Tag Archives: Indie Rock

Disco: “Escape From Evil”, Lower Dens

Lower Dens
Indie Rock/Alternative/Post-Punk
http://lowerdens.com/

Você não precisa ir além da capa de Escape From Evil (2015, Ribbon Music) para perceber a mudança em torno da (recente) obra do grupo Lower Dens. Longe do uso limitado de preto, branco e pequenas variações de cinza, a comportada inserção de cores serve como indicativo para o som cada vez mais abrangente da banda de Baltimore. Ainda que a essência consolidada em Twin-Hand Movement (2010) e Nootropics (2012) seja a mesma do terceiro álbum de estúdio, faixa, após faixa, Jana Hunter, líder do grupo, reforça a busca por um novo mundo de possibilidades rítmicas.

Sintetizadores “alegrinhos” em To Die in L.A., guitarras (quase) dançantes em Non Grata e Company, além dos vocais grandiosos de Hunter, pela primeira vez, esquiva da frieza habitual que sustenta os dois últimos discos da banda. Em uma desconstrução lenta da sobriedade que caracteriza o Post-Punk em mais de três décadas de formação do estilo, cada música do novo álbum aproxima o coletivo de um som menos mecânico, ainda amargo e melancólico, mas não menos acessível, como se os pontos de luz bloqueados na fase inicial do projeto fossem agora desobstruídos.

Mudança brusca em relação ao som “obscuro” que encerra Nootropics – com a extensa In the End Is the Beginning -, Escape From Evil demonstra a imagem de uma banda movida pela transformação. A julgar pelo cardápio imenso de arranjos, temas e conceitos explorados, não seria um erro interpretar o presente disco do Lower Dens como a obra mais “irregular” já assinada pelo grupo. Todavia, muito se engana quem interpreta tamanha instabilidade como um problema. Ao brincar com a ruptura e constante disparidade rítmica, a banda não apenas quebra a zona de conforto consolidada há três anos, como ainda transforma cada faixa do disco em uma surpresa para o ouvinte.

Um passeio pelo Dream Pop com Your Heart Still Beating, a dose extra de aceleração em Electric Current; estrutura densa em Ondine, temas ensolarados nos arranjos de To Die In L.A. Do momento em que tem início, até a última nota, Escape From Evil se revela como uma obra que brinca com as possibilidades. É difícil saber qual a (nova) direção do grupo ao término de cada faixa. A constante ruptura, entretanto, em nenhum momento favorece a criação de uma obra esquizofrênica, insegura. Tudo é encarado de forma espontânea, como se uma linha imaginária fosse capaz de amarrar temas tão instáveis quanto os do registro. Continue reading

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Disco: “Spectrum Vol. 1″, Diogo Strausz

Diogo Strausz
Alternative/Indie/Nacional
http://diogostrausz.com/

 

Basta uma visita ao site de Diogo Strausz para perceber a versatilidade em torno da obra do músico carioca. Como produtor, registros assinados em parceria com Alice Caymmi, Castello Branco e outros nomes de peso da cena alternativa, principalmente a carioca. Em projetos individuais, esporádicos, obras marcados pela colagem de referências – caso do EP/clipe de Garoto Nacional -, remixes desenvolvidos a convite de conterrâneos como Kassin e Léo Justi, além de colaborações com Jaloo, Gang do Eletro e até marcas como Coca-Cola.

O mesmo mosaico de ideias, sons e referências parece servir de inspiração para o primeiro registro solo do produtor: Spectrum Vol. 1 (2015, Independente). Em uma colagem de tendências e pequenos experimentos com a música pop, Strausz articula uma obra tão vasta quanto o próprio acervo de inventos compartilhados na última meia década. Um passeio temático e instrumental que começa ainda na capa – uma homenagem à Jovem Guarda do próprio pai, Leno, músico e uma das metades da dupla Leno & Lilian entre 1960/1970 -, mergulha na música negra, na eletrônica dos anos 1990, até se estabelecer no presente, caminhando ao lado de uma série de colaboradores recentes.

