Tag Archives: Female Vocalists

Julia Holter: “Sea Calls Me Home”

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Poucas vezes antes Julia Holter pareceu ser capaz de produzir um som tão grandioso quanto em Sea Calls Me Home. Segunda canção de Have You In My Wilderness (2015) a ser apresentada ao público, a faixa recheada de arranjos de cordas, metais e vozes límpidas reforça a linha melódica assumida em Feel You, composição lançada há poucas semanas, ao mesmo tempo em que deixa o caminho livre para o acervo de 10 novas faixas que abastecem o quarto álbum de inéditas da cantora norte-americana.

Assim como em Feel YouSea Calls Me Home soa como uma versão “ensolarada” do Chamber-Pop-Jazzístico explorado por Holter no antecessor Loud City Song (2013). Batidas, pianos, assobios e o saxofone em eco no final da canção, tudo parece encaixado com perfeição e boa dose de sutileza, deixando o caminho livre para a entrada dos vocais de Holter, cada vez mais distante do som etéreo apresentado nos iniciais Tragedy (2011) e Ekstasis (2012).

Have You In My Wilderness (2015) será lançado no dia 25/09 pelo selo Domino.

Julia Holter – Sea Calls Me Home

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Disco: “M3LL155X”, FKA Twigs

FKA Twigs
R&B/Electronic/Trip-Hop
http://fkatwi.gs/

Pouco mais de dois anos, esse foi o tempo necessário para que FKA Twigs se transformasse na nova queridinha da música pop. Destaque em capas revista, publicações especializadas e até novo “ícone da moda”, a cantora, compositora e produtora britânica parece longe de alcançar uma possível zona de conforto, reformulando a própria imagem a cada trabalho em estúdio. Prova disso está no lançamento de M3LL155X (2015, Young Turks), mais recente registro de inéditas e álbum em que somos apresentados ao novo “personagem” criado pela artista: Melissa.

Alter ego feminista da cantora, a personagem parece ser a forma encontrada por Twigs para discutir diferentes aspectos (e tormentos) do universo feminino. Um catálogo curto, cinco composições que, mesmo orquestradas por arranjos e batidas íntimas do R&B/Pop, mantém firme o discurso e a sobriedade da artista britânica, tão provocativa e comercial quanto no último registro de inéditas, LP1 (2014). Canções marcadas por abusos (I’m Your Doll), sexualidade (In Time) e abandono (Glass & Patron).

Talvez efeito da “máscara” utilizada pela cantora, M3LL155X curiosamente se articula como o trabalho mais intimista, confessional e acessível da curta trajetória de FKA Twigs. A cada nova faixa, uma sequência de sussurros amargurados, versos costurados pelo romantismo e a profunda melancolia da compositora. “Olhe nos meus olhos, nos meus olhos / Completa, estou aqui / Estou aqui, estou aqui / Olhe nos meus olhos / E diga que você também está aqui”, grita a desesperada personagem em I’m Your Doll, música que sintetiza todo o sofrimento explorado no decorrer da obra.

Não são apenas os versos que refletem a completa transformação de Twigs. Com assinatura do produtor norte-americano BOOTS – mesmo responsável pelo último disco da cantora Beyoncé -, M3LL155X é o trabalho em que o som incorporado de forma experimental pela artista britânica é delicadamente derrubado. Do encaixe límpido das vozes, passando pelo uso descomplicados das batidas e bases, diversos são os momentos da obra em que Twigs parece entregue ao grande público. Continue reading

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Lana Del Rey: “Terrence Loves You”

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De todas as composições apresentadas por Lana Del Rey para o quarto álbum de inéditas, Honeymoon (2015), Terrence Loves You talvez seja a faixa que mais se assemelha ao material entregue pela cantora no antecessor Ultraviolence, de 2014. Guitarras enevoadas, pianos, clima jazzistico e a voz sempre arrastada da artista, como uma espécie de instrumento. Quase uma fuga das batidas expostas em High By The Beach ou mesmo do “clima de trilha sonora” reforçado na faixa-título do novo disco.

