. Musicalmente curiosa, a banda britânica Adult Jazz foi apresentada oficialmente no último ano, resultado dos arranjos estranhos de Springful, primeiro single do grupo original de Leeds. Aproveitando do próprio rendimento criativo de seus integrantes – um quarteto que mistura Indie Rock, Jazz (!) e Pós-Rock -, a banda reserva para o dia quatro de agosto a estreia do primeiro disco, Gist Is (2014), álbum que deve repetir o universo de colagens experimentais assinadas pelos iniciantes. Além da canção de estreia, Am Gone, lançada no…Continue Reading “Adult Jazz: “Spook””

. Quem conheceu o trabalho do austríaco SOHN em 2012 talvez fosse incapaz de prever os rumos assumidos pelo produtor. Ainda íntimo de uma sonoridade que brinca com o R&B, eletrônica e outras colagens experimentais, o artista parece cada vez menos interessado em mergulhar no próprio enclausuramento, exercício que sustenta de forma assertiva a inclusão de passagens detalhistas pela música pop, proposta revelada na coesa Artifice. Mais novo single/clipe do cantor, a canção distancia completamente o produtor da relação com How To Dress Well, Grizzly…Continue Reading “SOHN: “Artifice””

. A leveza das vozes e arranjos ocupa todos os limites da obra de Matty Fasano. Caminhando por um cenário que parece desvendado em essência pelo Grizzly Bear, e mais recentemente pelo Dirty Projectors em Swing Lo Magellan (2012), o cantor e compositor norte-americano assume no teor sublime dos elementos um ponto de natural crescimento para a própria obra. Próximo de apresentar The Factory, mais novo trabalho em estúdio, o músico usa de It Wasn’t Me Who Left You Alone como uma anunciação do que…Continue Reading “Fasano: “It Wasn’t Me Who Left You Alone””

. Naomi Pilgrim conseguiu unir delicadeza e experimento em um mesmo composto musical para a formação de No Gun. De um lado, as mesmas guitarras voláteis e o ritmo quebrado que se movimenta com acerto pela obra de Dirty Projectors, Grizzly Bear e demais nomes de peso da cena nova-iorquina. No outro oposto, vozes melódicas e todo um jogo de sutilezas que vão do pop ao R&B em um piscar de olhos. Em um turbilhão controlado de interferências está o trabalho da cantora, que livre…Continue Reading “Naomi Pilgrim: “No Gun””

Fábrica
Indie/Alternative/Experimental
http://fabricaoficial.tumblr.com/

Por: Cleber Facchi

Fabrica

Existe uma distância imensa entre as canções instaladas no debut da banda carioca Fábrica, de 2012, e o recém-lançado Grão (2013, Independente). Se há poucos meses a orientação encontrada por Emygdio Costa, criador do projeto, era a de apresentar um som essencialmente prático, fundindo samba e rock em um aconchego típico do pop, ao alcançar o novo disco, nada disso parece ter sobrevivido. Mesmo que íntimo de traços específicos do som proposto no último ano – um cruzamento que encontra a velha MPB com a estética do Los Hermanos -, Costa e os parceiros de banda vão além, transformando o novo álbum em uma morada de incertezas que arrastam o ouvinte para um turbilhão de percepções sempre marcadas pela sutileza.

Ora íntimo dos coros de vozes, experimentos e tramas ambientais do Grizzly Bear, ora próximo das harmonias e dedilhados acústicos de Edu Lobo, Grão é uma obra de possibilidades. Enquanto faixas como O que é que o samba tem? e Melhor Que Eu, expostas no último ano, pareciam dançar em um palco de experiências cercadas, cada música do recente álbum autoriza a banda a provar de distintas referências sem qualquer limite aparente. São canções que se vestem com o mesmo cuidado de obras como Veckatimest (2009), mergulham na essência do samba e fragmentam o pop em um detalhe excêntrico. Um conjunto imenso de preferências estáveis, mas que se transformam delicadamente a todo o instante.

