Responsáveis pela trilha sonora de Stranger Things, um dos trabalhos mais comentados dos últimos meses, Kyle Dixon e Michael Stein estão longe de parecer novatos. Donos de uma enorme seleção de obras catalogadas no Bandcamp, a dupla, que costuma se apresentar sob o título de S U R V I V E, reserva para os próximos meses o lançamento de um novo álbum de inéditas, RR7349 (2016), trabalho anunciado há poucas semanas com a hipnótica A.H.B..

Parte do mesmo trabalho, a recém-lançada Wardenclyffe mostra a busca da dupla norte-americana por um som essencialmente experimental e sombrio. Mesmo que os sintetizadores da faixa pareçam dialogar com diferentes obras do cinema de horror das décadas de 1970 e 1980, sobrevive nas batidas e constantes curvas rítmicas a força da presente canção. Diferentes ideias que se amarram dentro de um mesmo bloco de sons eletrônicos.

RR7349 (2016) será lançado no dia 30/09 pelo selo Relapse Records.

S U R V I V E – Wardenclyffe

Continue Reading "S U R V I V E: “Wardenclyffe”"

Artista: Kyle Dixon & Michael Stein
Gênero: Synthpop, Ambient, Eletrônica
Acesse: http://survive.bandcamp.com/

 

O Senhor dos Anéis, referências aos filmes de Steven Spielberg, The Smiths, o terror de John Carpenter e Wes Craven, Star Wars, RPG, Goosebumps, os livros de Stephen King, The Clash, Alien: O Oitavo Passageiro, John Hughes, Os Goonies e toda uma coleção de referências nostálgicas. Se você cresceu nas décadas de 1980 ou 1990, talvez seja difícil não ser seduzido pela trama, doses concentradas de mistério e personagens que surgem em Stranger Things, série produzida pelos irmãos Matt e Ross Duffer – “Duffer Brothers” – para a Netflix.

Entretanto, para além dos limites do seriado, teorias, metáforas e personagens cativantes, sobrevive na trilha sonora da produção uma delicada homenagem à música produzida no mesmo período em que se passa a série. Em Stranger Things, Vol. 1 e Vol. 2 (2016, Lakeshore), os integrantes do S U R V I V E, Kyle Dixon e Michael Stein, se concentram na construção de um som não apenas climático e restritivo, mas que dialoga de forma natural com os instantes de tensão da obra, movimentando parte expressiva das cenas, diálogos e acontecimentos da trama.

Da homônima faixa de abertura da série – um jogo de texturas eletrônicas com pouco mais de um minuto de duração –, passando pelo clima aventureiro de Kids, o minimalismo sombrio de Eleven e Crying, até alcançar o suspense de músicas como The Upside Down, I Know What I Saw e Photos in the Woods, difícil ouvir a trilha sonora da série e não ser imediatamente transportado para o cenário de Hawkins, Indiana, onde se passa toda a ação de Stranger Things. Ruídos sintéticos, detalhes e batidas pontuais que cercam o ouvinte a todo o instante.

Donos de uma rica seleção de obras catalogadas no Bandcamp – como discos, singles e versões digitais de registros lançados em fita cassete –, Dixon e Stein incorporam parte do material produzido nos últimos anos para dentro da trilha de Stranger Things. Seja na produção de faixas mais curtas, caso de Fresh Blood e A Kiss, como na construção de peças extensas, vide Hawkins e No Weapons, durante toda a formação do álbum, pequena pontes atmosféricas incorporam a mesma ambientação detalhista explorada em obras como LLR002 (2010) e TLLT21 (2012).

Continue Reading "Resenha: “Stranger Things, Vol. 1 / Vol. 2”, Kyle Dixon & Michael Stein"

Artista: Of Montreal
Gênero: Indie, Eletrônica, Pop Psicodélico
Acesse: http://www.ofmontreal.net/

 

Em mais de duas décadas à frente do Of Montreal, Kevin Barnes não passou mais do que dois anos sem apresentar ao público um novo registro de inéditas. O resultado dessa produção constante está na composição de uma discografia marcada pela irregularidade. Obras que transbordam a criatividade do músico – vide o clássico Hissing Fauna, Are You the Destroyer? (2007) – e trabalhos que sufocam pela redundância – caso do recente Aureate Gloom (2015).

