som produzido por Liz Phair e PJ Harvey no começo dos anos 1990. Um claro amadurecimento do material apresentado em faixas como Unfucktheworld e Forgiven/Forgotten, do disco anterior.

A mesma estrutura acessível acaba se repetindo em diversos momentos ao longo da obra. Em Never Be Mine, segunda canção do disco, o folk nostálgico de Burn Your Fire for No Witness pouco a pouco converte em uma canção pegajosa, movida pelo uso de versos entristecidos – “Você nunca será meu”. Um completo oposto da temática que chega logo em sequência com a raivosa Give It Up – “Eu desisti de tudo por você” – e Not Gonna Kill You – “Você não vai quebrar / ele só vai mexer com você”.

Continue Reading "Resenha: “My Woman”, Angel Olsen"