Como indicado logo nos primeiros instantes do disco, a estreia de Strausz parece esquiva de qualquer “linearidade”. Surf rock, guitarras típicas das trilhas de Quentin Tarantino, um sample de Bob Esponja, arranjos orquestrais, pitadas de Disco Music e coros de vozes. Antes mesmo que Narcisus chegue ao fim, faixa em parceria com os irmãos Keops e Raony, do Medulla, é possível se perder em meio ao ziguezaguear de experiências. A dica? Deixe que as canções conduzam. Não tente tatear as paredes ou se concentrar em um ponto específico. Com inspirações como “Castlevania, Final Fantasy, Justice, Donkey Kong, Chemical Brothers, Ennio Morricone, Queens of Stone Age e Daft Punk“, seria um erro estabelecer limites.

Tamanha flexibilidade no uso dos arranjos e temas em nenhum momento faz com que Strausz (e o ouvinte) tropece em uma obra de formação esquizofrênica. Mesmo amplo em conceitos, gêneros e tendências musicais, é possível perceber a coluna vertebral que se forma ao longo do registro. Uma obra concisa, capaz de posicionar o Soul-Pop-Eletrônico de FCK – parceria com o cantor Apollo – no mesmo palco de emoções confessionais, densas e amarguradas de Diamante, faixa de encerramento do álbum e mais recente colaboração com a cantora e amiga Alice Caymmi. Continue reading

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Best Coast: “Heaven Sent” (VÍDEO)

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Desde que Bethany Cosentino e Bobb Bruno apareceram em 2013 com o EP Fade Away, o duo californiano finalmente pareceu ter encontrado um meio termo entre os dois primeiros álbuns de estúdio, Crazy for You (2010) e The Only Place (2012). De um lado, as guitarras sujas e clima “Lo-Fi” do registro de estreia, no outro, a produção coesa e melodias ainda mais aprazíveis do segundo projeto – trabalho produzido pelo compositor Jon Brion. Com a chegada do terceiro registro de inéditas, tamanho acerto não apenas se manteve, como foi aperfeiçoado.

Em Heaven Sent, uma das primeiras composições a escapar de California Nights (2015), a voz firme de Cosentino se movimenta em paralelo ao som das guitarras, solucionando um trabalho harmônico e sujo, naturalmente íntimo dos inventos iniciais da dupla em estúdio. A diferença está no pequeno detalhamento pop explorado nos versos, vide o cíclico reaproveitamento do refrão e parte expressiva dos versos.

Com lançamento pelo selo Harvest e estreia agendada para o dia cinco de maio, California Nights (2015) acaba de ter o primeiro clipe divulgado. A direção ficou por conta de Lana Kim e da própria Bethany Cosentino. Assista:

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Best Coast – Heaven Sent

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FFS: “Piss Off”

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De um lado, Alex Kapranos, os parceiros de banda do Franz Ferdinand e uma bem sucedida discografia composta de quatro álbum. No outro, a californiana Sparks, banda que acumula mais de 20 álbum de inéditas desde o começo dos anos 1970 e influência confessa para grupos como Arcade Fire, Pixies e MGMT. Juntas, as duas bandas foram o FFS, um coletivo que parece brincar com as referências e sonoridades de cada projeto, preferência nítida no lançamento do single Piss Off.

Faixa de encerramento do homônimo álbum de estreia do supergrupo, a canção parece atravessar décadas, coletando tendências e temas específicos de cada período da música até ecoar parcialmente inédita, como um produto típico do rock atual. Doses de Glam Rock, pianos, vozes em coro e conceitos que pulam do rock britânico para o norte-americano em poucos segundos. Lembra Queen, parece Paul McCartney, mas, ainda assim, mantém firme a essência de cada metade do projeto.

FFS, o disco, conta com lançamento previsto para 8/6 pelo selo Domino.

