Artista: Kaytranada
Gênero: Electronic, Experimental, Hip-Hop
Acesse: https://soundcloud.com/kaytranada

 

De composições feitas sob encomenda para Katy B (Honey) e Azealia Banks (Along the Coast), passando pela série de remixes para nomes como M.I.A. (Bad Girls), Disclosure (January) e até Janet Jackson (Alright), Louis Kevin Celestin passou a última meia década explorando diferentes campos da música eletrônica, pop e Hip-Hop. Produtor responsável pelo projeto Kaytranada, o artista de origem haitiana encontra no primeiro álbum de estúdio a possibilidade de expandir a própria sonoridade.

Com faixas produzidas entre 2014 e 2016, 99.9% (2016, XL) mostra a capacidade de Celestin em brincar com diferentes gêneros e até mesmo cenas musicais sem necessariamente perder o controle da própria obra. Em cada uma das 15 músicas que preenchem o disco, um curioso ziguezaguear de experiências, como se o produtor testasse os próprios limites. Canções que brincam com as rimas (Drive Me Crazy), vozes (Together) e arranjos (Weight Off) de forma sempre volátil, curiosa.

Frequentemente comparado com nomes como Flying Lotus, Teebs e outros produtores de peso do atual cenário norte-americano, Kaytranada usa do trabalho como uma ferramenta inteligente de construção da própria identidade musical. Em um sentido oposto ao som abstrato/etéreo produzido por diferentes representantes do estilo – principalmente Steven Ellison –, Celestin abraça de forma explícita a construção de um som linear, preciso, como se o disco todo fosse pensado como base para a voz de outros artistas.

Não por acaso, grande parte do disco se abre para a interferência direta de um time imenso de convidados. Nomes como AlunaGeorge (Together), Vic Mensa (Drive Me Crazy), Anderson .Paak (Glowed Up) e o grupo sueco Little Dragon (Bullets). Difícil escapar da assertiva colaboração entre Kaytranada e a novata Shay Lia em Leave Me Alone. Enquanto o produtor testa referências, indo de beats experimentais ao uso de temas dançantes, íntimos da cena britânica, a convidada parece ocupar todas as brechas da canção, espalhando um canto limpo, sedutor.

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Chegamos ao meio de 2015 e o catálogo de grandes lançamentos musicais só aumenta. Seja em território nacional – Mahmed, Gal Costa, Siba, Cidadão Instigado – ou pela Europa – Björk, Jamie XX – e Estados Unidos – Kendrick Lamar, Sufjan Stevens, Tobias Jesso Jr. -, o que não falta são registros de peso e obras influentes que abasteceram os últimos meses. Seguindo a tradição, é hora de conhecer nossa lista com os 25 melhores discos da metade do ano. Trabalhos que passeiam pela música experimental, eletrônica, pop, rock e Hip-Hop, sempre apontando a direção para a lista definitiva, tradicionalmente publicada no mês de dezembro. Passou os últimos meses desligado da música? Aproveite a lista e veja o que você deixou passar.

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Gal Costa
MPB/Female Vocalists/Samba
http://www.galcosta.com.br/

A necessidade de ruptura e parcial transformação está longe de parecer uma novidade dentro da (extensa) obra de Gal Costa. Do habitual cruzamento de ritmos – Bossa Nova, Jazz, Samba, Rock, – ao constante diálogo com músicos, compositores e produtores vindos de diferentes gerações – Luiz Melodia, Djavan, Cazuza, Domenico Lancellotti -, de tempos em tempos, a cantora baiana entrega ao público um registro que parece não apenas indicar uma nova direção, mudando o curso da própria discografia, como ainda serve de síntese temática, revelando ao grande público o nascimento de novas cenas e pequenos coletivos musicais.

É o caso do recente Estratosférica (2015, Sony Music). Dando continuidade ao trabalho iniciado no álbum Hoje (2005) – obra marcada pela interferência de novos compositores como Nuno Ramos, Junio Barreto e Moreno Veloso -, dentro do trigésimo sexto registro em estúdio da cantora, é possível perceber o crescimento de uma obra que clama por novas referências, sonoridades e tendências, porém, mantém firme a experiência (e sobriedade) acumulada por Gal mais 50 anos de carreira.

Para aqueles que se assustaram com a curva brusca iniciada no experimental Recanto (2011) – obra de temas eletrônicos e versos assinados pelo parceiro de longa data, Caetano Veloso -, um respiro “aliviado”. Ainda que a essência do trabalho anterior seja preservada em instantes específicos do álbum – como nos arranjos de Você Me Deu e Por Baixo -, da abertura ao fechamento, a proposta do registro é completamente outra, muito mais intensa. Antes reclusa, confortada no “recanto” sintético das batidas e arranjos eletrônicos, Gal agora aparece grandiosa, para além dos limites da estratosfera, uma leoa como o cabelo volumoso parece indicar logo na capa do álbum.

