Com pouco menos de um mês para o lançamento do terceiro álbum de estúdio, Pure Comedy (2017), Joshua Tillman segue com a divulgação de grande parte das canções produzidas para o novo álbum como Father John Misty. Além da faixa-título do disco, Two Wildly Different PerspectivesBallad of the Dying Man reforçaram a cômica poesia ácida do registro. Em Total Entertainment Forever, o mesmo conceito, porém, aplicado ao mundo do entretenimento.

Os excessos nas redes sociais, novas tecnologias diárias, Taylor Swift, programas de TV e todo um universo de referências que diariamente escapam da tela do celular. Diferentes conceitos originalmente testados em  I Love You, Honeybear – 18º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2015 –, porém, encorpados pela produção e arranjos cuidadosos de Jonathan Wilson, parceiro de Tillman desde o primeiro álbum como Father John Misty.

Pure Comedy (2017) será lançado no dia 07/04 via Sub Pop.

 

Father John Misty – Total Entertainment Forever

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O novo álbum do The Shins continua sendo uma incógnita. Entre faixas que refletem a essência doce da banda, como Mildenhall, e composições medianas, caso de Dead Alive e Name For You, cada faixa parece apontar para uma direção diferente, como se James Mercer fizesse de cada música do disco um ato completamente isolado. Experimentos que assumem um aspecto ainda mais curioso dentro da inédita Painting a Hole.

Livre dos arranjos acústicos que acompanham a banda desde o primeiro álbum de estúdio, Oh, Inverted World (2001), a nova faixa mostra o interesse de Mercer em bagunçar a cabeça do ouvinte. Guitarras esbarram em sintetizadores, batidas tortas abrem passagem para a introdução de temas egípcios, vozes em coro e gritos ao fundo da canção. Uma louca colagem de ideias e diferentes estilos musicais, mas que acaba funcionando.

Heartworms (2017) será lançado no dia 10/03 via Columbia.

 

The Shins – Painting a Hole

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Artista: Julie Byrne
Gênero: Folk, Dream Pop, Indie
Acesse: https://juliembyrne.bandcamp.com/

 

 

“Siga minha voz
Estou bem aqui
Além dessa luz
Além de todo o medo”

Como um precioso convite, a inaugural Follow My Voice conduz o ouvinte para dentro do ambiente acolhedor que se espalha entre as canções de Not Even Happiness (2017, Ba Da Bing). Segundo e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana Julie Byrne, o registro de apenas nove faixas amplia o conceito intimista apresentado no antecessor Rooms With Walls and Windows, de 2014, reforçando o folk sentimental e atmosférico que alimenta a obra da musicista.

Em ambiente enevoado, por vezes etéreo, efeito da voz marcada pelo som ecoado da captação e arranjos sutilmente espalhados ao longo do disco, Byrne convida o ouvinte a se perder. Como indicado durante o lançamento de Natural Blue, grande parte do registro flutua entre o folk melancólico da década de 1970 e o Dream Pop produzido nos anos 1990 e 2000. Instantes em que a obra da cantora nova-iorquina toca de forma referencial no trabalho de Joni Mitchell, Nico, Cat Power e Grouper, esta última, influência declarada na experimental Interlude.

De essência agridoce, Not Even Happiness se divide com naturalidade entre a melancolia dos versos e instantes de puro romantismo que crescem na voz de Byrne. “Caminhe em direção à ferida aberta / Viva em sonhos / Eu vou ficar para sempre / Dentro das cores que você mostrou”, canta em Natural Blue, uma canção que olha para o passado de forma honesta, resgatando fragmentos de um relacionamento que não deu certo, mas que continua a povoar a mente do eu lírico.

Posicionada no encerramento do disco, I Live Now As A Singer brinca de forma particular com a mesma temática. Enquanto os versos resgatam memórias recentes de Byrne (“E sim, eu fui ao chão, pedindo perdão / Quando eu não estava nem perto de me perdoar”), musicalmente, o ouvinte é conduzido para dentro de uma nuvem de sons inebriantes. Arranjos acústicos que se espalham em meio a sintetizadores densos, por vezes íntimos do som produzido por Angelo Badelamenti para a trilha sonora de Twin Peaks.