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FFS – Piss Off

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Disco: “Um Chopp e um Sundae”, Rafael Castro

Rafael Castro
Indie/Alternative/Nacional
http://rafaelcastro.com.br/

 

Os primeiros anos de Rafael Castro como músico profissional foram marcados pelos excessos. Não falo sobre exageros lisérgicos ou noites perfumadas pelo cheiro de sexo, mas pelo excesso de composições. Em apenas três anos, entre 2006 e 2009, o cantor e compositor paulistano entregou ao público um acervo de oito registros oficiais. Obras gravadas de forma amadora, dentro de estúdios caseiros e, na maioria dos casos, desprovidas de um mínimo cuidado estético ou refinamento lírico/instrumental. Um amadorismo convincente, porém, sufocado pela quantidade de canções costuradas por temas sempre aleatórios, demasiado instáveis, talvez desorganizados.

A surpresa veio com o lançamento de Lembra?, em 2012. Embora anárquico, amarrado pela mesma pluralidade de histórias particulares do músico – capaz de colidir temas como religiosidade, vida boêmia e romantismo em um mesmo cenário – o uso de uma máscara “brega-moderna” trouxe homogeneidade ao trabalho do cantor, agora maduro e linear. Dentro de um mesmo cercado temático, porém, longe de solucionar uma obra conceitual, o paulistano encontrou o ponto de equilíbrio para a própria esquizofrenia, condensando um catálogo de Hits que pareciam ter escapado do romantismo nacional nos anos 1970 atee alcançar o presente.

De forma nostálgica, em Um Chopp e um Sundae (2015, Independente), mais recente trabalho de Castro, o passado ainda funciona como a principal fonte inspiração do compositor, porém, agora dentro de uma nova década: os anos 1980. Além do confesso grupo de artistas românticos que há tempos inspiram o trabalho do artista – caso de Roberto Carlos e Odair José -, durante todo o registro, nomes como Ritchie (Preocupado), Blitz (Vou Parar de Beber) e Léo Jaime (Aquela) surgem com naturalidade entre as canções. Referências propositais (ou involuntárias) enquadradas com propriedade dentro do jogo cômico do paulistano – tão honesto, quanto sarcástico.

Em um explícito senso de transformação, musicalmente Um Chopp e um Sundae se comportas como o trabalho mais desafiador do artista. Nada de guitarras ruidosas, sujas, típicas do último registro. Mesmo as bases acústicas, como os violões “hippie” dos primeiros trabalhos do cantor foram “abandonados”. Da abertura com a pop Ciúme, até o encerramento em Vou Parar de Beber, são os sintetizadores, efeitos eletrônicos e toda uma carga de referências empoeiradas de 1980 que ditam as regras da obra. Uma espécie de “adaptação” das mesmas melodias e arranjos lançadas pelo Cidadão Instigado em faixas como a pegajosa (e hoje clássica) Contando Estrelas. Continue reading

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Lollapalooza 2015: sete coisas que você precisa saber antes de ir ao festival

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Jack White, Pharrell Williams, Calvin Harris e The Smashing Pumpkins, estas são algumas das atrações do Lollapalooza Brasil 2015. Entretanto, antes de chegar até o Autódromo de Interlagos – casa do festival nos dias 28 e 29 de março -, preparamos uma série de dicas que vão facilitar (e muito) sua vida durante o evento.

1. Carro, Ônibus ou Metrô?

Para o Lollapalooza 2015, a organização do evento, CET e Prefeitura Municipal de São Paulo preparou um novo plano especial para incentivar o uso de transporte público. Com base nas últimas edições do evento, principalmente a última, também realizada no Autódromo de Interlagos, o uso do Metrô/CPTM continua como a melhor opção de acesso ao festival – principalmente para quem não mora em São Paulo. Assim como na edição anterior, todo o percurso do Metrô Autódromo até a bilheteria do evento deve contar com policiamento, atendentes e sinalização, facilitando o acesso aos shows. O único problema? A volta para casa. Espere por uma estação lotada, filas e longo tempo de espera – principalmente na noite de sábado.

