Tag Archives: Experimental

Disco: “Ava Patrya Yndia Yracema”, Ava Rocha

Ava Rocha
Indie/Alternative/Experimental
http://www.avarocha.com/

Fotos: Daryan Dornelles

“Iniciante” é uma palavra que não se aplica ao trabalho de Ava Rocha. Filha do cineasta Glauber Rocha (1939 – 1981), a artista que já se relacionou com diferentes campos da artes, como o teatro, cinema e, em 2011, apresentou o primeiro álbum com a banda Ava, Diurno, encontra no primeiro trabalho em carreira solo um espaço em branco, entregue ao experimento e criação. Uma obra tecida com simplicidade e referências talvez óbvias – como Gal Costa e Cássia Eller -, entretanto, lentamente joga com a interpretação do ouvinte, provocado pelos momentos de caos e acolhido nos instantes de explícita melancolia.

Queria um disco pop, inventivo, quente, político, sensual, um disco que reunisse uma série de elementos com uma linha inventiva, que a gente pudesse pirar”, disse a cantora em entrevista ao G1. Curioso encontrar em cada faixa de Ava Patrya Yndia Yracema (2015, Independente) uma pequena porção de cada um dos temas apresentados pela cantora, também responsável pelos versos que sustentam a presente obra. Sem necessariamente perder o controle, ou tropeçar, o registro que conta com a participação de Pedro Sá, Domenico Lancelotti e os quatro integrantes da banda carioca Do Amor é uma obra que delira, explode e encolhe a todo o instante.

Ao mesmo tempo em que a inaugural Boca do Céu aproxima a artista do mesmo universo “denso” da cena paulistana criada por membros do Metá Metá e Passo Torto, em minutos, o romantismo de Você não vai passar e Transeunte Coração arremessa sem dificuldades o ouvinte para um novo cenário de possibilidades – muito mais pop, descomplicado e acessível. Como indicado logo na capa do disco, uma imagem de temática nonsense, talvez lisérgica, APYY é um trabalho feito para brincar com interpretação do ouvinte, longe de prováveis pontos de apoio e imposições óbvias.

Parte desse resultado surge como um efeito direto da interferência de Jonas Sá, produtor do disco. Convidado para trabalhar com a cantora em estúdio, o cantor e compositor carioca transporta para dentro do álbum parte da estética, sonoridade, excentricidade e referências também exploradas no interior de BLAM! BLAM! (2015), último registro solo do músico. A diferença está na direção assumida por cada artista. Enquanto Sá assume uma trilha marcada pela sexualidade e versos focados na boemia, Rocha mergulha de cabeça na própria intimidade, detalhando relacionamentos fracassados, temas existencialistas e tormentos que bagunçam a mente de qualquer indivíduo. Continue reading

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Disco: “A Year With 13 Moons”, Jefre Cantu-Ledesma

Jefre Cantu-Ledesma
Experimental/Ambient/Drone
https://jefrecantu-ledesma.bandcamp.com/
https://soundcloud.com/jefre-cantu-ledesma

A delicada ilustração que estampa a capa de A Year With 13 Moons (2015, Mexican Summer) traduz com acerto o trabalho do multi-instrumentista Jefre Cantu-Ledesma. Formas e arranjos coloridos, flutuando sem direção, passagem para um cenário marcado pela montagem abstrata dos temas. Pequenas pinceladas de ruídos que mesmo entregues em um contexto torto, sujo e experimental, aos poucos parece confortar o ouvinte, costurando temas como amor, separação e isolamento sem necessariamente fazer uso das palavras.

Original da cidade de São Francisco, Califórnia, Cantu-Ledesma passou as últimas duas décadas flertando e se envolvendo com diferentes projetos espalhados por todo o território norte-americano. Coletivos como a banda de Pós-Rock Tarentel – em atuação desde 1995 -, ou mesmo trabalhos assinados em parceria com diversos nomes da cena experimental – caso de Liz Harris (Grouper), Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) e Keith Fullerton Whitman. Nada que sintetize tamanha beleza e melancolia quanto o presente registro do músico.

