Artista: Kevin Morby
Gênero: Folk Rock, Indie, Singer-Songwriter
Acesse: https://www.facebook.com/kevinrobertmorby/

 

Kevin Morby está longe de parecer um iniciante. São quatro registros de peso como baixista do Woods – Songs of Shame (2009), At Echo Lake (2010), Sun and Shade (2011) e Bend Beyond (2012); dois trabalhos em parceria com Cassie Ramone (ex-Vivian Girls) pelo The Babies – The Babies (2011) e Our House on the Hill (2012) –, além de uma sequência de obras em carreira solo – Harlem River (2013) e Still Life (2014). Ainda assim, é com o recente Singing Saw  (2016, Dead Oceans) que o cantor e compositor norte-americano oficialmente se apresenta ao “grande público”.

Obra mais acessível e madura de toda a discografia de Morby – pelo menos em carreira solo –, o registro que conta com produção de Sam Cohen – músico que já trabalhou com artistas como Norah Jones e Shakira – dá um salto em relação ao material apresentado nos dois primeiros discos de inéditas do cantor. O mesmo folk rock nostálgico inaugurado em Harlem River, porém, encorpado por uma série de novas referências, grande parte delas ancoradas em elementos vindos dos anos 1960 e 1970.

Da relação com a música negra que cresce no canto gospel de Black Flowers e I Have Been to the Mountain, passando pelas guitarras e temas psicodélicos da extensa faixa-título, até alcançar o som intimista de Ferris Wheel, durante toda a construção da obra, Morby e o imenso time de colaboradores brincam com a música lançada há mais de quatro décadas. Um catálogo de ideias que esbarra na obra de Bob Dylan – Blood on the Tracks (1975) – e Neil Young – After the Gold Rush (1970) e Harvest (1972) –, porém, preservando a identidade musical do artista.

Com nove músicas e pouco mais de 40 minutos de duração, Singing Saw é uma obra marcada pelos instantes. Trata-se de um disco essencialmente dinâmico, típico do período que inspira Morby. O canto melancólico em Drunk and On a Star, arranjos e versos comerciais em Destroyer e Dorothy, e pequenos atos de experimento. A diferença está na riqueza dos detalhes – vozes, batidas, guitarras e sintetizadores – que se espalham ao fundo do trabalho e, principalmente, na forma como os versos dialogam com o presente.

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Strand Of Oaks
Folk Rock/Indie Rock/Alternative
http://strandofoaks.net/

Por: Cleber Facchi

Mesmo para quem nunca se interessou pelo trabalho do Strand Of Oaks, perceber a versatilidade do projeto comandado por Timothy Showalter não é uma tarefa muito difícil. Em um sentido quase oposto ao teor melancólico (e arrastado) que orienta grande parte dos grandes lançamentos da cena Folk/Country estadunidense, o músico de Indiana sempre apostou na expansão, sustentando trabalhos que mesmo complexos e autorais, não parecem bloquear a passagem para o espectador novato ou qualquer visitante atento.

Com a chegada de HEAL (2014, Dead Oceans), quarto álbum de estúdio da banda/cantor, Showalter não apenas amplia o caráter melódico e musicalmente dinâmico da própria obra, como ainda sustenta um dos grandes exemplares do Romantismo-Folk lançado nos últimos meses. Em um cenário dominado pela maturidade de Mark Kozelek (Sun Kil Moon), além de vozes femininas guiadas por corações partidos – caso de Sharon Van Etten e Angel Olsen -, Timothy substitui a homogeneidade dos temas e arranjos para ziguezaguear pelos próprios sentimentos.

Capaz de romper com os limites autorais do próprio criador, HEAL deixa de lado a fórmula pronta da “voz e violão” para que Showalter sustente uma sonoridade alimentada em essência pelas guitarras. Diferente do que havia testado em Pope Kildragon (2010) e Dark Shores (2012), o novo álbum parece longe de sufocar o espectador, além do próprio criador. Tudo o que o músico testa no interior do disco faz com que as canções reverberem de forma libertadora, como o grito confessional instalado na faixa de abertura, Goshen ’97, ou as vozes em coro que passeiam pelos acordes amplos de For Me.