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É difícil escapar dos trabalhos produzidos pela cantora e compositora britânica Laura Marling. Dona de uma sequência de grandes obras – caso dos recentes Once I Was an Eagle (2013) e Short Movie (2015) –, a musicista de Berkshire anuncia para o começo de março a chegada de um novo registro de inéditas. Intitulado Semper Femina (2017), o trabalho que conta com a excelente Soothing, lançada em 2016, acaba de ser reforçado com a também inédita Wild Fire.

Ora cantada, ora declamada, a música que utiliza de arranjos sutis e batidas sempre contidas mostra a força do trabalho de Marling, sempre intimista, romântica e sensível. Enquanto os versos buscam apoio na boa safra do Folk produzido na década de 1970, difícil não lembrar de Fiona Apple e obras como Extraordinary Machine (2005) ou The Idler Wheel… (2012) na composição atmosférica da faixa, sonoridade também explorada em Soothing.

Semper Femina (2017) será lançado no dia 10/03 via More Alarming Records.

 

Laura Marling – Wild Fire

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Entre os versos em inglês que marcam as canções do bucólico Songs of Wood & Fire, álbum de estreia do M O O N S, o cantor e compositor mineiro André Travassos reservou um pequenos espaço para produzir uma faixa cantada em português. Deixada de fora na edição final do disco, porém, agora apresentada ao público, Oh, Caraíva mantém firme a essência acolhedora e doce que marca grande parte do registro – 31º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2016.

Composta durante uma passagem do músico pela comunidade de Caraíva, no interior da Bahia, a canção de versos descritivos delicadamente transporta o ouvinte para o cenário litorâneo onde foi criada. “Oh, Caraíva, que falta você me faz / Seus ritos e descaminhos num entardecer lilás / A noite todos planetas param para te olhar / E dançam com as estrelas na imensidão do mar“, canta Travassos enquanto o violão se espalha preguiçoso, sempre acolhedor.

 

M O O N S – Oh, Caraíva

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Artista: M O O N S
Gênero: Indie, Folk, Alternativa
Acesse: https://listentomoons.bandcamp.com/

 

Songs of Wood & Fire (2016, La Femme Qui Roule) é um disco que se revela em essência antes mesmo que a primeira música, a instrumental Hunting You, tenha início. Do título bucólico – “canções de madeira e fogo”, em português –, passando pelo trabalho do artista gráfico Jade Marra para a capa do álbum – um momento de afeto e proximidade de um casal –, cada fragmento da obra serve de indicativo para a poesia doce e arranjos sempre delicados de André Travassos na estreia como M O O N S.

Mais conhecido pelo trabalho com o temporariamente extinto grupo Câmera, coletivo responsável por registros como o ótimo Mountain Tops (2014), Travassos faz de cada uma das canções dentro do presente álbum um registro de pura intimidade, leveza e melancolia. Composições marcadas pela dor, saudade ou mesmo ensolarados sussurros românticos, como se o cantor e compositor mineiro fosse capaz de interpretar diferentes personagens e suas histórias ao longo da obra.

“Estávamos frente a frente, tentamos dizer ‘oi’ / Foram os minutos mais longos da minha vida / O silêncio se manteve, mesmo ensurdecedor / Todo o local parecia vazio”, canta na descritiva The Best Thoughts About You, faixa que detalha o reencontro de um casal de forma leve, como se Travassos convidasse o público a provar de diferentes histórias, tormentos e casos de amor. Uma poesia quase narrativa, completa pelo minimalismo dos instrumentos que se espalham ao fundo do álbum.