Inspirado pelo divórcio do artista, A Year With 13 Moons é uma coleção de faixas alimentadas pela tristeza. Ainda que a faixa de abertura, The Last Time I Saw Your Face, brinque com a colagem de ruídos de forma irregular, arremessando o ouvinte para diferentes direções, quanto mais passeamos pelo disco, mais Cantu-Ledesma detalha ao público o próprio sofrimento. Confissões que surgem como pequenas pistas no título de cada faixa – Love After Love, At the End of Spring, Dissapear – e crescem na manipulação amargurada das melodias.

Autor de uma coleção de contos sentimentais, Cantu-Ledesma assume um caminho isolado em relação ao trabalho de outros representantes da Ambient Music. Nada de atos extensos ou composições penosas, excessivamente longas. Salve a extensa canção de abertura – com mais de oito minutos de duração – A Year With 13 Moons mantém firme a busca do multi-instrumentista pela construção de faixas rápidas. Composições aos moldes de Interiors e Remembering, incapazes de ultrapassar os dois minutos de duração. Continue reading

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Morly: “And Sooner Than We Know It…”

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Já imaginou como seria uma versão “mais pop” do mesmo trabalho de artistas como Grouper e Julianna Barwick? A resposta talvez esteja confortavelmente instalada dentro das composições de Katy Morly. Com um EP de quatro faixa a ser lançado pelo selo Cascini nas próximas semanas – In Defense of My Muse (2015) -, é hora de ter acesso à uma das criações mais delicadas e comoventes já compostas pela jovem artista: And Sooner Than We Know It….

Utilizando de sintetizadores pueris, um coro de vozes angelicais e uso controlado das batidas, Morly apresenta ao público um som tocado pela sutileza dos temas. Como o próprio selo definiu no texto de apresentação do EP: “experimentos Lo-Fi em um espaço de transição entre a tristeza e a felicidade“. Enquanto o novo trabalho de Morly é apresentado oficialmente ao público, uma boa dica é correr atrás de faixas lançadas pela musicista nos últimos meses, caso de Maelstrom, produzida especialmente para o selo Secret Songs, de Ryan Hemsworth.

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Morly – And Sooner Than We Know It…

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Disco: “BLAM! BLAM!”, Jonas Sá

Jonas Sá
Nacional/Experimental/Alternative
https://www.facebook.com/jonassa.blamblam   
https://soundcloud.com/jonas-s-1

Em 2007, quem se deixou guiar pela vinheta de Anormal durante os intervalos na programação da Rede Globo, provavelmente levou um susto. Parte do processo de divulgação do recém-lançado selo SLAP – braço “independente” da Som Live -, a canção vendida apenas pelo refrão – “Todo mundo pensa que ele é anormal” – assumia uma sonoridade “curiosa” quando observada em essência, indicando um conceito ainda mais excêntrico, torto e musicalmente instável do pop tradicional quando analisada ao lado das demais composições do disco.

Em BLAM! BLAM! (2015, Coqueiro Verde), segundo e mais recente álbum de estúdio do carioca Jonas Sá, uma explícita continuação desse mesmo catálogo de (estranhas) referências. Do som eletrônico que abre o disco na inaugural 8 Bit, passando pela pervertida Chat Roulette, até alcançar a dançante Sexy Savannah, quase no fechamento do trabalho, versos, vozes, instrumentos e até mesmo os ruídos parecem articulados de forma a revelar um álbum marcado pelo experimento e completo erotismo.

Mais do que um atrativo para o ouvinte desapercebido, a provocativa imagem de capa funciona como um eficiente resumo para o conceito referencial que sustenta todo o trabalho. Trata-se de uma “homenagem” à sexualidade própria do brasileiro. Um passeio atual e ao mesmo tempo nostálgico pelos clássicos de Pornochanchada e outras mídias tomadas pelo erotismo. O próprio encarte do disco é “inspirado em revistas de pornografia de baixo custo das décadas de 1970 e 1980, conta com dois homens nus e muitos seios”, revelou Sá em entrevista ao jornal O Globo.

