Arranjos acústicos de um violoncelo se espalham lentamente, sempre minimalistas. Pinceladas de um órgão minucioso, correm ao fundo. Versos límpidos crescem sem pressa, detalhando sentimentos e melancolias de um mesmo personagem. Basta uma rápida audição para que o trabalho produzido pelo músico Justin Carter se revele por inteiro. Um chamber pop hipnótico, naturalmente inimista, estímulo para a construção do single Know It All.

Composição escolhida para apresentar o primeiro álbum de inéditas do músico, The Leaves Fall (2017), Know It All sintetiza parte das influências e conceitos que alimentam o trabalho do jovem artista. Um curioso encontro entre as melodias e vozes testadas pelo Fleet Foxes com a mesma atmosfera minimalista que se espalha entre as canções do último registro de estúdio da cantora Fiona Apple, o elogiado The Idler Wheel… (2012).

The Leaves Fall (2017) será lançado no dia 24/02 via Mister Saturday Night.

 

Justin Carter – Know It All

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Artista: Weyes Blood
Gênero: Chamber Pop, Indie, Folk
Acesse: https://weyesblood.bandcamp.com/

 

Natalie Mering passou por um lento processo de amadurecimento nos últimos cinco anos. Do lançamento do primeiro disco como Weyes Blood, o obscuro The Outside Room (2011), passando pela produção de obras como The Innocents (2014) e até o EP Cardamom Times (2015), cada trabalho apresentado pela cantora e compositora nova-iorquina parece aproximar o público de um novo universo de possibilidades e temas instrumentais, proposta que se reforça com a chegada do doloroso Front Row Seat to Earth (2016, Mexican Summer).

Movida pela solidão, medos e saudade, Mering faz de cada composição ao longo do registro um claro exercício de exposição do próprio sofrimento. “Você precisa de mim do jeito que eu preciso de você? / Vamos ser sinceros para uma mudança / Você precisa de alguém? / Você precisa do meu amor?”, questiona em Do You Need My Love, um atormentado delírio confessional que resume com naturalidade a dor que abastece grande parte das canções do trabalho.

Em Seven Words, sétima faixa do disco, confissões românticas e versos marcados pelo sofrimento do eu lírico dançam sem pressa no interior da canção. “Com o tempo, ambos estaremos livres dessa bola com correntes … Quando a poeira baixar / E você esquecer que eu estava aqui / Esperando / Pendurada”, canta enquanto uma delicada cortina instrumental desce e cobre toda a base da canção, reforçando a temática dolorosa que Mering usa para dialogar com o ouvinte.

Nos poucos instantes em que a poesia romântica do trabalho deixa de ser um objeto de destaque, a cantora se concentra na produção de faixas que dialogam com o presente. É o caso de Generation Why, música que a artista discute a artificialidade da vida digital e os excessos da geração Y – os Millennials. “Leve-me através das ondas de mudança / Eu sei o meu lugar / É uma coisa bonita / Y-O-L-O, por quê? / Y-O-L-O, por quê? / Y-O-L-O, por quê?”, entrega a letra da canção.

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. Anunciado em fevereiro deste ano, porém, com lançamento previsto apenas para o outono de 2016, HOPELESSNESS primeiro album da cantora Antony Hegarty dentro do projeto ANOHNI, mostra a relação da veterana do Baroque Pop com a música eletrônica. Mais conhecida pelo projeto Antony and the Johnsons, Hegarty decidiu se juntar aos produtores Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) e Hudson Mohawke para explorar um novo universo de possibilidades e temas eletrônicos, transformação que se reflete na recém-lançada 4 Degress. Perto e ao mesmo tempo distante do som incorporado em clássicos como I…Continue Reading “ANOHNI: “4 Degrees””

Joanna Newsom
Folk/Chamber Pop/Singer-Songwriter
http://www.joanna-newsom.com/

 

Se você procurar por Joanna Newsom no Google, dificilmente encontrará um site oficial atualizado ou mesmo contas em diferentes redes sociais. Músicas no Spotify? Somente raras parcerias assinadas ao lado de outros artistas – caso de Right On, do coletivo The Roots. Em entrevistas recentes, a cantora reforçou o completo desprezo pela plataforma e outros serviços de streaming. Salve a seção no site do selo Drag Music, também responsável pela publicação dos vídeos da artista no Youtube, Newsom parece viver isolada, distante da tecnologia, temas e tendências que movimentam o cenário atual.

