Pato Fu
Alternative/Pop/Electronic
http://patofu.com.br/

Por: Cleber Facchi

Vocais brandos, melodias encorpadas pela leveza e serenidade. Longe da euforia exposta no primeiro álbum de estúdio, Rotomusic de Liquidificapum (1993), com o lançamento do álbum Daqui Pro Futuro (2007), o Pato Fu parecia sustentar o ato final de um extenso processo de amadurecimento e filtragem dentro dos próprios conceitos. Não por acaso, passado a entrega do oitavo registro da carreira, todos os esforços da banda foram apontados para fora, em projetos paralelos – como os discos solo de Fernanda Takai e Ricardo Koctus -, um álbum de versões – Música de Brinquedo (2010) -, e até mesmo no diálogo de John Ulhoa com a produção de outros artistas. O evidente encerramento de uma jornada.

Em um exercício elétrico, como um reboot, ao pisar no território instável de Não Pare Pra Pensar (2014, Rotomusic), nono e mais recente álbum de inéditas do grupo mineiro, todo o “descontrole” incorporado na década de 1990 volta a movimentar o trabalho da banda. Colagens eletrônicas, guitarras insanas e a tradicional desconstrução do pop convencional. Ainda que a voz de Takai pareça tão macia e confortável quanto no debut solo Onde Brilhem os Olhos Seus (2009), em se tratando dos arranjos e temas a direção é outra.

Síntese perfeita de todo o material pensado para o disco, a inaugural Cego Para As Cores apresenta a “nova” direção assumida pelo reformulado quinteto – ex-baterista, Xande Tamietti agora dá lugar ao “novato” Glauco Nastacia. Enquanto as bases eletrônicas se aproximam das referências lançadas pós-Isopor (1999) – um som meio Trip-Hop, meio Drum’n’Bass -, a guitarras e baixo da música invadem o mesmo espaço de obras como Televisão de Cachorro (1998) e Gol de Quem? (1994). Intencional ou não, a ordem aqui é brincar com as possibilidades.

Feito um pequeno livro de recortes, há espaço para tudo, como se cada canção partisse de uma direção específica. Sertanejo em Eu Era Feliz, o rock dos anos 1970 em You Have To Outgrow Rock’n Roll, e até uma colisão de todos os elementos em Ninguém Mexe Com o Diabo, uma das melhores composições já assumidas pelo vocal de Ulhoa. A jugar pela constante quebra entre as faixas, não seria um erro encarar o presente disco como um irmão bastardo da sequência de obras lançadas pela banda há duas décadas.

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Silva
Indie/Synthpop/Electronic
http://silva.tv/

Por: Cleber Facchi

Silva

Bastam os instantes iniciais de Vista Pro Mar (2014, Slap), segundo álbum de estúdio do capixaba Silva, para perceber que os rumos do artista agora são outros. “Eu sou de remar/ Sou de insistir/ Mesmo que sozinho”. Como bem entregam os versos da autointitulada faixa de abertura, o cantor e compositor contorna a própria timidez do álbum de estreia, Claridão (2012), em busca de uma sonoridade abrangente, ainda que intimista e naturalmente particular. Um eco entre a melancolia (agora ensolarada) e o constante diálogo com o público, exercício que ultrapassa os limites da poesia sorumbática, mergulha nos arranjos versáteis e cresce como um genuíno cardápio da música pop.

Como já havia confessado em entrevista, “Vista Pro Mar foi feito num momento diferente”, trata-se de um trabalho que nasceu na “Flórida com dias ensolarados, numa piscina, de férias, vendo gente bonita, ouvindo Poolside, João Donato, Cashmere Cat e Frank Ocean”. Dentro desse novo conjunto de referências, Silva apresenta ao público um álbum que emula sensações litorâneas, premissa instalada nos samples de ondas e ruídos praianos que preenchem todo o álbum. Veranil, o disco usa dessa mesma sensação nostálgica como um mecanismo de composição para as faixas. Um estágio permanente que se divide entre a calmaria atual e a sensação de despedida que aos poucos se aproxima e rege a ambientação lírica das faixas.

Por vezes contradizendo o estágio de euforia anunciado pelo próprio criador, o novo álbum se apresenta como um mosaico de delicadas sensações – algumas felizes, outras naturalmente tristes. Um trabalho que sorri de forma evidente, mas amarga (de maneira quase inevitável) a futura separação. A julgar pelo detalhamento de faixas como Entardecer e É Preciso Dizer, Vista Pro Mar se faz como um trabalho marcado de forma expressiva pelo isolamento do músico. Gravado em Portugal, o disco não esconde a sensação de “última semana de férias”, como se o músico desfrutasse de todas as mordomias – sentimentais e físicas -, mas avistasse de perto o fim desse ambiente sabático.

