Tag Archives: Indie Pop

Disco: “How To Run Away”, Slow Magic

Slow Magic
Chillwave/Electronic/Synthpop
http://slowmagic.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Um dos aspectos mais sublimes na obra de Hayao Miyazaki não está no roteiro delicado ou mesmo nos cenários fantásticos produzidos a cada película, mas nos personagens que o diretor utiliza como ponte para esse universo mágico. Seja o gigante Totoro no filme de 1988, os diferentes espíritos na trama de Princesa Mononoke (1998) ou mesmo o jovem Haku em A Viagem de Chihiro (2002), há sempre uma criatura/estopim que aos poucos afasta a mente do espectador da realidade, convidado a experimentar o novo plano de cores, cenários e sensações detalhadas em cada história.

Ainda que atuante em um ambiente específico – o da música -, não é difícil perceber no novo álbum do californiano Slow Magic a mesma atmosfera fantástica que toma conta da poesia visual de Miyazaki. Mágico personagem da própria obra, o produtor mascarado é o grande responsável por apresentar ao público – representado pelos jovens na capa do álbum – o panorama delicado que se apodera de How To Run Awaym (2014, Downtown), segundo e mais recente obra de estúdio.

Coleção de temas limpos e essencialmente melódicos, o presente álbum é um passo além em relação ao que Magic já havia testado com acerto no disco anterior, Triangle, de 2012. Trata-se de uma interpretação menos “artesanal” da Chillwave que ocupou grande parte da Costa Oeste dos Estados Unidos no final da década passada, experiência agora detalhada no uso atento dos sintetizadores – a principal ferramenta de trabalho para a obra. Todavia, mais do que um projeto orientado por novas imposições técnicas/estéticas, How To Run Away é um desenvolvido para brincar com as sensações do ouvinte.

Da imagem fantasiosa que estampa a capa do disco – o “personagem” de Slow Magic -, ao conjunto de harmonias detalhadas em cada faixa, por onde passa o ouvinte é arrastado para um novo campo de experiências oníricas. Em uma estrutura musical progressiva (e mística), o produtor detalha pequenas referências, sobrepõem instrumentos e brinca com a voz em uma captação carregada de eco. Assim como nas histórias de Hayao Miyazaki, Magic está longe de fornecer as respostas ao público, pelo contrário, parece se divertir com as diferentes interpretações lançadas em cada música. Continue reading

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Mr. Twin Sister: “In the House of Yes”

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A mudança do nome de uma banda nem sempre é vista com bons olhos. Todavia, ao apresentar Out of the Dark no final de maio, o coletivo Mr. Twin Sister – ex-Twin Sister – provou não apenas ser capaz de repetir o acerto dos primeiros anos, como de ostentar a própria evolução. Com o primeiro álbum da nova fase reservado para o dia 23 de setembro, a banda de Long Island não apenas regressa ao território lançado no ótimo In Heaven, de 2011, como se mostra interessada a investir em toda uma nova carga de referências musicais, marca explícita na recém-lançada In the House of Yes.

Encaixada no mesmo Dream Pop/Indie Pop “oitentista” do registro passado, a nova faixa carrega na voz de Gabe D’Amico a passagem para um ambiente ainda mais grandioso, ora voltado ao Soft Rock dos anos 1980, ora inspirado pelos últimos suspiros da Disco Music. São quase sete minutos de duração, experiência detalhada em totalidade por batidas semi-dançantes, vocalizações crescentes e até mesmo a inclusão de metais, ampliando de forma nítida o teor nostálgico da criação. Das texturas sustentadas pela linha de baixo, passando pelas  bases de pianos, é preciso regressar uma centena de vezes ao ambiente detalhista da faixa de forma a isolar e se captar cada nuance da faixa.

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Mr. Twin Sister – In the House of Yes

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Disco: “Banda do Mar”, Banda do Mar

Banda do Mar
Indie/Alternative/Indie Pop
https://www.facebook.com/bandadomar

Por: Cleber Facchi

É difícil não ser convencido pelo primeiro álbum da Banda do Mar. Projeto paralelo do casal Mallu Magalhães e Marcelo Camelo, o disco lançado em parceria com o português Fred Ferreira cresce como uma tapeçaria de sons cantaroláveis, raros e capazes de cruzar o Atlântico com velocidade, invadindo a mente do ouvinte sem grandes bloqueios. Mesmo incapaz de lançar um material verdadeiramente novo – trata-se de uma adaptação do arsenal testado em Ventura (2003) do Los Hermanos, gracejos pop vindos de Pitanga (2011) com uma pitada de Surf Music -, cada curva do disco luso-brasileiro encanta pelo tratamento dos arranjos e a forma honesta dada aos versos, formato que se estende e acompanha o ouvinte até o ecoar da última faixa.

