Tag Archives: Indie Pop

Disco: “The Voyager”, Jenny Lewis

Jenny Lewis
Indie/Folk/Female Vocalists
http://www.jennylewis.com/

Por: Cleber Facchi

Durante os primeiros anos em carreira solo, tudo o que Jenny Lewis parecia interessada era em se distanciar musicalmente do Rilo Kiley, sua outra banda. Não por acaso em Rabbit Fur Coat (2006), estreia solo da cantora, Lewis abandonou a energia das guitarras para abraçar a acústica leve do Country Folk. Curiosamente depois de reciclar a mesma sonoridade em Acid Tongue (2008), a artista regressa agora ao território musical do antigo grupo, transformando o recém-lançado The Voyager (2014, Warner Bros.) em um inevitável regresso aos primeiros anos em estúdio.

Espécie de comunicação com os memoráveis The Execution of All Things (2002) e More Adventurous (2004), trabalhos mais comerciais do Rilo Kiley até aqui, o presente registro solo de Lewis é uma obra de reposicionamento. Longe da atmosfera empoeirada dos dois últimos trabalhos, a cantora investe em melodias acessíveis, acordes bem executados de guitarras e uma doce comunicação com o pop que há tempos parecia abandonada.

Basta perceber a energia que escapa de músicas como Love U Forever para que todo o “novo” universo da cantora seja desvendado. Por trás de uma linha de baixo consistente, guitarras firmes, crescentes e encaixadas de forma precisa servem de base para as confissões românticas da artista. Doses consideráveis de referências dos anos 1980 e 1970, batidas econômicas e a voz limpa: nada tende ao excesso. É dentro construção que Lewis planeja a arquitetura do álbum, um trabalho que aposta no descompromisso, mas soluciona de forma assertiva todas suas imposições.

Mesmo que tropece aqui e ali em elementos conquistados ao lado do parceiro Johnathan Rice – namorado e uma das metades do Jenny and Johnny -, todas as experiências da obra são típicas de sua autora. Nada mais inteligente da parte de Jenny do que convidar o amigo de longa data (e inspiração confessa) Ryan Adams para assumir a produção do registro. Conhecedor do trabalho de Lewis, o músico mantém o registro dentro de uma formatação homogênea, pinçando tanto elementos dos últimos discos da cantora, como referências da música Country que abasteceram toda a década de 1970. Continue reading

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Broods: “L.A.F.”

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O lançamento de Mother & Father, há poucos dias, serviu apenas para reforçar o óbvio: o duo Broods está em busca de uma fórmula própria, muito mais íntima da música Pop. Cada vez menos “experimental” quando próximos das primeiras criações do duo, os irmãos Georgia e Caleb Nott não apenas se distanciam das comparações que os aproximam de Lorde, como ainda vem desenvolvendo uma série de melodias acessíveis, ainda mais evidentes com a chegada de L.A.F.

Reforçando de forma evidente a audível relação com o CHVRCHES e outros exemplares do synthpop moderno, a nova criação potencializa a voz de Georgia, deixando para Caleb uma evidente valorização das harmonias e uso versátil das batidas. Assim como a faixa lançada há poucos dias, a nova música entrega pistas sobre os rumos da dupla em relação ao primeiro álbum de estúdio, previsto para estrear ainda em 2014.

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Broods – L.A.F.

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Disco: “Stay Gold”, First Aid Kit

First Aid Kit
Folk/Female Vocalists/Indie
http://www.thisisfirstaidkit.com/

Por: Cleber Facchi

Desde o primeiro álbum em estúdio, The Big Black and the Blue (2010), as irmãs Johanna e Klara Söderberg nunca pareceram se importar e promover um registro de fato transformador dentro do cenário em que estavam inseridas. Observadas atentamente, cada uma das canções lançadas pelo duo sueco sempre ecoaram de forma a reforçar os sentimentos da dupla, como se as faixas – confessionais, doces ou melancólicas – apenas precisassem existir. Longe de tropeçar em redundância, Stay Gold (2014, Columbia), terceiro álbum do First Aid Kit acerta justamente ao apostar nesse mesmo resultado.

