Kendrick Lamar
Hip-Hop/Rap/Funk
http://www.kendricklamar.com/

 

Kunta Kinte, Wesley Snipes, escravidão, capitalismo, apropriação de cultura, preconceito racial e morte. Antes mesmo que a quarta faixa de To Pimp a Butterfly (2015, Interscope / Aftermath / Top Dawg) chegue ao final, Kendrick Lamar assume com o novo álbum de estúdio – o segundo sob o aval de uma grande gravadora, a Interscope -, um dos retratos mais honestos sobre o conceito de “dois pesos, duas medidas” que sufoca a comunidade negra dos Estados Unidos. Uma interpretação amarga, ainda que irônica, capaz de ultrapassar o território autoral do rapper de forma a colidir com o universo de Tupac Shakur, Michael Jackson, Alex Haley e outros “personagens” negros da cultura norte-americana.

Como explícito desde o último trabalho do rapper, o bem-sucedido good kid, m.A.A.d city (2012), To Pimp a Butterfly está longe de ser absorvido de forma imediata, em uma rápida audição. Trata-se de uma obra feita para ser degustada lentamente, talvez explorada, como um imenso jogo de referências e interpretações abertas ao ouvinte. Da inicial citação ao ator Wesley Snipes – preso entre 2010 e 2013 por conta de uma denúncia de fraude fiscal -, passando por referências ao cantor Michael Jackson, Malcom X, Nelson Mandela, exaltações à comunidade negra, além de trechos da obra do escritor Alex Haley –  Negras Raízes (1976) -, cada faixa se espalha em um acervo (quase) ilimitado de pistas, costurando décadas de segregação racial dentro e fora dos Estados Unidos.

Não por acaso a “estrutura narrativa” do álbum segue de forma distinta em relação ao trabalho de 2012. Enquanto good kid, m.A.A.d city foi vendido como um “roteiro de cinema” – conceito reforçado na utilização de diálogos e pequenas “cenas” encaixadas no interlúdio de cada composição -, com o novo disco é possível observar a formação de uma pequena base episódica, como um seriado, estrutura arquitetada com naturalidade no decorrer das faixas. São recortes precisos, temas pessoais ou mesmo histórias adaptadas, como se a cada novo capítulo “da série”, Lamar e convidados (como George Clinton, Pharrell Williams e Snoop Dogg) analisassem aspectos distintos de um mesmo universo temático.

Tamanha pluralidade de referências e conceitos garante ao ouvinte o encontro com uma obra muito mais dinâmica em relação ao trabalho exposto há três anos. Na mesma medida em que derrama versos sóbrios e provocativos – vide The Blacker the Berry, Mortal Man e Institutionalized -, Lamar garante espaço para que sentimentos e confissões particulares sejam ressaltadas com o passar do disco. Expressiva porção desse resultado está na dicotomia gerada pelas faixas u e i. Enquanto a primeira, um rap-funk-melancólico, sufoca em meio a versos embriagados, arrastando Lamar (e o próprio ouvinte) para um território de lamúrias – “Bitch everything is your fault” -, a segunda cresce como uma espécie de hino. Um jogo versos entusiasmados, motivacionais – “I love myself” – e que ainda resgatam trechos da adolescência do rapper pelas ruas de Compton, Califórnia.

A mesma flexibilidade se repete na construção dos arranjos e toda a estrutura musical pensada para o registro. Oposto ao minimalismo sombrio, por vezes sufocante exposto em good kid, m.A.A.d city, To Pimp a Butterfly é uma obra de conceitos grandiosos, musicalmente ampla e inquieta. Ainda que Dr. Dre seja o produtor executivo do álbum, grande parte da estrutura (musical) do trabalho parece fruto da interferência direta de Stephen Bruner (Thundercat) e Steve Ellison (Flying Lotus), colaboradores e instrumentistas ativos em grande parte das faixas.

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Arcade Fire
Alternative/Indie/Electronic
http://arcadefire.com/

Por: Cleber Facchi

Arcade Fire

Who The Fuck Is Arcade Fire?!?

