Tag Archives: Country

Disco: “Lost in the Dream”, The War On Drugs

The War On Drugs
Indie/Alternative/Psychedelic
http://www.thewarondrugs.net/

Por: Cleber Facchi

The War On Drugs

As melodias aprimoradas que abasteceram Future Weather EP (2010) e Slave Ambient (2011) são apenas ensaios perante o catálogo de possibilidades anunciadas com o novo álbum do The War On Drugs. Intitulado Lost in the Dream (2014, Secretly Canadian), o terceiro registro em estúdio da banda de Philadelphia, Pennsylvania, vai além das melodias detalhistas assinadas por Adam Granduciel – letrista, compositor e grande mente aos comandos do projeto. Trata-se de uma obra em expansão, um terreno instrumental/lírico que busca revelar a própria essência da banda, mas que ainda mantém íntima a aproximação com os sons lançados há quatro ou cinco décadas por um arsenal de velhos artistas.

Muito mais abrangente e curioso do que o trabalho que o antecede, o novo álbum mostra que Granduciel assume na plena expansão dos instrumentos – guitarras, sintetizadores e bateria – um estágio de natural provocação. É como se toda a calmaria proclamada no disco de 2011 fosse posta em xeque, como se uma pedra fosse atirada no lago de emanações serenas, quase bucólicas, exaltadas pela banda. No meio desse conjunto de experiências onduladas, o Country esbarra na psicodelia, o Folk dança pelo Dream Pop e a mente do espectador, como as canções, flutua livremente.

Naturalmente particular – proposta que esculpe não apenas os temas do disco, mas a presença de Granduciel quanto mente única da obra -, Lost in the Dream aos poucos se manifesta como um passeio pela mente de seu criador. Ainda que sejam necessários os versos intimistas (e amargos) de Suffering, terceira faixa do disco, para perceber o grau de isolamento do trabalho, bastam os instantes iniciais de Under the Pressure para que o músico assuma toda a confissão triste que banha o álbum. Mais do que um registro corrompido pelas experiências erradas do amor, o presente disco é uma obra que encara a velhice, o isolamento e o próprio crescimento como uma preferência constante.

Assumindo uma série de conceitos lançados por Bruce Springsteen há três décadas – principalmente em álbuns como The River (1980) e Nebraska (1982) -, Granduciel encontra no novo disco marcas que exploram a efemeridade dos sentimentos. São composições como Red Eyes, An Ocean in Between the Waves e Eyes to the Wind que fundem a aquietação sentimental do músico com elementos típicos da natureza, tratamento que tinge o disco com uma atmosfera constante de despedida e natural liberdade. Faixas que seguem a melancolia da estrada ou encontram no isolamento de um dia chuvoso a base para o existencialismo que se apoderem da obra. Mais do que sofrer, Lost In The Dream é uma obra que busca interpretar as percepções humanas. Continue reading

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Lydia Loveless: “Really Wanna See You”

Lydia Loveless

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Seguindo a trilha de Neko Case e outras veteranas do Alt. Country, a cantora e compositor Lydia Loveless é uma das grandes apostas para 2014. Embora já acumule uma pequenas sequência de registros ao longo dos anos, a artistas de Coshocton, Ohio, reserva para o começo de fevereiro aquele que parece ser o registro decisivo para sua carreira: Somewhere Else.

Apresentado pelo selo Bloodshot, casa de uma série de representantes do sertanejo estaduniense, o trabalho assume nas confissões da artista e no ritmo acelerado de Really Wanna See You um assertivo aquecimento. Seguindo de onde a cantora parou em 2011, com o álbum Indestructible Machine, a canção usa da melancolia de Loveless de forma a se aproximar do público, crescendo durante toda a construção das guitarras e vozes. Somewhere Else estreia no dia 18 de fevereiro.