Registro mais acessível da dupla até o momento, o novo disco segue a trilha Country-Folk do registro passado, The Lion’s Roar (2012), aproximando (mais uma vez) o duo dos conceitos lançados em solo norte-americano. Como um passeio pela música de raiz apresentada nos anos 1960/1970, o novo disco se acomoda em melodias simplistas, vozes delicadas e a saudade implícita nos versos de cada criação. Logo, as irmãs Söderberg estão mais uma vez em casa – e o ouvinte também.

Herdeiras da obra de Joni Mitchell e Judy Collins, além de todo o acervo de cantoras da vindas da cena musical de Nashville, Johanna e Klara utilizam do novo álbum como algo a mais do que uma simples homenagem ao passado. Trata-se de uma fina obra de criação, um exercício de amarrar as pontas com a sonoridade lançada há quatro décadas, sem necessariamente perder o senso autoral assumido no último disco. Dentro desse propósito, Stay Gold é uma obra de incontestável beleza nostálgica, mas que, ainda assim, segue de forma independente – exatamente de onde a dupla parou no disco passado.

Mais uma vez acompanhadas de Mike Mogis – produtor que atuou em obras como Rabbit Fur Coat (2006) de Jenny Lewis, além de álbuns do She & Him e Bright Eyes -, a dupla sueca encontra no novo álbum o cenário perfeito para o crescimento de cada composição. Livre da plasticidade que ecoa de forma artificial nas mãos de grupos como Mumford and Sons e Of Monsters and Men, Stay Gold brilha por soar justamente como um produto típico da década de 1970. Percepção reforçada nos vocais levemente empoeirados e arranjos acústicos que ecoam de forma artesanal – mesmo dentro da limpidez típica de um trabalho de estúdio. Continue reading

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Disco: “Sea When Absent”, A Sunny Day In Glasgow

A Sunny Day In Glasgow
Shoegaze/Dream Pop/Experimental
http://asunnydayinglasgow.com/

Por: Cleber Facchi

Por mais assertivo que tenha sido o regresso de Kevin Shields com M B V (2013) – o primeiro álbum do My Bloody Valentine após um hiato de 22 anos -, muito do que acompanha o veterano do Shoegaze / Dream Pop se acomoda em uma série de redundâncias naturais, típicas do gênero. Blocos colossais de ruídos, distorções tratadas de forma sobreposta e todo um catálogo de efeitos a serem dissolvidos com o passar da obra. Transformação do ponto de vista da música “comercial”, mas uma evidente continuação dentro da própria carreira de Shields – ainda mais se observarmos o detalhamento que acompanha a formação de Loveless (1991), a obra-prima do compositor.

Shields não é o único. Se você observar atentamente, muito do que orienta a formação ruidosa e os arranjos do gênero – salvo exceções -, cedo ou tarde se reconfigura em um trabalho marcado pela reciclagem de fórmulas. Do Deerhunter em Monomania (2013) – uma versão mais acelerada e crua de Microcastle (2008) -, ao Wild Nothing em Nocturne (2012) – uma nítida continuação de Gemini (2010) -, veteranos e novatos acabam aos poucos atraídos pelo conforto. Curioso encontrar em Sea When Absent (2014, Lefse), novo álbum do A Sunny Day in Glasgow, uma obra que se distancia completamente desse princípio.

Quarto registro em estúdio do grupo norte-americano, o sucessor do confortável Autumn, Again (2010) é uma obra de plena ruptura – para o grupo, ou para o gênero que ele representa. Brincando de forma aleatória com os blocos de ruídos agrupados por outros artistas nas últimas duas décadas, o presente álbum usa da constante transformação estética como um ponto de crescimento. Se Bye Bye, Big Ocean (The End), na abertura do disco, revela um som marcado pela continuação de antigos exageros e efeitos, até alcançar Golden Waves, no encerramento do disco, tanto o trabalho como a própria banda já se modificaram tanto, que classificar Sea When Absent como um simples discos de “Shoegaze” ou “Dream Pop” seria um erro.