Prova explícita desse “distanciamento” ecoa no peculiar jogo de palavras que cresce em cada novo trabalho da cantora. Termos arcaicos, não convencionais, como “hydrocephilitic”, “antediluvian” e “Tulgeywood” que acabaram se transformando em objeto de análise (ou piada) em diferentes publicações. Longe da rima fácil, do canto comercial e descomplicado, Newsom parece acomodada em um ambiente próprio, detalhando faixas que ultrapassam os 10 minutos de duração em uma montagem quase textual.

Curioso perceber que mesmo isolada, habitante de um universo tão intimista, poucos artistas atuais exercem um fascínio tão grande no público quanto Joanna Newsom. Basta perceber a infinidade de artigos, publicações e especiais lançados em diferentes veículos nos últimos meses. Se faltam caminhos “oficiais” para chegar até o trabalho da artista, sobram publicações no Reddit e vídeos (ao vivo) compartilhados pelos próprios ouvintes da cantora. Uma euforia coletiva que se sustenta na coesa execução do recém-lançado Divers (2015, Drag City).

Quarto registro de inéditas da cantora e primeiro álbum de estúdio desde o lançamento do triplo Have One On Me, de 2010, Divers sobrevive como uma obra de possibilidades. Ainda que Newsom tenha provado de arranjos experimentais no registro apresentada há cinco anos, poucas vezes antes um disco da cantora norte-americana pareceu tão instável, curioso, quanto o presente lançamento. Longe da habitual zona de conforto testada nos “florestais” The Milk-Eyed Mender (2004) e Ys (2006), Newsom parece testar os próprios limites, costurando ruídos, versos colossais e novos instrumentos em cada uma das 11 faixas da presente obra.

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Julia Holter
Chamber Pop/Dream Pop/Alternative
http://www.juliashammasholter.com/

Julia Holter nunca é a mesma a cada álbum de estúdio. Do som experimental testado em Tragedy (2011), passando pela Ambient Music/Dream Pop retratada no etéreo Ekstasis (2012) até alcançar o jazz sombrio do clássico moderno Loud City Song (2013), difícil encarar o trabalho da artista norte-americana como uma obra de natureza estável. Vozes, arranjos e pequenos fragmentos instrumentais que mudam de direção com naturalidade, a cada novo registro autoral da musicista, em Have You In My Wilderness (2015, Domino) mais uma vez renovada, íntima de um novo acervo de possibilidades.

Parte de um explícito processo de “filtragem” e melódica adaptação do material incorporado por Holter nos últimos anos, com o quarto disco de inéditas, a artista de Los Angeles, Califórnia abraça de vez a delicadeza da música de câmara dos anos 1960 e 1970. Do uso de temas orquestrais, típicos da obra de Scott Walker entre 1967 e 1969, passando pelo pop ensolarado de veteranos como The Beach Boys e The Zombies, cada ato do presente álbum estreita com naturalidade a relação de Holter com o grande público, convidado a mergulhar nas confissões e arranjos doces detalhados pela artista.

Como explícito desde o lançamento de Feel You, faixa de abertura e primeiro single do trabalho, nunca antes Julia Holter pareceu tão acessível quanto em Have You In My Wilderness. A cada nova faixa, a explícita segurança da musicista, distante das pequenas doses de experimento que circundavam músicas como Maxim’s I, Hello Stranger e Horns Surrounding Me, todas do álbum anterior. Coros de vozes, arranjos de cordas, pianos e bateria encaixados de maneira precisa, sutil, estímulo para o nascimento de faixas marcadas pela leveza, caso de Silhouette, ou mesmo peças crescentes, como Sea Calls Me Home.

A busca de Holter por um som cada vez menos complexo não impede que o ouvinte esbarre em longos atos orquestrais/experimentais típicos dos primeiros trabalhos da musicista. É o caso da crescente Betsy On The Roof, música que parece extraída dos instantes finais de Loud City Song. Outra que aproxima Holter de um ambiente “estranho” é Vasquez. Com quase sete minutos de duração, a nona faixa do disco parece apontar a direção para os futuros inventos da norte-americana, dissolvendo vozes e versos em uma base obscura, eletrônica e propositadamente instável, quase íntima dos trabalhos do Portishead no meio dos anos 1990.