Composto e gravado em Portugal – país adotado por Camelo e Magalhães desde 2013 -, o trabalho de essência radiante não oculta a seriedade dos próprios temas, postura explícita no caráter “libertador” carimbado em cada canção. Da expressão declamada em Me Sinto Ótima – quase uma “faixa irmã” de Velha e Louca -, ao inaugurar do disco com Cidade Nova - “Eu não deixo o tempo parar” -, todas as dobras do álbum soam como uma resposta sorridente aos que não acreditavam na união do casal de músicos, no afastamento de Camelo do Los Hermanos, ou na capacidade da cantora em crescer além do Folk pueril dos primeiros anos. Nada de rancor, apenas sorrisos.

São estes mesmos sorrisos que preenchem parte da poesia da obra e ainda garantem ritmo ao trabalho. Entre declarações de amor (Mais Ninguém) e faixas de puro descompromisso (Muitos Chocolates), o debut é um disco que flui com leveza e ao mesmo tempo energia, atingindo em cheio o espectador. É possível afirmar que desde o grito final na faixa De Onde Vem A Calma que Marcelo Camelo não soava tão liberto. Mesmo Magalhães dança pelo disco entre vocalizações crescentes, postura delineada com acerto no último disco solo, de 2011, mas ainda mais fascinante no pop batucado de Mia e outras criações do álbum. Vozes sorridentes (Pode Ser), assovios (Me Sinto Ótima) e celebração (Vamo embora), como definiu o jornalista Thales de Menezes: este é o disco mais agradável do ano.

Delineado com simplicidade, o álbum carrega nas guitarras a principal ferramenta de movimento para as faixas. Da abertura, com Cidade Nova, passando por Mais Ninguém, Hey Nana e Faz Tempo, cada instante do trabalho abre espaço para o uso dos solos versáteis de Camelo – tão enérgico quanto no primeiro álbum do Los Hermanos. São rajadas eufóricas de distorção, como no eixo final de Muitos Chocolates, instantes brandos que explodem sob controle, vide Seja Como For, além de um suingue raro, posicionamento que rompe com a serenidade da fase solo do músico – principalmente em Sou (2008) – para encontrar a mesma desenvoltura do hermano Rodrigo Amarante na fase pré-Cavalo (2013). Continue reading

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Jens Lekman: “WWJD MIXTAPE”

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Quem não gosta de Jens Lekman bom sujeito não é. Autor de um dos melhores discos da década passada – Night Falls Over Kortedala (2007) – e responsável por dois registros recentes satisfatórios – Argument with Myself EP (2011) e I Know What Love Isn’t (2012) -, o cantor e compositor sueco abre passagem para um novo registro de estúdio. Antes, porém, um resumo do que está por vir em uma mixtape que resume parte das atuais referências do músico, além, claro, de três canções inéditas.

Intitulado What Would Jens Do Mixtape – um brincadeira com a frase (em inglês) O que Jesus Faria -, o trabalho de 33 minutos é a morada de WWJD, What’s That Perfume That You Wear? e I Remember, todas criações inéditas do artista. Calcadas no Soft Rock dos anos 1970/1980, as faixas ainda seguem acompanhadas por músicas de Jhene Aiko (Stranger) e David Byrne (Theodora Is Dozing), transportando Lekman para um terreno pouco comum dentro do trabalho do músico.

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Jens Lekman – WWJD MIXTAPE

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HAERTS: “Giving Up”

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Bastou ao coletivo nova-iorquino HAERTS o EP Hemiplegia para que a banda caísse nas graças da gigante Columbia, sendo contratada pelo selo. Responsável por uma das faixas mais fortes do último ano, All The Days, o grupo de Soft-Pop prepara agora o caminho para a chegada do primeiro registro de estúdio, trabalho que resume no single Giving Up uma postura ainda mais “comercial” por parte de seus integrantes.

Grandiosa, a faixa expande com sabedoria grande parte dos elementos incorporados no single de 2013, deixando o aspecto Lo-Fi de outrora para abraçar de vez o pop. O resultado está em uma canção que soa tão íntima do último álbum do Haim, Days Are Gonne (2013), como do segundo disco do Florence + The Machine. Um Indie Pop semi-épico que vez ou outra tropeça em um som pronto para as pistas, ampliando os vocais de Nini Fabi, vocalista da banda. Autointitulado, o debut estreia no dia 28 de outubro.

