Esqueça tudo que o pernambucano Vitor Araújo produziu até hoje. Quatro anos após o lançamento do primeiro registro de estúdio, o elogiado A/B – 15º lugar em nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2012 –, são os experimentos eletrônicos, batidas tribais e vozes submersas de Canto nº3 que indicam a nova direção assumida pelo músico. Um conjunto de ideias tortas, fragmentos instrumentais que dialogam com o trabalho de artistas como The Knife e Radiohead e a base do novo álbum de inéditas do compositor.

Produzido em parceria entre Araújo e Bruno Giorgi, Levaguiã Terê (2016) é o primeiro trabalho do artista pernambucano construído apenas com composições próprias. Junto do pianista – responsável pela gravação de parte expressiva dos instrumentos da presente faixa –, um time de músicos e colaboradores que auxiliam na formação do delicado arranjo de cordas, guitarras e instrumentos de percussão de toda o restante da obra. Para baixar a canção clique aqui.

Levaguiã Terê (2016) será lançado em setembro pelo selo Natura Musical.

Vitor Araújo – Canto nº 3

Continue Reading "Vitor Araújo: “Canto nº 3”"

Originalmente apresentada no último ano como parte do disco Ava Patrya Yndia Yracema – 4º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 –, há poucos meses, Auto das Bacantes acabou se transformando em um provocativo clipe pelas mãos do diretor Pedro Paulo Rocha, irmão de Ava Rocha. Marcada pela temática feminista, a canção ressurge agora parcialmente transformada, efeito do novo conjunto de batidas e colagens assumidas pelo produtor paulistano Rico.

Ainda que preserve a voz da cantora, tão urgente e intensa quanto na versão original da composição, da abertura ao fechamento do “remix”, Rico brinca com as possibilidades. São sintetizadores levemente dançantes, batidas crescentes e interferências eletrônicas que acabam dialogando com a mesma ambientação produzida pelo artista em agosto do último ano, durante o lançamento do ótimo EP Ascender (2015).

 

Ava Rocha – Auto das Bacantes (RICO Edit)

Continue Reading "Ava Rocha: “Auto das Bacantes” (Rico Edit)"

Dona de um dos trabalhos mais obscuros e complexos da cena independente em 2014, Paola Rodrigues está de volta com um novo registro de inéditas. Sucessor do elogiado Perdida, <3 WIFI (2016) mostra o fascínio da cantora e produtora mineira pela internet. São apenas cinco faixas em que Rodrigues se divide entre a construção das rimas e a produção atmosférica que delicadamente preenche o trabalho, fazendo da obra um registro essencialmente intimista, doloroso.

Produzido em parceria com o músico André Pádua (Coletivo Minhoca da Terra), <3 WIFI foi gravado por Paola Rodrigues no estúdio caseiro da Geração Perdida de Minas Gerais, contando com a mixagem e masterização assinada por Vitor Brauer (Lupe de Lupe). Íntimo dos experimentos de artistas como FKA Twigs e Daniel Lopatin, o álbum pode ser apreciado e baixado gratuitamente pelo perfil da artista pelo Bandcamp.

 

Paola Rodriguez – <3 WIFI

Continue Reading "Paola Rodriguez: “<3 WIFI""

Artista: Catavento
Gênero: Psicodélico, Garage Rock, Experimental
Acesse: http://www.honeybombrecords.com.br/catavento/ 

 

Ruídos, distorções e vozes maquiadas pelo uso de efeitos. Dois anos após o lançamento do primeiro álbum de estúdio, Lost Youth Against The Rush (2014), o coletivo gaúcho Catavento está de volta com um novo (e barulhento) registro de inéditas. Entre versos cantados em inglês e português, CHA (2016, Honey Bomb Records) indica a direção experimental assumida pela banda — hoje formada por Leo Rech (guitarra/vocal) Leo Lucena (guitarra/baixo/vocal), Du Panozzo (baixo/guitarra/vocal), Johnny Boaventura (teclados/vocal), Lucas Bustince (bateria) e Francisco Maffei (efeitos/teclados/vocal).