A dúvida de quem viu o “desconhecido” coletivo subir ao palco da 53ª edição do Grammy Awards, em 2011, para faturar o título de disco do ano, talvez seja esclarecida somente agora. Quarto registro em estúdio do Arcade Fire, Reflektor (2013, Merge) assume no isolamento temático – tão típico da estética conceitual da banda – um princípio natural de transformação e (re)invento. Longe dos subúrbios, funerais ou da poesia barroca que parecia estável até pouco tempo, o grupo orquestrado com firmeza por Win Butler encontra no cenário hermético da década de 1980 um ponto natural de ruptura. Uma obra capaz de converter já foi aproveitado de forma redundante, em décadas de clichês, dentro de um espaço aberto em essência à novidade.

Seguindo exatamente de onde os sintetizadores de Sprawl II (Mountains Beyond Mountains) encerraram a composição de The Suburbs, em 2010, Reflektor assume no azulejo sintético a obra mais específica e ainda assim plural da curta discografia do grupo. Manifestação confessa de tudo o que alimenta a base instrumental dos canadenses, o trabalho firma no catálogo de experiências conquistadas há 30 anos uma autorização explícita para visitar a obra de gigantes como Talking Heads, David Bowie, U2 e demais veteranos do mesmo cenário. Entretanto, assim como no rock de arena e os flertes orquestrais que apresentaram a banda há uma década, mais do que recriar um retrato de um período ou gênero específico, o Arcade Fire parece interessado em brincar com o próprio entendimento desse resultado.

Propositalmente dividido em duas partes – ou noites, como Here Comes the Night Time revela -, o álbum assume nessa separação temática um jogo de referências a serem exploradas com maior crueza. Para o eixo inicial, o grupo concentra na herança do pós-punk (We Exist), nas passagens pela World Music (Flashbulb Eyes) e até em novas apropriações do rock de arena (Normal Person) toda a base conceitual para o álbum. São acertos honestos com a fase mais comercial de David Bowie – entre Lodger (1979) e Let’s Dance (1983) -, o perfume do Talking Heads (em Remain in Light, 1980) ou até mesmo ecos de The Clash pós-London Calling, detalhamento que a acelerada You Already Know firma com visível naturalidade.

É justamente dentro desse cenário amplo que James Murphy, ex-LCD Soundsystem e um dos produtores do álbum, mostra de fato a que veio. Transformando o jogo de experiências desconexas do álbum em um catálogo coeso, o nova-iorquino converte o bloco inicial do disco como uma espécie de coletânea não intencional. É como se cada música assumisse um ponto específico de tudo o que caracterizou a produção musical do período – ou mesmo pré-80’s -, delineando um zigue-zague temático que ecoa homogêneo quando observado em totalidade. Com exceção da faixa-título – canção que flerta abertamente com a cena Disco e a herança de David Bowie em Low (1977) -, cada música fixa uma posição de ruptura em relação à e essência dos canadenses. Uma espécie de despedida dos orquestrais extensos ou detalhamentos mezzo épicos tão típicos do grupo – mesmo que por alguns minutos.

Se a primeira parte do disco “pertence” à Murphy, então o ato seguinte de Reflektor é todo de Markus Dravs. Velho colaborador do grupo canadense – desde o lançamento de Neon Bible (2007) -, o produtor faz da “segunda noite do registro” uma versão sintética dos mesmos detalhamentos expostos com a chegada de Funeral (2004). Basta o casamento entre as melancólicas Awful Sound (Oh Eurydice) e It’s Never Over (Oh Orpheus) para perceber o quanto a base criativa do grupo se mantém a mesma, apenas “adaptada” ao palco de sintetizadores e argumentos eletrônicos do novo disco. Com um novo passo em relação à segunda metade dos anos 1980, o disco evoca toda a aura do U2 pré-Achtung Baby, trazendo de volta o instrumental climático e o teor soturno que os velhos seguidores talvez estivessem esperando.