Dica: compre as passagens para o metrô (ou ônibus) com antecedência. Em 2014, quem estava com passagens em mãos e permaneceu na fila/agrupamento para entrar no metrô teve acesso (um pouco mais) rápido com o bilhete em mãos. Não esqueça de ir ao banheiro antes de sair do Autódramo – você pode levar horas em pé, antes de chegar em casa.

2. Você vai caminhar muito…

Assim como na edição 2014 do Lollapalooza Brasil, a distância entre os palcos continua enorme. São mais de 900 metros entre os shows do Axe e Onix. Quem já conhece a travessia pelo Autódromo de Interlagos conta com algumas vantagens, entretanto, novatos devem cansar nas primeiras curvas (e morros) espalhados por toda a área, principalmente na região do Kidzpalooza e Lolla Market.

Dica: para acelerar entre um palco e outro, corte pela grama e evite os cercados de barreira no placo Axe. Sair um pouco antes do fim de cada show pode evitar que você fique parado no meio do caminho. Botas e tênis fechados são essenciais. Não esqueça da água.

3. Casaco ou filtro solar? Os dois!

Sol quente durante o dia, chuva (forte) no começo da noite. Esta é a previsão do tempo para os dois dias de Lollapalooza Brasil. Durante o dia, boné/chapéu, roupas leves e muito protetor solar devem garantir a proteção necessária para o público. No fim da tarde, não esqueça de um casaco leve ou jaqueta, afinal, venta muito na região do autódromo. Sandálias e calçados abertos? Nem pensar! Invista no uso de botas, tênis confortáveis e calçados fechados – principalmente os frequentadores do palco Onix.

Dica: Se o dinheiro está sobrando para você, parabéns, mas que tal economizar, comprando sua capa de chuva antecipadamente? Em festivais, capas plásticas, finas e transparentes costumam ser mais caras do que capas amarelas, um pouco mais reforçadas, encontradas em qualquer loja. Não esqueça de guardar equipamentos eletrônicos e protetor solar em compartimentos separados – sempre dá m&#%@.

4. Fique calmo: você pode passar (muito) tempo parado.

Um dos principais problemas do Lollapalooza 2014 foi a dificuldade de transitar entre os palcos da área de acesso do Autódromo – em 2015, a região próxima aos palcos Axe e Skol. A julgar pela disposição do mapa, o mesmo problema deve se repetir na presente edição. Por conta da intensa movimentação entre os palcos – além do Chef Stage e da tenda eletrônica, o Palco Perry -, prepare-se para travar no meio do caminho, principalmente na movimentada noite de sábado – lembrou o fim de Lorde e começo do Muse?

Dica: corte pelas laterais. A aglomeração é menor e os pequenos montes de terra/grama funcionam como alternativas para a circulação. Se ficar parado no meio do caminho, não se desespere. Na dúvida, quando a noite começar, assista aos shows de um palco específico, ou entre os mais próximos – Axe-Perry, Axe-Skol, Skol-Perry, Skol-Onix

5. Quando a fome bater…

O grande problema em qualquer festival ou evento de música são as aglomerações em áreas (de alimentação) próximas aos palcos. Está morrendo de fome ou sede? Busque espaços alternativos. No Autódromo, evite as barracas na região do palco Skol. Na edição 2014 do Lollapalooza, as tendas de alimentação dos palcos Perry e Axe permaneceram vazias a maior parte do tempo. Logo, se a larica bater…

Dica: Está louco para experimentar as refeições “gourmet” do Chef Stage? Chegue mais cedo. Em 2014, durante os dois dias do evento, depois das 16:00 circular pela tenda era praticamente impossível.

6. Guarda-Chuva ou Pau de Selfie? Esqueça!

Assim como o porte de guarda-chuvas e outros objetos pontiagudos são barrados em grande parte dos festivais, o “adorado” Pau de Selfie não poderia ficar de ficar da lista de itens proibidos. Câmeras profissionais também serão barradas na bilheteria do evento – o que não impede o uso de smartphones e câmeras amadoras. Diferente dos anos anteriores, a lista de objetos proibidos ou libertados no Lollapalooza Brasil já pode ser encontrada na íntegra.