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. Poucas vezes antes Julia Holter pareceu ser capaz de produzir um som tão grandioso quanto em Sea Calls Me Home. Segunda canção de Have You In My Wilderness (2015) a ser apresentada ao público, a faixa recheada de arranjos de cordas, metais e vozes límpidas reforça a linha melódica assumida em Feel You, composição lançada há poucas semanas, ao mesmo tempo em que deixa o caminho livre para o acervo de 10 novas faixas que abastecem o quarto álbum de inéditas da cantora norte-americana. Assim como em…Continue Reading “Julia Holter: “Sea Calls Me Home””

. Joanna Newsom costuma levar bastante tempo entre um trabalho e outro, nada que se compare com os cinco anos que a norte-americana precisou para finalizar Divers (2015). Quarto registro solo da cantora e musicista, o sucessor de Have One on Me, álbum triplo apresentado em 2010, parece seguir uma trilha completamente distinta em relação ao som “élfico” e bucólico dos primeiros trabalhos em estúdio da artista. Um explícito diálogo entre temas urbanos e elementos do Jazz que cresce de forma natural com a chegada de Sapokanikan, faixa de apresentação do…Continue Reading “Joanna Newsom: “Sapokanikan” (VÍDEO)”

GABI
Experimental/Chamber Pop/Ambient
https://www.facebook.com/officialGABI
http://www.gabi-music.com/

A voz parece ser o principal instrumento de Gabrielle Herbst. Mesmo com formação erudita em piano e clarinete, são os atentos coros de vozes, sobreposições delicadas e pequenas manipulações orquestrais que garantem vida, movimento e beleza ao ambiente criado para o primeiro disco solo da compositora nova-iorquina, Sympathy (2015, Software).

Filha do musicólogo Edward Herbst, interessada em ópera, dança balinesa e  profunda conhecedora da música de câmara, Herbst, aqui apresentada pelo nome de GABI, parece brincar com a própria formação musical – familiar ou acadêmia. Em uma montagem precisa, essencialmente detalhista, cada composição assume um conceito específico, revelando desde elementos da música sacra (Hymn), como referências extraídas do trabalho de Kate Bush (Falling), Björk (Da Void) e demais representantes do Art Pop .

Mesmo dominado pelas vozes e sentimentos entristecidos da musicista, Sympathy está longe de parecer uma obra hermética, fruto do total isolamento de Herbst. Com produção de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) e Paul Corley (Tim Hecker, Ben Frost), o álbum lentamente se entrega ao domínio e parcial interferência do seleto time de colaboradores formado por Matthew O’Koren (percussão), Rick Quantz (viola), Josh Henderson (violino) e Aaron Roche (guitarras, trombone).

Perceba como os sintetizadores de Lopatin crescem ao fundo da obra. Um fino tecido sonoro, quase imperceptível, porém, essencial para a composição do ambiente sombrio que define Sympathy. Aaron Roche é outro que interfere ativamente na formação do disco. Para ocupar as pequenas lacunas de voz deixadas pela cantora, o guitarrista espalha imensos blocos de ruídos, pilares para o fortalecimento de faixas extensas como Home.

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Tobias Jesso Jr.
Indie/Alternative/Singer-Songwriter
http://www.tobiasjessojr.com/

 

Emoção“, “tristeza“, “sofrimento“. Palavras que invadem a mente do ouvinte tão logo a enxurrada sentimental de Goon (2015, True Panther) tem início em Can’t Stop Thinking About You. Harmonias tímidas de piano, uso controlado, quase imperceptível, de temas percussivos; vocal limpo, esculpido pela angústia do cantor; conceitos, personagens e pequenas confissões redundantes, há décadas desgastadas em diferentes campos da música. Os mesmos versos tristes de amor e separação, o mesmo coração partido, porém, retratado de forma honesta e estranhamente acolhedora por Tobias Jesso Jr.