Brincando com os arranjos em uma essência sublime e ruidosa, o disco parece ser tudo aquilo que Sábado do cantor Cícero parecia anunciar, mas não conseguiu de fato colocar em prática. Parte natural dessa transformação não está na escolha de Costa em romper com a sonoridade anunciada no disco passado, mas em agregar ao presente álbum uma série de marcas já acertadas em outros projetos que há tempos desenvolve. Arrastando para dentro do disco toda a manifestação estética do Sobre A Máquina – representado pelos parceiros Cadu Tenório e Alexander Zhemchuzhnikov -, a banda faz com que os experimentos dancem pelas melodias simples de outrora, fomentando um conjunto de músicas distantes e próximas do ouvinte na mesma medida. Dessa forma, enquanto o debut assume um detalhamento da aura matutina, Grão é manifestação específica da noite.

Fazendo uso de canções cada vez mais subjetivas, Emygdio encontra nas vozes um complemento natural para os arranjos. Em oposição ao acabamento proposto em todo o debut, Grão é uma obra em que o som fala mais alto do que as palavras. Aqui não há espaço para possíveis hits ou mesmo canções de essência radiofônica, resultado que o disco sustenta com leveza e instabilidade até o último segundo. Em determinados momentos, como na construção de Matilha e Viração, os versos simplesmente desaparecem, abrindo espaço para que ruídos vocálicos assumam a direção em uma forte aproximação com a obra de Djavan. São pequenas melodias efêmeras que surgem e desaparecem a todo momento. Uma típica representação dos sons instáveis que borbulham de forma aleatória na mente de qualquer pessoa.

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. Assim como a composição torta anunciada em Mais Um, pouco parece ter sobrevivido das melodias brandas e do caráter pop que abasteceu a estreia da carioca Fabrica, em 2012. Apostando em um resultado distante do comum, Emygdio Costa e o produtor Sávio de Queiroz abraçam com atenção toda a sonoridade que alimenta o Folk e as experimentações nova-iorquinas, trazendo para o cenário tupiniquim a irregularidade hipnótica que paira pela obra do Grizzly Bear. Mais do que olhar para o cenário estrangeiro, em Grão a…Continue Reading “Fábrica: “Grão””

. Shields (2012), quarto registro em estúdio do Grizzly Bear e um dos melhores lançamentos do último ano, está longe de encontrar conforto apenas dentro do conjunto específico de faixas que abastecem a versão oficial da obra. Deixada de fora da edição final do álbum, a melancólica Listen and Wait encontra no mesmo manuseio épico dos instrumentos e nas melodias de vozes um ponto de transformação visível. São pouco mais de três minutos em que violões, sintetizadores e a percussão torta, típica do disco, se…Continue Reading “Grizzly Bear: “Listen and Wait””

. Desde o começo da década de 1990 a Ong nova-iorquina Red Hot resolveu apostar em uma estratégia diferente para a luta contra a Aids. Mesmo que o grupo promova campanhas de prevenção e uma série de atividades mundo afora, é na difusão cultural que o grupo se diferencia, promovendo coletâneas, apresentações ao vivo e uma série de atividades que (quase sempre) abraçam uma boa parcela dos artistas independentes/alternativos. Depois dos bem sucedidos Dark Was the Night (2009) e Red Hot + Rio 2 (2011),…Continue Reading “My Morning Jacket: “Trouble Sleep Yanga Wake Am” (Ft. Merrill Garbus & Brittany Howard)”

10 Discos de 1977

Em grande parte das vezes caracterizado como um marco para o movimento Punk – em pleno invento na cena britânica -, o ano de 1977 vai além de um único segmento musical. Ponto de invenção e cruzamento de ideias, o ano trouxe ao mundo o firmamento o Krautrock, as experimentações eletrônicas, uma nova capa ao Folk e ao Rock, além de boa parte das influências do que viriam a alimentar a produção musical na década seguinte. É dentro deste cenário que selecionamos 10 registros fundamentais para o período – poderiam ser mais. Naturalmente alguns álbuns acabaram de fora, entre eles Before And After Science (Brian Eno),  Zombie (Fela Anikulapo Kuti & Africa ’70), From Here to Eternity (Giorgio Moroder), Lust for Life (Iggy Pop) e My Aim Is True (Elvis Costello), trabalhos que merecem ser conhecidos. Assim como nas listas passadas – 1990 e 1967 -, vocês têm até a próxima sexta-feira (14) para decidir qual será o próximo ano listado em nossa seção.  