Dica: para evitar furtos, leve apenas mochilas/bolsas resistentes, leves e com poucas aberturas. Não se esqueça: você vai caminhar bastante, então, nada de muito peso. Sacolas e objetos plásticos ajudam a isolar garrafas d’água e o protetor solar de outros equipamentos eletrônicos. Não esqueça de uma sacolinha extra para a capa de chuva. Na hora do show, seja educado, segurando a mochila/bolsa na parte da frente do corpo.

7. Você vai caminhar muito… De novo!

Quem frequenta grandes eventos de música pelo Brasil já sabe: além dos shows, outras atrações e atividades recreativas servem de “passatempo” para o público. Com a edição 2014 do Lollapalooza Brasil não é diferente. Além do (já) tradicional Chef Stage, toda a ára do Autódromo de Interlagos será ocupada por diferentes atividades patrocinadas. O destaque fica por conta da série de apresentações do espetáculo Fuerza Bruta. No site do Lollapalooza você encontra uma lista com todas as ativações espalhadas pelo evento.

Dica: quer aproveitar ao máximo todas essas atividades, performances e brindes? Ora, chegue mais cedo. No período que vai da abertura dos portões até 15:00h atrações localizadas em pontos afastados dos grandes palcos estão quase sempre vazias.

Texto originalmente publicado no Brasil Post.

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Torres: “Sprinter”

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O sofrimento existe por um motivo muito claro: servir de inspiração para o trabalho da norte-americana Torres. Na trilha do homônimo álbum de estreia apresentado em janeiro de 2013, a cantora e compositora de Nashville reserva para o dia cinco de maio a chegada de Sprinter (2015), o segundo projeto da carreira e primeiro lançado sob os cuidados de um selo, o Partisan Records. Como aquecimento para disco – trabalho que conta com a presença de Adrian Utley (Portishead) -, nada melhor do que a faixa-título da obra.

Sempre confessional, valorizando as nuances da própria voz, Mackenzie Scott ocupa os quase cinco minutos da peça em meio a guitarras levemente distorcidas e batidas precisas. Atos climáticos que remetem ao trabalho de PJ Harvey, voz doce, típica de Annie Erin Clark nos primeiros anos como St. Vincent, além de todo um arsenal de referências do Alt. Country recheiam a criação, uma das mais complexas já assinadas pela musicista.

Sprinter (2015) estreia no dia cinco de maio pelo selo Partisan.

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Torres – Sprinter

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Passei um mês sem ouvir música e (quase) enlouqueci

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“Sem a música, a vida seria um erro”.

A frase de Friedrich Nietzsche sempre me pareceu um clichê funcional, capaz de sintetizar tamanho sentimento de completude imposto pela música na vida das pessoas. Ou pelo menos na minha. Mas será que a ausência de melodias, acordes ou mísero refrão seria capaz de transformar a vida, o universo e tudo mais em um erro imenso?

Que tal experimentar? Decidi passar um mês sem ouvir música.

Embora incapaz de tocar Será da Legião Urbana no violão – ou em qualquer instrumento -, me considero um aficionado por música. A música sempre foi parte substancial da minha vida. Do instante em que Nevermind do Nirvana me foi apresentado, aos 13 anos, até alcançar a vida adulta, meus ouvidos não tiveram sossego. Durmo e acordo ouvindo música. Faço playlists para tudo. Cozinhar, viajar, trabalho, banho. Até sexo – cadê minha discografia do Portishead ou seleção de R&B?

Não importa o gênero: Rock, pop, eletrônica, jazz, funk (carioca), Hip-Hop, sertanejo, metal e estilos tão complexos que convertem até vômito em música. Descobrir novas sonoridades sempre foi uma experiência fascinante. “Música ruim”? Nada melhor do que uma tarde ao som de clássicos dos anos 1980/1990. Contrário ao pensamento de “não se faz mais música como antigamente”, o novo sempre me parece mais atrativo. Preferências existem. Preconceito ou restrições? Jamais.