Livre da ambientação imposta por Bon Iver em 2011 – tendência que ainda se espalha em grande parte dos lançamentos recentes -, Showalter abandona completamente a cena atual para encarar musicalmente o passado. Proposital, ou não, a relação com os arranjos e temas lançados na década de 1990 trazem de volta uma série de efeitos nostálgicos e ao mesmo tempo transformadores para o álbum. São pequenas transições entre o acelerado (Same Emotions) e o bucólico (Playmouth) que resgatam tanto a obra de veteranos como, Hollywood Town Hall (1992), do The Jayhawks, da mesma forma que obras ainda “recentes”, caso do influente Magnolia Electric Co. (2003), da banda Songs: Ohia.

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. Desde o lançamento de Several Shades of Why, em 2011, J Mascis parece ter assumido de vez o caráter “acústico” de seus projetos em carreira solo. Longe dos companheiros do Dinosaur Jr., o veterano do rock alternativo estadunidense parece apenas em busca de tranquilidade. Ou quase isso. Em uma composição um pouco mais enérgica do que aquela apontada há três anos, Every Morning, mais novo single do cantor, revela um breve regresso do músico ao projeto que o apresentou há três décadas. Primeiro single…Continue Reading “J Mascis: “Every Morning””

. Como Leaves Like Glass e Moving To The Left bem conseguiram representar, a busca pelo folk dos anos 1960 parece guiar em totalidade a presente fase do Woods. Em constante produção desde o meio da década passada, quando o grupo nova-iorquino apareceu oficialmente com At Rear House (2007), cada novo registro em estúdio da banda parece movido por uma estética nostálgica, imposição que deve orientar com certa dose de novidade o novo projeto do grupo: With Light And With Love (2014). Com lançamento anunciado…Continue Reading “Woods: “With Light And With Love””

Neko Case
Indie/Alt. Country/Female Vocalists
http://www.nekocase.com/

Por: Cleber Facchi

Neko Case

Poucas vozes do Alt. Country – principalmente entre os homens – são capazes de assumir tamanha confissão a cada novo trabalho quanto Neko Case. Responsável por uma das discografias mais amargas do cancioneiro norte-americano, a autora de obras como Blacklisted (2002) e Fox Confessor Brings the Flood (2006) chega ao sexto registro solo em mais uma sequência dolorosa de versos, sons e vozes. Marca voluntária que converte o recente The Worse Things Get, The Harder I Fight, The Harder I Fight, The More I Love You (2013, Anti-) em mais um assertivo catálogo de faixas temperadas pela dor e a saudade.

Cada vez mais distante do efeito bucólico apresentado em obras como The Virginian (1997) e Furnace Room Lullaby (2000), lançadas em começo de carreira, Case encontra no novo disco um extensão dos mesmos sons concentrados anteriormente em Middle Cyclone (2009), último trabalho de estúdio. São tramas macambúzias que rompem com a essência amargurada em virtude da presença ativa das guitarras melódicas. Uma ponte involuntária para aquilo que a cantora desenvolve com o The New Pornographers. Entretanto, longe de qualquer repetição possível de ideias, o que garante beleza ao trabalho da cantora, mais uma vez, são os versos.

Acomodada em um passado ainda recente, Case usa de cada faixa como um percurso melancólico, brindando a saudade em músicas aos moldes de I’m From Nowhere e Nearly Midnight, Honolulu. É preciso observar que mesmo em um cenário completo pela dor, a cantora jamais partilha das próprias confissões como dramas insossos e descartáveis. O teor sorumbático do trabalho, como bem exemplifica Night Still Comes, funciona em uma estrutura de essência, uma espécie de busca autoral e constante. A tristeza, como revela desde os primeiros discos, é a mais pura e honesta matéria-prima da artista, o que justifica a facilidade de Case em converter o próprio sofrimento em um mecanismo de aproximação para alcançar o ouvinte.