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Iron & Wine
Indie/Folk/Singer-Songwriter
http://www.ironandwine.com/

 

Por: Cleber Facchi

Sam Beam

Samuel Beam teve um papel importante na produção musical da última década. Nos comandos do Iron & Wine, o cantor e compositor vindo da Carolina do Sul soube como poucos a forma de administrar os sons confortáveis da música folk. Tudo isso em um tempo em que as guitarras e a eletrônica pareciam ditar os rumos de toda a produção musical da época. Uma medida tecnicamente simples de violões e vozes tratados dentro de uma atmosfera bucólica, algo que o músico buscou aprimorar com a chegada do disco The Shepherd’s Dog (2007), ápice de uma série de três registros bem solucionados e de tratamento confessional. Entretanto, uma vez ciente das próprias limitações Beam foi de encontro ao reinvento.

Com o lançamento do quarto registro em estúdio há dois anos, Kiss Each Other Clean (2011), o compositor trouxe na inexata apropriação de ritmos as bases para uma modificação essencial na estrutura que o acompanha desde o começo de carreira. Menos tímido e cada vez mais ambientado com a proposta de lidar com uma banda, em cada faixa do álbum o músico deixa fluir um extrato sonoro que rompe intencionalmente com as limitações agradáveis dos primeiros discos. Seja pelo uso controlado de guitarras, acréscimo de metais e vozes em coro, tudo se manifesta como um afastamento assertivo, efeito que o músico também usa para sustentar o recém-lançado Ghost on Ghost (2013, 4AD).

Espécie de continuação sublime daquilo que o cantor vinha desenvolvendo, o quinto disco do Iron & Wine é ao mesmo tempo um tratado de aproximação e afastamento com as marcas iniciais do projeto. De forma clara, a ambientação climática está presente em todo o álbum, ao mesmo tempo em que vocais nada tímidos e uma instrumentação ampla tratam de afastar Beam de qualquer redundância possível. Um exercício constante de evolução, ao mesmo tempo que características essenciais não são apenas mantidas, como aprimoradas no decorrer da obra. Ao lado do velho parceiro, o produtor Brian Deck, Sam firma um exercício completo que lentamente o distancia da zona de conforto de outrora em busca de uma fórmula criativa que deve alimentar os próximos discos do Iron & Wine.

 

Conceitualmente, a proposta de Beam permanece a mesma. Enquanto o clima intimista se relaciona de forma aberta com tudo aquilo que Elliott Smith alcançou até o lançamento de XO (1998), os vocais resgatam a mesma essência de Simon & Garefunkel dentro do minimalista Sounds of Silence (1966). A diferença está no completo rompimento com o toque bucólico que antes o aproximava de Nick Drake e principalmente Neil Young. Assim como no trabalho passado, o novo disco afasta o músico do contexto rural dos primeiros lançamentos, centralizando a obra em um ambiente urbano e levemente acinzentado.

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Luê
Brazilian/Female Vocalists/MPB
https://soundcloud.com/luemusica

Por: Cleber Facchi

Luê

As portas da música paraense estão abertas. Se até bem pouco tempo raros eram os aventureiros que conseguiam romper com os limites territoriais e alcançar o grande público, nos últimos dois anos a variedade de artistas paraenses que surgiram (ou foram finalmente descobertos) surpreende. Do fenômeno Gaby Amarantos à figura chave de Felipe Cordeiro, da delicadeza pop de Aíla ao toque sensual e eletrônico de Jaloo, o Pará é a direção para onde apontam todos os ouvidos em busca de novidade na música nacional. No meio desse cenário recheado pelas cores, a timidez e o conforto vocal de Luê surgem como um contraste, um ponto de calmaria aos exageros do Technobrega e um caminho fácil para as origens da música nortista.

Conduzido pelo título de A Fim de Onda (2013, Natura), a estreia da jovem cantora vem como um sussurro romântico nos ouvidos solitários. Climático e deixando claras suas intenções logo na autointitulada faixa de abertura, o trabalho se esparrama em uma variedade de composições marcadas pela saudade e a carência, porém, livres do exagero – seja ele o lírico ou o instrumental. De natureza confortável e capaz de expôr todos os sentimentos da artista em dez curtas faixas, o álbum serve como percurso seguro aos indivíduos de coração partido e que lentamente tentam se erguer.