Por vezes íntimo da mesma psicodelia explorada nos últimos trabalhos de bandas como Boogarins e Bike, pouco a pouco, o presente álbum se distancia de outros exemplares da cena nacional por conta da forte carga de ruídos e ambientações etéreas que se espalham no interior da obra. Da abertura do disco, em Little Fishes, passando pelas melodias tortas de faixas como City’s Angels e The Sky, um turbilhão de cores e distorções sujas se chocam de forma a bagunçar a mente do ouvinte.

Claramente inspirado pelo trabalho de artistas como Ty Segall, Sonic Youth e Tame Impala, CHA é um registro em que as ideias convergem a todo instante. São apenas nove faixas, pouco menos de 40 minutos de duração, entretanto, parece difícil prever qualquer movimento da banda. Guitarras e vozes duelam a todo instante, paredões imensos de ruídos são levantados e destruídos sem ordem aparente, fazendo desse constante choque criativo a base de cada composição do registro.

Ainda que a poesia do disco esteja ancorados nas “dores e as delícias de entrar no mundo adulto”, como aponta o texto de apresentação do trabalho, mais do que um alicerce, as letras do álbum se revelam como um poderoso complemento musical. Ruídos abafados e cantos ecoados que atravessam os acordes sujos da obra, transportando o ouvinte para um cenário essencialmente onírico, subjetivo, conceito explícito no canto irregular de faixas como Red Lagoa e Thanks a Lot.

Continue Reading "Resenha: “CHA”, Catavento"

A ambientação sintética de Beth/Rest, faixa de encerramento do segundo registro de inéditas de Bon Iver, parecia indicar a busca de Justin Vernon por um mundo de novas possibilidades e experimentos eletrônicos. Longe do folk intimista que abasteceu o clássico For Emma, Forever Ago (2007), o cantor e compositor norte-americano decidiu se concentrar no uso de temas eletrônicos que vão dos arranjos ao uso da voz – sempre maquiada pelo auto-tune -, proposta que parece orientar o aguardado terceiro registro de estúdio do músico: 22, A Million (2016).

Primeiro álbum de inéditas do Bon Iver em cinco anos, o novo trabalho sustenta nas recém-lançadas 22 (OVER S∞∞N) e 10 d E A T h b R E a s T ⊠ ⊠ (Extended Versions) parte dos experimentos que devem orientar o ainda inédito registro. São fragmentos de vozes recortados, sintetizadores tortos e a voz serena de Vernon, posicionada ao fundo da canção, como se os experimentos estivessem em destaque. Difícil não lembrar de James Blake e Kanye West, artistas com que o músico de Wisconsin vem colaborando nos últimos anos.

22, A Million (2016) será lançado no dia 30/09 via Jagjaguwar.

Bon Iver – 22 (OVER S∞∞N) [Bob Moose Extended Cab Version]

Bon Iver – 10 d E A T h b R E a s T ⚄ ⚄ (Extended Version)

Continue Reading "Bon Iver: “22 (OVER S∞∞N)” / “10 d E A T h b R E a s T ⊠ ⊠”"

Artista: Haicu
Gênero: Indie, Alternative, Experimental
Acesse: https://soundcloud.com/haicuduo

 

Vozes delicadas, arranjos contidos e versos marcados em essência pela angústia. Assim pode ser resumido o trabalho produzido pela dupla Pedrinhu Junqueira e Júlia Shimura dentro do primeiro álbum de estúdio como Haicu. Fruto de uma coleção de versos e experimentos musicais desenvolvidos pelo casal durante o intervalo de um ano, o registro de 13 composições inéditas parece crescer sem pressa, orgânico, detalhando cenas, desejos e acontecimentos corrompidos pelos sentimentos.

