Chegamos ao meio de 2015 e o catálogo de grandes lançamentos musicais só aumenta. Seja em território nacional – Mahmed, Gal Costa, Siba, Cidadão Instigado – ou pela Europa – Björk, Jamie XX – e Estados Unidos – Kendrick Lamar, Sufjan Stevens, Tobias Jesso Jr. -, o que não falta são registros de peso e obras influentes que abasteceram os últimos meses. Seguindo a tradição, é hora de conhecer nossa lista com os 25 melhores discos da metade do ano. Trabalhos que passeiam pela música experimental, eletrônica, pop, rock e Hip-Hop, sempre apontando a direção para a lista definitiva, tradicionalmente publicada no mês de dezembro. Passou os últimos meses desligado da música? Aproveite a lista e veja o que você deixou passar.

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Cícero
Indie/Nacional/Alternative
http://www.cicero.net.br/

 

Romântico, brega, chato ou, como defende o público fiel, “um gênio incompreendido”, “um poeta”. Cícero pode ser acusado e classificado das mais variadas formas, porém, goste ou não do trabalho assinado pelo músico carioca, em nenhum momento ele pode ser encarado como previsível. Exemplo significativo desse resultado está na estrutura e (ainda falho) conceito executado em Sábado (2013), segundo álbum solo do cantor. Talvez mal interpretado, um “Araçá Azul particular“, a obra entregue há dois anos está longe de parecer o ponto central da (curta) obra do jovem compositor. Ainda atento, Cícero mantém firme a busca pela própria identidade, postura explícita no horizonte infinito que estampa a capa e sonoridade aplicada em A Praia (2015, Independente).

Uma rápida audição, e a reposta parece surgir de forma imediata: com o terceiro e mais recente trabalho de inéditas, Cícero talvez tenha encontrado um meio termo exato entre o “samba-indie-melódico” do registro de estreia, Canções de Apartamento (2011), com o “experimento caseiro” testado no interior do segundo álbum, Sábado. Um erro. Ainda que a maquiagem eletrônica de Frevo por acaso N˚2 e diferentes faixas espalhadas pelo registro sustentem a parcial novidade por parte do músico, está na composição quase sorridente dos versos o aparecimento de um novo “personagem” e poeta.

Se há poucos anos, Cícero cantava amargurado “Hoje não vai dar / Não vou estar / Te indico alguém“, em Açúcar ou Adoçante, ou tentava se manter esperançoso nos versos de Frevo Por Acaso – “E se um dia precisar de alguém pra desabar / Eu tô por aí” -, hoje ele sorri. A julgar pelos versos encaixados em O Bobo, não seria um erro afirmar que Cícero encontrou (mais uma vez) o amor. “Eu vou lá / Pra ver o meu amor chegar e toda alegria descer da varanda / Eu vou lá / Pra ver a minha dor passar longe de quando a menina balança“, confessa o apaixonado eu lírico da canção, sustentando mais do que uma curva dentro da sorumbática discografia, mas um novo caminho, talvez ensolarado.

Com a mudança expressiva nos versos, a sonoridade eletrônica que preenche o disco – marcada pela utilização de sintetizadores e batidas precisas -, soa apenas como a cereja no topo do bolo. Observada a inconsistência e amadorismo carimbado na produção de Sábado, não é difícil interpretar o presente disco como o produto final do “esboço” apresentado há dois anos. De fato, muitos dos conceitos (musicais) expostos no trabalho anterior parecem completos agora – ouça De Passagem e perceba a similaridade com antigos inventos do cantor. Mesmo os arranjos de cordas e pianos, típicos do ambiente acústico do primeiro álbum, encontram um novo detalhamento no castelo de areia sonoro que Cícero levanta até o último ato do trabalho.