Por mais que as referências aos sons latinos e à cultura nortista aproximem Luê de maneira natural do que ecoa na cena paraense, não há como distanciar a artista do que há anos toma conta das principais vozes femininas da música brasileira. Talvez pela similaridade como os vocais são aproveitados, parte significativa do trabalho da cantora se mistura à suavidade de Marisa Monte. Um som leve, pop e ainda assim não vago, proposta que embala os discos MM (1989), Mais (1991) e que lentamente se dissolve na estreia da paraense. Sem exageros ou conceitos exagerados, toques de Céu (do primeiro disco) e até um pouco da essência de Gal Costa são aproveitados pelo álbum – Cabeça talvez seja a melhor prova disso.

Luê

Transitando com parcimônia pela música pop, a cantora parece longe de assumir a mesma estrutura que hoje delimita a obra de Tulipa Ruiz e outras artistas centradas na nova música paulistana. Mesmo que o caráter regionalista a aproxime do que a conterrânea Aíla desenvolveu em Trelêlê ou até mesmo Gaby Amarantos nos momentos mais brandos de Treme, em A Fim De Onda Luê brilha autêntica. Talvez seja o trabalho que melhor represente a música nortista de raíz. Um disco totalmente orgânico, sem relações com technobrega e uma provável versão sintetizada de tudo o que Dona Onete e outras veteranas da música local conquistaram ao longo de toda a carreira. Se alguém busca por um caminho mais fácil para brindar a música paraense, a estreia de Luê talvez seja a melhor indicação.

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Vitor Araújo
Brazilian/Experimental/Instrumental
http://www.vitoraraujo.com.br/

Vitor Araújo é uma presença curiosa e quase contraditória na recente fase de artistas que definem a cena instrumental brasileira. Solitário, o músico recifense começou a chamar as atenções antes mesmo de alcançar a maioridade, resultado óbvio de suas ações em se aventurar continuamente pelas vias mais experimentais da música erudita. Entregue ao improviso e se apresentando quase sempre com um par de All Star surrado nos pés, o prodígio não demorou a atrair os olhares famintos da mídia, os ouvidos do público e a atenção de incontáveis curiosos. Figuras que encontraram no caminho não linear apresentado pelo compositor um acabamento pouco convencional ao que ecoa em sua terra natal – musicalmente lembrada pelo colorido do Mangue Beat e do Frevo – ou mesmo dos clichês que bem caracterizam o panorama indie que se estabeleceu na última década.

Ainda preso aos mesmos inventos que lhe trouxeram destaque e atenção há alguns anos, Araújo rompe a camada nítida de timidez que o acompanhava para entregar aquele que de fato deve ser encarado como o primeiro registro de sua ascendente carreira. Sutilmente apresentado como A/B (2012, Independente), o trabalho de oito volumosas composições arrasta o músico (e o público) para um resultado diferente do que parecia definido no decorrer do álbum TOC (2008), registro ao vivo que serviu como espécie de apresentação do trabalho do músico. Agora livre das obsessões e possíveis transtornos que pudessem impedir o crescimento de sua obra, Victor transforma o presente disco em um trabalho de rumos nunca óbvios, mesmo aos mais habituados ouvintes.

Dividido em duas partes bem definidas – como o título do trabalho logo aponta, “A” e “B” -, o álbum traz em seus minutos iniciais a manifestação solitária e os anseios melancólicos do jovem pianista. Para a primeira parte do registro, Araújo entrega um composto de quatro atos grandiosos inspirados em peças clássicas do gênero – todos coerentemente denominados Solidão. Com vozes ecoando ao fundo das faixas e uma intensa relação com o uso de arranjos de cordas sufocantes, o músico propicia um resultado que muito se assemelha aos inventos solo de Jonny Greenwood (Radiohead). Por diversas vezes o pernambucano parece esbarrar (intencionalmente) no mesmo acabamento lamurioso que estrutura a magistral trilha de There Will Be Blood (2007), resultado nitidamente observado no toque sombrio que passeia pela construção da faixa Solidão nº3.

Como se fosse um preparativo para o que vamos encontrar na segunda metade do álbum, ao caminhar pelo “Lado A” do trabalho Araújo revela toda sua aproximação com a música erudita convencional, embarcando o espectador em um universo intencionalmente mais lento e que parece fluir dentro de uma medida de tempo particular. À medida que atravessamos o lado “sombrio” da obra, uma nova soma de instrumentos vai se aconchegando no interior das canções, acréscimo que inicia com os metais em Solidão nº3 e finaliza com a coesa inclusão de vozes atmosféricas em Solidão nº4, música que em alguma medida soa como uma resposta menos experimental do que Julianna Barwick conduz em The Magic Place (2011).