Silva

Ainda que entristecido em diversos aspectos instrumentais e líricos, o presente álbum mantém firme o toque esperançoso que orquestra os sentimentos do cantor. Enquanto Claridão se revelava como um trabalho consumido pela saudade (Moletom), descrença (Cansei) e até uma estranha aceitação da morte (2012), Vista Pro Mar contorna a melancolia e suspira doces percepções. Basta a carga de sentimentos entusiasmados no interior de Janeiro (“A gente pode sem medo/ Se pertencer/ O amor é cego, mas hoje/ Eu posso ver tão bem”) para perceber que os rumos aqui são outros. Há tristeza (Volta) e constante amargura (É Preciso Dizer), mas a vontade de seguir em frente parece ainda maior.

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. Ato final antes da chegada do esperado Vista Pro Mar, Okinawa, mais nova música do capixaba Silva, reforça a completa capacidade do músico em dialogar com o grande público. Parceria com a cantora Fernanda Takai (Pato Fu), a nova composição ultrapassa os limites estéticos do artista sem necessariamente romper com a base conceitual do músico, tratamento que vai das vozes aos sintetizadores até o último segundo da canção. Seguindo a trilha das três outras músicas lançadas pelo cantor – Universo, Janeiro e É Preciso…Continue Reading “SILVA: “Okinawa” (feat. Fernanda Takai)”

. Quando você pensa que as composições de Silva vão cair em um estágio inevitável de conforto e redundância, eis que o músico capixaba parece encontrar uma nova solução. Ainda apontado para a década de 1980, como as recém-lançadas Janeiro e É Preciso Dizer conseguiram revelar, Universo, nova música do cantor revela as pequenas estranhezas e doses de experimento que abastecem o ainda inédito Vista Pro Mar (2014), segundo trabalho de estúdio do músico. Marcada pelas pequenas pausas e atos complementares, a canção compre com…Continue Reading “Silva: “Universo””

Por: Cleber Facchi

Souza, Costa, Santos e Silva. Em meio a tantos nomes pomposos da música nacional, o cantor Lúcio Silva Souza, de Vitória, Espirito Santo, resolveu escolher justamente o nome mais comum deles para intitular o projeto que vem desenvolvendo desde o começo de 2011. A “simplicidade” do título, entretanto, desaparece por completo tão logo as melodias delicadas do músico ganham formas.

Dono de um dos grandes lançamentos musicais de 2012, o agradável Claridão (Slap), o jovem artista conseguiu em pouco tempo um lugar de destaque dentro da presente cena nacional. Pervertendo as redundâncias da MPB e se aproximando da eletrônica de forma pacata, Silva conseguiu amarrar as pontas entre o Indie e o Pop, resultado que deve se repetir com a chegada de Vista Pro Mar, segundo e ainda inédito trabalho de estúdio do cantor.

Com lançamento previsto para o dia 17 de março, o disco de 11 faixas e participação da cantora Fernanda Takai (Pato Fu) inaugura um novo caminho para o músico. Com apresentação agendada para a edição 2014 do Lollapalooza Brasil, e depois de ter música escalada em trilha sonora de novela da Globo – Além do Horizonte -, conversamos com Silva por e-mail para saber o que esperar do novo álbum, a transição entre o independente e o mainstream, além, claro, da boa repercussão do músico em Portugal.

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. Responsável pelos vocais de grande parte das músicas do Pato Fu, e dona de dois bem recebidos discos de versões – Onde Brilhem os Olhos Seus (2009) e Fundamental (2012) -, Fernanda Takai prepara a chegada do aguardado primeiro registro de inéditas em solo. Intitulado Na Medida do Impossível, o trabalho previsto para idos de março deve revelar uma composição mais pacata da obra assinada artista amapaense. Com nomes como Pitty, Marcelo Bonfá, Julieta Venegas e Marina Lima, o trabalho parece assumir um sentido…Continue Reading “Fernanda Takai: “You and Me and the Bright Blue Sky””

Por: Cleber Facchi

Cozinhando Discografias

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Por vezes esquecida no catálogo de bandas que marcaram a década de 1980, a paulistana Ira! talvez seja a responsável por um das discografias mais dinâmicas e expressivas do rock nacional. Do começo de carreira pontuado pela aproximação com o Punk e o Pós-Punk inglês, passando pela relação aberta com o Hip-Hop e a eletrônica, poucos coletivos surgidos no mesmo período assumiram tamanha inovação quanto o quarteto. Aos comandos de Edgard Scandurra, Nasi, Ricardo Gaspa e André Jung, o projeto trouxe na bem aproveitada discografia algumas das composições mais icônicas da música brasileira, utilizando da própria versatilidade como uma autorização para passear por diferentes territórios da cena nacional. Separada desde 2007, quando desentendimentos entre os integrantes levaram ao fim da banda, o grupo, ou pelo menos parte dele, fez as pazes recentemente, logo, nada mais justo do que celebrar com uma seleção especial para o Cozinhando Discografias. Do pior para o melhor, analisamos os 11 registros em estúdio da banda, uma ótima alternativa para quem conhece apenas o famigerado Acústico MTV.  

