Tag Archives: Folk

Disco: “Carrie & Lowell”, Sufjan Stevens

Sufjan Stevens
Indie/Singer-Songwriter/Folk
http://sufjan.com/

 

Sufjan Stevens sempre me pareceu um grande contador de histórias. Por trás do inofensivo dedilhado de violão lançado pelo artista de Michigan, uma tapeçaria imensa de personagens, recortes fictícios, acontecimentos políticos que marcaram a história norte-americana ou mesmo contos transformados em música doces e envolventes. Basta voltar os ouvidos para o clássico Illinois, de 2005, onde a vida do palhaço/assassino serial John Wayne Gacy, Jr. foi explorada com sensibilidade única, constante temática na obra do músico, um habilidoso artesão no controle dos sentimentos, capaz de converter detalhes (e temas) tão particulares, em peças facilmente absorvidas por qualquer ouvinte.

Mas e as histórias do próprio Stevens, suas angústias, medos e desilusões: onde elas estão? Ainda que tenha atravessado os últimos 15 anos em meio a delicadas confissões românticas, tormentos e temas cotidianos, poucas vezes o universo particular do cantor estadunidense foi apresentado com tamanha clareza e sensibilidade quanto em Carrie & Lowell (2015, Asthmatic Kitty). Sétimo trabalho de inéditas do artista, o álbum vai além de um regresso aos planos acústicos que lançaram o instrumentista no começo dos anos 2000, revelando um mergulho soturno na conturbada estrutura familiar do cantor – a base temática que se espalha em cada faixa do registro.

Da imagem desgastada que estampa a capa do álbum – o casal (real) formado por Carrie e Lowell, mãe e padrastro de Stevens – passando pelos versos, sussurros e histórias entristecidas da obra, todas as peças do projeto se juntam para contar a história e, de certa forma, homenagear a mãe do cantor, Carrie, morta em 2012 depois de passar por meses de tratamento contra um câncer no estômago. Esquizofrênica, depressiva e alcoólatra, a “protagonista” deixou o filho e o ex-marido em meados dos anos 1970, voltando a revê-los anos mais tarde, quando se casou com Lowell, acolhendo o pequeno Stevens durante cinco férias de verão. Um história simples, porém, explorada de forma atenta, a matéria-prima para o retrato sorumbático que começa (pelo fim) em Death with Dignity e se estende até Blue Bucket Of Gold.

Ainda que esteja aberta a diferentes interpretações, a história que sustenta toda a estrutura de Carrie & Lowell é apresentada de forma clara, esquiva de possíveis bloqueios líricos. Trata-se de uma jogo de versos confessionais, puramente honestos, como o diário fragmentado de um indivíduo – a criança que habita a mente de Stevens – tentando encarar o mundo conturbado dos adultos em busca da própria aceitação. Como fica explícito nos primeiros minutos do álbum, em Death With Dignity – os últimos instantes de vida de Carrol -, com a presente obra, Stevens foge de uma estrutura linear, brincando com um roteiro quase cinematográfico instável; um misto de passado e presente tão próximo do cantor, quanto do próprio ouvinte, instantaneamente confortado nos versos descritivos da obra. Continue reading

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The Tallest Man On Earth: “Dark Bird Is Home”

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Ainda que tenha deixado o ambiente “caseiro” dos dois primeiros registros da carreira – Shallow Grave (2008) e The Wild Hunt (2010) -, os sentimentos e confissões exploradas por Kristian Matsson ainda são os mesmos dos primeiros anos em estúdio. Seguindo a trilha iniciada no álbum There’s No Leaving Now, de 2012, Matsson continua a explorar uma sonoridade cada vez mais límpida e arranjos aprimorados com o The Tallest Man On Earth, preferências que logo se transforma em emoção dentro da recém-lançada Dark Bird Is Home.