Em um sentido contrário ao esforços de grande parte dos artistas de mesmo estilo, com o novo disco a banda não apenas tenta parecer acessível ao público médio, como incorpora livremente instantes mais “comerciais” lírica e musicalmente. Basta perceber as vocalizações típicas do R&B/Soul em Golden Waves ou os versos doces em Crushin’ para esbarrar no teor “pop” da obra. Mesmo ao limar a “complexidade” do trabalho, Sea When Absent não oculta as pequenas doses experimentais do registro. Um mergulho na psicodelia de The Things They Do to Me ou uma passagem pelas guitarras de Oh, I’m a Wrecker (What to Say to Crazy People) revelam que a arquitetura básica de qualquer trabalho do estilo se faz presente e ativa, apenas curiosa. Jeff Zeigler (The War on Drugs, Kurt Vile), produtor do disco, parece ter encontrado uma nova forma de organizar todas essas impressões. Continue reading

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Disco: “Ultraviolence”, Lana Del Rey

Lana Del Rey
Alternative/Dream Pop/Female Vocalists
http://lanadelrey.com/

Por: Cleber Facchi

Lana Del Rey

Ultraviolence é o disco que Lana Del Rey deveria ter lançado há dois anos. Livre dos exageros testados no cênico Born To Die, de 2012, o presente álbum cresce como uma natural extensão dos sons letárgicos entregues em Video Games e Blue Jeans – faixas responsáveis por apresentar oficialmente o trabalho da cantora. Grandioso em essência, mas acolhedor em relação aos arranjos que o definem, o segundo álbum solo da jovem nova-iorquina é uma obra de reposicionamento. Uma evidente tentativa em ocupar espaço a partir de uma estrutura que busca ser “pop” e “alternativa” na mesma medida.

Livre das fragmentadas transições eletrônicas que ocuparam grande parte do álbum passado, Ultraviolence equilibra as (novas) canções dentro de um mesmo ambiente musical. Cercada por um versátil time de letristas e produtores – caso de Rick Nowels (Lykke Li, Madonna) e Paul Epworth (Adele, Azealia Banks) -, Del Rey encontra na direção segura de Dan Auerbach, principal produtor do disco, a “ferramenta” que faltava para o acerto de Born To Die. Com mão firme, o também vocalista do The Black Keys evita que o disco mergulhe nos exageros do antecessor, entregando uma obra homogênea da inaugural Cruel World, ao fechamento com The Other Woman.

Com o abandono de temas pré-fabricados – como a estranha aproximação entre Hip-Hop e a “América dos anos 1950″ -, Del Rey e Auerbach orquestram o disco dentro de um único gênero/limite: o Dream Pop. Amortecida por violinos, guitarras arrastadas e a voz maquiada por efeitos, a cantora flutua no mesmo ambiente lançado há três décadas por nomes como Galaxie 500, Cocteau Twins e, principalmente, Mazzy Star. Observado atentamente, muitos dos conceitos que ocupam Ultraviolence surgem como uma sequência do clássico So Tonight That I Might See (1993). Todavia, a habilidade de Auerbach evita o plágio, transformando o novo disco em uma obra no mínimo “referencial”.