Diálogo aberto com pequenos gigantes da atual geração – entre eles, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães e José Paes Lira -, o registro produzido Alexandre Kassin e Moreno Veloso é um passeio pela essência versátil da cantora. Enquanto a inaugural Sem Medo Nem Esperança aponta para a boa fase no começo dos anos 1970, marca explícita na crueza das guitarras e o “solo de voz” típico do clássico Fa-Tal – Gal a Todo Vapor (1971), em minutos, o uso de temas eletrônicos (Muita Sorte) e até melodias mais “pop” (Quando Você Olha Pra Ela) confortam a artista no cenário plastificado dos anos 2000.

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. Ao que tudo indica, a sonoridade “eletrônica” e minimalista explorada por Gal Costa em Recanto (2011) parece ter ficado definitivamente para trás. É o que aponta a recém-lançada Quando Você Olha Pra Ela. Primeira composição de Estratosférica (2015), novo álbum de Gal a ser entregue ao público, a criação de versos melancólicos/românticos assinados por Mallu Magalhães transporta a veterana da MPB de volta aos anos 1970, brincando com emanações acolhedoras e vozes suavizadas, doces. Para a produção do 36º álbum de estúdio, Gal conta com a presença de Moreno Veloso e Kassin, músicos que dividem…Continue Reading “Gal Costa: “Quando Você Olha Pra Ela””

Isaar
Mangue Beat/Pop/Female Vocalists
http://www.isaar.com.br/

Por: Cleber Facchi

Isaar

Passadas duas décadas desde que Da Lama ao Caos, de Chico Science e Nação Zumbi, e Samba Esquema Noise, do Mundo Livre S/A, abriram oficialmente as portas da música pernambucana, a herança do Mangue Beat ainda reverbera em um estágio de invento e plena imposição cultural. Íntima da própria essência, porém, cada vez mais próxima do pop – em um sentido de diálogo atento com o público médio -, a recifense Isaar (ex-Comadre Fulozinha) traça com a chegada do segundo álbum solo um cenário de profunda transformação, mas que em momento algum se esquiva das canções de fácil apelo.

Valendo o título de Todo Calor (2014, Independente), o sucessor do doce Copo de Espuma (2009) é mais do que um simples exercício de criação, mas uma obra quente, que impõem as próprias preferências da artista. Orquestrado com segurança pela voz flexível da cantora, o álbum se acomoda em uma sequência de canções de amor, versos de fluxo cotidiano e faixas que absorvem a cultura de Recife. Uma natural extensão do exercício proposto há cinco anos, mas uma obra que, acima de tudo, se comunica de forma estável com o ouvinte.

Tendo na inaugural Nunca mais Desapareça, canção de abertura da obra, um fio condutor para o restante do trabalho, Isaar se acomoda em uma coleção de versos cíclicos, feitos para estabelecer morada rápida na mente do espectador. São instantes como “Nunca mais diga que me esqueça” e “Além daquela estrada de sementes” que imediatamente se apoderam das percepções do ouvinte. Como um mantra pop e plástico, Isaar cria um cenário confortável, um habitat natural para que as batidas tropicais e referências típicas da música pernambucana possam se anunciar.

Versátil, a artista passeia por um universo de possibilidades tão distintas quanto as anunciadas em seus antigos projetos – seja ao lado do Comadre Fulozinha ou em parceria com DJ Dolores. Enquanto músicas como Tudo em Volta de Mim Vira Um Vão revelam ao público as ambientações da MPB, típicas de Gal Costa e demais veteranas, outras como Coisas Por Escrito mergulham Isaar em uma proposta íntima do rock. Utilizando dos efeitos percussivos como um mecanismo de união para estes dois extremos, a cantora não apenas firma um desafio em cada nova música, como finaliza um trabalho homogêneo, marcado pela segurança dos arranjos.