Faixa-título e também canção de encerramento do quarto LP do músico norte-americano, a nova música parece reforçar a relação de Matsson com o cancioneiro de raiz estadunidense, passeando em meio a elementos do Alt. Country, típico do começo dos anos 2000, como dos primeiros discos de Bob Dylan, influência explorada não apenas na voz característica do artista. Esta é a segunda música do novo álbum a ser apresentada, sendo a primeira a complexa Sagres, entregue ao público há poucas semanas.

Dark Bird Is Home (2015) conta com lançamento previsto para o dia 12/05 pelo selo Dead Oceans.

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The Tallest Man On Earth – Dark Bird Is Home

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Sufjan Stevens: “Exploding Whale”

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Quem acompanha o trabalho de Sufjan Stevens sabe que o cantor e compositor norte-americano não consegue descansar enquanto o ouvinte não for soterrado por uma avalanche de projetos e faixas inéditas. Mesmo depois de surpreender o público com as melodias tímidas e versos particulares que atravessam o delicado Carrie & Lowell (2015), Stevens ainda reserva aos ouvintes algumas novidades. Além do especial de natal que começa a ser gravado nos próximos meses, o músico de Detroit, Michigan, abada de apresentar mais uma composição inédita: Exploding Whale.

Praticamente uma sobra do trabalho anterior do músico, o “eletrônico” The Age of Adz (2010), a peça com quase seis minutos de duração, se acomoda em meio a vocais brandos, uso controlado de efeitos sintéticos, além do dedilhado permanente de violões. Difícil não lembrar da dupla Boards Of Canada a cada movimento preciso dos sintetizadores matutinos que preenchem a canção. Lançada como um vinil 7”, Exploding Whale vem sendo vendida nas apresentações ao vivo de Sufjan, e, para a sorte do público, acaba de ser digitalizada, disponível para audição logo abaixo.

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Sufjan Stevens – Exploding Whale

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Sufjan Stevens: “No Shade In The Shadow Of The Cross”

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O explícito reforço no uso de sintetizadores, batidas e arranjos eletrônicos incorporados em The Age of Adz (2010) pareciam afastar Sufjan Stevens do mesmo ambiente compacto, acústico, dos primeiros trabalhos de estúdio. A julgar pelo continuo reforço e maior aproveitamento de novas sonoridades a cada novo registro, a expectativa para o sétimo álbum do músico norte-americano seria a de um projeto ainda mais focado em elementos sintéticos, completamente livre da ambientação “orgânica” lançada em 2003 com Michigan.

Entretanto, com o anúncio do sétimo registro oficial do cantor, Carrie & Lowell (2015), a promessa de uma obra acústica, voltada aos primeiros anos de Stevens, serviu de estímulo para atrair a atenção do público. Prova dessa “visita” ao passado do músico está em No Shade In The Shadow Of The Cross, o primeiro single do novo álbum. Em uma estrutura econômica, inspirada pela história da própria mãe e padrasto – personagens centrais do disco -, Stevens lentamente transporta o ouvinte para o mesmo cenário criado pelo compositor no começo dos anos 2000.

Previsto para o dia 31 de março, Carrie & Lowell conta com distribuição pelo selo Asthmatic Kitty.

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Sufjan Stevens – No Shade In The Shadow Of The Cross

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Disco: “Natalie Prass”, Natalie Prass

Natalie Prass
Indie/Alt. Country/Chamber Pop
http://natalieprassmusic.com/

Do momento em que tem início My Baby Don’t Understand Me, até o movimento final de It Is You, a sensação de fragilidade que preenche a obra de Natalie Prass é clara, perturbadora e ainda capaz de acolher o ouvinte. Protagonista da própria obra, a cantora e compositora estadunidense transforma o autointitulado primeiro registro de estúdio em um mundo aberto para confissões amarguradas e lamentos tão íntimos, que até parecem moldados para o ouvinte.

