Artista: Real Estate
Gênero: Indie Rock, Jangle Pop, Alternativa
Acesse: http://realestatetheband.com/

 

Da psicodelia litorânea que escapa de Beach Comber e Fake Blues, passando pelo som ensolarado de Days (2011), até alcançar o jangle pop de Atlas (2014), não é difícil perceber a linha conceitual que conecta os três primeiros discos do Real Estate. Uma atmosfera radiante, essencialmente pop e repleta de composições marcadas pela honestidade dos sentimentos e confissões expostas em cada fragmento de voz. Delírios românticos, tormentos e letras sensíveis que refletem o mesmo polimento nas canções de In Mind (2017, Domino).

Primeiro registro de inéditas da banda com Julian Lynch como guitarrista – Matt Mondanile decidiu sair da banda para se dedicar exclusivamente ao Ducktails –, o trabalho de 11 faixas mostra o grupo de Nova Jersey confortável em um ambiente dominado pelo uso de temas semi-psicodélicos. Composições que dialogam com o mesmo som melódico produzido por veteranos como The Byrds e Teenage Fanclub, base de grande parte das canções do presente disco.

Doce e intimista, como tudo aquilo que a banda vem produzindo desde o último álbum de estúdio, In Mind reserva ao público uma coleção de faixas pegajosas, feitas para grudar logo em uma primeira audição. São músicas como a inaugural Darling, com suas guitarras e sintetizadores enevoados; o pop psicodélico que cresce em Stained Glass ou mesmo as boas melodias de White Light, composição que parece resgatar a mesma leveza do R.E.M. no começo dos anos 1980.

A diferença em relação aos últimos discos da banda está no aspecto “caseiro” do trabalho. Produzido em parceria com Cole M.G.N., músico que já trabalhou ao lado de artistas como Ariel Pink’s Haunted Graffiti, Julia Holter e Nite Jewel, In Mind nasce como um regresso sutil ao mesmo som empoeirado que apresentou o Real Estate no fim da última década. Um bom exemplo disso está na construção da lisérgica Two Arrows, faixa que bebe da mesma psicodelia litorânea testada pelo grupo no primeiro álbum de estúdio.

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Para o anúncio de You’re Welcome (2017), sexto álbum de estúdio do Wavves, Nathan Williams decidiu investir na composição de não apenas uma, mas duas faixas inéditas. De um lado, a crueza e os ruídos da canção-título do disco, no outro, o som melódico e as boas guitarras de Daisy. Interessante perceber na recém-lançada Animal, uma das músicas que abastecem o sucessor de V, lançado em 2015, o encontro dessas duas sonoridades.

Direta, a canção abre em meio a sutilezas melódicas que incluem xilofones, efeitos eletrônicos e o uso contido das guitarras, como um alicerce para a voz (inicialmente) contida do vocalista. Nada além de um mero aperitivo para a sequência de vozes e arranjos sujos que ocupam a segunda metade da composição. São pequenas ondulações instrumentais, como se Williams e os parceiros de banda costurassem diferentes fragmentos dentro de uma mesma faixa.

You’re Welcome (2017) será lançado no dia 19/05 via Ghost Ramp.

 

Wavves – Animal

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Artista: Spoon
Gênero: Indie, Rock, Alternativa
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Com o lançamento de They Want My Soul, em agosto de 2014, Britt Daniel e os parceiros Jim Eno, Rob Pope e Alex Fischel alcançaram um novo estágio dentro da extensa discografia do Spoon. Um trabalho marcado pelo uso de boas melodias e repleto de canções pegajosas, como uma versão delicada do mesmo som originalmente testado em obras como Kill the Moonlight (2002) e Ga Ga Ga Ga Ga (2007), dois dos registros mais acessíveis e bem-recebidos pelo público fiel da banda.

Interessante perceber em Hot Thoughts (2017), nono álbum de inéditas e o retorno do grupo texano ao selo Matador Records, uma espécie de recomeço. Sem necessariamente fugir do mesmo art pop testado há três anos, cada faixa do presente disco nasce como um curioso experimento. São ruídos eletrônicos, diálogos com o dance-punk do final da década de 1970 e todo o catálogo de melodias preciosas que a banda de Austin vem acumulando desde o começo dos anos 1990, quando formada.

Perfeita síntese do som produzido para o disco, Can I Sit Next to You flutua em meio a experimentos controlados que transportam o ouvinte para diferentes cenários, épocas e tendências. Um cuidadoso jogo de melodias funkeadas, a linha de baixo suculenta, batidas sempre precisas e entalhes eletrônicos que se espalham de forma sutil ao fundo da canção. Pouco menos de quatro minutos em que o quarteto norte-americano parece brincar com as possibilidades e arranjos dentro de estúdio.

“Possibilidades”. De fato, essa parece ser a palavra que orienta grande parte do presente álbum. Em um sentido oposto ao som homogêneo testado no disco de 2014, Hot Thoughts faz de cada composição um objeto curioso, por vezes incompleto. Perceba como diferentes fragmentos instrumentais se escondem ao fundo do trabalho. A própria faixa de encerramento do disco, a instrumental Us, nasce como uma colagem de experiências e temas jazzísticos, distanciando o Spoon de uma possível zona de conforto.

