Artista: Frank Ocean
Gênero: R&B, Hip-Hop, Rap
Acesse: http://boysdontcry.co/

 

A boa repercussão em torno de Channel Orange (2012) deu a Frank Ocean a possibilidade de assumir o controle total sobre a própria obra. Sem pressa, livre do peso de uma grande gravadora e com um dos trabalhos mais complexos do novo R&B em mãos, o cantor, compositor e produtor norte-americano passou os últimos anos se dividindo entre a construção de músicas para outros artistas – caso de Superpower, parceria com Beyoncé –, e um secreto, quase mítico, acervo de composições produzidas especialmente para o novo registro de inéditas – projeto inicialmente anunciado ao público sob o título de Boys Don’t Cry.

Quatro anos após o lançamento do bem-sucedido trabalho – obra que rendeu ao artista um Grammy no ano de 2013 –, Ocean está de volta não apenas com um novo álbum de estúdio, mas com uma verdadeira “experiência” a ser compartilhada com o público. Além de Blonde (2016, Boys Don’t Cry), trabalho que conta com 17 faixas inéditas e distribuição em duas versões em diferentes, o cantor ainda entrega o “álbum visual” Endless (2016, Boys Don’t Cry / Def Jam), uma coletânea de sobras, versões e faixas produzidas por outros artistas. No mesmo pacote, a inusitada apresentação de uma revista, esta sim, intitulada Boys Don’t Cry. Uma espécie de “complemento” ao restante do material produzido em estúdio.

Junto de Ocean, um time imenso de colaboradores. Jamie XX e Rostam Batmanglij assumem a produção da delicada Ivy. Kendrick Lamar surge discretamente em Skyline To, música que conta com a produção do velho parceiro de Odd Future, Tyler, The Creator. Beyoncé passeia ao fundo de Pink + White, canção produzida por Pharrell Williams. Em White Ferrari e Seigfried, fragmentos de músicas originalmente compostas por Elliott Smith e The Beatles, e que acabam se encontrando dentro do ambiente montado pelo britânico James Blake. Pequenas brechas que servem de passagem para nomes como Arca, Jonny Greenwood, Jazmine Sullivan, Sampha e André 3000.

Ainda que o nome do cantor apareça estampado na capa do projeto, sobrevive na ativa interferência de diferentes vozes, músicos e produtores o grande acerto do trabalho. Trata-se de uma obra essencialmente colaborativa, conceito explícito na adaptação de músicas inteiras produzidas por outros artistas – vide Device Control, do produtor alemão Wolfgang Tillmans –, além de todo o catálogo de samples e adaptações que passam pela obra veteranos como The Isley Brothers, Stevie Wonder e até pela brasileira Gal Costa. Um rico mosaico de influências, recortes e fragmentos musicais, produto do longo período de isolamento do artista.

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Cinco anos após o lançamento de The Less You Know, the Better (2011), Josh Davis está de volta com um novo álbum como DJ Shadow. Em The Mountain Will Fall (2016), quinto registro de inéditas do responsável pelo clássico Endtroducing….. (1996), o produtor original de San Jose, Califórnia, decidiu rechear parte das 12 canções que abastecem o disco com um time de convidados que vai do pianista alemão Nils Frahm ao duo de Hip-Hop Run The Jewels.

Para a canção assinada em parceria com Killer Mike e El-P, Davis decidiu investir pesado. No clipe da canção, trabalho que conta com a direção de Sam Pilling, somos transportados para dentro de uma sala repleta de líderes globais. A diferença? No lugar do discurso, uma seleção de rimas e ataques verbais que acabam resultando em uma pancadaria generalizada, ponto de partida para um dos melhores clipes de 2016.

DJ Shadow – Nobody Speak (feat. Run The Jewels)

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Kendrick Lamar, Earl Sweatshirt, Kelela, Ab-Soul e Petite Noir, esses são alguns dos artistas confirmados para o novo álbum do rapper Danny Brown: Atrocity Exhibition (2016). Com título inspirado em uma música do grupo britânico Joy Division, além de referências que apontam de forma confessa para o trabalho a banda nova-iorquina Talking Heads, o sucessor do elogiado Old – 8º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2013 –, mostra um artista ainda mais caótico, insano.