Ativa em diferentes núcleos da cena norte-americana, Prass atravessou a última década em meio a parcerias com notáveis da produção alternativa, caso de Jenny Lewis e Matthew E. White, posteriormente fixando residência na cidade de Nashville – o epicentro da música country. Com naturalidade, todo esse catálogo de “referências” se faz visível em cada ato do recente trabalho da cantora, tão próxima dos primeiros registros da “ex-Rilo Kiley” – principalmente no debut Rabbit Fur Coat (2006) -, como do recente trabalho de White – Big Inner (2012) -, parceiro desde a adolescência e produtor do álbum ao lado de Trey Pollard.

De natureza melancólica, como um sussurro alcoólico em uma noite de abandono, cada uma das nove composições do disco borbulham os sentimentos mais dolorosos (e confessionais) de Prass. Recortes essencialmente sensíveis, como os de My Baby Don’t Understand Me (“Nosso amor é como um longo adeus“) ou mesmo raivosos, caso de Your Fool (“Todas as promessas que eu fiz / E você me abandonou“), em que a cantora imediatamente conversa com gigantes da música Country – talvez Dolly Parton e Dusty Springfield -, além de artistas recentes do mesmo cenário, vide a herança explícita de Neko Case e Gilian Welch durante todo o trabalho.

Mais do que uma peça referencial, centrada no diálogo com diferentes fases (e nomes) do cancioneiro norte-americano, a homônima obra de Prass aos poucos sustenta o próprio cenário conceitual. Longe da redundância de bases acústicas e versos penosos – arrastados em excesso -, durante toda a obra os produtores White e Pollard encaixam arranjos de cordas bem resolvidos, estruturas melódicas de composição minimalista e acordes suavizados que se relacionam de forma inteligente com a voz compacta da cantora. Continue reading

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The Decemberists: “A Beginning Song”

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Um misto de simplicidade e detalhamento parece direcionar o trabalho de Colin Meloy dentro do novo álbum do The Decemberists. Como explícito em Make You Better e Lake Song, toda a estrutura orquestral testada nos primeiros anos da banda parece substituída por um acervo de versos diretos e arranjos suavizados, estrutura também reforçada em A Beginning Song, uma das 14 composições que integram o material reservado para What a Terrible World, What a Beautiful World (2015).

Enquanto a voz de Meloy parece ter alcançado um novo estágio de limpidez, o bom direcionamento dos versos resulta em uma espécie de “canção de autoajuda”, um hino involuntário para quem precisa recomeçar ou carece de um estímulo depois de qualquer situação adversa. Assertivamente posicionada no encerramento do novo álbum – previsto para 20 de janeiro pelos selos Rough Trade e Capitol -, a faixa aparece agora em um lyric video/apresentação, seguindo a linha dos últimos lançamentos da banda.

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The Decemberists – A Beginning Song

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Marcelo Perdido: “Lição”

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Com o encerramento das atividades da dupla Hidrocor, não seria uma surpresa que Marcelo Perdido, vocalista e principal compositor do projeto, logo mergulhasse em um novo trabalho. Ainda que ambientado ao mesmo ambiente “artesanal” de Ed. Bambi (2012), último lançamento ao lado do velho parceiro Rodrigo Caldas, em Lenhador (2014), o cantor e compositor paulistano encontrou a passagem para um universo ainda mais intimista e naturalmente acolhedor.

Embora não faça parte do último álbum de perdido, difícil ouvir a melancólica Lição e não relacionar ao trabalho entregue há poucos meses pelo cantor. Produzida ao lado do velho parceiro Felipe Parra, a composição ganha ainda mais destaque por conta das imagens assinadas por Bruno Graziano e retiradas do filme O Acre Existe. Segundo o próprio músico: “A letra é uma viagem sabática interior e a eterna busca para se achar“.

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Marcelo Perdido – Lição

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Angel Olsen: “Windows”

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Mais de quatro décadas separam Blue (1971), obra-prima da compositora canadense Joni Mitchell, do recém-lançado Burn Your Fire for No Witness (2014, Jagjaguwar), segundo e mais recente trabalho de estúdio de Angel Olsen. Ainda que os caminhos assumidos pelas duas artistas sejam bastante particulares – e quase opositivos em determinados aspectos líricos -, o princípio de orquestração temática de cada obra permanece o mesmo: a melancolia escancarada de um coração partido.