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Artista: The Shins
Gênero: Indie, Alternativa, Indie Pop
Acesse: http://www.theshins.com/

 

Seja em começo de carreira, com obras como Oh, Inverted World (2001) e Chutes Too Narrow (2003), ou logo após a parceria de James Mercer com Danger Mouse no Broken Bells, caso de Port of Morrow (2012), os trabalhos do The Shins sempre se dividiram entre a produção de temas intimistas e a busca por um som declaradamente pop. Uma natural separação que parece temporariamente rompida nas canções do comercial Heartworms (2017, Aural Apothecary / Columbia).

Primeiro registro de inéditas da banda em cinco anos, o trabalho de 11 faixas e produção assumida por Mercer emana frescor e boas melodias durante toda a execução. Da abertura do disco, com Name For You, passando pela mistura de ritmos em Painting a Hole, o rock levemente dançante de Half a Million até alcançar a derradeira The Fear, poucas vezes antes um disco do The Shins pareceu tão radiante, talvez explosivo como as guitarras e vozes indicam.

Produzida pelo ilustrador e designer Jacob Escobedo, a imagem de capa do disco parece ser a chave para entender o som produzido pelo The Shins em Heartworms. Uma coleção de ideias, ritmos e estéticas completamente distintas, como se diferentes influências de Mercer e demais parceiros de banda fossem sobrepostas durante toda a formação do álbum. Não por acaso, cada canção parece trabalhadas de forma independente, como pequenos atos isolados.

Segunda composição do disco, Painting a Hole nasce como uma verdadeira síntese do material produzido pela banda para o presente disco. A firmeza das batidas logo nos minutos iniciais, um coro de vozes sorridentes – “la la la la la la” –, sintetizadores falseando elementos da música árabe e a guitarra suja, por vezes climática. Uma propositada confusão instrumental que conversa diretamente com a poesia versátil lançada por Mercer.

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Com A Montanha Mágica e O Enigma dos Doze Sapos já é possível ter uma boa noção do material produzido pelos integrantes da banda paulistana BIKE para o segundo álbum da carreira. Intitulado Em Busca da Viagem Eterna (2017), o sucessor de 1943 – 17º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2015 –, revela a busca por um som delirante e etéreo, como uma extensão cósmica do som explorado há pouco mais de dois anos.

Em Do Caos ao Cosmos, mais recente single do grupo paulista, um som ainda mais complexo e louco. Inaugurada pela força das guitarras e vozes ásperas, a canção lentamente se transforma em um ato de pura lisergia e libertação. Um som reconfortante, quase espiritual, conceito que dialoga de forma explícita com o clipe produzido pela dupla Matias Borgström e Rodrigo Notari. A relação de proximidade entre homem e natureza a partir de ritual de meditação.

 

Bike – Do Caos ao Cosmos

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Artista: Temples
Gênero: Rock Psicodélico, Alternativo, Indie
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O Temples está longe de ser a banda mais original da presente safra do rock psicodélico. Pelo contrário, sobrevive na declarada reciclagem de ideias um poderoso estímulo para grande parte do material produzido pelo quarteto inglês. Um misto de passado (The Beatles, Love) e presente (Tame Impala, MGMT) que se apropria de diversos conceitos anteriormente testados por diferentes artistas, ponto de partida para o segundo álbum de estúdio do grupo: Volcano (2017, Heavenly / Fat Possum).

Sucessor do pop Sun Structures (2014), o trabalho de 12 faixas traz de volta o que há de mais interessante (e pegajoso) no som produzido pela banda inglesa. O coro de vozes e sintetizadores dançantes em Born into the Sunset, a força das guitarras e ambientações eletrônicas em Certainty, pequenos experimentos com a música pop na curiosa Celebration. Um verdadeiro caleidoscópio de cores e possibilidades que cresce durante toda a formação do álbum.

A principal diferença em relação ao trabalho lançado há dois anos está no explícito senso de renovação que marca o presente disco. Longe do som psicodélico dos anos 1960 e 1970, James Edward Bagshaw e os parceiros de banda Adam Thomas Smith, Thomas Edward James Walmsley e Samuel Toms buscam manter os dois pés firmes no presente, dialogando com a mesma sonoridade “eletrônica” que escapa de álbuns como Currents e Multi-Love, ambos de 2015.

Segunda faixa do disco, All Join In resume com naturalidade o interesse do grupo em provar de novas sonoridades. Entre beats, samples e sintetizadores, a composição se espalha lentamente, abrindo passagem para a formação de um som que mesmo “orgânico” encanta pela colagem de referências. O mesmo conceito acaba se repetindo em músicas como Roman God-Like Man e I Wanna Be Your Mirror, porém, de forma controlada, criando uma espécie de ponte para o disco lançado em 2014.