Cada vez mais ciente da própria obra, a cantora encontra em The Worse Things Get…  um trabalho que flutua de forma visível entre o acessível e a complexidade dos arranjos. Ainda que músicas como Afraid e Where Did I Leave That Fire tornem o propósito de  Case delimitado em ou cenário específico, excêntrico por vezes, parte das composições instaladas no disco rompem com essa ordem de forma encantadora. Músicas como a densa Ragtime, a melancólica/pop Night Still Comes ou a acelerada Man, que refletem toda a capacidade da artista em presentear o ouvinte com faixas impulsionadas pela versatilidade dos sons e vozes. Um jogo bem desenvolvido de melodias plásticas, mas que nunca ecoam como desnecessárias.

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Vanguart
Brazilian/Folk/Indie
http://www.vanguart.com.br/

 

Por: Cleber Facchi
Foto: Ariel Martini

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Há dois anos, quando lançava Parte de Mim Vai Embora (2011), a proposta do Vanguart parecia ser clara e simples: soar acessível. Longe da poesia complexa que ocupa os versos trilíngues do autointitulado debut, de 2007, o quinteto cuiabano parecia cada vez mais interessado em buscar pelo grande público – um percurso de quase oposição ao hermetismo testado em início de carreira. Sustentando com acerto uma lírica melódica – que abastece faixas como Mi Vida Eres Tu e demais composições do trabalho -, a banda deu um passo seguro para o domínio de uma soma ainda maior de ouvintes, merecida sequência de prêmios no VMB de 2012 e, claro, a base para o que se revela em um efeito amplo na construção do terceiro registro em estúdio.

Intencionalmente dramático, Muito Mais Que O Amor (2013, DeckDisc) se aproveita do mesmo teor amargo dos trabalhos anteriores, porém, em um sentido intenso de confissão. O que antes era proposto de forma existencial e melancólica – principalmente em faixas como Semáforo, Para Abrir os Olhos e Cachaça -, agora dá lugar ao drama pintado de saudade e expectativa. Boa parte das faixas espalhadas pela obra refletem a carência do eu-lírico em um sentido vulnerável. Seja na antecipação por um novo amor (Sempre Que Eu Estou Lá), ou mesmo em um cenário recente e que aos poucos começa a se esfarelar (Pra Onde Eu Devo Ir?), a dor ainda é a principal constante para a banda.

Mesmo em um alinhamento de confissão, Hélio Flanders, principal letrista da obra, parece fugir a todo o custo de um resultado subjetivo, amenizando nos versos de cada faixa uma interpretação exageradamente acessível, até rasa em alguns aspectos. Por vezes falta beleza aos versos instalados de forma monotemática, caso de Meu Sol (o que é isso, Armandinho?), Mesmo De Longe e parte expressiva do eixo final do registro. Entretanto, nenhuma composição parece capaz de superar a redundância da O Que Seria de Nós, sétima canção do disco. “O que seria de você sem mim/ O que seria de Mim sem você/ O que seria de nós dois sem nós?”, arrasta a canção em (felizmente) pouco menos de um minuto de duração. Seria ironia ou apenas vontade de encher o disco com mais uma faixa? Onde estão os responsáveis por Enquanto Isso Na Lanchonete e demais canções dos primeiros discos?

Mesmo os exageros e a lírica falha em algumas das composições não subtraem a presença de boas faixas no decorrer da obra. A melhor delas talvez seja Pra Onde Eu Devo Ir?, canção que se esquiva das melodias programadas para fluir em um cenário de intensidade e dor real. Trabalhada em uma estética Country honesta, a música esbarra em vozes que curiosamente remetem ao trabalho de Chitãozinho e Xororó – entenda isso como um elogio sincero. Um aspecto caricato que não apenas potencializa o crescimento da faixa, como traduz de maneira eficaz a saudade que se acumula em doses pela obra. A mesma relação com o cancioneiro de raiz flutua de maneira coerente em Estive e Eu Sei Onde Você Está, faixas acessíveis, de versos duráveis e que não se perdem nos mesmos exageros e banalidades de outras canções do disco.