Apoiada em elementos lançados há décadas pela veterana, Olsen, longe de se afundar no martírio alcoólico das palavras, tenta sobreviver a qualquer custo, ensaio pontuado nos gritos de desespero que percorrem toda a obra. Menos tímido que o exercício proposto há dois anos com Half Way Home (2012), trabalho de estreia da novata, o presente álbum é um projeto que encontra nos arranjos clássicos – principalmente o Folk da década de 1970 -, um instrumento atento de comunicação com as palavras. Bases convencionais e pequenas fagulhas Lo-Fi que apenas reforçam a grandeza sóbria dos versos impostos pela cantora. Leia a resenha completa.

No vídeo produzido para Windows, a natural sutileza de Rick Alverson, um dos principais diretores em atuação e responsável por obras visuais como Magic Chords, de Sharon Van Etten e Goshen ’97 do Strand Of Oaks.

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Angel Olsen – Windows

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Christopher Owens: “America”

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Em A New Testament, lançado há poucos meses, Christopher Owens resolveu assumir uma direção contrária em relação ao som explorado no debut solo Lysandre (2013). Entre elementos do Gospel, R&B e Country, o ex-vocalista do Girls reforçou o uso das guitarras, evitando a mesma sonoridade branda detalhada no álbum anterior.

Excluída do presente disco, a recém-lançada America talvez seja a melhor representação do som incorporado no álbum de 2013. Em uma estrutura sutil, Owens lentamente espalha acordes simples de violões, evitando qualquer traço de exagero. Nos versos confessionais, um relato da adolescência do músico, resgatando o momento em que o Owens abandonou o culto Children Of God para seguir a própria vida.

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Christopher Owens – America

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Disco: “…And Star Power”, Foxygen

Foxygen
Psychedelic/Indie/Rock
http://foxygentheband.com/

Por: Cleber Facchi

A julgar pelos conceitos incorporados desde a estreia do Foxygen com Take the Kids Off Broadway, de 2012, Sam France e Jonathan Rado encontraram no rock dos anos 1960 a base para um exercício de ambientação. Diferente de outros grupos recentes, caso de MGMT, Temples ou mesmo da gigante Tame Impala, o duo californiano pouco se interessa em adaptar o som letárgico incorporado há mais de quatro décadas. Pelo contrário, cada novo registro se transforma em uma obra de transposição.

Ponto alto dessa viagem nostálgica foi a passagem por We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic (2013), álbum que não apenas transportou a dupla norte-americana para o fim dos anos 1960, como ainda carregou o próprio ouvinte. Vocalizações suaves, versos marcados pela confissão, LSD e um passeio quase documental pelo “Verão do Amor”. Não fosse o anúncio da gravadora e a já conhecida identidade da banda, talvez o segundo álbum da Foxygen passasse despercebido como uma peça esquecida de 1967.

Em uma estrutura quase linear, como um passeio pela linha do tempo do rock clássico, France e Rado mergulham agora na década de 1970. Típico retrato do período em que busca inspiração, …And Star Power (2014, Jagjaguwar) abafa a suavidade do antecessor em meio a guitarras distorcidas, versos adornados pela crueza e declarados abusos lisérgicos. São 24 músicas inéditas, 82 minutos de duração e uma representação quase caricatural do cenário musical pré-Punk.

Misto de sátira e homenagem, cada música do registro se articula como a representação de uma vertente, cena ou sonoridade específica. Há um pouco de Pink Floyd nas harmonias de Cosmic Vibrations ou mesmo nos quatro atos de Star Power Suite; Lou Reed e David Bowie no pop experimental de I Don’t Have Anything/The Gate; Brooklyn Police Station soa como uma canção suja de Iggy Pop e até a dupla Suicide rasga temporariamente o disco na curtinha Hot Summer. Como dito, desenvolver um “som novo” nunca foi o propósito do Foxygen. Continue reading

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