Novo álbum de inéditas do coletivo de Atlanta, Innocence Reaches (Polyvinyl), claramente se aproxima desse primeiro agrupamento de obras capazes de confirmar a força criativa de Barnes. Ancorado de forma explícita no mesmo pop psicodélico que a banda vem promovendo desde o final dos anos 1990, o trabalho de 12 faixas encanta não apenas pela essência nostálgica dos arranjos, mas pelos instantes em que a banda flerta com a música eletrônica.

Composição escolhida para inaugurar o disco, Let’s Relate sintetiza parte dos “experimentos” assumidos pelo grupo. Enquanto a voz robótica de Barnes explora a temática dos novos relacionamentos de forma cômica, sintetizadores e batidas dançantes aproximam a canção de um terreno essencialmente dançante, conceito também explorado em A Sport and Pastime, sexta música do disco. Difícil não lembrar de MGMT, Foster The People e outros nomes de peso da cena alternativa. Poucas vezes o Of Montreal pareceu tão pop, pegajoso.

O mesmo som grudento acaba se refletindo em It’s Different for Girls. Uma das melhores composições do músico norte-americano em tempos, a faixa que discute libertação sexual, machismo e a opressão sofrida diariamente pelas mulheres, transporte a temática do empoderamento para um ambiente que mesmo provocativo, mantém firme a mesma estrutura dançante e acessível que abre o trabalho. Impossível não ser arrastado pelas guitarras suingadas que costuram a canção do início ao fim.

Continue Reading "Resenha: “Innocence Reaches”, Of Montreal"

Originalmente apresentada no último ano como parte do disco Ava Patrya Yndia Yracema – 4º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 –, há poucos meses, Auto das Bacantes acabou se transformando em um provocativo clipe pelas mãos do diretor Pedro Paulo Rocha, irmão de Ava Rocha. Marcada pela temática feminista, a canção ressurge agora parcialmente transformada, efeito do novo conjunto de batidas e colagens assumidas pelo produtor paulistano Rico.

Ainda que preserve a voz da cantora, tão urgente e intensa quanto na versão original da composição, da abertura ao fechamento do “remix”, Rico brinca com as possibilidades. São sintetizadores levemente dançantes, batidas crescentes e interferências eletrônicas que acabam dialogando com a mesma ambientação produzida pelo artista em agosto do último ano, durante o lançamento do ótimo EP Ascender (2015).

 

Ava Rocha – Auto das Bacantes (RICO Edit)

Continue Reading "Ava Rocha: “Auto das Bacantes” (Rico Edit)"

Ainda que as primeiras composições da nova fase do Crystal Castles – diga-se “sem Alice Glass” – tenham bagunçado a cabeça do público, com o lançamento de Char, há poucas semanas, Ethan Kath e Edith Frances, a nova parceira do produtor canadense, provaram que a projeto continua em boa fase. Naturalmente íntima dos primeiros trabalhos do CC, a nova faixa veio como um complemento ao som produzido nas antecessoras Concrete e Deicide, contribuindo para a chegada da recente Fleece.

Também íntima do mesmo som produzido por Kath em 2008, a nova faixa delicadamente flutua entre instantes de calmaria e explosão. Enquanto a voz de Frances cresce e encolhe a todo o instante, revelando um conjunto de manipulações eletrônicas, está nas mãos do parceiro de banda o completo domínio das batidas e sintetizadores, ferozes, tão caóticos quanto qualquer outro registro produzido pelo Crystal Castles nos últimos anos.

Amnesty (I) (2016) será lançado no dia 19/08 via Casablanca Records.



Crystal Castles – Fleece

Continue Reading "Crystal Castles: “Fleece”"

Um dos principais nomes do R&B californiano, Giraffage está de volta com uma inédita composição. Intitulada Bring Me Your Love, a canção assinada em parceria com a cantora THEA mostra a busca do produtor por um som cada vez mais “pop”, próximo de artistas como Banks e FKA Twigs. Ainda que as bases complexas e manipulações da voz dialoguem com o mesmo som produzido nos antigos trabalhos do artista, difícil não perceber a busca por um material que dialogue com uma nova parcela do público.

Dono de uma sequência de grandes composições – vide o rico catálogo de músicas acumuladas pelo produtor no soundcloud –, Giraffage, que sempre se manteve próximo de artistas como Shlohmo e How To Dress Well, há três anos apresentou o primeiro grande álbum de estúdio, Needs. Dono de uma sequência de faixas marcadas pelo completo romantismo, o trabalho acabou ficando em 44º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2013.