Parte do acerto e parcial ineditismo do álbum vem da aproximação de Lana com a psicodelia lançada nos anos 1970. Fruto (mais uma vez) da presença de Auerbach e seu recente Turn Blue (2014), o gênero revela uma série de possibilidades para a cantora, que cresce (de maneira incontestável) em músicas como Shades Of Cool e Cruel World. Como um duelo controlado, as duas faixas equilibram vozes e guitarras em um mesmo ambiente hipnótico, concedendo à cantora uma liberdade antes limitada em músicas essencialmente sintéticas como Off to the Races e Summertime Sadness. Desde o single Blue Jeans, Del Rey não parecia tão segura quanto agora, dona de um ambiente quase particular. Continue reading

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MØ: “Walk This Way”

Mø

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É curioso como MØ, mesmo sem grandes investimentos e exageros visuais, parece ter encontrado uma assertiva direção dentro dos próprios clipes. Assim como no vídeo de XXX 88, faixa produzida pelo norte-americano Diplo, a cantora dinamarquesa parece atuar com liberdade, fazendo valer o ritmo da canção. Em Walk This Way não é diferente. Dirigido por Emile Rafael, o trabalho usa da própria cantora, um time pequeno de dançarinas e uma coreografia convincente para movimentar as cenas.

Parte do bem recebido No Mythologies to Follow (2014), trabalho de estreia da jovem cantora, o novo single/clipe é uma eficiente representação da música de MØ. Cruzando referências que vão do Hip-Hop ao Pop-Eletrônico, a novata parece ter conquistado um espaço dele ao longo dos meses, distanciando as possíveis comparações com Lykke Li ou qualquer outras voz do pop europeu.

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MØ – Walk This Way

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Disco: “Nausea”, Craft Spells

Craft Spells
Indie/Alternative/Dream Pop
https://www.facebook.com/CraftSpells

Por: Cleber Facchi

Craft Spells

A estreia do Craft Spells com Idle Labor, serviu para reforçar a capacidade de Justin Paul Vallesteros em lidar com temas obscuros sem romper com o brilho pop das melodias. Manifestação dos principais distúrbios sentimentais que guiavam o músico na época, o registro de 2011 parece sobreviver mesmo além de seu próprio cercado estrutural. Em Nausea (2014, Captured Tracks), mais novo registro do grupo, as mesmas imposições lançadas há três anos voltam a se repetir, reforçando a capacidade de Vallesteros e seus parceiros em promover novos conceitos dentro da mesma composição acolhedora.

Ainda que orientado de forma explícita pela melancolia dos temas – boa parte do disco foca em um término recente de relacionamento -, Nausea é uma obra que não se permite corromper por exageros ou possíveis deslizes sentimentais do próprio criador. Como a autointitulada faixa de abertura logo entrega, a tristeza é dissolvida em pequenas doses, distribuídas suavemente ao longo de todo o trabalho.

Tendo na relação com o Dream Pop mais uma vez o ponto principal da obra, Vallesteros transporta o ouvinte para um cenário musicalmente abastecido por sonhos e pesadelos. Nada contido em relação ao debut, o novo álbum é uma obra carregada pela detalhe, principalmente na forma como as guitarras ocupam todas as lacunas do disco. Enquanto o debut parecia seguir uma métrica simples de três acordes, hoje pouco disso parece ter sobrevivido, esforço ressaltado em composições mais extensas, caso da apaixonante Komorebi e da lisérgica Changing Faces.

Mais do que uma extensão (musical) do disco passado, Nausea é uma obra de pequenas, porém, criativas possibilidades para o Craft Spells. Além do claro regresso aos sons espalhados pela década de 1980, a relação do grupo com a música psicodélica dos anos 1960 e 1970 preenche todo o registro. Basta perceber o andamento encontrado na ensolarada Twirl ou mesmo o fluxo sonoro de Laughing for My Life para perceber isso. A mudança, mesmo controlada, impera na formação do álbum. Continue reading

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Disco: “Miragem”, Ludov

Ludov
Brazilian/Indie/Alternative
http://ludov.com.br

Por: Cleber Facchi

Ludov

Há pouco mais de uma década, quando o EP Dois a Rodar (2003) e o clipe de Princesa apresentaram o trabalho da paulistana Ludov, a esperança e o romantismo jovial dos versos pareciam guiar cada instante da recém-inaugurada banda. Longe das canções em inglês apresentadas pelo Maybees, grupo que serviu de alicerce para a coletivo, Vanessa Krongold, Habacuque Lima, Paulo “Chapolin” e Mauro Motoki assumiam sorrisos mesmo nos instantes de maior melancolia, percepção que desaparece de vez ao entrarmos no ambiente escuro e essencialmente sóbrio de Miragem (2014, Tratore).