Inspirado pela poesia japonesa — os “haikais” como são conhecidos no Brasil —, o trabalho de rimas simples se projeta em meio a vozes cíclicas, ora intimistas, ora desorientadas, como fragmentos espalhados de forma propositadamente inexata pelo interior do disco. Sussurros românticos (“Não sei mais dizer se é fio do meu / se é fio do seu cabelo grudado no azuleio”) e melancólicos (“nada vai ser igual sem o seu Carnaval”) que cercam, provocam e acolhem o ouvinte.

Entre poemas que amarram versos em português, inglês e japonês, Junqueira e Shimura acabam detalhando a construção de um cenário urbano, atual. São histórias de amor (Never Die), relatos de abandono (Fall) e até confissões que parecem surgir do cotidiano do próprio casal (Amor). Da abertura ao fechamento do disco, um delicado ziguezaguear de inspirações que dialoga de forma natural com a sonoridade versátil do disco, curiosa e parcialmente inédita a cada nova composição.

Ainda que as inaugurais Leve e Nada Vai indiquem a predileção da dupla pela Bossa Nova, conceito explícito no movimento tímido dos arranjos e vozes, à medida que o disco se expande, crescem as possibilidades e sons incorporados pelo casal. Composições que flertam com a Tropicália – principalmente os trabalhos em parceria entre Caetano Veloso e Gal Costa –, atravessam a década de 1970 e alcançam o presente cenário corroídas por instantes breves de experimento.

Continue Reading "Resenha: “Haicu”, Haicu"

Seja em carreira solo ou como integrante do extinto Emeralds, a música produzida por Steve Hauschildt sempre transportou o público para um cenário marcado pela leveza das melodias e experimentos eletrônicos contidos. Em Strands não poderia ser diferente. Mais recente composição do músico norte-americano e faixa escolhida para anunciar o novo trabalho do artista parece dançar pela mente do ouvinte, transportado para um cenário de formas flutuantes.

Sem pressa, sintetizadores brandos cercam o ouvinte lentamente, revelando um catálogo de texturas atmosféricas e ambientações minimalistas que se escondem dentro de cada fragmento melódico conduzido pelo músico. Difícil não lembrar da série de obras produzidas por Brian Eno no final da década de 1970 ou mesmo dos registros em carreira solo dos velhos companheiros de banda, principalmente o guitarrista Mark McGuire.

Strands (2016), será lançado no dia 28/10 via Kranky.

Steve Hauschildt – Strands

Continue Reading "Steve Hauschildt: “Strands”"

Artista: SLVDR
Gênero: Pós-Rock, Math-Rock, Experimental
Acesse: https://slvdrmsc.bandcamp.com/

 

A colorida ilustração que estampa a capa de Presença (2016, Independente) — trabalho assinado por Lucas Santos — parece dizer muito sobre o som produzido pelo grupo carioca SLVDR. Produzido em um intervalo de dois anos em diversos estúdios do Rio de Janeiro, o álbum mostra o esforço do trio formado por Bruno Flores, Hugo Noguchi e Gabriel Barbosa em explorar diferentes décadas, ritmos e possibilidades de forma a produzir um registro musicalmente amplo.

Com Não há mais esperança escolhida como faixa de abertura do disco, o trio, em parceria com o músico Gabriel Ventura, vocalista e guitarrista da banda carioca Ventre, cria uma espécie de resumo do som pensado para o registro. São pouco menos de seis minutos em que guitarras e batidas apontam para todas as direções, criando pequenos atos de euforia e instantes de recolhimento. Um estímulo claro para o som produzido logo em sequência com Dark Mansa, música que parece ter saído do final dos anos 1990.

Terceira faixa do álbum, a curtinha Bouken vai da serenidade ao caos em poucos instantes. Difícil não lembrar do trabalho de artistas como Fugazi e Polvo enquanto as guitarras, bateria e baixo da composição estabelecem um diálogo preciso, por vezes raivoso, revelando ao público o uso de pequenas curvas rítmicas. Quase um aquecimento para os versos urbanos que surgem em sequência com Um brevíssimo conto sobre a humanidade dos dias, um dos raros instantes em que a voz assume uma posição de destaque no disco.

