De todas as canções apresentadas por Emicida em Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… – 8º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 –, Mandume talvez seja a mais significativa. Distante da “MPB-Rap” incorporada pelo paulistano em grande parte do trabalho – vide faixas como Casa e Passarinho –, a faixa que conta com mais de oito minutos de duração cresce em meio ao uso preciso das rimas lançadas por um time de artistas convidados.

Junto de Emicida, os novatos Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin, responsáveis pela construção das rimas que movimentam a canção e convidados a participar do extenso clipe da Mandume. Dirigido por Gabi Jacob, o trabalho apresenta um elenco completo apenas com modelos, atrizes e atores negros. Fragmentos visuais que escancaram diferentes aspectos do racismo, aceitação, derrotas e conquistas.

 

Emicida – Mandume (ft. Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike, Raphão Alaafin)

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Artista: Nego E.
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Acesse: https://www.facebook.com/negoe.sp/

 

O oceano desbravado no segundo álbum de estúdio de Nego E. é imenso, turbulento e propositadamente instável. Navegando em uma embarcação resistente, segura, projetada a partir do uso preciso das rimas, o princípio de um constante embate contra ondas de preconceito, criminalidade, racismo e perseguição policial. Uma extensão madura do mesmo conceito caótico e urbano explorado pelo rapper há dois anos, durante a produção do primeiro álbum de inéditas, o ótimo Autorretrato (2014).

Anunciado durante o lançamento de Lua Negra, primeiro single do disco, Oceano (2016, Independente) joga com as rimas e referências dentro de uma atmosfera essencialmente densa, sombria. “Cadê a lei do ventre livre quando uma preta é estuprada? / A noite vi minha mãe com insônia / Por não saber se eu ia cair numa cena forjada”, questiona o rapper, preparando o terreno para ápice dramático da canção – “Eu não consigo respirar, ainda pareço suspeito? / Para de atirar, eu parecia suspeito?” –, uma delicada ponte para o movimento Vidas Negras Importam.

Matéria-prima do registro, o preconceito racial serve de base para grande parte das canções dissolvidas pela obra. Da abertura do disco, em Homem ao Mar, passando por músicas como Insônias e Melhor de Mim, não são poucos os momentos em que as rimas de Nego E. escancaram a opressão sofrida pela comunidade negra e outros grupos marginalizados. Um bom exemplo disso está em D M P a D Q P C, parceria com Rincon Sapiência que utiliza de uma cena do Big Brother Brasil – “Meu amor, tá aqui ó, sou preta, quer afrontar?” – como ponto de partida para a construção dos versos.

Em um constante diálogo com o presente, Oceano revela ao público uma série de faixas que detalham diferentes aspectos da nossa sociedade. Segunda canção do disco, Senhor Ninguém nasce como uma crítica atenta ao consumismo e suas novas formas de escravidão – “Marionetes com correntes ou cordas / Velhos engenhos, novos senhores”. Em, Valsalva, uma reflexão sobre os relacionamentos e identidades forjadas dentro das redes sociais – “Punho cerrado aqui não é só pelo close do Snapchat”.

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