Em Terrence Loves You, o amor ainda funciona como principal componente para o trabalho de Del Rey. “I lost myself when I lost you/ But I still got jazz when I’ve got the blues”, suspira a cantora em um jogo de confissões melancólicas, base de toda a sequência de faixas apresentadas nas últimas semanas. Sobram guitarras densas, a interferência de um saxofone ao fundo da canção, além do uso apurado de melodias de piano sofisticadas, elemento que inevitavelmente dialoga com o trabalho de Angelo Badalamenti na trilha sonora de Twin Peaks.

Honeymoon (2015) será lançado no dia 18/09 pelos selos Polydor e Interscope.

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Lana Del Rey – Terrence Loves You

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Disco: “Abyss”, Chelsea Wolfe

Chelsea Wolfe
Experimental/Gothic/Alternative Rock
http://www.chelseawolfe.net/

Clima denso, doses exageradas de distorção, gritos, uivos e desespero. Bastam os minutos iniciais de Carrion Flowers para perceber que o som explorado por Chelsea Wolfe em Abyss (2015, Sargent House) é ainda mais perturbador do que qualquer outro registro entregue pela musicista. Uma obra controlada por pesadelos, guitarras sujas e a sempre voz melancólica da cantora, ainda íntima do mesmo catálogo de referências líricas que a apresentaram no final dos anos 2000, porém, dona de um material cada vez mais adulto, desafiador.

Longe de parecer uma extensão do último álbum da cantora, o também sombrio Pain Is Beauty (2013), cada faixa do presente disco soa como uma precisa desconstrução da curta trajetória de Wolfe. Nos versos, o mesmo caráter intimista e confessional originalmente exposto em The Grime and the Glow (2010). Entretanto, em se tratando dos arranjos e vozes, uma verdadeira explosão. Sentimentos e ruídos que arrastam o ouvinte até o último grito do trabalho.

Agressivo, Abyss potencializa uma série de conceitos e referências antes restritas dentro do trabalho de Wolfe. Da abertura com Carrion Flowers, passando por faixas como Iron Moon, Dragged Out e Survive, nítido é o interesse da cantora em brincar com diferentes aspectos do Rock Alternativo dos anos 1990 – principalmente Nirvana e PJ Harvey – sem necessariamente abandonar os tradicionais toques de música eletrônica incorporados no disco anterior.

Parte expressiva desse acerto está na escolha de John Congleton como produtor do disco. Mais conhecido pelo trabalho com a banda The Paper Chase, Congleton que já trabalhou com diferentes artistas como Swans, Nelly Furtado, St. Vincent e Sigur Rós assume a responsabilidade por manter a coerência dentro do álbum, amarrando todas as pontas soltas deixadas por Wolfe. Como resultado, o nascimento de uma obra tão íntima dos arranjos sombrios do Sun O))), quanto da eletrônica provocativa de Fever Ray. Continue reading

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Joanna Newsom: “Sapokanikan” (VÍDEO)

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Joanna Newsom costuma levar bastante tempo entre um trabalho e outro, nada que se compare com os cinco anos que a norte-americana precisou para finalizar Divers (2015). Quarto registro solo da cantora e musicista, o sucessor de Have One on Me, álbum triplo apresentado em 2010, parece seguir uma trilha completamente distinta em relação ao som “élfico” e bucólico dos primeiros trabalhos em estúdio da artista. Um explícito diálogo entre temas urbanos e elementos do Jazz que cresce de forma natural com a chegada de Sapokanikan, faixa de apresentação do novo disco de Newsom.

Versão talvez sorridente dos mesmos conceitos levantados por Fiona Apple em The Idler Wheel… (2012), a canção recheada de pianos, batidas secas e vocais límpidos lentamente afasta o universo de harpas e instrumentos “exóticos” explorados pela artista desde o primeiro disco The Milk-Eyed Mender (2004). Nada que prejudique o trabalho de Newsom, pelo contrário, explícito é o caráter jovial das vozes e arranjos que cercam a cantora, também sorridente e dançante no clipe assinado de forma precisa pelo cineasta Paul Thomas Anderson (Sangue Negro, Magnólia).

Divers (2015) será lançado no dia 23 de outubro pelo selo Drag City.

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Joanna Newsom – Sapokanikan

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Kate Boy: “Midnight Sun” (VÍDEO)

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Kate Akhurst passou os últimos três anos atiçando a curiosidade do público. Voz aos comandos do projeto Kate Boy, a artista australiana, hoje residente na cidade de Estocolmo, Suécia, transformou músicas como The Way You Are e In Your Eyes em exemplares interessantes da nova safra do Synthpop europeu. Pequenos ensaios para o que deve ser apresentado em completude com o lançamento do álbum ONE (2015), primeiro registro oficial da cantora/produtora.

