Tag Archives: Indie

Beach House: “Sparks”

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A busca por um som cada vez menos complexo e de essência melódica continua a servir de base para os trabalhos assinados pela dupla Beach House. Na trilha segura do transformador Teen Dream, de 2010, em Depression Cherry (2015), quinto registro de inéditas, Victoria Legrand e Alex Scally dão um passo além em relação aos últimos discos, investindo de forma explícita uso sujo das guitarras, porém, sem necessariamente escapar do som angelical, etéreo, projetado desde o homônimo debut, de 2006, base para a recém-lançada Sparks.

Sobreposições de voz e guitarras, sintetizadores ruidosos e atos tão serenos quanto explosivos. Em mais de cinco minutos de composição, difícil não perceber o continuo cruzamento de temas e referências dentro da nova criação da dupla, cada vez mais próxima do rock alternativo dos anos 1990. Difícil não lembrar de gigantes como My Bloody Valentine, Rocketship e Slowdive, referências que lentamente distanciam o Beach House do alicerce sustentado por Galaxie 500 e outros representantes do Dream Pop nos anos 1980.

Em geral, esse registro mostra um retorno à simplicidade, com canções estruturadas em torno de uma melodia e alguns instrumentos… Aqui, nós continuamos a evoluir, ignorando completamente o contexto comercial em que estamos inseridos“, disse a vocalista no texto de apresentação da obra. Previsto para estrear no dia 28 de agosto pelo selo Sub Pop, Depression Cherry é o primeiro álbum de inéditas do casal desde o grandioso Bloom, obra apresentada em 2012 e um dos projetos mais “comerciais” já apresentados pela banda.

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Beach House – Sparks

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Blood Orange: “Do You See My Skin Through The Flames?”

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Mais do que uma busca por novas sonoridades, com o lançamento de Cupid Deluxe, em 2013, Dev Hynes passou a brincar com os próprios limites como compositor. Não por acaso toda a sequência de faixas apresentadas pelo artista – em carreira solo ou de forma colaborativa – revelaram um artista ainda mais complexo e curioso, postura nitidamente reforçada com a entrega de Do You See My Skin Through The Flames?, mais novo trabalho de Hynes pelo Blood Orange.

Com quase 11 minutos de duração, a faixa que passeia pelo Jazz, Soul, Pop dos anos 1980 e até mensagens de telefone revelam o lado político do músico. São monólogos sombrios, discussões sobre racismo, a crescente onda de atentados contra negros nos Estados Unidos, além, claro, da origem do próprio nome do projeto Blood Orange.
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Blood Orange – Do You See My Skin Through The Flames?

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Disco: “Euforia”, Pélico

Pélico
Nacional/Indie/Alternative
http://www.pelico.com.br/

Daryan Dornelles

Pélico respira aliviado. Quatro anos depois de juntar os cacos do próprio coração e colecionar versos entristecidos no segundo álbum de estúdio, Que Isso Fique Entre Nós (2011), o cantor e compositor paulistano finalmente parece ter encontrado um espaço (ou alguém) para sorrir. Caminho seguro para a continua exposição dos próprios sentimentos, Euforia (2015, Independente) revela um compositor que mesmo íntimo das experiências mais dolorosas, típicas de uma separação recente, acerta o passo, muda de direção e aposta no recomeço.

De ritmo eufórico, como o próprio título indica, o novo álbum lentamente resgata a mesma combinação melódica incorporada pelo músico no primeiro trabalho de inéditas, O último dia de um homem sem juízo (2008). Uma coleção de temas apaixonados (Sobrenatural), declarações de amor (O meu amor mora no rio) e leve carga dramática (Sozinhar-me). Referências e sonoridades temporariamente extintas por conta do clima denso e ambientação cinza do disco de 2011.

Observado de forma atenta, este talvez seja o trabalho mais comercial, pop, já lançado por Pélico. Da abertura descomplicada com Sobrenatural, uma típica “música tema de novela”, passando por outras como Olha só, Overdose ou mesmo a própria faixa-título, raros são os instantes de completo isolamento do músico, acessível a cada novo acorde ou vocal apaixonado do disco. Como escapar da guitarra “sertaneja” que corta O meu amor mora no rio ou o jogo de palavras que cresce em Sozinhar-me, canção inspirada no livro Terra Sonâmbula, do escritor moçambicano Mia Couto e um diálogo breve com a música africana.

Mesmo nos momentos mais “reclusos” da obra, caso de Vaidoso e Meu Amigo Zé, há sempre um tempero lírico ou instrumental que pesca o ouvinte com naturalidade, conduzido de forma dinâmica até o último verso do registro. A seriedade de Pélico ainda é a mesma de Que Isso Fique Entre Nós, a diferença está na forma como o cantor assume uma postura ainda mais dinâmica, íntima dos mais variados públicos. Continue reading

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Mahmed: “AaaaAAAaAaAaA” (VÍDEO)

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Maturidade”, “crescimento” e “grandeza”. Palavras de significado forte, expressivas quando voltamos os ouvidos para o acervo sóbrio lançado pela potiguar Mahmed em Domínio das Águas e dos Céus EP (2013), porém, pequenas, quase insignificantes frente à grandeza de Sobre a Vida em Comunidade (2015, Balaclava). Em um assombroso traço de evolução, ao finalizar o primeiro álbum de estúdio, o quarteto do Rio Grande do Norte não apenas alcança um novo estágio dentro da própria sonoridade, como ainda prende o ouvinte em um labirinto de formas mutáveis; um álbum sedutor e provocativo a cada fragmento instrumental.