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Dead Lover’s Twisted Heart
Brazilian/Indie/Folk
https://www.facebook.com/deadloverstwistedheart

Por: Cleber Facchi

Lóvi

Por mais delicada e bem conduzida que fosse a estreia da banda mineira Dead Lover’s Twisted Heart, talvez pelos versos em inglês ou o clima folk que esbarrava na década de 1960, tudo contribuía para a construção de um disco frio e nitidamente distante do público. Não que faltasse beleza ao instrumental doce que se derretia pelo álbum, nem aos versos confessionais expostos de forma parcialmente atrativa ao longo do álbum, entretanto, o toque deveras condensado do registro (por vezes uma imensa composição dividida em vários atos) parecia afastar o quarteto de um resultado mais acolhedor. Uma proposta essencialmente particular e que se rompe agora com o apaixonado (e quente) Lóvi EP (2012, Independente).

Registro rápido de cinco curtas faixas, o mais recente lançamento do quarteto formado por Ivan (Vocais e Guitarra), Velvs (Piano e Baixo, Voz), Guto (Guitarra e Voz) e Pat (Bateria e Voz), se apropria de uma série de referências e sonoridades que pouco (ou nada) se relaciona com os antigos inventos do grupo. Esqueça o detalhamento sutil que se desmanchava em músicas como Backwards, Folk You e The Devil Inside a Woman. Do momento dançante que inicia, até o amigável fechamento, o pequeno trabalho absorve uma infinidade de sons e novas tendências que perfumadas por um toque abrasileirado, praticamente garantem uma nova percepção sob o grupo – de fato donos de um som atrativo e aventureiro.

Passeando de forma criativa por distintos cenários da música nacional, o registro abre logo de cara com um assertivo composto de sons que bebem do que há de mais tradicional na guitarrada paraense. De apelo comercial óbvio, Apocalipse do Amor (facilmente uma das grandes composições do ano) dá continuidade ao que artistas regionais como Felipe Cordeiro ou mesmo o bem humorado quarteto carioca Do Amor trouxe recentemente, assumindo de forma própria as ricas cores da cultura nortista. Ensolarada e romântica na mesma medida, a faixa inaugura de forma definitiva a mudança que afasta o grupo do clima brando testado em um passado recente, abrindo espaço para que Meu coração (um indie-rock-new-wave com gostinho de axé) e Eu Tenho (canção que flerta sorumbática com o sertanejo) apresentam no decorrer do disco.

Cantado inteiramente em português, o registro afasta de forma caliente a suposta relação que a banda ainda mantinha com os ritmos estrangeiros, estabelecendo através dos versos um nítido registro de contrastes. Enquanto a faixa de abertura Apocalipse do Amor brinca com o tom apaixonado dos versos – resultado também resumido na maneira como a musicalidade suingada passeia pela faixa -, a sequência Eu Tenho se derrama em melancolias confessionais. “Eu tenho a solidão maior do mundo/ Uma saudade que me adora/ E não me deixa sossegar” canta o quarteto em parceria com o veterano Odair José, figura que ao lado de Roberto Carlos, Fagner e outros gênios (que carimbaram a década de 1970 com romantismo) parecem influenciar a totalidade da pequena e expressiva obra.

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Breakbot
Electronic/Dance/Disco
https://www.facebook.com/breakbot

Por: Cleber Facchi

Há quem insista em apontar as referências construídas ao longo da década de 1980 como de suma importância para a produção musical recente. Prefiro acreditar que os anos 1970 são muito mais relevantes. Do ápice do rock clássico, passando pelo Glam Rock aos realces magistrais do rock progressivo; dos primórdios da cena eletrônica até esbarrar na explosão do movimento punk, incontáveis são os acertos e desdobramentos que a música encontrou ao longo de toda a riquíssima década. Fanático pela produção estabelecida no período, o produtor francês Thibaut Berland encontra na Disco Music – talvez o movimento de maior alcance popular do período – o combustível necessário para movimentar e definir como dançante cada pequena exaltação dentro do projeto Breakbot.

