Artista: Tássia Reis
Gênero: Hip-Hop, Soul, R&B
Acesse: https://soundcloud.com/t-ssia-reis

 

Confundindo Sábios (2013) de Rashid ou Autorretrato de Nego E (2014), Quixote (2015) de Fino du Rap ou mesmo o recente Remonta (2016) do coletivo Liniker e os Caramelows. Se existe algum grande álbum brasileiro de Hip-Hop/Soul lançado nos últimos anos, basta um ouvido atento para perceber a delicada voz de Tássia Reis entre as composições. Um canto essencialmente doce, mas que se transforma em poesia política e versos marcados pelo empoderamento feminino dentro do novo registro de inéditas da cantora: Outra Esfera (2016, Independente).

A revolução será crespa / E não na TV / A revolução será crespa / Doa a quem doer”, rima em Ouça-Me, música que nasce como uma espécie de síntese do material produzido pela artista durante toda a obra. Versos que escapam do universo intimista de Reis (“Eu tentei falar baixinho, mas ninguém me ouviu”), dialogam com a questão racial (“Meu rap é crespo! Melanina nesse rolê”) e ainda reforçam o peso da cantora como um dos principais nomes da nossa música (“Se não me dão valor, cês vão pagar muito caro pra ver”).

Em Da Lama/Afrontamento, quinta faixa do disco, o peso político e social das rimas. “É revoltante e alarmante / Como eu me sinto impotente / E ainda me acho importante / Eu só quero ser decente, ser relevante”, explode Reis, abrindo espaço para a precisa interferência da convidada Stefanie MC – “Vejo pedras preciosas no meio do lamaçal / Muita gente conformada com o serviço braçal / Só conseguem se enxergar na posição de serviçal / Sendo pau mandado de um ser humano boçal”. Um jogo de rimas que atravessam diferentes aspectos, histórias e personagens da periferia.

Pontuado por pequenos respiros, o álbum ainda cria espaço para expressão do lado mais sonhador de Reis. “Tão solta quanto o vento indica / Voando por onde se quer e vai querer / Ninguém manda na tua vida / Ela criou um jeito novo de viver”, canta em Desapegada, música que discute sentimentos, empoderamento e a libertação da mulher de forma sutil, por vezes metafórica. Um estímulo para a ambientação pop de Semana Vem, faixa embalada pelo reggae e uma curiosa interpretação da artista sobre a temática dos relacionamentos abusivos.

Continue Reading "Resenha: “Outra Esfera”, Tássia Reis"

Danny Brown passou as últimas semanas presenteando o público com pequenos fragmentos do aguardado Atrocity Exhibition (2016). Primeiro veio a caótica When It Rain, depois foi a vez de Pneumonia, música produzida por Evian Christ, deixando para Really Doe, parceria com os rappers Kendrick Lamar, Earl Sweatshirt e Ab-Soul a última peça antes do lançamento definitivo do disco. Uma seleção de 15 faixas originalmente previstas para o dia 30/09, porém, entregues ao público um pouco mais cedo.

Disponível para audição desde o último dia 27, Atrocity Exhibition é o quarto álbum de estúdio do rapper original da cidade de Detroit, Michigan. O trabalho – que ainda conta com nomes como Kelela e B-Real – é o primeiro registro de inéditas de Brown desde o elogiado Old – 8º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2013. Entre os produtores do disco, nomes como The Alchemist e Petite Noir, também responsável pelo canto em Rolling Stone.

 

Danny Brown – Atrocity Exhibition

Continue Reading "Danny Brown: “Atrocity Exhibition”"

Artista: M.I.A.
Gênero: Hip-Hop, Rap, Pop
Acesse: http://www.miauk.com/

 

Em mais de uma década de carreira, M.I.A. acabou encontrando na pluralidade de ritmos e diferentes conceitos instrumentais a base para cada novo registro de inéditas. Versos políticos, batidas e arranjos extraídos de diversas partes do mundo em Arular (2005) e Kala (2007); os experimentos eletrônicos de ΛΛ Λ Y Λ (2010); o curioso diálogo entre a música árabe e o pop em Matangi (2013). Um imenso catálogo de referências que ainda serviu de base para a produção de dezenas de composições avulsas, mixtapes e obras colaborativas.

Com a chegada de AIM (2016, Interscope / Polydor), quinto (e talvez o último) álbum de estúdio da artista, cada música no interior do trabalho surge como um fragmento independente, isolado. Ideias que confirmam a completa versatilidade da rapper britânica – intensa do primeiro ao último instante da obra –, mas que acabam se perdendo no meio do caminho, como se cada composição apontasse para uma direção completamente distinta.