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Lydia Loveless – Really Wanna See You

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Disco: “Big Wheel and Others”, Cass McCombs

Cass McCombs
Indie/Singer-Songwriter/Folk
http://cassmccombs.com/

Por: Cleber Facchi

Cass McCombs

Cass McCombs pode até mudar de rumo e buscar por novos caminhos, mas o sofrimento sempre será uma constante na obra do cantor e compositor norte-americano. Do rústico debut, lançado há uma década, passando por obras essenciais, caso de Catacombs (2009) e Wit’s End (2011), cada registro assinado pelo artista original de Concord, California encontra na assumida amargura um inevitável sustento. São faixas que se esquivam da vergonha do abandono, assumem a solidão e discutem a angústia em um detalhamento raro, algo que Big Wheel and Others (2013, Domino), novo projeto do cantor, revela em um estágio aprimorado desse mesmo resultado.

Obra mais extensa já lançada pelo artista até o presente momento, o registro (duplo) concentra em 22 composições uma passagem direta para o mesmo cenário projetado há uma década pelo cantor. É como se todas as sensações, lamentos e o desespero anunciado previamente fosse encarado em um ponto de maior compreensão. Em diversos momentos a figura já madura de McCombs parece dialogar diretamente com a versão jovem de si próprio. Uma tentativa visível em garantir o tão almejado conforto sentimental.

Com uma liberdade instrumental maior do que a testada no sombrio Wit’s End, o novo disco mergulha no Folk, assume instantes de aproximação com o grande público e até ensaia boas melodias em um estágio constante de leveza. Dessa forma, mesmo quando soa melancólico, caso de There Can Be Only One, o álbum jamais se deixa consumir pelo mesmo desespero estafante de outrora. É explícita a percepção de que McCombs assume o domínio sobre o próprio sentimento, como se todas as faixas fossem tratadas em um estágio de ruptura ao cenário denso de antes. “Quem é dono do meu coração?”, pela primeira vez, cabe ao próprio autor essa resposta.

Ainda que desprovido do senso de ineditismo que detalhou os trabalhos passados, Big Wheel and Others em nenhum momento perde a beleza que há tempos circula pela obra de McCombs. Seja ao visitar a década de 1970 na country Morning Star, ou brincando com as guitarras na intensa Satan Is My Toy, cada música do registro assume o domínio de seu criador, fragmentado em diferentes propostas e distintas representações dos tormentos que pairam pela mente do artista. Talvez pelo manuseio das vozes ou a forma como os temas são aproveitados, não são poucos os momentos em que a relação com Kurt Vile em Wakin On A Pretty Daze (2013) se faz presente. Entretanto, enquanto o conterrâneo passeia por um cenário bucólico, Cass mantém firme o teor urbano do trabalho. Continue reading

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Disco: “Dream River”, Bill Callahan

Bill Callahan
Alt. Country/Folk/Singer-Songwriter
https://www.facebook.com/bathyspheral

Por: Cleber Facchi

Bill Callahan

Os anos de bebedeira, saudade e arranjos econômicos trouxeram apenas benefícios ao trabalho de Bill Callahan. Eterno responsável pelas emanações sujas e sempre alcoolizadas do Smog – grupo que assumiu com acerto durante mais de uma década de produção -, o cantor e compositor norte-americano chega ao quarto registro solo ampliando com beleza a própria depressão. Centrado em um universo de lamentos particulares, Dream River (2013, Drag City) se apresenta como uma extensão dos mesmos versos lacrimais aprimorados em Sometimes I Wish We Were an Eagle (2007), uma obra que parece inclinada a confortar a melancolia do ouvinte, mas talvez, apenas sirva para potencializá-la

De onde parou há dois anos com Apocalypse (2011), terceiro disco solo, Callahan abre as portas para o território de dores que flutuam entre o passado e o presente. São canções naturalmente pontuadas pela saudade, o abandono constante (muitas vezes de si próprio) e doses consideráveis de álcool, algo que The Sing, logo na abertura do álbum, entrega com verdadeira maestria e exagero. Afogado em mágoas (e cerveja), o músico atravessa a obra balbuciando palavras e vomitando sentimentos, efeito que converte o disco no trabalho mais honesto do cantor em tempos.