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HAERTS – Giving Up

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Disco: “Mais um Pedaço Meu”, Pousatigres

Pousatigres
Brazilian/Indie Pop/Alternative
http://www.pousatigres.com.br/
https://www.facebook.com/Pousatigres/

Por: Cleber Facchi

De todos os elementos que separam a presente geração de artistas brasileiros daqueles que surgiram na última década, a interpretação do pop e a forma como as melodias hoje são estruturadas talvez seja a mais latente. Salvo o trabalho de nomes como Silva e Mahmundi, é evidente o “receio” e a maneira “truncada” como algumas bandas desenvolvem as próprias harmonias e versos. Uma sensação de medo em parecer acessível, feito “para as massas”, postura inexistente no som de veteranos como Ludov, Wonkavision, Video Hits e demais artistas centrados (de uma forma ou outra) em abraçar o grande público.

Nada poderia ser mais satisfatório do que encontrar em Mais um Pedaço Meu, novo registro da paulistana Pousatigres, o mesmo “compromisso” musical ressaltado na geração passada. Doce e carregado de referências tão presentes quanto nostálgicas, o trabalho curto engata em uma sucessão de vozes, arranjos e harmonias feitas para grudar no cérebro do ouvinte. Uma aproximação coerente entre pop e rock que há muito parecia abandonado (ou explorado de forma errada) em solo nacional.

Inaugurado pelo encontro sublime entre guitarras, vozes e violões de Telescópio, o catálogo de apenas seis faixas aos poucos resume todas as referências e interpretações que orientam o já experiente coletivo – Bruna Mariani (Condessa Safira), Rodrigo Palmieri (ex-Drosóphila), Elaine Jardim (ex-Drosóphila), Lucas Mello e Jobas Monteiro (ex- Kafka Show).

Com naturalidade, o pop empoeirado dos Beach Boys encontra Rumors (1977) do Fleetwood Mac (Vício e Virtude), vocalizações típicas da Jovem Guarda esbarram no rock alternativo dos anos 1990 (Banho & Tosa), e todo um universo de tendências aos poucos parecem dançar de acordo com o ritmo imposto pela banda. Cinco décadas de músicas, diferentes cenas e tendências condensadas, prensados e expostos dentro de um bloco único de composições. Continue reading

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Lowell: “LGBT”

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Desde que comentei pela primeira vez sobre o trabalho de Lowell no começo de junho, durante a divulgação do single 88, que as melodias lançadas pela artista canadense parecem ter amadurecido ainda mais. O que antes era encarado em um esforço cíclico e aprazíveis melodias pop, agora evolui a cada nova curva ou refrão pegajoso, postura ressaltada na temática séria (e ainda doce) da nova música da cantora: LGBT.

Ainda que o título da faixa seja encarado como uma criação destinado ao público homossexual, bastam os versos iniciais e o ritmo ascendente para perceber a grandeza da música. Em poucos versos Lowell fala sobre amor, respeito, inclusão e igualdade ao mesmo tempo em que cria morada nos ouvidos do espectador. Ruídos, vozes em coro e a versatilidade da artista em brincar com o pop. Como grande parte das músicas lançadas pela artista nos últimos meses, LGBT é parte do inédito We Loved Her Dearly, estreia da canadense e obra prevista para ser lançada no dia 16 de setembro.

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Lowell – LGBT

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Banda do Mar: “Mais Ninguém”

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No começo de agosto da Banda do Mar – projeto encabeçado por Marcelo Camelo, Mallu Magalhães e Fred Ferreira – entregou ao público os primeiros fragmentos do registro de estreia da parceria: Hey Nana e Mais Ninguém. Fração mais pop desse resultado, a segunda composição foi justamente a escolhida para se transformar no primeiro clipe do registro – já disponível para aquisição no iTunes.

Resumo coeso das melodias e vozes que preenchem a canção, o trabalho desenvolvido pela Controle Remoto Filmes chama atenção pelas “coreografias”. Além do dançarino Fezinho Patatyy, um dos nomes da Batalha do Passinho, o trio de músicos – e principalmente Marcelo Camelo – arrisca na dança. Quem é que não lembrou a segunda versão de O Vencedor, do Los Hermanos, com Bruno Medina revelando seu talento para além dos teclados.