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. Dois anos desde o lançamento de Boa Parte de Mim Vai Embora, e a banda cuiabana Vanguart entrega ao público o terceiro exemplar em estúdio: Muito Mais Que O Amor. Conjunto de 11 inéditas composições, o registro amplia de forma clara a relação amena e o cardápio de sons delicados que o grupo vinha desenvolvendo com o Folk Rock – gênero base que abastece a produção da banda desde a chegada do autointitulado debut, em 2007. Com lançamento pela DeckDisc – casa de artistas…Continue Reading “Vanguart: “Muito Mais Que O Amor””

. Muito mais que o amor, este é o nome do terceiro e mais novo álbum do Vanguart. Sucessor do bem recebido Boa Parte de Mim Vai Embora (2011), o registro conta com produção de Rafael Ramos (Los Hermanos, Cachorro Grande) e parece continuar exatamente de onde o grupo parou no último disco. Com pré-venda anunciada para o dia seis de agosto, o registro abre as portas com o lançamento de três novas faixas: Estive, A Escalada das Montanhas de Mim Mesmo e Eu Sei…Continue Reading “Vanguart: “Estive”, “A Escalada das Montanhas de Mim Mesmo” e “Eu Sei Onde Você Está””

Laura Marling
Folk/Singer-Songwriter/Indie
http://www.lauramarling.com/

Por: Cleber Facchi

Laura Marling

A grandiosidade da obra de Laura Marling sempre esteve impressa na sutileza dos instrumentos e vozes diminutas despejados pela artista. Tendo no primeiro registro da carreira, Alas, I Cannot Swim (2008), um exercício de descoberta e busca instrumental, a cantora e compositora britânica fez dos dois trabalhos seguintes uma manifestação assertiva desse propósito. Dessa forma, enquanto I Speak Because I Can (2010) lidava de forma confortável com a manifestação das dores e sentimentos da artistas, a partir de A Creature I Don’t Know (2011) a artista firmou de maneira decidida as próprias bases, fazendo do recente Once I Was an Eagle (2013, Virgin) uma continuação natural do mesmo propósito.

Ponto de maturidade dentro da discografia da artista, o novo álbum transporta – talvez de forma intencional -, a sonoridade de Marling para idos dos anos 1970. Entre passeios pelo Folk Rock típico da época e instantes que se aproximam de forma natural da obra de Joni Mitchell, a cantora faz dos mais de 60 minutos do álbum (registro mais extenso até aqui) uma morada para a dor e a libertação. Cada vez menos próxima dos gracejos firmados em começo de carreira, quando ainda esboçava um profunda relação com Noah and The Whale, a cantora utiliza do registro como um segmento acinzentado dos registros anteriores, mantendo na sobriedade um instrumento natural de ordem.

Saem as paisagens bucólicas e os lamentos suavizados que ganharam forma até o último disco para que entrem as emanações urbanas, delimitando toda a presente fase da cantora. Como Master Hunter já havia anunciado meses antes, a “nova Laura Marling” parece movida pela crueza dos sons, elemento que talvez afaste os antigos seguidores da artista ou a apresente a outros. Ainda que a natural aproximação entre as faixas trate da obra como um registro de alinhamento solucionado, cada música parte de um esforço lírico e instrumental próprio, o que transforma Once I Was an Eagle em uma espécie de coletânea, e não um registro temático como os dois anteriores álbuns.

Extenso – são 16 composições inéditas -, o trabalho faz justamente dessa colagem de faixas aleatórias uma medida natural de erro e acerto. Ao mesmo tempo em que Marling parece livre para criar, brincando com pequenas orquestrações em Little Bird, instantes dolorosos em I Was an Eagle, além dos versos essencialmente amargos em Devil’s Resting Place, a imensa quantidade de faixas arrasta o trabalho de forma penosa por diversos momentos. Não são poucos os instantes da obra em que o ouvinte parece perdido, como se a linha guia dos vocais e acordes de violão exercessem um encanto satisfatório e ao mesmo tempo exaustivo sobre a obra.

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