Escolhida para representar o trabalho, Midnight Sun mantém firme as principais referências e temas que apresentaram a jovem. Uma colagem atenta que conceitos que se estende do final da década de 1990, passa pela obra de diferentes artistas locais, principalmente Robyn e The Knife, mas em nenhum momento se desprende de uma interpretação em “preto e branco” da música pop, sempre sombria, amargurada. Lançada há poucos dias, junto do anúncio da estreia de ONE, a canção reaparece agora acompanhada de um clipe dirigido pela própria Kate Boy.

ONE (2015) será lançado pelos selos Fiction, Island e Iamsound.

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Kate Boy – Midnight Sun

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Disco: “Pageant Material”, Kacey Musgraves

Kacey Musgraves
Country/Female Vocalists/Folk
http://kaceymusgraves.com/

É difícil escapar da voz doce de Kacey Musgraves. Ainda que o interesse do ouvinte pela música Country seja limitado (ou talvez inexistente), basta um passeio pelo jogo de melodias delicadas tecidas pela cantora de Mineola, Texas para que a identificação seja imediata. Uma sensação explícita desde o lançamento de Same Trailer Different Park (2013), primeiro trabalho da jovem artista dentro de um grande gravadora, e marca reforçada com maior naturalidade nas confissões que movem Pageant Material (2015, Mercury Nashville).

Quinto álbum de inéditas da cantora e segundo trabalho com lançamento pelo selo Mercury Nashville – braço sertanejo da gigante Universal Music e casa de artistas como Shania Twain e Billy Currington -, Pageant Material é um álbum que encanta pelas melodias. Da voz doce que inaugura o disco em High Time, passando pelos violões de Die Fun ou temas melancólicos Family Is Family e Fine, cada segundo dentro da obra soa como uma tentativa de Musgraves em acolher e confortar o ouvinte.

Esboçando uma coerência talvez maior do que a montagem explícita no antecessor Same Trailer Different Park, cada música do presente disco serve de base para a faixa seguinte, preferência que seduz e acompanha o público até os instantes finais da obra. Pouco mais de 40 minutos de duração que se extinguem com uma leveza rara, espaço em que Musgraves colide arranjos típicos da década de 1960 sem necessariamente romper com a presente cena Country em todo o território norte-americano.

Dividida entre o mesmo som “alternativo” de Jenny Lewis e o country-pop de nomes como Miranda Lambert e Lady Antebellum – com quem a cantora vem excursionando nos últimos anos -, Musgraves parece trilhar um caminho particular. Ao mesmo tempo em que sustenta versos marcados pelo completo tempero comercial, difícil encarar o recente trabalho da cantora como uma obra “vazia”. Há uma honestidade rara nos versos descritivos de Dime Store Cowgirl e principalmente doce tristeza na forma como a artista orienta faixas aos moldes de Somebody To Love. Continue reading

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Disco: “Emotion”, Carly Rae Jepsen

Carly Rae Jepsen
Pop/Synthpop/R&B
https://www.carlyraemusic.com/

Quem se deixou guiar apenas por Call Me Maybe ou, pelo mesmo motivo, torceu o nariz para o segundo álbum solo de Carly Rae Jepsen, talvez tenha deixado passar um dos grandes exemplares da música pop recente. Por trás do romantismo plástico de Kiss (2012), um time seleto de produtores e a confessa necessidade da artista em brincar com o gênero, adaptando referências espalhadas por toda a década de 1980. Exagero em torno de uma “simples cantora pop”? Então como explicar a coleção de acertos e composições também radiantes de Emotion?

Terceiro registro em estúdio da artista canadense, o novo trabalho segue a cartilha de um típico registro pop: um arrasa quarteirão para as pistas de dança (I Really Like You), uma dobradinha de composições capazes de estender a permanência da jovem nas paradas de sucesso (Gimmie Love, Your Type), além, claro, de uma melancólica balada romântica (All That). Faixas de natureza radiofônica, comerciais, porém, alicerçadas em cima de um abrangente catálogo de referências.