O dedilhado limpo e os arranjos de cordas em Golden Sun, no melhor estilo Mutual Benefit, guitarras e texturas acústicas em Good Luck Baby, o violão solitário que se espalha e cresce dentro da faixa título do disco, uma atmosfera típica dos trabalhos de Elliott Smith. São pouco mais de 40 minutos em que Travassos e um time de instrumentistas da cena mineira, entre eles Jennifer Souza e o produtor Leonardo Marques, integrantes da Transmissor, ocupam todos as brechas do trabalho.

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Dias após o lançamento da encantadora Golden Sun, é chegada a hora de ter acesso ao primeiro álbum em carreira solo do cantor e compositor mineiro André Travassos: Songs of Wood & Fire (2016). Sob o título de M O O N S, o artista, também integrante do Câmera – grupo responsável pelo ótimo Mountain Tops (2014) –, faz de cada uma das dez composições do disco um ato de puro preciosismo, detalhando melodias aconchegantes e vozes sempre serenas, costuradas por versos intimistas.

Com lançamento pelo La Femme Qui Roule – casa de artistas como Jennifer Souza e JP Cardoso –, o trabalho ainda conta com a participação do músico Leonardo Marques, um dos integrantes da banda mineira Transmissor, além de um time de instrumentistas mineiros. O resultado está na construção de um registro marcado pela leveza dos arranjos, vozes e versos, íntimo do mesmo som produzido por artistas como Iron & Wine, Mutual Benefit, Fleet Foxes e outros nomes fortes da cena estrangeira.

 

M O O N S – Songs of Wood & Fire

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Artista: Weyes Blood
Gênero: Chamber Pop, Indie, Folk
Acesse: https://weyesblood.bandcamp.com/

 

Natalie Mering passou por um lento processo de amadurecimento nos últimos cinco anos. Do lançamento do primeiro disco como Weyes Blood, o obscuro The Outside Room (2011), passando pela produção de obras como The Innocents (2014) e até o EP Cardamom Times (2015), cada trabalho apresentado pela cantora e compositora nova-iorquina parece aproximar o público de um novo universo de possibilidades e temas instrumentais, proposta que se reforça com a chegada do doloroso Front Row Seat to Earth (2016, Mexican Summer).

Movida pela solidão, medos e saudade, Mering faz de cada composição ao longo do registro um claro exercício de exposição do próprio sofrimento. “Você precisa de mim do jeito que eu preciso de você? / Vamos ser sinceros para uma mudança / Você precisa de alguém? / Você precisa do meu amor?”, questiona em Do You Need My Love, um atormentado delírio confessional que resume com naturalidade a dor que abastece grande parte das canções do trabalho.

Em Seven Words, sétima faixa do disco, confissões românticas e versos marcados pelo sofrimento do eu lírico dançam sem pressa no interior da canção. “Com o tempo, ambos estaremos livres dessa bola com correntes … Quando a poeira baixar / E você esquecer que eu estava aqui / Esperando / Pendurada”, canta enquanto uma delicada cortina instrumental desce e cobre toda a base da canção, reforçando a temática dolorosa que Mering usa para dialogar com o ouvinte.

Nos poucos instantes em que a poesia romântica do trabalho deixa de ser um objeto de destaque, a cantora se concentra na produção de faixas que dialogam com o presente. É o caso de Generation Why, música que a artista discute a artificialidade da vida digital e os excessos da geração Y – os Millennials. “Leve-me através das ondas de mudança / Eu sei o meu lugar / É uma coisa bonita / Y-O-L-O, por quê? / Y-O-L-O, por quê? / Y-O-L-O, por quê?”, entrega a letra da canção.

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Artista: Band of Horses
Gênero: Indie, Alternative, Folk
Acesse: http://www.bandofhorses.com/

 

Desde o lançamento de Infinite Arms, em maio de 2010, que Ben Bridwell e os demais integrantes do Band of Horses vêm buscando por um som cada vez mais comercial, íntimo do grande público. O resultado dessa “popularização” da banda de Seattle está no mediano Mirage Rock, de 2012, trabalho em que encerra a parceria com o veterano Phil Ek – colaborador desde o melancólico Everything All the Time (2006) – e reforça de maneira explícita a busca da banda pela construção de faixas cada vez menos complexas, dominadas pelo uso de melodias e versos fáceis.