Como se estivesse apenas conversando com o espectador, ao longo da obra Callahan interrompe o registro por diversas vezes, sussurrando, contando histórias ou mesmo esparramando frases desconexas de parco efeito melódico. A amargura, tão comum na discografia do Smog, longe de se extinguir ao longo dos anos parece apenas ter sido aprimorada pelo músico. Atravessando conceitos muito próximo do que o The National conquistou recentemente em Trouble Will Find Me (2013), o cantor assume o mesmo posicionamento de Matt Berninger, sentando e observando diversos aspectos do próprio universo particular em sentido de aceitação. A tristeza há muito se transformou em uma constante na vida de Callahan.

O resultado desse estágio constante de desespero refinado faz nascer faixas como Winter Road, Ride My Arrow e Small Plane, canções que deixam as metáforas de lado para focar no próprio cotidiano amargo do compositor. Dream River, mais do que nunca, é uma obra de Callahan cantando sobre ele mesmo. Ainda assim, centrado na produção de um tratado particular, pela primeira vez o artista materializa a construção de um disco inteiramente próximo do público. Cada verso ou lamento proclamado pelo cantor se manifesta em um jogo de verdadeira identidade aproximada, como se o ouvinte fosse lentamente transportado para junto dos mesmos sentimentos que tanto sufocam o músico. Continue reading

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Disco: “Mechanical Bull”, Kings Of Leon

Kings Of Leon
Rock/Alternative/Garage
http://supersoaker.kingsofleon.com/

Por: Cleber Facchi

Kings Of Leon

Um piscar de olhos e voltamos para 2003, quando Youth & Young Manhood foi apresentado ao público. Uma faixa para frente, e Because of the Times (2007) está de volta, em uma versão mais simples, resumida. Guitarras desaceleram para que Aha Shake Heartbreak (2004) seja novamente replicado. Mais algumas músicas, e dessa vez Only by the Night (2008) surge em nossos ouvidos, meloso e audível por breves instantes. Não, não descrevo nenhum box especial que concentre a discografia do Kings Of Leon, mas sim Mechanical Bull (2013, RCA), sexto registro em estúdio do quarteto de Nashville, Tennessee, ou, se você preferir, a primeira coletânea (não) intencional de sobras de estúdio apresentada pela banda.

Por quê você ainda ouve Kings Of Leon? Nostalgia? Realmente acredita que a banda seja inovadora? Ou seria a esperança de um dia ver o grupo lançando um álbum tão bom quanto os primeiros? Se a primeira opção é o que te motiva a chegar ao presente álbum, então saiba que Mechanical Bull talvez supra essa “necessidade”, afinal, trata-se de um catálogo imenso de faixas, temas e sons reaproveitados. Um resumo quase confesso de toda a produção prévia do grupo e que nada acrescenta em novidade. Se a segunda opção é a que te faz chegar até aqui, você provavelmente deve ter menos de 18 anos ou descobriu a banda recentemente, logo, cabe apenas um simples “Ouça mais música” como resposta. Mas se a terceira opção é a que leva o ouvinte a chegar até Mechanical Bull, então sinto lhe dizer: isso não vai acontecer.

E não vai por razões muito simples, o Kings Of Leon sempre foi uma banda de segundo escalão na avalanche de grupos que ocuparam o “Indie Rock” dos anos 2000. Uma cópia subnutrida do The Strokes, que vestiu camisa xadrez e chapéu de Cowboy para vender uma falsa ideia de inovação que muita gente comprou – inclusive este que vos escreve. Olhe para trás, para a discografia da banda, nada do que eles produziram até hoje representa verdadeiro ineditismo, apenas ideias falsamente reaproveitadas e pintadas com um verniz para disfarçar as limitações do grupo. Sinto dizer querido leitor, mas o KOL, disfarçado de genialidade, seria na literatura aquele tipo de obra que chega logo em sequência a um grande sucesso literário, algo que você compra apenas para suprir uma carência.