Ouço entre 10 a 15 álbuns por dia. Nada de pular faixas. Uma lista de clássicos pinçados de diferentes décadas, discos favoritos e uma parcela expressiva de obras recentes, “matéria-prima” para o conteúdo do blog que abasteço (diariamente) desde 2010. Desafio aceito? Aproveitei ao máximo. Uma semana corrida, antecipando textos, especiais, listas e ouvindo tudo aquilo que mais gosto.

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Silêncio.
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1ª Semana

Inicialmente, as regras: toda forma de música estava proibida. Nada de discos, canções avulsas, clipes, shows, artistas de rua e cantorias no trabalho. Vinhetas, comerciais de TV, vídeos no Youtube e podcasts seriam controlados, com trechos musicais adiantados ou silenciados. Episódio musical d’Os Simpsons na FOX? Hora de mudar o canal. Nada de festas, bar com os amigos e propagandas com temas musicais extensos. Para auxiliar na busca pelo silêncio: protetores auriculares moldáveis, de silicone, sempre protegidos por fones de ouvido e abafadores de ruídos. Para me concentrar no trabalho, apenas o barulho de chuva e outros “ruídos” virtuais.

Na primeira semana, uma curiosa sensação de desconforto e, ao mesmo tempo, “alívio” tomou conta da minha mente. Durante a faculdade, desenvolvi o hábito de passar a noite escrevendo. Um ou dois novos discos, produzir um texto de resenhas e notícias para o blog. Com a ausência de música, ocupei o espaço das 18:00 as 22:00 com passeios de bicicleta, caminhadas noturnas e até mesmo zumba pelo XBOX – sem música, claro. Para “distrair” os ouvidos: um acervo de podcasts e horas (sofríveis) pela CBN. Com exceção de novos lançamentos e discos que surgiam para download no feed do Facebook, tudo parecia tranquilo.

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2ª Semana

Depois de uma (extensa) maratona de Adventure Time na Netflix, pizza e cerveja: preguiça. Exercícios físicos se transformaram em receitas de hambúrguer e horas enrolando nhoque caseiro. Queria ouvir música. Perdi a conta de quantas vezes limpei meu quarto, organizando em ordem alfabética (ou cor) cada vinil da minha coleção. Queria ouvir música. Ler em silêncio, sem Sigur Rós, Brian Eno e Miles Davis parecia um inferno. Eu precisava ouvir música.

A cada música compartilhada pelos amigos: tentação. Atualizada diariamente, minha lista de “novos lançamentos” logo foi deletada. Precisei esquecer Stereogum, Rolling Stone, Gorilla Vs. Bear, Pitchfork e qualquer site de música. No Facebook: “unlikes” e “hides”.
Nada que supere o tormento de mais um dia de trabalho.

Ruídos, diálogos, riso, o barulho do teclado, tosses ou os malditos comentários na Globo News: sem música, finalizar uma única frase dentro de qualquer redação é praticamente impossível. A concentração morre em segundos, a cada “você viu este vídeo?“. “Trouxe um chocolate para você“, disse o amigo atencioso, com seu pescoço visível, hipnótico, pronto para o estrangulamento com o cabo de energia do Macbook. Desculpe: eu só queria ouvir música.

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3ª Semana

De maneira involuntária, na terceira semana de experimento assumi uma postura quase “mecânica”, fria, marcada pelo desinteresse. Nada de ouvir podcasts. Abandonei livros. Chega de séries, filmes e programas de TV. No trabalho: produção baixa, textos “quadrados”, previsíveis, produzidos com dificuldade e lentidão. Perdi completamente o interesse pelas pessoas, meu senso de humor – sempre exagerado – e a vontade de fazer qualquer coisa.