Inaugurado pelo peso político de Borders e as batidas de Go Off, uma das faixas mais dançantes já produzidas pela artista, AIM seduz logo nos primeiros minutos. Uma bem-sucedida sequência de batidas e rimas capazes de igualar a boa fase da artista no meio da década passada. Entretanto, à medida que o trabalho avança, M.I.A. e os produtores do disco parecem perdidos, confusos. Entre composições inéditas e músicas recicladas dos últimos singles da rapper, o álbum de 12 faixas – 17 na versão deluxe – sufoca pela completa instabilidade das canções.

Salve exceções, como Fly Pirate e A.M.P (All My People), esta última, música que conta com a produção dividida entre Skrillex e o brasileiro Léo Justi, são poucas as composições do disco que soam como um típico registro da rapper britânica. Do R&B dramático de Foreign Friend – música que poderia ser encontrada em qualquer álbum do canadense The Weeknd –, passando por Bird Song, até alcançar a pop Finally – quase uma sobra do último disco da Rihanna –, a todo minuto, M.I.A. tenta se encaixar em um universo do qual nunca fez parte.

Continue Reading "Resenha: “AIM”, M.I.A."

Danny Brown não tem economizado nos últimos lançamentos. Primeiro, o rapper norte-americano apresentou ao público a caótica When It Rain, composição escolhida para anunciar o novo álbum de estúdio, Atrocity Exhibition (2016), o primeiro grande lançamento desde o elogiado Old – 8º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2013. Meses depois, foi a vez de Pneumonia, composição produzida pelo britânico Evian Christ e uma das principais composições do rapper. Pelo menos até agora.

Em Really Doe, mais recente criação de Brown, a passagem para um time de colaboradores. Junto do rapper, os parceiros Kendrick Lamar, Ab-Soul e Earl Sweatshirt. Inspirado pelo trabalho de veteranos do pós-punk – como Joy Division e Talking Heads –, Atrocity Exhibition ainda conta com um time de colaboradores. Entre os nomes confirmados para o novo álbum, artistas como a cantora Kelela e o músico sul-africano Petite Noir.

Atrocity Exhibition (2016) será lançado no dia 30/09 via Warp.

Danny Brown – Really Doe (Feat. Kendrick Lamar, Earl Sweatshirt & Ab-Soul)

Continue Reading "Danny Brown: “Really Doe” (Ft. Kendrick Lamar, Earl Sweatshirt & Ab-Soul)"

Há tempos M.I.A. não parecia tão pop e acessível ao grande público quanto em Freedun. Produzida por Polow da Don, a canção de batidas leves e melodias descomplicadas acaba servindo de base para o inusitado encontro entre a rapper e o ex-One Direction Zayn Malik. São pouco mais de quatro minutos em que a voz eletrônica do cantor passeia ao fundo da canção, como um delicado alicerce para as rimas da artista.

A composição, assim como Borders, apresentada no último ano, e a recente Go Off, música que conta com a produção assinada por Skrillex, faz parte do novo álbum da rapper: AIM (2016). Primeiro álbum de inéditas da artista desde Matangi, de 2013, o novo registro soa como um regresso aos primeiros anos da artista, efeito da nova parceria com Diplo – Bird Song –, e a busca declarada por diferentes ritmos regionais – parte expressiva deles vindos do Oriente Médio.

AIM (2016) será lançado no dia 09/09 via Interscope

M.I.A. – Freedun (ft. Zayn)

Continue Reading "M.I.A.: “Freedun” (ft. Zayn)"

É difícil escapar do labirinto de sensações e texturas eletrônicas que James Blake desenvolve no interior de Timeless. Quarta faixa de The Colour in Anything (2016), a canção dominada por batidas e ambientações serenas lentamente se transforma em um ato caótico, mergulhando em um oceano de sintetizadores insanos que crescem até os últimos instantes da composição, uma das faixas mais intensas do novo álbum do produtor britânico.

Longe de se repetir, Blake decidiu brincar com a canção, transformando Timeless em um ato curto, completo com uma sequência de versos assinados pelo convidado Vince Staples. A canção nasce como uma extensão da parceria entre o produtor inglês e o rapper norte-americano dentro do recém-lançado EP Prima Donna (2016), trabalho de sete faixas inéditas, incluindo parcerias com nomes como Kilo Kish e A$ap Rocky.

James Blake – Timeless (ft. Vince Staples)

Continue Reading "James Blake: “Timeless” (ft. Vince Staples)"

Artista: Frank Ocean
Gênero: R&B, Hip-Hop, Rap
Acesse: http://boysdontcry.co/

 

A boa repercussão em torno de Channel Orange (2012) deu a Frank Ocean a possibilidade de assumir o controle total sobre a própria obra. Sem pressa, livre do peso de uma grande gravadora e com um dos trabalhos mais complexos do novo R&B em mãos, o cantor, compositor e produtor norte-americano passou os últimos anos se dividindo entre a construção de músicas para outros artistas – caso de Superpower, parceria com Beyoncé –, e um secreto, quase mítico, acervo de composições produzidas especialmente para o novo registro de inéditas – projeto inicialmente anunciado ao público sob o título de Boys Don’t Cry.