Mary Ann, eu perdi você em um sonho / Em seguida, o sonho se tornou realidade“. Os versos que inauguram o primeiro registro solo do músico canadense apontam a direção triste que define o restante da obra. São quase 50 minutos em que tormentos pessoais, personagens (femininos) e incontáveis delírios alcoólicos brincam com a percepção amargurada de Jesso Jr, em poucos minutos, uma representação compatível de qualquer ouvinte sofredor. Ainda que vocais “sorridentes” tentem sobreviver ao longo do trabalho, é a tristeza que sustenta e ocupa as brechas de cada canção.

Em um ambiente soturno, o mesmo de Randy Newman no começo da década de 1970, talvez Paul McCartney nos primeiros anos pós-Beatles, Jesso Jr. caminha pelo passado de maneira inevitável. Não se trata de um disco nostálgico, tampouco referencial ou plágio, mas uma obra que dialoga, absorve e partilha dos mesmos sentimentos de outros gigantes da melancolia. É fácil encontrar Harry Nilsson, tropeçar na angústia de Tom Waits e até mesmo artistas recentes; românticos como Cass McCombs e Kurt Ville ou, em menor escala, Phosphorescent e Justin Vernon.

Por vezes sufocado, talvez oculto sob a imensa colcha de retalhos musicais que servem de estrutura para o álbum, Jesso Jr. encontra na “simplicidade” um mecanismo de imposição da própria identidade. Hollywood, Without You, Can We Still Be Friends ou Just a Dream; não importa o pronto do disco em que você estaciona: dos arranjos tristes aos versos confessionais, possíveis bloqueios são logo derrubados. Em Goon, o diálogo com o ouvinte é imediato, natural. Uma armadilha nítida, esquiva da desgastada soma entre “amor e dor”, porém, hipnótica pelo efeito de confissões como “Eu não consigo parar de pensar em você” ou “Porque você não pode me amar?“.

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Natalie Prass
Indie/Alt. Country/Chamber Pop
http://natalieprassmusic.com/

Do momento em que tem início My Baby Don’t Understand Me, até o movimento final de It Is You, a sensação de fragilidade que preenche a obra de Natalie Prass é clara, perturbadora e ainda capaz de acolher o ouvinte. Protagonista da própria obra, a cantora e compositora estadunidense transforma o autointitulado primeiro registro de estúdio em um mundo aberto para confissões amarguradas e lamentos tão íntimos, que até parecem moldados para o ouvinte.

Ativa em diferentes núcleos da cena norte-americana, Prass atravessou a última década em meio a parcerias com notáveis da produção alternativa, caso de Jenny Lewis e Matthew E. White, posteriormente fixando residência na cidade de Nashville – o epicentro da música country. Com naturalidade, todo esse catálogo de “referências” se faz visível em cada ato do recente trabalho da cantora, tão próxima dos primeiros registros da “ex-Rilo Kiley” – principalmente no debut Rabbit Fur Coat (2006) -, como do recente trabalho de White – Big Inner (2012) -, parceiro desde a adolescência e produtor do álbum ao lado de Trey Pollard.

De natureza melancólica, como um sussurro alcoólico em uma noite de abandono, cada uma das nove composições do disco borbulham os sentimentos mais dolorosos (e confessionais) de Prass. Recortes essencialmente sensíveis, como os de My Baby Don’t Understand Me (“Nosso amor é como um longo adeus“) ou mesmo raivosos, caso de Your Fool (“Todas as promessas que eu fiz / E você me abandonou“), em que a cantora imediatamente conversa com gigantes da música Country – talvez Dolly Parton e Dusty Springfield -, além de artistas recentes do mesmo cenário, vide a herança explícita de Neko Case e Gilian Welch durante todo o trabalho.

Mais do que uma peça referencial, centrada no diálogo com diferentes fases (e nomes) do cancioneiro norte-americano, a homônima obra de Prass aos poucos sustenta o próprio cenário conceitual. Longe da redundância de bases acústicas e versos penosos – arrastados em excesso -, durante toda a obra os produtores White e Pollard encaixam arranjos de cordas bem resolvidos, estruturas melódicas de composição minimalista e acordes suavizados que se relacionam de forma inteligente com a voz compacta da cantora.

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