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Por: Cleber Facchi

Pato Fu

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Poucos grupos nacionais passaram por tantas modificações estéticas ao longo da carreira quanto os mineiros do Pato Fu. Montado na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais no começo dos anos 1990, o projeto que aproximou Fernanda Takai (da banda Fernanda & 3 Do Povo) e os parceiros John Ulhoa e Ricardo Koctus (dos grupos Sustados por 1 Gesto e Sexo Explícito), encontrou na perversão do Pop e de outros gêneros musicais a base para um dos catálogos de estúdio mais criativos da música brasileira recente. Herdando elementos que vão da obra d’Os Mutantes ao pós-punk inglês, a banda soube como dosar boas melodias com doses consideráveis de esquizofrenia, princípio para o que trouxe ao público álbuns tão díspares como Rotomusic de Liquidificapum (1993), Isopor (1999) e Toda Cura Para Todo Mal (2005). Com mais de 20 anos de carreira e um catálogo de nove obras de estúdio, a banda teve todos os registros analisados e classificados do pior para o melhor em nosso especial Cozinhando Discografias.

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. O Rap do mineiro Flávio Renegado sempre se manteve próximo da música pop de forma bastante coesa. Propósito iniciado com o lançamento do disco Do Oiapoque a Nova York em 2008 e consolidado com a entrega do ótimo Minha Tribo é o Mundo (2011). Sem se distanciar de tudo o que conquistou nos registros anteriores, o rapper se une à vocalista do Pato Fu, Fernanda Takai, para apresentar uma de suas melhores composições até agora: Estamos no jogo (aprendendo a jogar). Melódica, a composição se…Continue Reading “Flávio Renegado: “Estamos no jogo (Aprendendo a Jogar)” (Ft. Fernanda Takai)”

Gaby Amarantos
Brazilian/Electrobrega/Pop
http://gabyamarantos.com/

Por: Cleber Facchi

Provavelmente a maior carência do cenário musical independente ou mesmo no circuito comercial seja o surgimento de uma musa de peso e que alcance todas as parcelas do público. Uma figura que caminhe tanto pelas elites, nichos e demais classes sem preconceitos. Faltava alguém que ocupasse o mesmo papel que Beyoncé conseguiu estabelecer em solo norte-americano (e posteriormente nos demais cantos do mundo), quando se transformou em um ícone tanto aos fanáticos por música pop, como para o público alternativo, algo que se revela na ampla aceitação do último álbum da cantora e que aponta uma lacuna bastante visível no panorama brasileiro.

Mais do que uma personagem, talvez faltasse um estilo musical que captasse isso. Uma sonoridade que fosse inédita, não discriminada, compreendida, cativante e aceita por todos – ou quase todos. E que ritmo melhor indicado do que o electrobrega para cumprir isso? Cada vez mais próximo do grande público e observado como um gênero cult por outros, o genuíno estilo paraense foi ao longo dos últimos dois anos melhor aproveitado, ganhando um enquadramento mais pop por conta de nomes como Valdo Squash (da Gangue do Eletro), comicidade pelo trabalho de DJ Cremoso e até uma bem sucedida aproximação com o indie, produto da inventividade do trio goiano Banda Uó.

Ainda assim faltava um nome, uma ponta-de-lança que representasse toda essa fluência de novos artistas, sons e referências construídas nesses últimos anos. Logo, ninguém seria melhor indicada para cumprir esse papel do que Gaby Aamarantos. Banhada pelo apelo popular, adorada pela crítica e cultuada pelo público alternativo, a cantora vinda diretamente da capital paraense, Belém, parece agregar todos os valores para ocupar esse posto, resultado mais do que óbvio em vista do sucesso da faixa Xirley, única composição de destaque da artista até o momento, mas que fez com que boa parte dos ouvidos e olhares fossem direcionados para o território amazônico em uma tentativa de desvendar o que musicalmente acontecia por lá.

Assumidamente construído para balançar qualquer estrutura, Treme (2012, Som Livre) não é apenas uma simples estreia de um novo ícone do pop nacional. Mais do que isso o álbum é uma síntese de toda a produção paraense e o esforço coletivo de uma infinidade de nomes, vozes e batidas. Acompanhada pelos (eficientes) produtores Waldo Squash e Félix Robatto, além de figuras locais como Felipe Cordeiro (em Ela Tá No Ar) e Dona Onete (em Mestiça), Amarantos utiliza do trabalho como uma porta de entrada para todo o universo que foi montado por lá, utilizando de faixas marcadas pela quentura e originalidade como um mecanismo para ingressar no ambiente pop que ela própria cultiva até o encerramento do álbum com a coreografada Faz O T – música de quando ainda fazia parte do grupo TecnoShow.

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