Chegamos ao meio de 2015 e o catálogo de grandes lançamentos musicais só aumenta. Seja em território nacional – Mahmed, Gal Costa, Siba, Cidadão Instigado – ou pela Europa – Björk, Jamie XX – e Estados Unidos – Kendrick Lamar, Sufjan Stevens, Tobias Jesso Jr. -, o que não falta são registros de peso e obras influentes que abasteceram os últimos meses. Seguindo a tradição, é hora de conhecer nossa lista com os 25 melhores discos da metade do ano. Trabalhos que passeiam pela música experimental, eletrônica, pop, rock e Hip-Hop, sempre apontando a direção para a lista definitiva, tradicionalmente publicada no mês de dezembro. Passou os últimos meses desligado da música? Aproveite a lista e veja o que você deixou passar.

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Cidadão Instigado
Rock/Alternative/Psychedelic
http://www.cidadaoinstigado.com.br/

Climáticos, os sintetizadores crescem lentamente. Ao fundo, guitarras espalham ruídos, sem pressa ou possíveis exageros. A bateria ocupa espaço com timidez, abrindo passagem para que a voz de Fernando Catatau ecoe de forma clara, como um suspiro aliviado: “até que enfim”. Com os pés firmes no chão, passados seis anos desde o lançamento do último álbum de estúdio, Uhuuu! (2009), o grupo cearense Cidadão Instigado deixa de lado do som experimental (e lisérgico) dos primeiros trabalhos para investir em uma obra pontuada pela saudade, melancolia e completa lucidez.

Fuga dos temas e arranjos complexos testados desde a boa fase em O Ciclo da Decadência (2002) e Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências (2005), com recém-lançado Fortaleza (2015, Independente) a banda – completa com Regis Damasceno, Clayton Martim, Rian Batista e Dustan Gallas – revela ao público uma sonoridade talvez “simples”, mas não menos convincente. Livre da estrutura torta e limitadora de faixas como O Pinto de Peitos e Deus É Uma Viagem, o canto triste de Catatau se despe do manto colorido, transporta o ouvinte para um cenário obscuro e ainda cria brechas acessíveis aos mais variados público.

Quem esperava por uma possível continuação dos temas cósmicos testados no disco de 2009 talvez se decepcione. Salve exceções, da abertura ao fechamento, guitarras, batidas e toda os arranjos que preenchem a obra são tratados com sobriedade e expressivo “controle” por parte dos integrantes. A herança da década de 1970 – principalmente Pink Floyd – ainda é a mesma, entretanto, o caminho percorrido agora é outro. Mesmo a essência regional de artistas como Fagner e Zé Ramalho parece alterada no interior das canções, como se a longa relação do grupo com a cidade de São Paulo cobrisse todas as lacunas da obra com tons de cinza.

Em se tratando dos versos, um amadurecimento. Basta um passeio pelo romantismo que cobre Besouros e Borboletas para ser atraído pela temática amarga e sempre particular de Catatau. “Me diga o que passou que eu procuro pra você /  Em cantos que eu nem vou / Só pra você perceber / Que estou mais velho”, entrega o melancólico vocalista, ainda íntimo da mesma essência confessional carimbada em clássicos como Lá Fora Têm…, O Tempo, Dói e demais exemplares do puro sofrimento que há tempos cerca os versos da banda.

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O uso excessivo de LSD aprisionou sua mente em algum lugar entre os anos de 1967 e 1972? Hora de voltar ao presente. Insiste que “não se faz mais música como antigamente“? Acorda. Não é preciso uma audição minuciosa para tropeçar em uma variedade de discos atuais tão inventivos, autênticos e chapados quanto o acervo lançado há mais de quatro décadas.

Trabalhos inspirados de forma confessa na produção de veteranos como The Beatles, Pink Floyd e Os Mutantes, porém, atuais, marcados pelo frescor de novos conceitos. O mesmo som “colorido” e insano, apenas reforçada pelo uso bases eletrônicas, interessado no diálogo com diferentes gêneros e fórmulas musicais.

Você não precisa deixar de ouvir “Jimi Hendrick”, apagar o baseado ou quebrar aquele vinil raro do Cream para renovar sua biblioteca musical. Na lista abaixo, uma dose extra novidade e natural relação com a música de 1960/1970. Obras que sintetizam parte da música psicodélica produzida entre 2005 e 2015, ultrapassam os limites do rock e merecem a atenção de qualquer ouvinte experiente.