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. Lançado em meados de abril, Couve EP é o nome do mais novo trabalho do paraense Jaloo, produtor que tem dado um novo rumo aos ritmos nortistas. Entre versões para Crystal Castles, Grimes e Lykke Li, o projeto destaca a versão tropical e arrastada da faixa Baby, clássico de Caetano Veloso – eternizado por Gal Costa no primeiro registro em estúdio da cantora baiana -, e música escolhida para se transformar no novo clipe do produtor. Sem fugir da base letárgica que naturalmente acompanha…Continue Reading “Jaloo: “Baby””

Por: Cleber Facchi

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Mesmo às vésperas do fim, a década de 1960 ainda acumulava uma seleção de obras clássicas a serem lançadas. Em um período de pura invenção para a música – principalmente o rock -, em 1969 uma série de importantes bandas fechavam seus principais capítulos, enquanto um grupo de novatos antecipavam o que viria a ocupar o cenário nos anos 1970. Com a psicodelia ainda em alta, a música brasileira parecia cada vez mais impulsionada pelo caráter lisérgico dos sons, efeito ministrado pelos sons regionais, a força da tropicália e um esforço ainda mais anárquico do que na música estrangeira. Dando continuidade ao nosso especial que revisita clássicos do passado em diferentes anos, listamos agora 10 Discos de 1969. Por conta do período riquíssimo, uma variedade de discos acabaram de fora da seleção final. Obras de Neil Young, Sly and the Family Stone e King Crimsom que podem aparecer em breve na construção de outro especial.

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. Jaloo já foi Pop, já foi brega, agora ele quer ser Couve. Isso mesmo, Couve, este é o título do mais novo lançamento do produtor paraense, que depois de dar vida à ótima coletânea Female & Brega, no último ano, regressa com mais um registro curto de oito faixas com suas incursões pela música pop – nacional ou estrangeira. Apoiado pelo clima caloroso do Technobrega, o jovem produtor antecipa que este é um ponto de ruptura em sua carreira, agora focado em uma proposta…Continue Reading “Jaloo: “Couve EP””

Bárbara Eugênia
Brazilian/Female Vocalists/MPB
http://www.barbaraeugenia.com/

 

Por: Cleber Facchi


Bárbara Eugênia foge à regra quando próxima de vozes recentes ou mesmo veteranas da música popular brasileira. Sem o descontrole lírico (e emocional) de Karina Buhr, distante dos gracejos pop de Tulipa Ruiz e raspando de leve na psicodelia nostálgica de Céu, a cantora traz nos vocais a principal arma para se apresentar e consequentemente seduzir o público. Com o acerto de quem pensa no trabalho de estúdio já visualizando o o cenário Ao Vivo, a artista carioca situada em São Paulo alcança o segundo registro solo aprimorando as experiências iniciadas há três anos. São composições que abandonam o ambiente à meia-luz de Journal de BAD (2010) para mergulhar o trabalho em um plano levemente ensolarado e às vezes até excêntrico.

Prosseguindo de onde Céu parece ter estacionado no último álbum, Caravana Sereia Bloom (2012), a artista encontra na produção fracionada entre Edgard Scandurra e Clayton Martins (da banda Cidadão Instigado) um caminho seguro para transitar por diferentes estágios e épocas da música. Ora apoiada em conceitos do rock psicodélico nacional da década de 1970, ora íntima de todo o erotismo derramado por Serge Gainsbourg no decorrer do mesmo período – extensão do que promove com Scandurra dentro do projeto Les Provocateurs -, Bárbara dança em um misto constante de provocação e sofrimento. Uma dicotomia que circula e abastece cada instante das 11 composições que se abrigam no disco.

Intitulado É O Que Temos (2013, Oi Music), o novo registro partilha de um conceito bastante específico: a sedução. Ciente do caráter voluptuoso da própria obra, Eugênia passeia pela essência de Gainsbourg e outros símbolos do erotismo musical, encontrando nas guitarras versáteis de Scandurra um apoio para reproduzir composições que naturalmente hipnotizam. Menos tímido que o antecessor, o novo disco traz no clima setentista da faixa de abertura boa parte dos engenhos que tratam de alimentar o restante do álbum. Composições movidas por uma estética econômica, solos alongados e que servem para destacar exclusivamente os vocais cada vez mais polidos e bem explorados da cantora.

Até a construção da sexta faixa do álbum, Sozinha (Me Sinto Solo), Bárbara e os parceiros de banda tratam de afundar o ouvinte em um mar quase infinito de sofrimento. Um trabalho que beira o desespero, mas nunca mergulha por completo nele. São composições amargas e que beiram o mesmo romantismo brega que o paulistano Pélico tratou de acertar no hoje clássico Que Isso Fique Entre Nós (2011). Por falar no músico, é ele o responsável por acrescentar beleza (e uma dose extra de melancolia) aos vocais de Roupa Suja, canção que engata a mesma medida de comoção e pós-relacionamento do clássico Porque Brigamos, faixa eternizada pela carioca Diana em 1972 e agora regravada por Eugênia.

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