Segunda canção em parceria com Ventura, Forum talvez seja a faixa mais versátil de toda a obra. São pouco mais de cinco minutos em que o grupo joga com as possibilidades, mergulhando em uma atmosfera de sons abstratos, temas jazzísticos e elementos que dialogam de forma particular com a música eletrônica. Fragmentos que parecem abraçar diferentes temáticas e épocas, como se o trabalho de grupos como Slint, The Dismemberment Plan e Tortoise fosse remontado de forma autoral.

Continue Reading "Resenha: “Presença”, SLVDR"

Meses após o lançamento do curioso EP Child Death – trabalho que acabou passando despercebido por muita gente no último ano –, Alec Koone está de volta com mais uma composição inédita. Intitulado &&&heartsss;;;, o novo single do produtor norte-americano mostra a busca de Koone por um som cada vez mais “pop”, mesmo na estranha manipulação de texturas eletrônicas, batidas tortas e vozes que apontam para todas as direções.

Mais conhecido pelo material produzido para o álbum Wander / Wonder – um dos 50 melhores discos internacionais de 2011 –, Koone passou os últimos anos brincando com a produção de sons atmosféricos, sempre orientados pelo uso de samples “aquáticos” e vozes submersas, conceito que se renova dentro do presente lançamento do artista norte-americano.

Balam Acab – &&&heartsss;;;

Continue Reading "Balam Acab: “&&&heartsss;;;”"

Artista: Guizado
Gênero: Jazz, Eletrônica, Experimental
Acesse:  https://www.facebook.com/guizado.man

 

Os temas eletrônicos sempre fizeram parte do trabalho de Guilherme Mendonça. Da estreia com Punx (2008), primeiro álbum de estúdio como Guizado, passando por obras como Calavera (2010), até alcançar o recente O Voo do Dragão (2015), disco que mistura elementos do Jazz com Hip-Hop, grande parte da discografia do músico paulistano esteve aberta ao uso de sintetizadores, programações eletrônicas e diferentes ambientações sintéticas que crescem com maior naturalidade dentro do quarto e mais recente projeto do trompetista, Guizadorbital (2016, EAEO Records).

Gravado ao vivo no Epicentro Cultural, o álbum de temas “cósmicos” — cada canção leva o nome de um corpo celeste — flutua entre ambientações que escapam do trompete de Mendonça e a rica tapeçaria eletrônica que se espalha ao fundo do disco. Por vezes contido como a inaugural Plutão indica, o novo álbum acaba criando uma involuntária ponte para o som produzido há oito anos no primeiro registro inéditas do Guizado, efeito da atmosfera climática que ocupa grande parte da obra.

Perceba como as guitarras, batidas e todo o pano de fundo instrumental se orienta de forma a alavancar o trompete de Mendonça. A mesma base atmosférica que cresce em músicas já conhecidas como Sagitariu’s Dream e Vermelho, porém, maquiada pelo uso de ruídos eletrônicos, futurísticos. Um curioso remix, como se o time de músicos – completo com Thiago Duar (baixo, sintetizadore e cordas), Beto Montag (vibrafone elétrico) e Allen Alencar (guitarra) – brincasse de forma ativa com a reciclagem de ideias.

Mesmo ancorado em elementos anteriormente testados por Mendonça em outros discos, Guizadorbital se abre para uma série de novos experimentos e possibilidades rítmicas. São vozes sampleadas, como o canto melancólico que cresce em loop ao fundo de Júpiter, os versos declamados em Netuno e toda a massa de ruídos sujos que se pouco a pouco se agrupam no interior do trabalho. Seis composições claramente distintas, mas que se amarram de forma a revelar um material essencialmente complexo, hipnótico.

Continue Reading "Resenha: “Guizadorbital”, Guizado"