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. Quando Canções de Apartamento apareceu em meados de 2011, acompanhado de um email de Cícero, talvez fosse impossível prever o sucesso e rápido crescimento no número de seguidores em torno da obra do músico carioca. Mesmo com a parcial divisão de público e crítica durante o lançamento de Sábado, em 2013, a busca por novas referências líricas e instrumentais continua a servir de base para o trabalho do artista, mais uma vez “transformado” no interior de A Praia (2015), terceiro registro de inéditas em carreira solo….Continue Reading “Cícero: “A Praia””

. Quando conversei com Marcelo Camelo no último ano – leia a entrevista aqui -, um dos temas levantados foi a relação com Cícero, Momo, Wado e a série de registros “coletivos” que o grupo vinha desenvolvendo – parceria explícita em Vazio Tropical (2013). Ainda que o ex-hermano tenha partido em outra direção, abraçando a Banda do Mar – parceria com a esposa Mallu Magalhães e Fred Ferreira -, o trio restante deu sequência ao encontro, estreitando os laços com a cultura portuguesa para lançar…Continue Reading “Clube Internacional Transatlântico de Criadores e Gostadores da Música que Se Faz Hoje: “O Clube””

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Com apenas cinco dias de votação e contando com o bom gosto do nosso público, encerramos mais um especial Melhores Discos: Lista dos Leitores. Para a terceira edição da nossa lista colaborativa de fim de ano, tivemos mais de 100 participantes válidos, que elegeram seus discos nacionais e internacionais favoritos. Como nos outros anos, os leitores do Miojo Indie mais uma vez surpreenderam, lançando seus votos para registros pouco conhecidos e uma centena de obras que dificilmente estariam em uma seleção de obras mais “comerciais”. Foram mais de 80 discos nacionais participantes, e quase 150 obras estrangeiras que entraram na seleção/contagem final.

Diferente dos anos anteriores, em que apenas o número de votos era levado em consideração, para a edição 2013 do nosso especial, cada disco ganhou um ponto específico de acordo com a posição atribuída pelo leitor – indo de 5 Pontos para o 1º Lugar, até 1 Ponto para o 5º colocado. A decisão serviu para acelerar a contagem dos votos, bem como um resultado mais justo na filtragem ou possível desempate dos votos. Outro diferencial é a participação dos leitores na construção dos textos da lista final. Além dos votos, cada leitor foi convidado a escrever um texto curto, explicando os motivos que o levaram a escolher o melhor disco de cada lista.

Com a seleção final pronta, resta o nosso agradecimento aos participantes e espero ver vocês no próximo ano em mais uma lista dos leitores.

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Phill Veras
Brazilian/Indie/Alternative
https://www.facebook.com/PhillVeras

Por: Cleber Facchi

Phill Veras

Phill Veras cresceu muito em pouco tempo. Das primeiras canções que apareceram pela internet, passando pelos shows cada vez mais cheios, até a chegada do EP Valsa e Vapor, cada fase do músico maranhense foi encarada com plena maturidade e ainda assim nítida descoberta. Não por acaso ao alcançar Gaveta (2013, Oi Música), primeiro registro em estúdio, todas as canções assinadas pelo jovem músico refletem a projeção madura alcançada ao longo dos meses. Um desdobramento adulto das palavras e que em comunhão com os sons, apenas reforçam o quanto o artista parece longe de alcançar algum possível estágio de conforto.

Sem se desprender da atmosfera branda proposta para o último EP, o cantor ocupa toda a construção da presente obra com as próprias memórias, amarguras e doses imoderadas de confissões. A “gaveta” que dá título ao disco, mais do que uma representação física, objetificada, se apresenta como uma passagem para o coração e a mente melancólica do jovem músico. Um ambiente reservado para os sentimentos mais ocultos. Por mais piegas que possa parecer, é justamente esse mesmo jogo de exageros e completa entrega que orienta toda a formação da obra – um registro que pertence tanto a Phill Veras, como ao próprio ouvinte.

