Tag Archives: Hip-Hop

Disco: “Future Brown”, Future Brown

Future Brown
Electronic/Experimental/Hip-Hop
http://futurebrown.com/

 

Uma sonoridade ampla em referências, porém, concisa. Esta talvez seja a melhor interpretação sobre o conceito que rege o homônimo álbum de estreia do Future Brown. Coletivo formado pelo produtor J-Cush – responsável pelo selo Lil City Trax -, Asma Maroof e Daniel Pineda – da dupla Nguzunguzu – e, também, pela musicista Fatima Al Qadiri, o projeto é um mosaico de ideias tão vasto, instável e experimental que, curiosamente, encontra na própria flexibilidade e pluralidade de ideias a base para um alinhamento coeso.

Da colaboração entre Maroof e Pineda – como Nguzunguzu -, é montado todo o esqueleto da obra. Um alicerce de encaixes minimalistas, fruto da utilização de batidas secas, típicas do Grime e UK Garage, além costuras eletrônicas que flertam (sem pudor) com a música negra do final dos anos 1980. Do trabalho (recente) de Al Qadiri em Asiatisch, de 2014, nascem as bases delicadas e toda a ambientação movida por sintetizadores etéreos, estrutura reforçada pelo colaborador J-Cush, possivelmente, o principal responsável pelo convite e distribuição do time de artistas que ocupam o restante da obra.

Com estrutura típica de mixtape, o registro se esquiva da apropriação de um único gênero ou fórmula. Trata-se de uma coleção de fragmentos pinçados de diferentes décadas, cenas e experimentos. Um passeio que começa pelos ensaios climáticos da Ambient Music, ainda nos anos 1970, flerta com o Lado B do Synthpop/Eletrônica na década seguinte, até mergulhar no Hip-Hop, R&B, IDM e toda uma variedade de essências que detalharam os últimos anos da década de 1990. Ao final, uma amarra complexa, moderna e íntima de cada colaborador – seja ele parte do coletivo, ou músico convidado.

Ora detalhado com suavidade, ora intenso, como uma extensão dos temas dançantes do Nguzunguzu, Future Brown é um registro que utiliza da própria esquizofrenia como uma ferramenta de sedução e constante diálogo com o ouvinte. Na primeira metade do disco, uma escadaria marcada por pequenas subidas e quedas rítmicas. Ferramenta ativa para o reforça no diálogo do quarteto com a parceira de longa data Tink, logo na inaugural Room 302 e, ainda, base para as rimas lançadas por nomes como Sicko Mobb, Shawanna e Timberlee, esta última, responsável pelo acerto no dancehall de No Apology. Continue reading

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Shamir: “Call It Off”

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O cruzamento (pop) entre diferentes gêneros e tendências musicais parece ser a chave para o trabalho de Shamir. Assim como no trabalho apresentado em 2014 com a pegajosa On The Regular, batidas eletrônicas, flertes com o Hip-Hop e diferentes campos da música pop se encontram de acordo com a voz versátil do artista – ora acomodado em pequenos falsetes, ora concentrado no uso de rimas velozes, sempre dançantes. O mesmo fenômeno se repete com a chegada de Call It Off.

Mergulhada em um oceano de referências Disco, além de flertes com os últimos trabalhos do The Rapture e Scissor Sisters, a inédita criação se concentra no uso de um refrão direto, sintetizadores grudentos e toda uma base ascendente que mantém o ouvinte atento até os últimos segundos da faixa. Assim como no clipe de On The Regular, a relação de Shamir com a imagem se mantém assertiva, princípio para as imagens e até fantoches utilizados pelo diretor Philip Hodges.

A canção é parte do debut Ratchet, previsto para o dia 19 de maio pelo selo XL.

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Shamir – Call It Off

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Earl Sweatshirt: “Quest/Power” (Feat. Budgie & Samiyam)

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A ambientação soturna e versos pessimistas testados por Earl Sweatshirt no interior de Doris (2013) ainda servem de base para o trabalho do jovem rapper. Com algumas composições inéditas apresentadas desde o último ano, além dos boatos de que estaria com um novo registro em mãos, aos poucos o artista norte-americano e seus parceiros – do Odd Future ou além dele – continuam a explorar o mesmo universo obscuro reforçado há dois anos.

Em Quest/Power, mais recente e bem sucedido trabalho de Sweatshirt, o coro de vozes cíclico e ritmo quebrado das batidas dos produtores Budgie & Samiyam apresentam o ambiente perfeito para que as rimas do rapper resgatem a mesma estrutura lançada em 2013. Uma boa forma de passar o tempo antes que algum registro oficial seja de fato apresentado.

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Earl Sweatshirt – Quest/Power (Feat. Budgie & Samiyam)

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Kendrick Lamar: “The Blacker The Berry”

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A relação de Kendrick Lamar com uma sonoridade mais “pop” durante o lançamento do single I em nada parece ter comprometido o trabalho do rapper dentro de outras composições. De volta ao mesmo território sombrio, porém, acessível inaugurado em Section.80 (2011), Lamar consegue transformar a recém-lançada The Blacker The Berry em uma de suas criações mais complexas e densas.