Muito além do visual, a relação do artista com a década de 1970/1980 funciona de estímulo para toda a composição instrumental da obra. Soul (Gigolô), Funk (Fundo do Olhar), chansons francesas (J’espère, Adèle), Synthpop (8 Bit), Techno (Sexy Savannah) e até passagens pela música tropicalista (Não é Adeus). Uma coleção de fórmulas, arranjos e fragmentos musicais completamente inusitados. Fórmulas empoeiradas que fazem do álbum um verdadeiro delírio musical, imprevisível.    Continue reading

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Chelsea Wolfe: “After The Fall”

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Explícita é a transformação de Chelsea Wolfe com as primeiras canções de Abyss (2015). Mesmo íntima da sonoridade obscura que marca toda a sequência de obras apresentadas nos últimos anos, a busca por um som de bases experimentais, levemente “iluminadas”, parece distanciar o trabalho da artista em relação ao uso de temas góticos encaixados até o último registro de inéditas da cantora, o excelente Pain Is Beauty, de 2013.

Mais novo lançamento de Wolfe, After the Fall sintetiza parte das recentes mudanças dentro da carreira da artista. Em um ambiente próximo de Vulnicura (2015), mais recentes álbum de Björk, a canção de quase seis minutos dança em meio a batidas, bases e vozes marcadas, sempre sombrias, íntimas das ambientações perturbadoras da década de 1980 e de grupos como Cocteau Twins e This Mortal Coil.

Abyss (2015) será lançado no dia 07 de agosto pelo selo Sargent House.

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Chelsea Wolf – After The Fall

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Amplexos: “Sendeiro”

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A Amplexos está de volta. Três anos após o lançamento de A Música da Alma, um dos melhores discos nacionais de 2012, Sendeiro (2015) marca a passagem para um novo universo de possibilidades dentro da carreira da banda. Na trilha mística e política de Jerusalem, último registro inédito do grupo de Volta Redonda, Rio de Janeiro, o novo álbum sustenta no experimento uma lenta desconstrução das melodias arrastadas, típicas do Reggae-Rock, testado pelo coletivo no decorrer do primeiro álbum de estúdio.

São sete composições, trabalho que conta com a produção do próprio grupo e gravações assinadas por Buguinha Dub, parceiro de longa data da banda. Com masterização de Tomas Joshen no estúdio Patagonia, na cidade de Santiago, Chile, o álbum ainda conta com a participação do guitarrista nigeriano Oghene Kologbo, um dos integrantes da banda original de Fela Kuti. Disponível para download gratuito na página oficial do grupo, Sendeiro também pode ser apreciado logo abaixo:

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Amplexos – Sendeiro

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DJ-Kicks: 10 Discos Essenciais

Lançada em 1995 pelo selo germânico !K7 Records, a série DJ-KiCKS é de longe um dos projetos mais importantes (e versáteis) da música eletrônica atual. Originalmente pensada como um resumo da cena Techno/House que se espalhava pela Europa na década de 1990, a seleção de obras lentamente expandiu seus conceitos, absorvendo diferentes panoramas, gêneros e preferências musicais em mais de 20 anos de produção. Entre trabalhos assinadas por produtores (Four Tet, Carl Craig), músicos (Erlend Øye, Annie) e até mesmo bandas (Hot Chip, Chromeo), a série acaba ter o 50º registro apresentado ao público. Para celebrar a sequência de lançamentos, um resumo com 10 discos essenciais do catálogo DJ-KiCKS. Continue reading

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Dolphins into the Future: “Songs Of Gold, Incandescent”

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Sons extraídos da natureza, ruídos projetados por animais, o barulho do vento, ondas, crepitar das chamas e trechos de músicas produzidas por diferentes culturas espalhadas pelos quatro cantos do globo. Essa é a base do recém-lançado Songs Of Gold, Incandescent (2015), mais novo trabalho do produtor belga Lieven Martens dentro do projeto de ambient music Dolphins into the Future.