Criada em meados de 2007 e logo seguida de um bem planejado primeiro EP – Happy Rabbit -, a banda de um homem só encontra no baixo pegajoso, vozes repletas de falsetes e guitarras que pendem para a dança um universo de possibilidades que acoplados à música eletrônica crescem visivelmente. Sem o compromisso de revolucionar ou estabelecer rupturas dentro da produção musical presente, Berland transforma o (aguardadíssimo) primeiro disco em um álbum recheado por nuances criativas, vozes que grudam mais do que chiclete e todo um assertivo corpo instrumental de acabamento invejável. Prepare a calça boca de sino, o brilho, ensaie bem os passos e não se esqueça de ouvir By Your Side (2012, Ed Banger).

Bastam os primeiros segundos da instrumental faixa de abertura para que um mundo de sonorizações ecoe cativante e colorida. Jacksons 5, Bee Gees, Donna Summer, ABBA e até John Travolta em sua icônica participação no clássico Os Embalos de Sábado à Noite surgem em nossa mente.  Berland, entretanto está longe de simplesmente brincar com a nostalgia do período como tantos outros já fizeram com o passar das décadas: o produtor encontra de forma quase milagrosa uma fina linha de novidade. Talvez pela maior aproximação com a eletrônica e até algumas passagens pelo que foi construído ao longo dos anos 1980, há na estrutura que conceitua o projeto um expressivo toque de novo.

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[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ShiKVmNnp9w]

Por mais que os créditos se voltem naturalmente ao bem elaborado trabalho do produtor – que provavelmente conseguiria resgatar a carreira de Michael Jackson se este ainda fosse vivo -, muito do que embeleza o bem arquitetado álbum vem das vozes e colaborações essenciais que o acompanham. Da faixa título ao primeiro grande single do francês, Baby I’m Yours, tudo cresce pela presença de colaboradores como Pacific!, Rickazoid e Irfane, artistas que impedem Berland de se fechar em um reduto essencialmente instrumental – ainda que curioso em músicas como Programme. By Your Side como grandes obras lançadas ao longo da década de 1970 é um registro que prima pela colaboração.

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Angel Olsen
Indie/Folk/Female Vocalists
https://www.facebook.com/angelolsenmusic

Por: Cleber Facchi

Basta apenas sentimento para movimentar o trabalho da cantora e compositora Angel Holsen. Ou pelo menos é isso que Half Way Home (2012, Bathetic) primeiro registro oficial da artista norte-americana evidencia e toda sua extensão. Sublime na condução, amargo na maneira como os versos são lentamente entalhados, o álbum parece absorver cada mínimo (e até imperceptível) sentimento da artista, figura que se transforma na matéria base para o álbum. Sejam exaltações românticas, desgastes melancólicos ou pequenas construções introspectivas que curiosamente se relacionam com o que há de mais íntimo no espectador, tudo contribui para o crescimento do registro de acabamento simples, mas imenso na forma que se relaciona com as mais profundas percepções da natureza humana.

Praticamente solitária e se revezando na construção de todas as obscuras exaltações instrumentais que florescem pelo trabalho, a cantora vinda de Chicago, Illinois passeia ao longo do registro de 11 memoráveis composições destilando acordes simples, uma ferramenta que embora pareça limitada, soa inteligente e necessária ao bom desenvolvimento do projeto. Quase ausente de efeitos percussivos e cercada pela sobriedade de parcos violões, Olsen utiliza do uso intencionalmente limitado dos instrumentos para ampliar de forma significativa todos os limites de sua voz, elemento que se não sustenta o trabalho individualmente, serve para hipnotizar o ouvinte logo em uma primeira audição.

Por vezes soando como uma versão feminina dos anseios soturnos de Bill Callahan (ou seria Bonnie “Prince” Billy?) e em outras como uma Joanna Newsom reformulada e menos “medieval”, Angel transforma os vocais aplicados no decorrer do álbum em uma arma de acertos ilimitados e alvos garantidos. Você não precisa de muito para se interessar pelo trabalho da cantora. Basta uma rápida passagem pela faixa de abertura, Acrobat, para logo perceber do que se trata o trabalho da norte-americana, que passeia de forma brilhante por uma dose de calmaria inicial para logo depois se aprofundar em enormes exaltações vocais que nitidamente expandem os limites da melancolia sustentada pelo disco.