Semanas após o lançamento de When It Rain, primeiro single do novo álbum de Brown, o rapper está de volta com a inédita Pneumonia. Pouco mais de três minutos em que as rimas apontam para todas as direções, mergulhando em um ambiente marcado pelo uso de ruídos, batidas instáveis e fragmentos da própria voz do artista. A produção da faixa ficou por conta de Evian Chrit.

Atrocity Exhibition (2016) será lançado no dia 30/09 via Warp.

 

Danny Brown – Pneumonia

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. Nos últimos meses, Saba acabou se transformando em um personagem recorrente dentro do Hip-Hop norte-americano. Nome forte da cidade de Chicago, o artista que já conta com três mixtapes – GETCOMFORTable (2012),  ComfortZone (2014) e SpareChange! (2015) – também assumiu uma posição de destaque dentro do último álbum de Chance The Rapper, Coloring Book (2016), além do recém-lançado HEAVN (2016), da cantora Jamila Woods. Em Symmetry, mais recente criação do rapper, uma perfeita síntese de todo esse amadurecimento acumulado nos últimos meses. Com produção assinada por…Continue Reading “Saba: “Symmetry””

Artista: ScHoolboy Q
Gênero: Hip-Hop, Rap, Gangsta Rap
Acesse: http://www.schoolboyq.com/

 

Vozes e batidas flutuam em uma nuvem de sons psicodélicos. Fragmentos e samples esquecidos da música negra na década de 1970 servem de base para um conjunto de versos marcados por excessos, drogas, racismo e criminalidade. Em Blank Face LP (2016, Top Dawg / Interscope), quarto álbum de estúdio de ScHoolboy Q e segundo trabalho dentro de uma grande gravadora, todos os elementos explorados há cinco anos no inaugural Setbacks (2011) são mais uma vez apresentados ao público, porém, de forma remodelada, como uma reinterpretação da própria essência.

Trabalho em que o time de parceiros do rapper é ampliado consideravelmente, o registro de 17 faixas e mais de 70 minutos de duração se abre para a interferência de artistas como Kanye West (THat Part), Vince Staples (Ride Out), Anderson .Paak (Blank Face), Tyler, The Creator (Big Body) e The Alchemist (Kno Ya Wrong). São produtores, músicos e conterrâneos da cena californiana que tanto assumem uma posição de destaque na construção dos temas instrumentais, quanto na formação das rimas que se espalham pelo interior do álbum.

Tamanha interferência faz de Blank Face LP o trabalho mais versátil de toda a discografia de ScHoolboy Q. Samples nostálgicos encontram o mesmo clima do Hip-Hop na década de 1990, arranjos instrumentais esbarram em bases eletrônicas marcadas pela frieza. A julgar pelo imenso mosaico de ideias, temas e conceitos musicais que sustentam o trabalho, Q faz do presente álbum uma perfeita desconstrução do som homogêneo que marca o antecessor Oxymoron (2014), resgatando a mesma carga de referências incorporadas em Habits & Contradictions, de 2012.

Ao mesmo tempo em que brinca com as possibilidades, o rapper sustenta na poesia urbana do trabalho o elemento de conexão entre grande parte das composições. Como indicado durante o lançamento de Groovy Tony / Eddie Kane, primeiro single do disco, Q utiliza de personagens fictícios e diferentes acontecimentos que marcaram a comunidade negra dos Estados Unidos para desenvolver pequenos paralelos com a própria carreira. Canções sufocadas pelo uso excessivo de drogas, sexo, assassinatos e até o exorcismo de pequenos demônios interiores.