Em Why Are You OK (2016, Interscope), quinto registro de inéditas do grupo norte-americano, o nascimento de uma obra marcada pelo equilíbrio. Com produção assumida por Jason Lytle, vocalista e líder do Grandaddy, além de um das principais influências criativas de Bridwell, o álbum de 11 faixas mostra a capacidade da banda em produzir um som que tanto se aproxima do público médio – vide a enérgica Casual Party –, como resgata temas e elementos que serviam de base para apresentar o trabalho do grupo há uma década.

Nona faixa do disco, a acústica Whatever, Whatever parece pensada para estimular esse parcial “regresso” do coletivo. Enquanto os versos conformam a sensibilidade e completo romantismo de Bridwell – “E eu te amo muito / Seja como você quiser / Onde quer que você esteja”–, musicalmente a canção se enche de detalhes, incorporando de maneira sutil o mesmo country “alternativo” explorado pela banda até o segundo álbum de estúdio, Cease to Begin (2007). A própria faixa de abertura do disco, Dull Times/The Moon, com mais de sete minutos, indica a busca do grupo por um som menos óbvio, denso.

Como um efeito direto desse material menos eufórico, além, claro, da constante interferência de Lytle, Why Are You OK se aproxima com naturalidade de diferentes obras produzidas pelo Grandaddy e outros coletivos norte-americanos no começo dos anos 2000. Canções como a aconchegante Lying Under Oak ou mesmo a crescente Solemn Oath; faixas que poderiam facilmente ocupar um espaço em obras como The Sophtware Slump (2000) e, em menor escala, It’s a Wonderful Life (2001), de Sparklehorse.

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Artista: William Tyler
Gênero: Folk, Instrumental, Alt. Country
Acesse: https://www.facebook.com/williamtylermusic

 

Modern Country. O título escolhido para o terceiro registro em estúdio de William Tyler parece dizer muito sobre o conceito explorado pelo guitarrista norte-americano. Depois de dois grandes álbuns que estreitaram ainda mais a relação com a música de raiz estadunidense – Behold the Spirit (2010) e Impossible Truth (2013) –, o artista original de Nashville, Tennessee, interpreta o presente lançamento como um misto de preservação da própria identidade e busca declarada por novas possibilidades.

Acompanhado de perto pelos músicos Glenn Kotche, baterista do Wilco, e Phil Cook, tecladista do Megafaun, Tyler delicadamente expande o universo de ambientações e temas instrumentais originalmente inaugurado há seis anos. São verdadeiras paisagens sonoras, como se o guitarrista buscasse detalhar um mundo de pequenas histórias a partir da manipulação sutil dos acordes. Uma obra que se espalha sem pressa, acolhedora do primeiro ao último instante.

Coeso, Modern Country parece seguir a trilha do registro entregue há três anos. Salve exceções, como a inaugural Highway Anxiety e a derradeira The Great Unwind, Tyler se concentra na produção de faixas mais curtas, acessíveis. É o caso de Gone Clear. Canção escolhida para apresentar o disco, a música de apenas seis minutos se fragmenta em diferentes movimentos, revelando instantes marcados pela fluidez das guitarras, como pelo encaixe certeiro de sons atmosféricos, pano de fundo para grande parte das composições.

Interessante notar que mesmo nas faixas mais extensas disco, Tyler e os parceiros de estúdio evitam a construção de um álbum arrastado, climático. Em The Great Unwind, por exemplo, o som tradicionalmente compacto das guitarras se abre para a formação de um ato ruidoso, sujo, como uma fuga dos temas bucólicos anteriormente testados pelo instrumentistas. Ao mesmo tempo em que se projeta como uma obra segura, íntima dos antigos trabalhos de Tyler, experimentos pontuais transportam o ouvinte para um novo universo.

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