Quarto álbum de estúdio dos hoje veteranos da cena paulistana, o presente álbum parece seguir a direção apontada há sete anos em Disco Paralelo (2007). Vendo o mundo sob os olhos da personagem central da faixa Rubi – “Meus olhos ainda/ eram diamante/ Já chorei à beça/ de hoje em diante/ viraram rubi” -, o presente álbum é uma tentativa de superar a própria melancolia do passado, mesmo sem saber ao certo o que será encontrado logo em frente. Da dúvida em em Cuidada da Casa, ao desejo de mudança exposto em Reparação, seguir em frente é o princípio de ordem dentro do novo disco, experiência que está longe de ser interpretada com real aceitação.

O mar que você me deu/ Não serve pra navegar… Essa aventura de partidas e nunca de chegadas/ Fiz um mapa pra seguir e me perdi nas coordenadas“. A mudança de direção anunciada logo na faixa de abertura, Copo de Mar, é a chave para entender o novo álbum, um registro que (lentamente) tenta se livrar de tudo o que ficou para trás e recomeçar. Ao investir em vocalizações ainda mais densas do que as testadas nos outros trabalhos, Krongold encontra o ponto ideal para que os versos assinados de forma coletiva assumam um ponto exato de maturação. Como respirar com um nó está estacionado na garganta, Miragem é um registro doloroso, ambientando o ouvinte aos encontros e desencontros esparramados em cada faixa.

Praticamente livre de possíveis hits e faixas ensolaradas, típicas do primeiro disco, o atual projeto é uma obra para se apreciar lentamente, em pequenas doses. Arrastadas e atmosféricas, as canções desenvolvem um ambiente a ser explorado de forma controlada, proposta que se só extingue suas imposições ao ecoar de O Fim da Paisagem, ato final do disco. Parte expressiva disso vem da produção atenta do registro, uma espécie de aprimoramento delicado dos rascunhos gerados em Minha Economia (2011), O Paraíso (2012) e Eras Glaciais (2013), três últimos EPs da banda. Tudo é sombrio e triste, mas nem por isso menos esperançoso, sentido que conduz versos e arranjos da obra. Continue reading

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Disco: “Black Hours”, Hamilton Leithauser

Hamilton Leithauser
Indie Rock/Alternative/Singer-Songwriter
http://hamiltonleithauser.com/

Por: Cleber Facchi

Lindão!

A mudança de direção assumida em Heaven (2012), último trabalho em estúdio do grupo nova-iorquino The Walkmen, parece guiar a atuação do (ex-)vocalista Hamilton Leithauser em fase solo. Apostando em uma sonoridade menos soturna do que a lançada pelo grupo no debut Everyone Who Pretended to Like Me Is Gone, em 2002, o cantor usa do versátil Black Hours (2014, Ribbon Music) como uma ferramenta de expansão da própria herança. Sim, a relação com a antiga banda do músico é evidente, porém, os rumos agora assumidos são outros.

Apresentado há poucos meses durante o lançamento da intensa Alexandra, primeiro single do álbum, Black Hours é uma obra que usa de antigas interpretações do pop – nos anos 1960 ou na cena independente no começo dos anos 2000 – como uma ferramenta de estímulo. Enquanto ao lado dos antigos parceiros de banda a seriedade parecia guiar a voz e os temas cantados por Leithauser, hoje o resultado é diferente. “Tolo” em alguns aspectos, o debut do norte-americano é uma obra que sobrevive de emoções e temas simples, acertando justamente por conta dessa ferramenta de pura leveza.