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Artista: Jamila Woods
Gênero: R&B, Soul, Pop
Acesse: http://www.jamila-woods.com/

 

Poemas publicados em diferentes antologias, canções assinadas em parceria com nomes como Chance the Rapper e Macklemore & Ryan Lewis, obras produzidas de forma colaborativa com o músico Owen Hill no projeto Milo & Otis. Sem restrições, de forma sempre atenta, Jamila Woods passou os últimos cinco anos se relacionando com um time de artistas estadunidenses. Produtores, instrumentistas, compositores e, principalmente, representantes do Hip-Hop de Chicaco, artistas e colaboradores que cercam a cantora dentro do recém-lançado HEAVN (2016, Closed Sessions).

Extensão segura do material produzido há poucos meses em Surf (2015), obra apresentada pelo coletivo Donnie Trumpet & The Social Experiment, a estreia solo de Woods confirma a completa versatilidade da cantora. São composições que mergulham na música negra dos anos 1970 (Bubbles), abraçam o neo-R&B de Erykah Badu no final da década de 1990 (Lonely Lonely) e alcançam o presente cenário em meio a batidas e rimas que vão do debate sobre racismo ao empoderamento feminino (Blk Girl Soldier).

Da abertura ao fechamento do disco, Woods se concentra na produção de versos que discutem a repressão sofrida pela comunidade negra, violência policial e preconceito, estabelecendo uma espécie de conexão para os primeiros poemas publicados no começo da presente década e até faixas assinadas em parceria com outros artistas. O curioso está na forma como a cantora explora esse universo de temas sóbrios com leveza, costurando bases e temas íntimos da música pop ao longo do registro.

Longe de parecer um produto do isolamento de Woods, HEAVN se abre para a ativa interferência de um grupo de músicos, rappers e produtores. Logo na abertura do disco, NoName e Lornie Chia auxiliam a cantora na construção de VRY BLK e Lonely Lonely, dois exemplares da sensibilidade poética que rege o trabalho da artista. Com a chegada de LSD, sétima faixa do disco, um caminho livre para vários colaboradores recentes. Nomes como Chance The Rapper, o rapper Saba, em Emerald, e Donnie Trumpet, parceiro na experimental Breadcrumbs.

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. Responsável por um vasto acervo de obras, Mykki Blanco passou os últimos cinco anos em busca de um espaço dentro da cena californiana de Hip-Hop. Entre batidas e bases marcadas pelo uso de experimentos, além, claro, dos versos que alavancaram o movimento Queer Rap, o artista original de Orange County deu vida a obras como Betty Rubble: The Initiation (2013) e Gay Dog Food (2014), preparativos para a sequência de faixas que serão apresentadas dentro do primeiro registro de estúdio do rapper: Mykki (2016). São 13…Continue Reading “Mykki Blanco: “The Plug Won’t””

. A.I.M. (2016), esse foi o título escolhido para o quinto registro de estúdio da rapper M.I.A.. Sucessor do comercial Matangi (2013), obra que reuniu músicas como Bad Girls, Double Bubble Trouble e Y.A.L.A., o novo álbum parece seguir a trilha dos primeiros trabalhos da artista inglesa, efeito da explícita colisão de ritmos – grande parte deles extraídos da cultura oriental –, além da forte temática política, base de faixas como Swords e Borders, ambas lançadas no último ano. Em Go Off, primeira composição oficialmente anunciada para…Continue Reading “M.I.A.: “Go Off””

Artista: BADBADNOTGOOD
Gênero: Jazz, Experimental, Alternative
Acesse: http://badbadnotgood.com/

 

O leve amadorismo e completo descompromisso que marca as canções de BBNG (2011), álbum de estreia do coletivo canadense BADBADNOTGOOD, está longe de ser encontrado no quarto e mais recente trabalho do grupo, IV (2016, Innovative Leisure). Produto do natural amadurecimento da banda de Toronto – hoje composta por Matthew A. Tavares, Chester Hansen, Alexander Sowinski e Leland Whitty –, a obra de temas intimistas e arranjos marcados pela execução detalhista dos instrumentos concentra no renovado time de colaboradores o grande acerto de cada composição.