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Vampire Weekend
Indie/Alternative/Experimental
http://www.vampireweekend.com/

 

VW

Em novembro de 2009, enquanto o mundo ainda digeria Merriwheater Post Pavilion, se acomodava na calmaria do The XX e aproveitava dos experimentos de Grizzly Bear e Dirty Projectors, uma contagem regressiva preparava o terreno para a chegada de Horchata. Primeiro single do segundo registro em estúdio do Vampire Weekend, Contra (2010), a canção serviria como um ponto de ruptura e transformação para aquilo que o quarteto nova-iorquino havia iniciado em janeiro de 2008. Longe da aceleração de A-Punk, Campus, Walcott e um cardápio de canções divididas entre as raízes africanas e o rock alternativo, o grupo parecia naturalmente inclinado ao experimento, fazendo do segundo álbum uma matriz para o que é solucionado apenas agora.

Continuação quase exata de tudo o que a banda alcançou há três anos, Modern Vampires Of The City (2013, XL) surge como a musculatura para o emaranhado de ossos sustentados pelo quarteto em 2010. Mais completo e arriscado trabalho do grupo até aqui, o novo álbum sobrepõe os ritmos tropicais e étnicos para movimentar um trabalho entregue às melodias do Chamber Pop. Próximo do épico, mas sem abandonar as qualidades pop que apresentaram a banda, cada etapa do registro se apresenta como um ponto de identidade para o quarteto. É como se a banda caminhasse o tempo todo entre o apelo do grande público e as barreiras do underground, experiência vivida de forma similar por Beach House e Grizzly Bear no último ano, e seguida com maturidade pelos nova-iorquinos.

Se em 2008 Ezra Koenig parecia cantar sobre o cotidiano de um jovem universitário – marca mais do que evidente em Campus e outras faixas do registro -, com o presente álbum as temáticas se ampliam. Espécie de passeio atento e quase descritivo pela cidade de Nova York, o registro vai além dos limites do quarteto. Assim como nos dois primeiros discos as letras pareciam alimentadas por recortes cotidianos e personagens aleatórios que surgiam como metáforas, em Modern Vampires Of The City esse propósito é ampliado. Os personagens agora são cuidadosamente delineados (Hannah Hunt) e as histórias esculpidas de forma atenta ao cenário do grupo (Step), resultando na construção de um ambiente quase hermético, íntimo apenas da poesia instável que se fragmenta pela obra.

Ao mesmo tempo em que se distancia da produção de faixas monumentais e pegajosas – à exemplo de Cousins no último disco e a quase totalidade do primeiro álbum -, o grupo encontra artifícios para lidar com o pop em um encaminhamento experimental e naturalmente criativo. Ainda que a excentricidade colorida de Ya Hey – mistura entre The Clash e Paul Simon – se manifeste como o principal exemplar dessa nova fase, faixa após faixa o grupo derrama sonorizações mergulhadas na transformação. Por conta do destaque maior nas letras, os vocais são trabalhados com limpidez, ressaltando pequenos coros de vozes, rimas velozes e um caleidoscópio vocálico que acompanha o álbum até a última música.

Cada vez menos íntimo da herança africana que cobria todo o primeiro álbum, com o novo disco é clara a aproximação do grupo em relação aos sons da década de 1960. A julgar pelos teclados cuidadosamente delineados por Rostam Batmanglij, o álbum se movimenta entre o colorido leve do Beach Boys pós-Pet Sounds (1967) e o baroque pop de Odessey and Oracle (1968), na melhor fase do The Zombies. Um cardápio de referências que atravessam mais de quatro décadas até estacionar logo na abertura do álbum, afinal, o que é Obvious Bicycle se não um puro exemplar das emanações sonoras de Brian Wilson? É somado à isso os épicos controlados de Everlasting Arms e a melancolia de Hannah Hunt, instantes menos comerciais do registro, porém, de extrema relevância para o aprimoramento sonoro do trabalho.

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