Como um catálogo específico de pequenas possibilidades, o presente álbum é uma obra que se concentra na produção de faixas avulsas, como um típico cardápio pop. Enquanto músicas como 5AM e Self Pity revelam o lado mais sofredor do músico, outras como 11 O’Clock Friday Night e sua percussão festiva revelam um resultado opositivo, de pura celebração. Há também espaço para o Country Rock melodramático (I Retired) e até faixas que resgatam a essência confessional do The Walkmen (I Don’t Need Anyona), reforçando a completa versatilidade do registro.

Longe de assumir com individualmente todo o mérito em torno da formação do álbum, Leithauser encontra na aproximação com outros artistas da cena alternativa atual um evidente reforço. Além de Paul Maroon, velho parceiro do The Walkmen, Amber Coffman do Dirty Projectors e Richard Swift do The Shins aparecem pelo disco. Entretanto, é de Rostam Batmanglij parte substancial do acerto que guia a obra. Um dos produtores do disco, o multi-instrumentista do Vampire Weekend usa de Black Hours como uma obra para testar melodias, desenvolvendo desde bases comerciais (Alexandra), até arranjos que abraçam com leveza o experimento (Bless Your Heart). Continue reading

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Disco: “The Moon Rang Like A Bell”, Hundred Waters

Hundred Waters
Indie/Electronic/Dream Pop
http://www.hundred-waters.com/

Por: Cleber Facchi

Desde o lançamento do primeiro disco, em 2012, o quarteto Hundred Waters fez da sonoridade emanada pelas próprias canções uma passagem envolvente para o etéreo. Cruzando referências que vão do Folk aos arranjos eletrônicos, passando pela psicodelia proposta na década de 1970 e o Drem Pop em 1980, a banda de Gainesville, Florida está longe de encontrar conforto dentro de uma atmosfera específica. Posicionamento que o recém-lançado The Moon Rang Like A Bell (2014, OWSLA), segundo álbum de estúdio, revela em meio a colagens de sons tão mágicas, quanto realistas e desafiadoras.

Distante da homogeneidade que parecia alcançada no bem recebido debut, o novo álbum é uma obra de possibilidades. Do momento em que Show Me Love inaugura o disco até a chegada de No Sound, no encerramento da obra, cada passo dado pelo quarteto – Nicole Miglis, Trayer Tryon, Paul Giese e Zach Tetreault – evidencia transformação e ruptura. Com um pé na realidade e outro no plano astral, o disco se desmancha como uma nuvem doce de colagens e essências, ambiente exato para a hipnose coletiva que o grupo expande com o passar das músicas – sempre aproximadas, como um bloco único de sons.

Um pouco mais “sintético” que o álbum de 2012, The Moon Rang Like A Bell evita a proliferação de arranjos acústicos, mergulhando o ouvinte em um agregado de essências quase irreais, distantes da nossa realidade. Das batidas que ecoam o trabalho de Björk na década de 1990 ao diálogo com o Pós-Rock, dos flertes vocais com o R&B ao agregado denso do Dream Pop, cada canção autoriza o grupo a provar de pequenas tendências. Se em segundos o disco soa como o Múm em boa fase, logo nos minutos seguintes alguma diva da música negra parece arrastada para o mesmo ambiente de Julia Holter.

Livre de certezas, a presente obra do Hundred Waters aposta unicamente no invento e na desconstrução das ideias. Dessa forma, cada música cresce como um objeto isolado dentro do álbum. Enquanto Out Lee brilha em virtude dos argumentos eletrônicos dentro de uma formação mística, Innocent, logo em sequência, surge fria, matemática em determinados pontos. Uma constante sensação de que as experiências lançadas em músicas como Thistle, do disco passado, não apenas foram ampliadas, como encontraram novo significado nas mãos e exigências do grupo. Nada que prejudique a coerência do registro, continuamente amplo e aproximado esteticamente na mesma medida. Continue reading

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