Em entrevista à revista Billboard, Jepsen apontou nomes como “Robyn, Kimbra, La Roux e Dragonette” entre as principais influências do novo álbum. Artistas de fato centradas na música pop, porém, alheias ao som fabricado em grande parte dos estúdios norte-americanos. Bastam os saxofones nostálgicos de Run Away With Me, música de abertura do presente disco, para perceber o quanto Jepsen mantém distância desse cenário, buscando em conceitos, temas instrumentais e disputados produtores da “cena alternativa” uma espécie de novo refúgio criativo.

Do time original de produtores que acompanharam Jepsen em Kiss, poucos sobreviveram. Para ocupar a lacuna, “novatos” como Ariel Rechtshaid (Haim, Sky Ferreira), Devonté Hynes (Blood Orange) e Rostam Batmanglij (Vampire Weekend, Discovery). Mesmo na construção das faixas mais pegajosas do disco, como I Really Like You e Your Type, a busca da cantora por produtores e compositores alheios ao cenário estadunidense serve de estímulo para o nítido toque de renovação da obra. São veteranos da música sueca – como Rami Yacoub, Carl Falk e Peter Svensson – e até conterrâneos da cena indie canadense – caso de Zachary Gray (The Zolas) e Ajay Bhattacharyya (Data Romance). Continue reading

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Helen: “Motorcycle”

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Com o lançamento e boa recepção de Ruins (2014), Liz Harris acabou alcançando uma nova massa de ouvinte, foi descoberta por boa parte da imprensa e ainda estabeleceu nas melodias delicadas do trabalho uma espécie de ápice criativo dentro da própria carreira. E agora, qual sonoridade, tema ou conceito seguir? A resposta está novo novo projeto da artista, Helen, um coletivo de Dream Pop completo com Jed Bindeman (bateria) e Scott Simmons (guitarras, baixo).

Fuga das ambientações caseiras testadas pela artista até poucos meses, a nova banda sustenta na enérgica e recém-lançada Morotcycle um resumo natural da série de canções que vão abastecer The Original Faces (2015), primeiro registro oficial da banda. Um jogo sujo de vozes, guitarras e batidas velozes, como um indicativo de que por ora, o som etéreo projetado por Harris será conceitualmente abafado.

The Original Faces (2015) será lançado no dia 04/09 pelo selo Kranky.

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Helen – Motorciycle

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Disco: “Sympathy”, GABI

GABI
Experimental/Chamber Pop/Ambient
https://www.facebook.com/officialGABI
http://www.gabi-music.com/

A voz parece ser o principal instrumento de Gabrielle Herbst. Mesmo com formação erudita em piano e clarinete, são os atentos coros de vozes, sobreposições delicadas e pequenas manipulações orquestrais que garantem vida, movimento e beleza ao ambiente criado para o primeiro disco solo da compositora nova-iorquina, Sympathy (2015, Software).

Filha do musicólogo Edward Herbst, interessada em ópera, dança balinesa e  profunda conhecedora da música de câmara, Herbst, aqui apresentada pelo nome de GABI, parece brincar com a própria formação musical – familiar ou acadêmia. Em uma montagem precisa, essencialmente detalhista, cada composição assume um conceito específico, revelando desde elementos da música sacra (Hymn), como referências extraídas do trabalho de Kate Bush (Falling), Björk (Da Void) e demais representantes do Art Pop .

Mesmo dominado pelas vozes e sentimentos entristecidos da musicista, Sympathy está longe de parecer uma obra hermética, fruto do total isolamento de Herbst. Com produção de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never) e Paul Corley (Tim Hecker, Ben Frost), o álbum lentamente se entrega ao domínio e parcial interferência do seleto time de colaboradores formado por Matthew O’Koren (percussão), Rick Quantz (viola), Josh Henderson (violino) e Aaron Roche (guitarras, trombone).

Perceba como os sintetizadores de Lopatin crescem ao fundo da obra. Um fino tecido sonoro, quase imperceptível, porém, essencial para a composição do ambiente sombrio que define Sympathy. Aaron Roche é outro que interfere ativamente na formação do disco. Para ocupar as pequenas lacunas de voz deixadas pela cantora, o guitarrista espalha imensos blocos de ruídos, pilares para o fortalecimento de faixas extensas como Home. Continue reading

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