Giraffage – Bring Me Your Love (feat. THEA)

Continue Reading "Giraffage: “Bring Me Your Love” (feat. THEA)"

A ambientação sintética de Beth/Rest, faixa de encerramento do segundo registro de inéditas de Bon Iver, parecia indicar a busca de Justin Vernon por um mundo de novas possibilidades e experimentos eletrônicos. Longe do folk intimista que abasteceu o clássico For Emma, Forever Ago (2007), o cantor e compositor norte-americano decidiu se concentrar no uso de temas eletrônicos que vão dos arranjos ao uso da voz – sempre maquiada pelo auto-tune -, proposta que parece orientar o aguardado terceiro registro de estúdio do músico: 22, A Million (2016).

Primeiro álbum de inéditas do Bon Iver em cinco anos, o novo trabalho sustenta nas recém-lançadas 22 (OVER S∞∞N) e 10 d E A T h b R E a s T ⊠ ⊠ (Extended Versions) parte dos experimentos que devem orientar o ainda inédito registro. São fragmentos de vozes recortados, sintetizadores tortos e a voz serena de Vernon, posicionada ao fundo da canção, como se os experimentos estivessem em destaque. Difícil não lembrar de James Blake e Kanye West, artistas com que o músico de Wisconsin vem colaborando nos últimos anos.

22, A Million (2016) será lançado no dia 30/09 via Jagjaguwar.

Bon Iver – 22 (OVER S∞∞N) [Bob Moose Extended Cab Version]

Bon Iver – 10 d E A T h b R E a s T ⚄ ⚄ (Extended Version)

Continue Reading "Bon Iver: “22 (OVER S∞∞N)” / “10 d E A T h b R E a s T ⊠ ⊠”"

A colisão de ritmos continua sendo a base do som produzido pela banda de Seattle Beat Connection. Hip-Hop encontra o rock enquanto a música eletrônica passeia por décadas de referências. Gêneros distintos, mas que acabaram servindo de base para toda a discografia do grupo norte-americano, vide a dobradinha formada por Surf Noir (2011) e The Palace Garden (2012), além, claro, do ainda recente Product 3, entregue pelo quarteto no último ano.

É justamente desse mesmo trabalho que vem a essência para a construção do mais novo single do grupo: For The Record. Flutuando por entre décadas, a canção que explora os movimentos Balearic Beat e Chillwave chega até o cenário colecionando vozes, batidas levemente dançantes e experimentos controlados, esbarrando com naturalidade no trabalho de outros artistas locais, principalmente nomes como Lemonade e Toro Y Moi.

Beat Connection – For The Record

Continue Reading "Beat Connection: “For The Record”"

Meses após o lançamento do curioso EP Child Death – trabalho que acabou passando despercebido por muita gente no último ano –, Alec Koone está de volta com mais uma composição inédita. Intitulado &&&heartsss;;;, o novo single do produtor norte-americano mostra a busca de Koone por um som cada vez mais “pop”, mesmo na estranha manipulação de texturas eletrônicas, batidas tortas e vozes que apontam para todas as direções.

Mais conhecido pelo material produzido para o álbum Wander / Wonder – um dos 50 melhores discos internacionais de 2011 –, Koone passou os últimos anos brincando com a produção de sons atmosféricos, sempre orientados pelo uso de samples “aquáticos” e vozes submersas, conceito que se renova dentro do presente lançamento do artista norte-americano.

Balam Acab – &&&heartsss;;;

Continue Reading "Balam Acab: “&&&heartsss;;;”"

Jacques Green não parece seguir uma regularidade no lançamento de novos trabalhos. Dono de uma sequência de obras produzidas desde o final da década passada, caso do single On Your Side (2013) e Ready EP (2012), em 2014, o produtor de Montreal presenteou o público com dois ótimos registros: After Life After PartyPhantom Vibrate EPs. Depois disso, nenhuma outra novidade e um foco total nas apresentações ao vivo. Pelo menos até agora.

Primeira composição inédita do produtor em um intervalo de dois anos, You Can’t Deny mostra a capacidade do artista canadense em produzir uma faixa acessível, porém, repleta de referências e fragmentos extraídos da música eletrônica de diferentes décadas. Difícil não lembrar de Jamie XX e o som pensado para o álbum In Colours (2015) enquanto o vocal sampleado da canção se projeta como um instrumento nas mãos do produtor.

Jacques Greene – You Can’t Deny

Continue Reading "Jacques Greene: “You Can’t Deny”"