Gosto de Mechanical Bull. Primeiro porque ele revela ao público o quanto a banda errou em Come Around Sundown (2010), um erro traduzido em canções monotemáticas e que praticamente obrigaram ao quarteto voltar aos primeiros discos em busca de alguma forma de sustento. Outro ponto “positivo” está no fato do novo álbum ser a melhor representação do quão fraudulenta é a proposta que há mais de uma década movimenta o trabalho da família Followill. Deixe o fanatismo de lado e comece a observar o quanto cada faixa do novo disco busca emular o mesmo sentimento dos álbuns anteriores. Supersoaker, Don’t Matter e Wait for Me, tudo isso você já ouviu antes. Não falo nem da cópia de outros artistas – vide o efeito U2 pós-Because of the Times -, mas da incapacidade do grupo em seguir adiante dentro da própria estética. Continue reading

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Fil and the Guitar Gun: “Living in the Old West”

Fil and The Guitar Gun

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Tiros, solos de guitarra e o clima do “Velho Oeste” passeiam pelo trabalho do músico paulistano Filinto Fil. Interessado nas trilhas sonoras quase caricatas de Westerns e outros clássicos empoeirados do cinema norte-americano/italiano, o músico apresenta ao público Living in the Old West, estreia do projeto de música instrumental Fil and the Guitar Gun. Espécie de trilha sonora alternativa para os grandes clássicos de Sergio Leone (ou seria Clint Eastwood?), Fil apresenta um catálogo leve de nove composições, faixas que passeiam pelo sertanejo de raíz, o folk e o rock instrumental sem abandonar as guitarras slide e o próprio chapéu. Enquanto o download do registro não chega, você pode escutar todas as composições na íntegra no player abaixo.

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Fil and the Guitar Gun – Living in the Old West

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Disco: “The Worse Things Get, The Harder I Fight, The Harder I Fight, The More I Love You”, Neko Case

Neko Case
Indie/Alt. Country/Female Vocalists
http://www.nekocase.com/

Por: Cleber Facchi

Neko Case

Poucas vozes do Alt. Country – principalmente entre os homens – são capazes de assumir tamanha confissão a cada novo trabalho quanto Neko Case. Responsável por uma das discografias mais amargas do cancioneiro norte-americano, a autora de obras como Blacklisted (2002) e Fox Confessor Brings the Flood (2006) chega ao sexto registro solo em mais uma sequência dolorosa de versos, sons e vozes. Marca voluntária que converte o recente The Worse Things Get, The Harder I Fight, The Harder I Fight, The More I Love You (2013, Anti-) em mais um assertivo catálogo de faixas temperadas pela dor e a saudade.

Cada vez mais distante do efeito bucólico apresentado em obras como The Virginian (1997) e Furnace Room Lullaby (2000), lançadas em começo de carreira, Case encontra no novo disco um extensão dos mesmos sons concentrados anteriormente em Middle Cyclone (2009), último trabalho de estúdio. São tramas macambúzias que rompem com a essência amargurada em virtude da presença ativa das guitarras melódicas. Uma ponte involuntária para aquilo que a cantora desenvolve com o The New Pornographers. Entretanto, longe de qualquer repetição possível de ideias, o que garante beleza ao trabalho da cantora, mais uma vez, são os versos.

Acomodada em um passado ainda recente, Case usa de cada faixa como um percurso melancólico, brindando a saudade em músicas aos moldes de I’m From Nowhere e Nearly Midnight, Honolulu. É preciso observar que mesmo em um cenário completo pela dor, a cantora jamais partilha das próprias confissões como dramas insossos e descartáveis. O teor sorumbático do trabalho, como bem exemplifica Night Still Comes, funciona em uma estrutura de essência, uma espécie de busca autoral e constante. A tristeza, como revela desde os primeiros discos, é a mais pura e honesta matéria-prima da artista, o que justifica a facilidade de Case em converter o próprio sofrimento em um mecanismo de aproximação para alcançar o ouvinte.