A diferença em relação ao último registro assinado por Veras – e até se observarmos as primeiras apresentações ao vivo -, está no uso de faixas mais consistentes, que buscam pela grandeza. Se Depender de Mim, por exemplo, música já conhecida do público, reforça com atenção todo esse tratamento então contido em canções aos moldes de Valsa e Vapor e Acabou de Acabar. Menos íntimo da essência de Marcelo Camelo, e toda a geração de artistas que nasceram em sequência ao hiato do Los Hermanos, o cantor firma identidade, exercício que força a condução de faixas cada vez mais volumosas e intensas, caso de Basta a Coragem e A Máquina.

Além da explícita relação com o trabalho de uma série de artistas recentes – indo de Cícero a Fernando Temporão -, muito do que conduz o universo isolado de Veras vem da obra de veteranos da música nacional. Está na lírica “feminina” de Chico Buarque (Mulher), no jogo melódico das palavras de Caetano Veloso (Já Vou Tarde) e até a bossa nova de João Gilberto (Faz). Um catálogo gigante de discos, versos e essências que aos poucos são resgatadas de dentro gaveta criativa do compositor. A diferença em relação a avalanche de artistas brasileiros, também sustentados pela mesma estética, está na homogeneidade que conduz o disco. Ao dominar em totalidade o pequeno universo que apresenta, Veras parece desviar de possíveis tropeços, revelando ao ouvinte um catálogo de pequenos acertos.

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. Demorou, mas finalmente saiu o primeiro disco “de verdade” do músico maranhense Phill Veras. Intitulado Gaveta, o trabalho mantém o mesmo espirito doce que o cantor e compositor assumiu no lançamento de Valsa e Vapor EP, há alguns meses, diluindo décadas de MPB e referências próprias dentro de um só composto lírico-musical. Além de Já Vou Tarde e A Estrada, canções lançadas previamente, o trabalho entrega a versão definitiva de algumas faixas já conhecidas do público durante as apresentações ao vivo do cantor –…Continue Reading “Phill Veras: “Gaveta””

Lucas Vasconcellos
Brazilian/Indie/Alternative
https://www.facebook.com/Lucas-Vasconcellos/

Por: Cleber Facchi

Lucas Vasconcellos

Ao lado da esposa Letícia Novaes, Lucas Vasconcellos fez do Letuce um dos retratos mais curiosos da intimidade de qualquer casal. Confissões, intrigas e um jogo de versos provocantes ultrapassaram os clichês do gênero em prol de duas obras de forte diálogo com o presente – Plano De Fuga Pra Cima Dos Outros E De Mim (2009) e Manja Perene (2012). Longe da parceira e assumindo na individualidade os versos e arranjos de Falo de Coração (2013, Agente Digital/Bolacha Discos), o cantor e compositor carioca até busca pelo distanciamento conceitual, mas acaba transformando o presente álbum em uma bem sucedida extensão da obra que há tempos vem desenvolvendo.

De fluidez melancólica, o disco parece posicionado entre o começo do álbum de 2009, ou, quem sabe, ao final do registro apresentado no último ano. São canções de versos tristes que substituem as carícias do casal por um forte sintoma de afastamento. É como se o bem acompanhado “personagem” de Vasconcellos (no Letuce) encarasse de vez a solidão, efeito reforçado tanto nos versos, como nos arranjos do disco. A proposta garante uma obra essencialmente arrastada e perturbadora, como o coração partido do músico atrasasse os passos, vozes e todo o ambiente cinza que aos poucos circunda o universo cantor.

Íntimo da mesma composição encontrada em Medo de Baleia, Anatomia Sexual e demais faixas soturnas de Manja Perene, o presente disco fragmenta a bossa nova em um cenário instrumental obscuro e propositalmente confuso. Tudo funciona em uma medida específica de tempo, o que força o ouvinte a absorver o disco em pequenas e difíceis doses. Quase uma obrigação para saborear as nuances amarguradas que definem a estética final do trabalho. De formatação musical compacta, o disco se esquiva de possíveis surpresas, concentrando na manifestação densa dos versos o real destaque do álbum e o segredo para abraçar a poesia egoísta de Vasconcellos.