Montado em uma estrutura não-linear, pontuada por arranjos e texturas propositadamente instáveis, logo nos primeiros segundos dentro disco, a pergunta: estou sonhando? Como uma noite longa de sono embriagado, costurada por diferentes sonhos, passagens rápidas por pesadelos e até a tontura leve típica de exageros alcoólicos, SAVEC brinca com as interpretações do ouvinte. É difícil saber onde começa e acaba o álbum. Ondas leves de distorção arremessam, acolhem e mudam a direção das composições a todo o momento. Um constante cruzamento entre o onírico, o experimental e até o nonsense que corta em pedaços rótulos imediatos como “Jazz”, “Dream Pop” ou o inevitável “Post-Rock”. Todavia, mesmo a completa ausência de direção (ou previsibilidade) em nenhum momento distorce a sutileza e coerência da banda. Leia o texto completo.

Melancólico, AaaaAAAaAaAaA é o mais novo clipe apresentado pela banda potiguar Mahmed. Com direção e roteiro de Pedro Galiza e ilustrações de Flavio Grão, o vídeo observa o isolamento de um grupo de idosos do Lar Vila Vicentina Júlia Freire, em João Pessoa, na Paraíba.

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Mahmed – AaaaAAAaAaAaA

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Disco: “O∆”, London O’Connor

London O’Connor
Hip-Hop/Psychedelic/Alternative
https://www.facebook.com/LondonOConnor

A música de London O’Connor é torta, estranha e, consequentemente, hipnótica. Personagem curioso da nova safra de representantes do Hip-Hop nova-iorquino, o artista de 24 anos encontra no primeiro álbum em carreira solo uma obra entregue ao experimento. Um passeio que começa pela mente (e versos) perturbados do compositor, segue de forma segura pelo Rap dos anos 1990 e só estaciona no final dos anos 1960, flertando com a mesma sonoridade de artista como The Velvet Undergound e outros gigantes que bagunçaram a música produzida no leste dos Estados Unidos.

Apresentado em pequenas “doses” no perfil de O’Connor no Soundcloud, O∆ (2015, Independente) é uma fuga de limites conceituais e bases previsíveis. Em um misto de canto, rima e lamentações, a formação de um registro de essência particular, isolado, como se diferentes tormentos sentimentais e existencialistas do jovem artista fossem essencialmente expostos e dissecados em cada instante sombrio que preenche o trabalho.

Interessante perceber que mesmo dentro de um cercado de versos e experiências particulares, O∆ está longe de parecer uma obra reclusa, pouco convincente. Em uma estrutura melódica, O’Connor revela ao público uma coleção de 10 faixas musicalmente atrativas, talvez não comerciais, porém, dificilmente ignoradas. Logo de cara, a dobradinha formada por OATMEAL e NATURAL, músicas que brincam com as mesmas melodias de vozes de grupos de músicas pop nos anos 1960, como das batidas minimalistas de Fever Ray e outros nomes recentes da música eletrônica.

Mesmo que o “pop” não seja a palavra certa para caracterizar o trabalho do rapper/cantor, escapar da armadilha de harmonias etéreas e versos pueris ressaltados em Nobody Hangs Out Anymore ou GUTS é uma tarefa quase impossível. São mais de cinco décadas de referências disformes, opositoras, mas que dialogam de forma segura até o encerramento da obra, sempre amarradas pela lírica sensível, pós-adolescente e particular de O’Connor. Continue reading

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Marcelo Perdido: “Inverno”

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O frio chegou e com ele, Inverno (2015), novo álbum do cantor Marcelo Perdido. Segundo e mais recente trabalho de inéditas do músico paulistano, ex-integrante da Hidrocor, o presente registro segue a trilha do antecessor, Lenhador (2013), revelando ao público uma seleção de faixas de essência melancólica, sombrias e orquestradas pela leveza dos arranjos acústicos do artista.

São dez composições inéditas e produção assinada por João Erbetta, mesmo produtor do último álbum de Perdido. Entre os destaques do novo disco, a inaugural (e perturbadora) faixa-título, composição que não apenas prepara o terreno para o restante da obra, como sufoca a atmosfera pueril conquistada pelo músico no último álbum. Disponível para download gratuito, o álbum pode ser apreciado na íntegra logo abaixo:

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Marcelo Perdido – Inverno

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Owen Pallett: “The Phone Call”

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Com o lançamento de In Conflict (2014), Owen Pallett deu início a uma nova fase dentro da própria carreira. Nitidamente influenciado por Brian Eno, um de seus colaboradores no último álbum, o músico canadense continua a brincar com a música orquestral da “era” Final Fantasy, porém, cada vez mais interessado no uso de arranjos e experimentos eletrônicos, conceito reforçado com a recém-lançada The Phone Call.