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Banda do Mar – Mais Ninguém

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Disco: “Alvvays”, Alvvays

Alvvays
Indie Pop/Alternative/Female Vocalists
https://www.facebook.com/ALVVAYS
http://alvvays.com/

Por: Cleber Facchi

A julgar pela forte relação musical de Grimes, Purity Ring e toda a nova geração de artistas canadenses, não seria estranho se a presente safra de projetos locais fosse guiada pelo mesmo caráter experimental / etéreo do “coletivo”. Entretanto, ao esbarrar na estreia do Alvvays – lê-se always -, curioso observar como as referências do grupo de Toronto não apenas se revelam contrárias ao atual panorama canadense, como ainda assumem elementos há muito apagados do rock norte-americano.

De evidente imposição nostálgica, o autointitulado debut se esquiva de fórmulas complexas para encantar pela suavidade. Diminuto – são apenas nove canções -, o disco abre de forma enérgica com as guitarras de Adult Diversion, assume os próprios sentimentos em One Who Loves You e só estaciona (de forma sutil) na derradeira Red Planet. Pouco mais de 30 minutos em que sonhos e desilusões de jovens adultos são delicadamente partilhados com o público.

Confortado em uma atmosfera caseira, explícita logo na voz rústica, ainda que doce, de Molly Rankin, o álbum é uma romântica travessia pelo tempo. Com referências (sentimentais) que vão dos Beach Boys ao Indie Pop britânico da década 1980, cada instante do registro se entrega – lírica e musicalmente – ao amor. Como a banda já confirmou em entrevista, grande parte das canções do disco refletem a vida sentimental de cada integrante, base autobiográfica que aos poucos se revela íntima do próprio ouvinte.

Dentro deste contexto não é difícil comparar a estreia do Alvvays ao trabalho já proclamado por outros veteranos. Nomes como Camera Obscura, The Pastels e até mesmo figuras recentes da música, como a californiana Best Coast, sobrevivem e ainda servem de estímulo para diversos arranjos e temas reforçados ao longo da obra. Porém, ao investir em versos que se entregam às próprias confissões, o grupo canadense rompe de forma assertiva com qualquer aspecto “copioso”, cercando o debut em um nítido espaço autoral. Continue reading

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Disco: “The Voyager”, Jenny Lewis

Jenny Lewis
Indie/Folk/Female Vocalists
http://www.jennylewis.com/

Por: Cleber Facchi

Durante os primeiros anos em carreira solo, tudo o que Jenny Lewis parecia interessada era em se distanciar musicalmente do Rilo Kiley, sua outra banda. Não por acaso em Rabbit Fur Coat (2006), estreia solo da cantora, Lewis abandonou a energia das guitarras para abraçar a acústica leve do Country Folk. Curiosamente depois de reciclar a mesma sonoridade em Acid Tongue (2008), a artista regressa agora ao território musical do antigo grupo, transformando o recém-lançado The Voyager (2014, Warner Bros.) em um inevitável regresso aos primeiros anos em estúdio.

Espécie de comunicação com os memoráveis The Execution of All Things (2002) e More Adventurous (2004), trabalhos mais comerciais do Rilo Kiley até aqui, o presente registro solo de Lewis é uma obra de reposicionamento. Longe da atmosfera empoeirada dos dois últimos trabalhos, a cantora investe em melodias acessíveis, acordes bem executados de guitarras e uma doce comunicação com o pop que há tempos parecia abandonada.

Basta perceber a energia que escapa de músicas como Love U Forever para que todo o “novo” universo da cantora seja desvendado. Por trás de uma linha de baixo consistente, guitarras firmes, crescentes e encaixadas de forma precisa servem de base para as confissões românticas da artista. Doses consideráveis de referências dos anos 1980 e 1970, batidas econômicas e a voz limpa: nada tende ao excesso. É dentro construção que Lewis planeja a arquitetura do álbum, um trabalho que aposta no descompromisso, mas soluciona de forma assertiva todas suas imposições.

Mesmo que tropece aqui e ali em elementos conquistados ao lado do parceiro Johnathan Rice – namorado e uma das metades do Jenny and Johnny -, todas as experiências da obra são típicas de sua autora. Nada mais inteligente da parte de Jenny do que convidar o amigo de longa data (e inspiração confessa) Ryan Adams para assumir a produção do registro. Conhecedor do trabalho de Lewis, o músico mantém o registro dentro de uma formatação homogênea, pinçando tanto elementos dos últimos discos da cantora, como referências da música Country que abasteceram toda a década de 1970. Continue reading

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