Quatro anos após o lançamento do bem-sucedido trabalho – obra que rendeu ao artista um Grammy no ano de 2013 –, Ocean está de volta não apenas com um novo álbum de estúdio, mas com uma verdadeira “experiência” a ser compartilhada com o público. Além de Blonde (2016, Boys Don’t Cry), trabalho que conta com 17 faixas inéditas e distribuição em duas versões em diferentes, o cantor ainda entrega o “álbum visual” Endless (2016, Boys Don’t Cry / Def Jam), uma coletânea de sobras, versões e faixas produzidas por outros artistas. No mesmo pacote, a inusitada apresentação de uma revista, esta sim, intitulada Boys Don’t Cry. Uma espécie de “complemento” ao restante do material produzido em estúdio.

Junto de Ocean, um time imenso de colaboradores. Jamie XX e Rostam Batmanglij assumem a produção da delicada Ivy. Kendrick Lamar surge discretamente em Skyline To, música que conta com a produção do velho parceiro de Odd Future, Tyler, The Creator. Beyoncé passeia ao fundo de Pink + White, canção produzida por Pharrell Williams. Em White Ferrari e Seigfried, fragmentos de músicas originalmente compostas por Elliott Smith e The Beatles, e que acabam se encontrando dentro do ambiente montado pelo britânico James Blake. Pequenas brechas que servem de passagem para nomes como Arca, Jonny Greenwood, Jazmine Sullivan, Sampha e André 3000.

Ainda que o nome do cantor apareça estampado na capa do projeto, sobrevive na ativa interferência de diferentes vozes, músicos e produtores o grande acerto do trabalho. Trata-se de uma obra essencialmente colaborativa, conceito explícito na adaptação de músicas inteiras produzidas por outros artistas – vide Device Control, do produtor alemão Wolfgang Tillmans –, além de todo o catálogo de samples e adaptações que passam pela obra veteranos como The Isley Brothers, Stevie Wonder e até pela brasileira Gal Costa. Um rico mosaico de influências, recortes e fragmentos musicais, produto do longo período de isolamento do artista.

Continue Reading "Resenha: “Blonde” / “Endless”, Frank Ocean"

Cinco anos após o lançamento de The Less You Know, the Better (2011), Josh Davis está de volta com um novo álbum como DJ Shadow. Em The Mountain Will Fall (2016), quinto registro de inéditas do responsável pelo clássico Endtroducing….. (1996), o produtor original de San Jose, Califórnia, decidiu rechear parte das 12 canções que abastecem o disco com um time de convidados que vai do pianista alemão Nils Frahm ao duo de Hip-Hop Run The Jewels.

Para a canção assinada em parceria com Killer Mike e El-P, Davis decidiu investir pesado. No clipe da canção, trabalho que conta com a direção de Sam Pilling, somos transportados para dentro de uma sala repleta de líderes globais. A diferença? No lugar do discurso, uma seleção de rimas e ataques verbais que acabam resultando em uma pancadaria generalizada, ponto de partida para um dos melhores clipes de 2016.

DJ Shadow – Nobody Speak (feat. Run The Jewels)

Continue Reading "DJ Shadow: “Nobody Speak” (feat. Run The Jewels) [VÍDEO]"

Kendrick Lamar, Earl Sweatshirt, Kelela, Ab-Soul e Petite Noir, esses são alguns dos artistas confirmados para o novo álbum do rapper Danny Brown: Atrocity Exhibition (2016). Com título inspirado em uma música do grupo britânico Joy Division, além de referências que apontam de forma confessa para o trabalho a banda nova-iorquina Talking Heads, o sucessor do elogiado Old – 8º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2013 –, mostra um artista ainda mais caótico, insano.

Semanas após o lançamento de When It Rain, primeiro single do novo álbum de Brown, o rapper está de volta com a inédita Pneumonia. Pouco mais de três minutos em que as rimas apontam para todas as direções, mergulhando em um ambiente marcado pelo uso de ruídos, batidas instáveis e fragmentos da própria voz do artista. A produção da faixa ficou por conta de Evian Chrit.

Atrocity Exhibition (2016) será lançado no dia 30/09 via Warp.

 

Danny Brown – Pneumonia

Continue Reading "Danny Brown: “Pneumonia”"

. Nos últimos meses, Saba acabou se transformando em um personagem recorrente dentro do Hip-Hop norte-americano. Nome forte da cidade de Chicago, o artista que já conta com três mixtapes – GETCOMFORTable (2012),  ComfortZone (2014) e SpareChange! (2015) – também assumiu uma posição de destaque dentro do último álbum de Chance The Rapper, Coloring Book (2016), além do recém-lançado HEAVN (2016), da cantora Jamila Woods. Em Symmetry, mais recente criação do rapper, uma perfeita síntese de todo esse amadurecimento acumulado nos últimos meses. Com produção assinada por…Continue Reading “Saba: “Symmetry””