O sono aumentou. De fato, passei a dormir de forma excessiva. Ao chegar em casa, por volta das 18:00h, ligava a TV, baixava o volume e apagava. Porém, oposto ao esperado relaxamento, apenas cansaço. Noites cada vez mais longas, ocupadas por sonhos tristes e pesadelos. Ao despertar, nada de Heroes, Don’t Stop Me Now ou Champion. Só o ruído seco e continuo do iPhone vibrando. Levantar da cama, tomar banho e comer ficou difícil. Não sentia vontade de fazer mais nada. Vez ou outra, passava horas ouvindo músicas e até discografias inteiras no iTunes. Sempre em silêncio. Aos poucos, até meu interesse pela música deixou de existir.

Sem perceber, durante o mesmo período de angústia, minha percepção de música começou a mudar. Passei a ouvir com maior atenção, fascinado e atento, isolando cada ruído. Do bip do microondas ao canto do Bem-te-vi na janela, do barulho dos carros ao apito da máquina de lavar, cada fragmento acústico, talvez insignificante, atiçava minha curiosidade e uma constante sensação de acolhimento. Longe de analisar discografias, críticas, textos e livros técnicos, pela “primeira vez”, eu estava ouvindo música. De verdade.

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4ª Semana

Mesmo com uma nova percepção, ainda restava uma semana para o fim do experimento. Deteriorada pela combinação de fones de ouvido, volume alto, tímpano lesionado por cotonetes e a convivência em família italiana, três semanas de quietude foram suficientes para recuperar minha desgastada audição. Ouvidos atentos? Como resistir aos encantos de Tame Impala, Kendrick Lamar, Kanye West e toda a avalanche de músicas e discos inéditos que cobriram o ato final da semana de “isolamento”? Composições ainda quentes, anunciadas com (irritante) entusiasmo pelos amigos no Facebook.

Mais difícil (e cômico) que isso? Apenas o convite para “atacar de DJ” em uma festa na empresa onde trabalho. Com protetores auriculares de silicone, dois em cada ouvido, ocupei possíveis brechas, evitando ao máximo o fluxo de som. Nada além de vibrações e batidas, sem qualquer chance de ouvir melodias. Fiel ao desafio de “um mês sem música”, evitei a interferência do técnico de som, observando apenas a alteração dos gráficos em cada música. Para dificultar, deixei meu Macbook em casa para tocar no notebook do amigo que me convidou para a festa. Número limitado de músicas, Virtual DJ configurado de forma estranha, garrafas de Heineken pela mesa e o mais absoluto silêncio durante 1h10min. Para minha surpresa, possivelmente efeito do álcool, dois amigos próximos afirmavam com convicção: nunca antes eu havia tocado tão bem.

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Fim do silêncio.
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Finalmente livre. Terríveis 30 dias (e noites) em “silêncio”, afastado de tudo aquilo que mais gosto. E agora? Qual disco ouvir? Quieto, distante do vasto acervo do iTunes, observei apenas minha coleção de vinis. Ainda fascinado pelo presente, com uma lista enorme de (novos) registros para ouvir, não pensei duas vezes, partindo em direção ao meu disco favorito:

Depois de passar um mês sem música…

A video posted by Cleber Facchi (@cleberfacchi) on

Conheço todos os versos, a hora exata de cada acorde, batida ou quando entra o coro de vozes em God Only Knows, porém, nunca antes Pet Sounds (1967) me pareceu tão claro, limpo e completamente inédito. A mesma percepção durante o “reencontro” com Kind of Blue, Funeral, Acabou Chorare, Revolver, OK Computer, Fa-Tal – Gal a Todo Vapor, Daydream, Ventura e If You’re Feeling Sinister. Discos que ocuparam meus ouvidos na última década, atentamente dissecados, porém, completamente novos, envolventes, depois de quatro semana em parcial silêncio.

“Sem a música, a vida seria um erro”.

Depois de um mês sem música, evitando todo e qualquer registro melódico – seja ele de voz ou instrumental -, a frase do pensador alemão está longe de ser interpretada apenas como um “clichê funcional”. De fato, soa como um erro grave. Gravíssimo. Sem a música, a vida não seria apenas um erro como defende Nietzsche. Sem música, a vida seria completamente insuportável.

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Texto originalmente publicado no Brasil Post.