Parte do acervo 2015 da coletânea de singles Adult Swim – que este ano conta com nomes como Chromatics, Shabazz Palaces e SOPHIE -, a composição pode até seguir a trilha do último álbum de Owen, entretanto, assume uma estrutura ainda mais complexa. De um lado, maquinações e ruídos sombrios, típicos da obra de Oneohtrix Point Never, no outro, a construção de bases etéreas, tão próximas de Eno como de gigantes da New Age nos anos 1970, principalmente Jean Michel Jarre.

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Owen Pallett – The Phone Call

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Disco: “Ratchet”, Shamir

Shamir
Electronic/Hip-Hop/Indie
https://www.facebook.com/Shamir

Shamir Bailey ainda não havia nascido quando a Disco Music ganhou nova roupagem no final dos anos 1980 com a explosão da Italo Disco e a House Music no começo da década seguinte. Nascido em 1994, o artista original da cidade de Las Vegas era apenas uma criança quando o “movimento” Nu-Disco tomou conta da cidade de Nova York no início dos anos 2000, sendo apresentado ao trabalho de artistas como Hercules and Love Afair, Scissor Sisters e Azari & III somente na adolescência.

Interessante perceber em Ratchet (2015, XL), primeiro registro em estúdio do cantor, uma espécie de síntese involuntária de todas essas cenas, reformulações e novos rumos que marcam diferentes fases da música eletrônica. Personagem central da própria obra, Shamir destila sentimentos (In For The Kill), estreita a relação com as pistas (Call it Off) e cria na estrutura flexível dos arranjos (On The Regular) uma obra tão vasta que é difícil encaixar o álbum em um cercado específico.

De vocal andrógino, ao finalizar o primeiro álbum de inéditas, o jovem de apenas 20 anos parece ir ainda mais longe em relação ao material e sonoridade curiosa explorada no single On the Regular. Primeiro grande sucesso de Shamir, a canção apresentada em 2014 parece servir de estímulo para todo o restante do álbum, fragmentando as (novas) composições entre o canto, a rima e o natural compromisso com as pistas. Recortes, colagens e pequenas apropriações conceituais que aos poucos revelam a identidade colorida do artista.

Em uma contínua mudança de direção, por vezes brusca, cada faixa de Ratchet se transforma em um plano isolado dentro da obra. Seguindo a mesma trilha de Azealia Banks em Broke With Expensive Taste (2014), Shamir parece testar os próprios limites, brincando com faixas de essência eletrônica, como Hot Mess e Make a Scene, até composições reclusas, de natureza romântica, caso de Demon e Darker, essa última um fino retrato da aproximação do jovem músico em relação ao R&B dos anos 1990. Até violões aparecem na derradeira KC, música exclusiva da edição virtual do disco. Continue reading

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London O’Connor: “O∆”

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Depois da sequência de boas composições apresentadas nas últimas semanas – como GutsNobody Hangs Out Anymore -, já era hora de ter acesso ao primeiro álbum de London O’Connor. Na trilha dos últimos lançamentos do jovem artista, O∆ (2015), nasce como reflexo do passeio do cantor/rapper por diferentes campos da música estadunidense, buscando referências que se escondem no rock nova-iorquino de grupos como The Velvet Underground, além, claro, de diálogos curtos com o Hip-Hop, R&B e Soul de diferentes épocas.

São 10 composições, algumas já conhecidas do Soundcloud de O’Connor, além de outras NATURAL e Steal, pequenas representações do som experimental assinado pelo músico. Disponível para download gratuito – clique aqui -, o álbum também pode ser apreciado na íntegra logo abaixo. Para quem acompanha o trabalho de Frank Ocean e King Krule, uma excelente recomendação:

 

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London O’Connor – O∆

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Low: “No Comprende”

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Em boa fase, desde que deu início ao catálogo de novas obras na presente década, a banda norte-americana Low não apenas fez uso da própria maturidade, como passou a investir em uma série de novos elementos e temas musicais. Marca nos dois últimos álbuns do grupo – C’monThe Invisible Way –, as guitarras, cada vez mais densas e sombrias, parecem apontar a direção para o 11º registro de estúdio do grupo de Duluth, Minnesota, Ones and Sixes (2015).

Apresentado pela inédita No Comprende, o novo álbum parece seguir uma trilha ainda mais isolada em relação aos últimos discos do trio, transformação explícita na guitarra de Alan Sparhawk, tão íntima do Blues Rock de gigantes da década de 1970 – caso de Led Zeppelin -, como ainda próxima da sonoridade melancólica exposta pela banda desde o começo dos anos 1990. Uma faixa de sentimentos e arranjos fortes, capaz de prender o ouvinte até o último acorde.

Ones and Sixes (2015) será lançado no dia 11/09 pelo selo Sub Pop.

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Low – No Comprende

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