Trabalho em que o grupo mais se distancia da habitual relação com o Hip-Hop – vide o antecessor Sour Soul (2015), obra lançada em parceria com o rapper Ghostface Killah –, o novo álbum confirma a busca do quarteto por um som que dialoga com o passado. Temas e referências instrumentais que vão dos experimentos com o Funk/Soul na década de 1970 – base da parceria com Kaytranada, em Lavender –, até composições que resgatam o clima do jazz clássicos dos 1950, abrindo espaço para uma série de interferências vocais.

Em Time Moves Slow, terceira faixa do disco, uma perfeita representação de como a voz ganha destaque no interior da obra. Enquanto Samuel T. Herring, vocalista do Future Islands, detalha uma sequência de versos marcados pela saudade – “O tempo passa lentamente quando você está sozinho / o tempo passa lentamente quando você está fora de si” –, musicalmente, o quarteto brinca com os arranjos de forma essencialmente melancólica. Uma trilha dolorosa que se estende até a faixa de encerramento do disco, Cashmere.

Composta em parceria com a cantora canadense Charlotte Day Wilson, In Your Eyes, décima faixa do trabalho, é outra composição que encanta pelo uso atento dos versos e vozes. “Eu amo o jeito que você se move / É tão tímido”, canta Wilson enquanto a banda aponta de forma decidida em direção ao passado. Arranjos empoeirados, nostálgicos, como se alguma dolorosa canção dos anos 1960 fosse delicadamente resgatada e adaptada para o álbum.

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Artista: The Avalanches
Gênero: Electronic, Psychedelic, Alternative
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Desde que deixei você / Eu encontrei um mundo novo”. Mais do que um inflamado grito de libertação, o verso central de Since I Left You, faixa-título do primeiro álbum de estúdio do The Avalanches, parece indicar o longo período de experimentação e novas sonoridades que viriam a ser exploradas pelo coletivo australiano. Em um longo intervalo que durou 16 anos, os parceiros Robbie Chater, James Dela Cruz e Tony Di Blasi se concentraram na busca por fragmentos esquecidos dos anos 1960, 1970 e 1980, presentearam o público com um delicado acervo de mixtapes e retornam agora com o colorido Wildflower (2016, Modular / Astralwerks), uma obra tão ampla e significativa quanto o trabalho apresentado no começo de 2000.

Tal qual o registro que o antecede, o novo álbum – uma seleção com 21 faixas e mais de 60 minutos de duração –, se revela como uma criativa colcha de retalhos, vozes e experimentos. São fragmentos que atravessam a década de 1960 – caso de Come Together dos Beatles, em The Noisy Eater –, exploram o som colorido dos anos 1980 – vide Subways da cantora Chandra –, além de um bem servido catálogo de rimas, trechos de filmes, vozes e ruídos que se espalham da abertura do disco, em Because I’m Me, à derradeira Saturday Night Inside Out. A própria capa do álbum  sintetiza as inspirações do grupo, uma reinterpretação do clássico There’s a Riot Goin’ On (1971) do grupo Sly & the Family Stone.

Talvez a principal diferença em relação ao trabalho entregue há quase duas décadas esteja na forma como grande parte das canções em Wildflower se projetam de forma comercial, sempre íntimas do grande público. Um bom exemplo disso está em Frankie Sinatra. Escolhida para apresentar o disco, a canção reflete com naturalidade a busca do coletivo australiano por um som descompromissado, leve. Do sample afro-caribenho que serve de base para a música, passando pelo jogo de rimas divididas entre Danny Brown e MF DOOM, até o clipe produzido pela dupla Fleur & Manu, difícil escapar da ambientação “pop” que orienta a canção.

O mesmo enquadramento radiofônico acaba se revelando em diversos momentos da obra. Mais do que um regresso, Wildflower se projeta como uma diálogo do grupo australiano com a nova geração de artistas. Não é difícil imaginar Colours, parceria com Jonathan Donahue (Mercury Rev), como uma típica criação dos conterrâneos do Tame Impala. E o que dizer de Sunshine, música que facilmente poderia ter sido produzida pelo britânico Jamie XX. Mesmo a relação com o Hip-Hop, econômica em Since I Left You, acaba se revelando como um dos pontos fortes do trabalho. Um brilhante exercício de (re)apresentação por parte do coletivo.

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