Como se flutuasse em algum lugar da década de 1960, ao mesmo tempo em que soa confortavelmente bem instalada nas referências típicas da música folk contemporânea, Olsen sabe como converter a tonalidade “limitada” de sua obra em algo que pouco a pouco se apega a incontáveis referências. Por vezes capaz de conversar com o que Leonard Cohen propôs em discos como Songs From a Room (1969) e Songs of Love and Hate (1971) e ainda assim próxima da mesma beleza confessional aplicada em discos recentes como For Emma, Forever Ago (2008) do Bon Iver, a cantora se perde (de forma assertiva) em um oceano de experiências. Elementos necessários e que lentamente evidenciam o surgimento de uma artista singular, dona de um som de propriedades nitidamente particulares.

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Riff Raff
Rap/Hip-Hop/Electronic
https://www.facebook.com/pages/Riff-Raff/66311048241

Por: Gabriel Picanço

O corpo cheio de tatuagens bizarras (incluindo uma logo da MTV no pescoço), as roupas extravagantes, os acessórios incomuns (como um pingente com brilhantes no formato de um copo de milk-shake), os penteados únicos e um par de lentes de contato são algumas de suas marcas registradas. Soulja Boy e Andy Milonakis estão entre os seus colaboradores no mundo do Rap. Além disso, ele é ex-participante de um reality show B da MTV. E é, finalmente, o mais novo contratado do selo Mad Decent. Jody Christian, ou Riff Raff, nasceu pronto para ser odiado, ainda que essa não seja a sua intenção principal. Mas Riff Raff não se importa, ele não está nem aí pra nada. Exagerado até as ultimas consequências, O rapper hedonista deixa claro na sua estreia pelo selo do Inglês Diplo que as únicas coisa lhe interessam são a fama e o dinheiro.

O seu visual bizarro e sua postura polêmica parecem ter dado muito certo, uma vez que o contrato com a Diplo já rendeu alguns milhões para o rapper. Com muita rapidez, ele vem conquistando uma legião de fãs que o consideram o novo Deus do rap (tomara que seja só ironia) e já se instala de vez na cultura pop. Sua grande conquista fora da música, até agora, foi ter servido de inspiração para o personagem vivido por James Franco no novo filme do diretor indie-experimental Harmony Korine, Spring Breakers, estrelado por Selena Gomez e com trilha de Skrillex (É sério!). A verdade é que Riff Raff é um personagem instigante e que desperta, antes de qualquer sentimento de repulsa ou identificação, curiosidade. Como deve ser a vida desse cara? Quais são seus filmes favoritos? Qual o último livro que ele leu? Quem fez aquele desenho invocadíssimo em sua barba? E principalmente: Por que a sua música é tão ruim?

Em Birth of An Icon, a sua performance se resume a um freestyle fora de controle. Sua voz nasalada e o sotaque texano, com uma pronúncia bastante atrapalhada pela grande quantidade de ouro em seus dentes, lembram um idoso com uma dentadura frouxa, ou uma pessoa com pouquíssimos dentes na boca. As suas letras são um show a parte. Não que elas não façam sentido, pois vão bem além disso: elas são um fluxo direto do que se passa na mente de Riff Raff. E isso está além de qualquer interpretação.

A mixtape é aberta com uma tentativa de dubstep romântico, Jody Highroller com a base fornecida pelo respeitado produtor britânico Caspa. Acompanhado da batida quebrada, graves e sintetizadores característicos, Riff Raff, ao invés de rimar, canta com uma quantidade ridícula de Auto-tune na voz. Bem-vindo ao mundo de Riff Raff. A abertura excêntrica se difere um pouco do que o álbum apresenta no geral: variações mínimas de uma fórmula fraquíssima, mesmo com a presença de alguns produtores importantes, como Flux Pavillion, DJA Allen, Davoodi (em um remix de Original Don do Major Lazer) e o já citado Caspa. A maioria das faixas apresentam produções preguiçosas e repetitivas que reúnem todos clichês e as formulas batidas do hip hop radiofônico atual. No eletro-rap Rap Game Tut, ele faz nos faz sentir saudades do LFMAO. E Riff Raff aparentemente usa a mesmíssima métrica em quase todas as músicas de Birth of An Icon, sempre com o flow demente e repetitivo e rimas sem sentido. Ele canta sobre carros, mulheres, festas, dinheiro (é claro) e sobre seus vários celulares (pelo visto, ele tem um Blackbarry, um iPhone e um Motorola com tela sensível ao toque).