Dono de uma vasta coleção de obras disponíveis para download pelo Bandcamp, o artista transforma o novo álbum em um passeio por um imenso paraíso tropical. São captações ambientais que passeiam pelo sul de Portugal, visitam ilhas ao longo de todo o Oceano Pacífico e até ruídos Lo-Fi que parecem resgatados de alguma fita VHS dos anos 1980. Faixas que convertem o som de água fervente em música (A Treatise on Hot Water, Version), ou mesmo canções que “adaptam” o canto de antigas comunidades espalhadas pelo Hawaii (Sweeten the Mango).

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Dolphins into the Future – Songs Of Gold, Incandescent

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The Chemical Brothers: “EML Ritual” (Feat. Ali Love)

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Mesmo com poucos dias para o lançamento de Born in the Echoes (2015), Tom Rowlands e Ed Simons ainda reservam uma série de composições capazes de impressionar qualquer ouvinte. Depois de abraçar a psicodelia em Sometimes I Feel So Deserted e brincar com o pop na pegajosa Go, são os mesmos experimentos testados em Under Neon Lights, parceria com a cantora St. Vincent, que inspiram a recém-lançada EML Ritual.

De fato pensada como uma composição “ritualística”, a faixa em parceria com o cantor britânico Ali Love cresce como uma lenta sobreposição de vozes, batidas instáveis e sintetizadores sujos. São quase seis minutos em que Rowlands, Simons e Love brincam com a interpretação do ouvinte, lançado a diferentes cenários – muitos deles obscuros – sem necessariamente perder a temática dançante que abre e finaliza a canção.

Born in the Echoes (2015) será lançado no dia 17/07 pelo selo Astralwerks.

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The Chemical Brothers – EML Ritual (Feat. Ali Love)

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Disco: “O∆”, London O’Connor

London O’Connor
Hip-Hop/Psychedelic/Alternative
https://www.facebook.com/LondonOConnor

A música de London O’Connor é torta, estranha e, consequentemente, hipnótica. Personagem curioso da nova safra de representantes do Hip-Hop nova-iorquino, o artista de 24 anos encontra no primeiro álbum em carreira solo uma obra entregue ao experimento. Um passeio que começa pela mente (e versos) perturbados do compositor, segue de forma segura pelo Rap dos anos 1990 e só estaciona no final dos anos 1960, flertando com a mesma sonoridade de artista como The Velvet Undergound e outros gigantes que bagunçaram a música produzida no leste dos Estados Unidos.

Apresentado em pequenas “doses” no perfil de O’Connor no Soundcloud, O∆ (2015, Independente) é uma fuga de limites conceituais e bases previsíveis. Em um misto de canto, rima e lamentações, a formação de um registro de essência particular, isolado, como se diferentes tormentos sentimentais e existencialistas do jovem artista fossem essencialmente expostos e dissecados em cada instante sombrio que preenche o trabalho.

Interessante perceber que mesmo dentro de um cercado de versos e experiências particulares, O∆ está longe de parecer uma obra reclusa, pouco convincente. Em uma estrutura melódica, O’Connor revela ao público uma coleção de 10 faixas musicalmente atrativas, talvez não comerciais, porém, dificilmente ignoradas. Logo de cara, a dobradinha formada por OATMEAL e NATURAL, músicas que brincam com as mesmas melodias de vozes de grupos de músicas pop nos anos 1960, como das batidas minimalistas de Fever Ray e outros nomes recentes da música eletrônica.

Mesmo que o “pop” não seja a palavra certa para caracterizar o trabalho do rapper/cantor, escapar da armadilha de harmonias etéreas e versos pueris ressaltados em Nobody Hangs Out Anymore ou GUTS é uma tarefa quase impossível. São mais de cinco décadas de referências disformes, opositoras, mas que dialogam de forma segura até o encerramento da obra, sempre amarradas pela lírica sensível, pós-adolescente e particular de O’Connor. Continue reading

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