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Original da cidade de Seattle, o Chastity Belt é um projeto de indie rock/dream pop comandado pelo quarteto Julia Shapiro (guitarra, vocal), Lydia Lund (guitarra), Annie Truscott (baixo) e Gretchen Grimm (bateria). Responsáveis por uma das melhores estreias de 2015 com Time to Go Home, o grupo anuncia anuncia a chegada do segundo álbum de estúdio. Um registro de dez faixas inéditas intitulado I Used to Spend So Much Time Alone (2017).

Música de abertura do novo disco, Different Now foi justamente a canção escolhida para apresentar o trabalho e se transformar no mais novo clipe da banda. Inaugurada pela construção de um precioso ato instrumental, batidas e guitarras que parecem vindas de algum disco do Sonic Youth, a nova faixa indica um claro amadurecimento quando comparado ao último trabalho da banda, percepção reforçada na letra intimista que cresce ao longo da canção.

I Used to Spend So Much Time Alone (2017), será lançado no dia 02/06 via Hardly Art.

 

Chastity Belt – Different Now

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Artista: Molly Burch
Gênero: Indie, Folk, Alternativo
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Em meados do último ano, a cantora e compositora californiana Molly Burch presenteou o público com duas canções inéditas. De um lado, o romantismo de Downhearted, música que parece saída de algum clássico da década de 1950/1960. No outro oposto, o tempero litorâneo de Try, faixa ancorada em diversas referências do passado, mas que dialoga de forma natural com toda uma sequência de novos representantes da música norte-americana.

Essa mesma dualidade acaba decidindo o rumo das canções apresentadas em Please Be Mine (2017, Captured Tracks), primeiro álbum de estúdio de estúdio produzido por Burch. Acúmulo de ideias e referências que passeia por diferentes décadas e tendências, o registro de apenas dez faixas faz de conflitos da própria cantora um instrumento de comunicação com o público. Confissões amorosas, medos e tormentos que se espalham em meio a guitarras e vozes enevoadas.

Próxima de Angel Olsen, Sharon Van Etten e outras românticas do rock estadunidense, Burch faz de cada composição ao longo do disco um doloroso fragmento intimista. Da melancólica faixa-título, passando por músicas como Please Be Mine, Fool e I Love You Still, cada canção de Please Be Mine se espalha em meio a versos essencialmente românticos, fazendo do álbum uma espécie de diário musicado. Canções que se apoiam em diferentes fases da própria artista.

A principal diferença em relação diferença em relação a outros nomes de destaque da música alternativa está na forma como Burch conceitualmente amarra grande parte das canções. Entre guitarras ensolaradas, órgãos climáticos e batidas pontuais, cada faixa do registro parece apontar para algum ponto específico da década de 1960. O mesmo pop radiofônico (e nostálgico) explorado pelo She & Him em toda a sequência de obras produzidas pela dupla na última década.

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Basta uma rápida audição de Crimes da Terra para perceber a essência do músico baiano Giovani Cidreira. Violão e contrabaixo trabalhados paralelamente, lembrando alguma canção esquecida do Legião Urbana no álbum Dois (1986), a letra que poderia facilmente ser encaixada na voz de Milton Nascimento, um naipe de metais que dialoga de forma inevitável com a música produzida nos anos 1970. Uma criativa colcha de retalhos que indica a direção seguida em Japanese Food (2017), álbum de estreia do cantor.

Produzido com o auxílio do projeto Natura Musical, o trabalho que conta com direção de Tadeu Mascarenhas e mixtagem assinada pelo produtor Diogo Strausz (Mahmundi, Alice Caymmi) conta com distribuição pelo selo paulistano Balacalva Records – casa de bandas como Terno Tei e Séculos Apaixonados. Em entrevista à Noisey, Cidreira conversou com a jornalista Isabela Yu sobre o processo de produção do disco.

Japanese Food (2017), será lançado no dia 06/04 via Balaclava Records.

 

Giovani Cidreira – Crimes Da Terra

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Cleo Tucker e Harmony Tividad estão de volta com um novo álbum de inéditas. Intitulado Powerplant (2017), o registro de 12 faixas chega até o público dois anos após o lançamento do primeiro disco do Girlpool, Before the World Was Big (2015). A principal diferença em relação ao material apresentado no disco anterior está na bateria pontual de Miles Wintner, artista convidado a participar das gravações do ainda inédito trabalho.

Faixa de abertura do disco, 123 foi justamente a canção escolhida para apresentar o disco. Mesmo densa, consumida pela força das guitarras e batidas, estão lá os principais elementos que apresentaram o trabalho do Girlpool. Do coro de vozes ao detalhamento melódico dos arranjos, em poucos minutos Tucker e Tividad conduzem o ouvinte para dentro do novo disco. A banda também aproveitou para apresentar o clipe da canção, trabalho dirigido por Nicholas Rattigan.

 

Powerplant

01 123
02 Sleepless
03 Corner Store
04 Your Heart
05 Kiss And Burn
06 Fast Dust
07 Powerplant
08 High Rise
09 Soup
10 She Goes By
11 It Gets More Blue
12 Static Somewhere

Powerplant (2017) será lançado no dia 12/05 via Anti-.

 

Girlpool – 123

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