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Blur: “Lonesome Street”

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As pistas deixadas pelo Blur em Go Out parecem servir de base para todo o restante do novo trabalho da banda britânica. Assim como no primeiro single de The Magic Whip (2015) – oitavo álbum de estúdio do grupo e primeiro lançamento de inéditas desde o “derradeiro” Think Tank (2003) -, com a inédita Lonesome Street o quarteto londrino encontra no uso das guitarras sujas e pequenos encaixes melódicos a inspiração, reforço e natural movimento para os versos.

Faixa de abertura do novo disco, a recém-lançada composição passeia entre os anos iniciais do Blur, durante a fase Modern Life Is Rubbish (1993), ao mesmo tempo em que encontra um novo condimento na melancolia e tom sujo do clássico 13, lançado em 1999. Difícil não perceber a herança de bandas como The Beatles e outros veteranos da década de 1960 nos instantes finais da canção, principalmente quando vozes em coro, guitarras e arranjos “de cordas” se movimentam de forma coesa.

The Magic Whip (2015) estreia no dia 27 de abril pelo selo Parlophone.

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Blur – Lonesome Street

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Disco: “Trovões a Me Atingir”, Jair Naves

Jair Naves
Indie/Alternative/Brazilian
http://www.jairnaves.com.br/

Descrença, solidão, medo e morte; temas corriqueiros dentro do acervo poético de Jair Naves enquanto vocalista da extinta Ludovic, porém, um catálogo de experiências cada vez menos significativas no universo autoral que define a carreira solo do cantor. Se em 2006, quando apresentou o derradeiro Idioma Morto, Naves gritava a plenos pulmões, exaltando sentimentos e toda sua raiva em relação ao mês de janeiro – “o pior dos meses” -, curioso perceber no mesmo mês, data escolhida para o lançamento do segundo disco solo do músico, Trovões a Me Atingir (2015, Independente), uma completa oposição desse resultado.

Da capa iluminada aos arranjos suavizados, dos versos marcados pela esperança ao refrão vívido da faixa-título – “meu corpo volta a ter pulsação” -, difícil ignorar a transformação que define a presente obra do paulistano. Ainda que a melancolia tome conta de boa parte do trabalho, marca explícita nos instantes finais e respiros breves do registro, seria um erro não observar o conceito “sorridente” que sustenta a atual fase de Naves. As angústias e trovões – como indicado no título da obra -, ainda atingem o compositor, por todos os lados, entretanto o nítido senso de superação parece maior, raro quando voltamos os ouvidos para o contexto macambúzio do ainda recente E Você Se Sente Numa Cela Escura… (2012).

Diferente de outros registros individuais, ou mesmo da postura melancólica assumida desde a estreia com Servil (2004), quando atuava como vocalista/líder da Ludovic, durante todo o percurso, Naves se concentra na exaltação ao amor, crença e aspectos positivos da vida adulta. Doses amargas de sobriedade ainda são evidentes, contudo, ao buscar apoio em versos como “Minha solidão tem fim para mim, isso basta” e “Desejo assim eu nunca, nunca vi“, logo no começo do álbum, a direção assumida pelo artista passa a ser outra. Não seria um erro interpretar o novo trabalho de Naves como a obra mais esperançosa e feliz do cantor.

Tamanha alteração – lírica e principalmente instrumental – reforça um natural aspecto de renovação (ou ineditismo) quando comparado ao curto acervo do paulistano. Se em 2012 parecia fácil encaixar o primeiro registro solo de Naves em uma estrutura próxima ao trabalho de Joni Mitchell, The Walkmen e The Smiths, hoje, o senso de identidade e reforço criativo preenche toda a obra do músico. Ao lado de Renato Ribeiro (violão e guitarra), Thiago Babalu (bateria), Felipe Faraco (teclados) e Rafael Findans (baixo), Naves brinca com as possibilidades, conquistando um território musicalmente amplo, passagem livre para a interferência de convidados como Beto Mejía (Móveis Coloniais de Acaju), Camila Zamith (Sexy Fi) e Guizado. Continue reading

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