Como um reforço aos temas autorais de good kid, m.A.A.d city (2012), cada instante do novo trabalho se converte em um exercício de interpretação do universo particular do rapper, capaz de discutir intolerância racial e possíveis falhas (do próprio artista) com a comunidade negra estadunidense em um mesmo cercado lírico. “Você me odeia, não é? Eu sei que você me odeia tanto quanto odeia a si mesmo“, despeja Lammar em resgate dos temas que atravessam os comentários feitos durante a onda de protestos na cidade de Ferguson, em 2014, até referências ao contraditório som “comercial” de I.

Ainda que trabalhada em uma estrutura “econômica” quando comparada ao último single do rapper, a canção de fluência versátil – assinada por Boi-1da – estabelece de maneira precisa toda a base musical do próximo disco de Lammar, ainda sem título e data de lançamento, porém, previsto para 2015.

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Kendrick Lamar – The Blacker The Berry

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Shy Girls: “Xhampagne”, “Right, Alright” e “Renegade”

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Dan Vidmar anda bastante atarefado nas últimas semanas. Com o lançamento de uma nova mixtape como Shy Girls, o cantor/produtor norte-americano parece não apenas resgatar toda a tonalidade melancólica (e sexy) do último EP, Timeshare (2013), como ainda demonstra uma forte evolução dentro das três novas faixas que acaba de apresentar: Right, Alright, Renegade e Xhampagne, esta última, uma bem sucedida canção em parceria com o rapper Antwon.

Na trilha de Tom Krell com o último álbum do How To Dress Well – “What Is The Heart?” (2014) -, mas sem escapar do mesmo ambiente sedutor de The Weekend, Miguel e outros nomes de peso do novo R&B, Vidmar transforma cada ato do novo projeto em um espaço para compartilhar melancolias e confissões amorosas. Refrão cíclico, rimas improvisadas e bases que ultrapassam a ambientação minimalista do último EP reforçam um maior refinamento por parte do produtor. Além de Antwon, novatos como Tei Shi e Rome Fortune devem aparecer pelo projeto.

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Shy Girls – Xhampagne (ft. Antwon)

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Shy Girls – Right, Alright

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Shy Girls – Renegade

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Death Grips: “Fashion Week”

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Os membros do Death Grips podem até ter encerrado as atividades do grupo, entretanto, o lançamento de composições inéditas e novos registros continua tão frenético quando no passado recente do projeto. Além da segunda parte de The Powers That B (2015), Jenny Death, prevista para estrear no dia 10 de fevereiro, o ex-coletivo de Sacramento, Califórnia acaba de presentear o público com mais um novo registro de canções inéditas e instrumentais: Fashion Week (2015).

Na trilha do material incorporado desde Government Plates, em 2013, o novo trabalho passeia por elementos da IDM, Instrumental Hip-Hop e Industrial, reforçando a atuação de uma banda tão viva que torna a história do término cada vez mais confusa e duvidosa. Iniciando com Runway J, cada faixa é acompanhada de uma nova letra, formando ao final a frase JENNY DEATH WHEN. Com download gratuito, o registro pode ser baixado diretamente no site do Death Grips.

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Death Grips – Fashion Week

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Death Grips: “Inanimate Sensation”

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O fim das atividades do Death Grips há poucos meses de forma alguma deve prejudicar o lançamento de Jenny Death. Segunda parte do duplo The Powers That B, registro duplo que teve a primeira metade – Niggas on the Moon – apresentada há poucos meses, o trabalho acaba de receber um novo estímulo antes de ser oficialmente entregue ao público. É hora de conhecer Inanimate Sensation, uma das composições do registro que ainda conta com os samples de voz da cantora Björk, além, claro, dos ruídos e rimas sujas que apresentaram o coletivo em 2010.

Tão insana quanto todo o material apresentado no registro anterior, a faixa de seis minutos parece concentrar todos os acertos do DG: a rima eletrônica de Stefan Burnett, batidas quebradas típicas de Zach Hill e os sintetizadores sujos de Andy Morin. Em ritmo acelerado, a música ainda conta com a nítida interferência de Björk. Além da nova música, o (falecido) grupo assina a direção da faixa em que Burnett aparece rimando em meio a estranhas imagens digitais.

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Death Grips – Inanimate Sensation

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Disco: “Cores e Valores”, Racionais MC’s

Racionais MC’s
Hip-Hop/Rap/Rap Nacional
http://www.racionaisoficial.com.br/

Por: Cleber Facchi

A sensação de estranheza é inevitável durante as primeiras audições de Cores e Valores (2014, Cosa Nostra). Batidas eletrônicas secas, versos orientados em uma estrutura cíclica, por vezes limitada, e uma nítida atmosfera de distanciamento lírico fazem do sexto registro em estúdio do Racionais MC’s a obra mais particular (quase isolada) já composta pelo quarteto paulistano. A julgar pela base que representa a faixa de abertura, uma variação de Royals da cantora Lorde, não seria um erro afirmar que a essência projetada pelo grupo – Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay – durante mais de duas décadas foi desconstruída.