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. Seis anos de espera e, finalmente, um novo álbum da Cidadão Instigado está entre nós. Sucessor do excelente Uhuuu! (2009) – 2º colocado na nossa lista dos 100 Melhores Discos Nacionais dos anos 2000 -, Fortaleza (2015) parece seguir um caminho diferente em relação aos três últimos registros de estúdio do coletivo. Esqueça o tempero brega de O Ciclo da Decadência (2002), os experimentos de …e o Método Túfo de Experiências (2005), ou mesmo a lisergia discos de 2009. Para o quarto trabalho de estúdio, o quinteto formado por Fernando Catatau, Regis…Continue Reading “Cidadão Instigado: “Fortaleza””

Drogas e música. Desde o princípio da música clássica à ascensão do rock no século XX, boa parte das obras que abasteceram os ouvidos do público vieram pontuadas por doces doses de exageros lisérgicos. Dos Beatles ao rapper Danny Brown, do Pink Floyd ao grupo Animal Collective, o que não faltam são traços explícitos de drogas como maconha, LSD, cocaína ou “apenas” álcool. Expandindo o cardápio de um dos nossos especias mais lidos até hoje, apresentamos nossa nova lista: 30 discos para ouvir chapado. Álbuns que atravessam a psicodelia, caem no Hip-Hop, encontram a eletrônica até brincar com os ritmos tropicais da Chillwave. Ainda que outras obras possam completar a seleção, os discos escolhidos tem um propósito único: fazer você viajar.

Aviso: Conteúdo não recomendado para menores de 18 anos.

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Uma obra marcada pela mudança. Desde que estreou em 2001, com O Manifesto da Arte Periférica, a quebra de sentido e a busca por novas referências musicais aproximaram Oswaldo Schlikmann Filho, o Wado, de um catálogo imenso de bases sonoras. Um dos “heróis” da música independente nacional, o cantor estabelece em obras como A Farsa do Samba Nublado (2004), Atlântico Negro (2009) e Samba 808 (2011) registro fundamentais para a construção do cenário alternativo brasileiro. Obras que brincam com o samba, fundem elementos da eletrônica, rock, pop e até Hip-Hop sem perder a leveza e o uso de boas melodias. Em um esforço de apresentação para quem talvez tenha descoberto a obra do catarinense/alagoano em Vazio Tropical (2013), analisamos cada um dos sete álbuns de estúdio em um alinhamento do “pior” para o melhor. Mais uma edição nacional da seção Cozinhando Discografias que já “organizou” a obra d’Os Mutantes, Los Hermanos e Legião Urbana .

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D MinGus
Experimental/Alternative/Psychedelic

Por: Cleber Facchi

D MinGus

Domingos Sávio é uma espécie de mago ou criatura fantástica que parece ter atravessado o tempo. Mantendo base na sonoridade firmada nos anos 1970, o cantor e compositor pernambucano traz no resgates específicos do que foi conquistado há três ou mais décadas o componente básico para abastecer as excentricidades sonoras e poéticas de Fricção (2013, Independente), terceiro e mais novo registro da carreira à frente do D MinGus. Filho pródigo do Krautrock e bastardo da psicodelia tropical que tomou conta da música brasileira no passado, o músico usa de cada uma das estranhas faixas que se espalham pelo disco como um exercício claro de experimentação.

Interessado na mesma essência nostálgica que acompanha o propósito da bandas como Cidadão Instigado e Mopho, Sávio atravessa o novo disco em um esforço constante de nítida descoberta. Completamente oposto das afinações com o Folk e o bucolismo acústico que decidiram os rumos dos trabalhos anteriores – principalmente o caseiro Canções do Quarto de Trás (2012) -, o músico e os parceiros de grupo trazem na convergência de elementos sintéticos um princípio para uma obra que vai muito além de qualquer limite prévio. Ora lisérgico, ora onírico, o álbum incorpora em cada escolha uma mutação sonora crescente, exercício que intencionalmente parece montado para confundir o ouvinte.

Não se deixe enganar, ainda que o Dream Pop essencialmente ambiental de Frágil penugem nos ares gelados, faixa de abertura do disco dê a entender que temos em mãos um trabalho de certezas, música após música o oposto dessa percepção é o que sustenta a recente obra de D MinGus. Apresentada logo em sequência, De corpo presente é um misto de Os Mutantes da fase progressiva com o romantismo brega de Odair José, um encontro que parece temperado pelas experiências tortas do Kraftwerk (ou seria Can?). Sobram ainda heranças volumosas de bandas como Neu! (Buraco no tempo-espaço) e até arranjos que esbarram em Secos e Molhados (Naturalmente punks), uma visita ao passado, sem desgrudar do presente.

Assim como a capa que acompanha o disco, Fricção é a abertura para um universo próprio. São formas instrumentais flutuantes, vozes que brincam entre o acessível e o esquizofrênico, além de uma variedade de sons que se alteram do princípio ao fim de cada nova música. Sem o compromisso em assumir qualquer esforço de linearidade, o disco faz de uma colagem imensa de ritmos e referências o princípio para abastecer a obra. Fino exemplo dessa transformação se encontra em músicas como Devoniano e Quatro ventos, afinal, enquanto a primeira brinca com a temática sintética do 8-Bit para depois se perder em um mar de arranjos voltados ao pós-rock, a segunda se permite flutuar em um misto de psicodelia e ambient music. Aproximações de natureza oposta, mas capazes de se encaixar no princípio ilógico do álbum.

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