Cada vez mais ciente da própria obra, a cantora encontra em The Worse Things Get…  um trabalho que flutua de forma visível entre o acessível e a complexidade dos arranjos. Ainda que músicas como Afraid e Where Did I Leave That Fire tornem o propósito de  Case delimitado em ou cenário específico, excêntrico por vezes, parte das composições instaladas no disco rompem com essa ordem de forma encantadora. Músicas como a densa Ragtime, a melancólica/pop Night Still Comes ou a acelerada Man, que refletem toda a capacidade da artista em presentear o ouvinte com faixas impulsionadas pela versatilidade dos sons e vozes. Um jogo bem desenvolvido de melodias plásticas, mas que nunca ecoam como desnecessárias. Continue reading

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Disco: “Muito Mais Que O Amor”, Vanguart

Vanguart
Brazilian/Folk/Indie
http://www.vanguart.com.br/

 

Por: Cleber Facchi
Foto: Ariel Martini

vanguart_credito-Ariel_Martini (1)

Há dois anos, quando lançava Parte de Mim Vai Embora (2011), a proposta do Vanguart parecia ser clara e simples: soar acessível. Longe da poesia complexa que ocupa os versos trilíngues do autointitulado debut, de 2007, o quinteto cuiabano parecia cada vez mais interessado em buscar pelo grande público – um percurso de quase oposição ao hermetismo testado em início de carreira. Sustentando com acerto uma lírica melódica – que abastece faixas como Mi Vida Eres Tu e demais composições do trabalho -, a banda deu um passo seguro para o domínio de uma soma ainda maior de ouvintes, merecida sequência de prêmios no VMB de 2012 e, claro, a base para o que se revela em um efeito amplo na construção do terceiro registro em estúdio.

Intencionalmente dramático, Muito Mais Que O Amor (2013, DeckDisc) se aproveita do mesmo teor amargo dos trabalhos anteriores, porém, em um sentido intenso de confissão. O que antes era proposto de forma existencial e melancólica – principalmente em faixas como Semáforo, Para Abrir os Olhos e Cachaça -, agora dá lugar ao drama pintado de saudade e expectativa. Boa parte das faixas espalhadas pela obra refletem a carência do eu-lírico em um sentido vulnerável. Seja na antecipação por um novo amor (Sempre Que Eu Estou Lá), ou mesmo em um cenário recente e que aos poucos começa a se esfarelar (Pra Onde Eu Devo Ir?), a dor ainda é a principal constante para a banda.

Mesmo em um alinhamento de confissão, Hélio Flanders, principal letrista da obra, parece fugir a todo o custo de um resultado subjetivo, amenizando nos versos de cada faixa uma interpretação exageradamente acessível, até rasa em alguns aspectos. Por vezes falta beleza aos versos instalados de forma monotemática, caso de Meu Sol (o que é isso, Armandinho?), Mesmo De Longe e parte expressiva do eixo final do registro. Entretanto, nenhuma composição parece capaz de superar a redundância da O Que Seria de Nós, sétima canção do disco. “O que seria de você sem mim/ O que seria de Mim sem você/ O que seria de nós dois sem nós?”, arrasta a canção em (felizmente) pouco menos de um minuto de duração. Seria ironia ou apenas vontade de encher o disco com mais uma faixa? Onde estão os responsáveis por Enquanto Isso Na Lanchonete e demais canções dos primeiros discos?

Mesmo os exageros e a lírica falha em algumas das composições não subtraem a presença de boas faixas no decorrer da obra. A melhor delas talvez seja Pra Onde Eu Devo Ir?, canção que se esquiva das melodias programadas para fluir em um cenário de intensidade e dor real. Trabalhada em uma estética Country honesta, a música esbarra em vozes que curiosamente remetem ao trabalho de Chitãozinho e Xororó – entenda isso como um elogio sincero. Um aspecto caricato que não apenas potencializa o crescimento da faixa, como traduz de maneira eficaz a saudade que se acumula em doses pela obra. A mesma relação com o cancioneiro de raiz flutua de maneira coerente em Estive e Eu Sei Onde Você Está, faixas acessíveis, de versos duráveis e que não se perdem nos mesmos exageros e banalidades de outras canções do disco. Continue reading