Passados 12 anos desde o lançamento de Nada como um Dia após o Outro Dia, em outubro de 2002, é necessário perguntar: o que você esperava de um novo álbum do Racionais? Composições extensas discutindo os problemas da periferia? Emicida, Rael e Ogi investiram nos mesmos conceitos recentemente. Faixas discutindo criminalidade, drogas e racismo? Projota, Karol Conká, Rashid, Criolo e tantos outros assumiram essa “função”. Há uma década, quando o grupo entrou em hiato, não apenas o espaço concedido ao Hip-Hop era diferente, talvez limitado, como a própria situação econômica, social e cultural do país era completamente outra. Jogar com regras antigas é parte de uma obrigação natural para qualquer artista veterano? Não para os Racionais.

Longe de parecer uma transposição forçada, com o novo álbum os “quatro pretos mais perigosos do Brasil” adaptam o próprio discurso a presente geração de ouvintes. Há 12 anos os quase nove minutos de Vida Loka II talvez fizessem sentido para o ouvinte limitado ao alcance físico de um Micro System. Entretanto, para uma massa de espectadores imersos em smartphones e rápidas mudanças de tela, a curta duração dos temas e o diálogo rápido com os meios digitas nasce como uma coesa transformação por parte do grupo. Não por acaso Cores e Valores foi antes apresentado no Google Play e Youtube do que em formato físico.

Pode parecer uma comparação absurda, mas a cíclica “Somos O Que Somos / Somos O Que Somos / Somos O Que Somos” provavelmente cause um impacto maior do que um esperado (e talvez repetitivo) resgate dos mesmos extensos versos lançados pelo coletivo na década de 1990. Todavia, a inteligência do quarteto vai além de um mero mecanismo de adaptação de formato. Regresso inevitável aos primeiros anos de estúdio do grupo, caso de Holocausto Urbano (1990) ou mesmo antes, dentro da coletânea Consciência Black, Vol. I (1988), Cores e Valores é uma obra de dois lados bem definidos, como um analógico LP dividido em “Lado A” e “Lado B”. Continue reading

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Run The Jewels: “Oh My Darling (Don’t Cry)”

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Versos agressivos e politizados, produção concisa; diálogos com o Hip-Hop das décadas de 1980 e 1990, bases encorpadas por temas recentes, carregados de frescor. Quando a estreia do Run the Jewels foi apresentada ao público, em meados de 2013, tanto Killer Mike quanto EL-P pareciam inclinados a completar as pequenas lacunas estéticas, líricas e conceituais do parceiro. Uma extensão autoral do processo inaugurado na dobradinha R.A.P. Music. e Cancer For Cure, fragmentos individuais de cada rapper/produtor em 2012 e, ao mesmo tempo, a fagulha criativa do recente projeto colaborativo.

Em Run the Jewels 2 (2014, Mass Appeal), ainda que a essência do trabalho seja a mesma do disco anterior, a estrutura que movimenta as canções é encarada de forma distinta. Antes personagens autônomos em um processo de interação, Killer Mike e EL-P passam a atuar como uma mente única, convertendo cada ato do registro em um exercício coeso e intenso. Um misto de resgate e expansão do universo temático inaugurado há poucos meses. Leia a resenha completa.

Abaixo, o clipe de Oh My Darling (Don’t Cry), trabalho insano que conta com a direção de Timothy Saccenti.

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Run The Jewels – Oh My Darling (Don’t Cry)

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Frank Ocean: “Memrise”

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Ao lado dos veteranos Mick Jones e Paul Simonon, do The Clash, e do produtor Diplo, Frank Ocean transformou a inédita Hero – produzida para a Converse – em sua última grande criação. Mesmo que o sucessor de Channel, Orange (2012) estivesse previsto para estrear em 2014, todo o material produzido em parceria com Hit-Boy e Rodney Jenkins permaneceu em estúdio. Pelo menos até agora. No próprio Tumblr, o cantor resolveu abandonar o próprio hiato, apresentando ao público a inédita – e naturalmente sorumbática – Memrise.

“Sujinha”, como se fosse gravada em algum quarto escuro pelo cantor ou adaptada ao mesmo universo de How To Dress Well, a nova faixa traz de volta toda a beleza e confissão exaltada no primeiro grande trabalho de Ocean, a mixtape Nostalgia, Ultra (2011). Bases de piano, ruídos e sons de passos, um material típico dos primeiros anos do artista em fase solo. Por enquanto, nenhuma (nova) informação sobre o futuro álbum de Ocean.

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Frank Ocean – Memrise

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