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Grizzly Bear
Indie/Experimental/Folk
http://grizzly-bear.net/

Por: Cleber Facchi

Horn of Plenty (2004) teve um impacto tão pequeno quando lançado há quase uma década que muitas vezes passa despercebido como o primeiro registro de estúdio do Grizzly Bear. E de fato ele talvez nem faça parte da real discografia da banda. Composto inteiramente por Edward Droste (com algumas contribuições de bateria de Christopher Bear), o trabalho “solo” parece refletir exatamente a melancolia que pairava sob a mente do (quase) solitário compositor, resultado naturalmente percebido na camada de ruídos experimentais e compostos acinzentados que se estendem até a capa do disco. Pequeno e simples quando observado próximo do tom magistral de Yellow House e dos experimentos semi-pop de Veckatimest, o álbum tem sua importância de fato afirmada quando nos deparamos com a chegada do recente e estranhamente similar Shields (2012, Warp).

Quarto registro na ainda curta trajetória da banda, o novo álbum traz de volta a mesma camada extra de ruídos que perfumavam o tratado de estreia ao mesmo tempo em que converte todo o aprendizado acumulado nos últimos anos de maneira a percorrer cada fração do presente disco. Continuação aprimorada de Veckatimest (2009) – com uma carga extra de guitarras e versos ainda mais épicos e acessíveis -, o álbum é uma resposta direta aos que desacreditavam que a banda fosse capaz de apresentar um disco tão intenso quanto o entregue há três anos. Repleto de canções que se deixam impregnar pela crueza das guitarras (Yet Again) e até estruturas mais convencionais (Sun In Your Eyes), o álbum aproxima o quarteto nova-iorquino (completo com Daniel Rossen e Chris Taylor) de um resultado novo, ainda que próximo do que fora construído em um passado recente.

Em Shields vê-se um fenômeno curioso e muito similar ao que aconteceu com o Radiohead passado o lançamento do disco Kid-A (2000). Depois do ápice instrumental e inventivo alcançando com o disco, a banda de Thom Yorke passou a lidar com o constante medo e até a descrença do público, que assiste a cada novo lançamento com uma angústia de quem clama pela queda da banda, reação bem analisada durante a repercussão e parcial aceitação do disco The King Of Limbs (2011). Entretanto, da mesma forma que o quinteto britânico conseguiu se renovar na sequência posterior de lançamentos – sendo In Rainbows o melhor exemplo disso -, o mesmo desempenho se repete na carreira dos norte-americanos, que mesmo depois de estabelecer a fórmula base para suas composições ainda estão longe de alcançar um som estagnado e repetitivo. Logo, quem teme (ou clama) pelo fracasso do Grizzly Bear, pelo menos por enquanto terá de esperar pelo suposto deslize.

Em alguma medida – talvez pelo contraste entre os elementos acústicos e elétricos – Shields transpareça uma série de aproximações sonoras com The Suburbs (2010), último registro em estúdio da banda canadense Arcade Fire. Essa manifestação fica visivelmente expressa durante a execução de A Simple Answer, canção que mantém no clima épico e na instrumentação detalhada uma constante relação com o que é promovido em músicas como Half Light I e principalmente em Suburban War – esta com os vocais muito próximos inclusive. Todavia, enquanto a banda comandada por Win Butler parte de uma estrutura conceitual e assume isso até o fechamento da obra, com os nova-iorquinos temos uma completa inversão dessa ordem, afinal, cada canção construída ao longo da trajetória do Grizzly Bear incorpora um aspecto de distinção e constante mudança em relação às demais.

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