Totalmente próximo dos sentimentos e impressões isoladas do músico, o disco leva tempo até se relacionar de maneira estável com o ouvinte. Ainda que músicas como Eu Não Vou Chorar Pra Fora e Morfina assumam uma poesia universal, trazendo na melancolia do pós-relacionamento a base para os versos, durante todo o álbum a individualidade do criador se manifesta como o princípio básico para o nascimento das faixas. A sensação de estar perdido na mente de Vasconcellos é constante até a última faixa, o que transforma músicas como Flor de Tudo em uma inevitável desconstrução do registro.

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Fábrica
Indie/Alternative/Experimental
http://fabricaoficial.tumblr.com/

Por: Cleber Facchi

Fabrica

Existe uma distância imensa entre as canções instaladas no debut da banda carioca Fábrica, de 2012, e o recém-lançado Grão (2013, Independente). Se há poucos meses a orientação encontrada por Emygdio Costa, criador do projeto, era a de apresentar um som essencialmente prático, fundindo samba e rock em um aconchego típico do pop, ao alcançar o novo disco, nada disso parece ter sobrevivido. Mesmo que íntimo de traços específicos do som proposto no último ano – um cruzamento que encontra a velha MPB com a estética do Los Hermanos -, Costa e os parceiros de banda vão além, transformando o novo álbum em uma morada de incertezas que arrastam o ouvinte para um turbilhão de percepções sempre marcadas pela sutileza.

Ora íntimo dos coros de vozes, experimentos e tramas ambientais do Grizzly Bear, ora próximo das harmonias e dedilhados acústicos de Edu Lobo, Grão é uma obra de possibilidades. Enquanto faixas como O que é que o samba tem? e Melhor Que Eu, expostas no último ano, pareciam dançar em um palco de experiências cercadas, cada música do recente álbum autoriza a banda a provar de distintas referências sem qualquer limite aparente. São canções que se vestem com o mesmo cuidado de obras como Veckatimest (2009), mergulham na essência do samba e fragmentam o pop em um detalhe excêntrico. Um conjunto imenso de preferências estáveis, mas que se transformam delicadamente a todo o instante.

Brincando com os arranjos em uma essência sublime e ruidosa, o disco parece ser tudo aquilo que Sábado do cantor Cícero parecia anunciar, mas não conseguiu de fato colocar em prática. Parte natural dessa transformação não está na escolha de Costa em romper com a sonoridade anunciada no disco passado, mas em agregar ao presente álbum uma série de marcas já acertadas em outros projetos que há tempos desenvolve. Arrastando para dentro do disco toda a manifestação estética do Sobre A Máquina – representado pelos parceiros Cadu Tenório e Alexander Zhemchuzhnikov -, a banda faz com que os experimentos dancem pelas melodias simples de outrora, fomentando um conjunto de músicas distantes e próximas do ouvinte na mesma medida. Dessa forma, enquanto o debut assume um detalhamento da aura matutina, Grão é manifestação específica da noite.

Fazendo uso de canções cada vez mais subjetivas, Emygdio encontra nas vozes um complemento natural para os arranjos. Em oposição ao acabamento proposto em todo o debut, Grão é uma obra em que o som fala mais alto do que as palavras. Aqui não há espaço para possíveis hits ou mesmo canções de essência radiofônica, resultado que o disco sustenta com leveza e instabilidade até o último segundo. Em determinados momentos, como na construção de Matilha e Viração, os versos simplesmente desaparecem, abrindo espaço para que ruídos vocálicos assumam a direção em uma forte aproximação com a obra de Djavan. São pequenas melodias efêmeras que surgem e desaparecem a todo momento. Uma típica representação dos sons instáveis que borbulham de forma aleatória na mente de qualquer pessoa.

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