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10 Discos Para Gostar de Alt. Country

Por: Cleber Facchi

10 Discos Para Gostar de Alt. Country

Enquanto a música Country foi redescoberta pela Industria Fonográfica no fim dos anos 1980 – se transformando em um produto ao grande público -, uma cena paralela crescia em diversas cidades norte-americanas. Interessados em resgatar o trabalho de veteranos da década de 1960, bandas como Uncle Tupelo e The Jayhawkes trouxeram em aproximações com o rock alternativo um teor de novidade. Entre bases de slide guitar, versos amargurados, álcool e distorções, nascia o Alternative Country, subgênero que parece amarrar diferentes gerações (e tendências) dentro de um mesmo universo musical. Em um esforço de apresentar algumas obras expressivas dentro do estilo, selecionamos 10 Discos Para Gostar de Alt. Country. Trabalhos marcados pela beleza e o detalhamento dos arranjos, mas que convencem principalmente na forma como os versos são aproveitados em um sentido de confissão. Continue reading

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Disco: “Impossible Truth”, William Tyler

William Tyler
Instrumental/Folk/Rock
http://www.williamtyler.net/

Por: Cleber Facchi

William Tyler

Crescer em Nashville, Tennessee teve uma importância fundamental para o trabalho e as composições de William Tyler. Berço de alguns dos projetos mais relevantes da cena Country de diferentes épocas, a cidade borbulha de forma criativa nas manifestações bucólicas proclamadas pelo instrumentista, que ao alcançar o segundo registro em carreira solo atravessa uma centena de paisagens musicais intimamente relacionadas com a cidade de origem. Dono de um som delicado e sempre intimista, o veterano de bandas como Lambchop e Silver Jews encontra um ponto de plena compreensão sobre a própria obra, transformando Impossible Truth (2013, Marge) em uma extensão natural de tudo o que vem aprimorando há mais de uma década.

Em busca de um som menos limitado do que o imposto em Behold the Spirit (2010), Tyler faz do novo registro um ambiente de ideias bem decididas e sons de fluência particular. Por mais que a herança acumulada desde o fim da década de 1990 com o trabalho em outras bandas seja evidente, à medida em que as canções são exploradas, a formação de um cenário musical específico decide os rumos do projeto. Mais uma vez distante dos versos (raros pelas gravações do disco) e tendo na guitarra o principal elemento guia, o norte-americano favorece a criação de um universo musical reservado e sempre atento ao detalhe.

Como se buscasse contrapor a “limitação” de uma guitarra, Tyler usa do novo álbum como um registro de possibilidades para o instrumento. Cada faixa assume na orquestração sublime dos arranjos um jogo de transformações capazes de distanciar o álbum do óbvio, exercício que força o próprio músico a se converter em funções distintas durante todo processo do álbum. Enquanto Country of Illusion fraciona uma mesma guitarra em diferentes funções – indo de bases em slide até dedilhados cuidadosamente explorados -, faixas aos moldes de Last Residents of Westfall e The World Set Free incorporam no uso de camadas abafadas um novo rumo ao disco.

Trabalhado em uma estrutura menos específica que a imposta no disco anterior – quase uma continuação dos mesmos detalhamentos incorporados com o Lambchop -, Impossible Truth assume em cada música um propósito específico. Se por um lado Country of Illusion e Cadillac Desert desenvolvem de maneira coerente as mesmas interpretações musicais de Tyler com o Alt. Country, músicas como We Can’t Go Home Again trazem a influência da década de 1970 como principal apoio instrumental para a obra. Valendo da mesma timidez sonora entregue por Nick Drake no clássico Pink Moon, a faixa serve para anunciar o distanciamento do músico das guitarras, fazendo da trama de violões um exercício essencialmente abrandado e ainda assim atrativo. Continue reading

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