Tag Archives: Indie

Disco: “Goon”, Tobias Jesso Jr.

Tobias Jesso Jr.
Indie/Alternative/Singer-Songwriter
http://www.tobiasjessojr.com/

 

Emoção“, “tristeza“, “sofrimento“. Palavras que invadem a mente do ouvinte tão logo a enxurrada sentimental de Goon (2015, True Panther) tem início em Can’t Stop Thinking About You. Harmonias tímidas de piano, uso controlado, quase imperceptível, de temas percussivos; vocal limpo, esculpido pela angústia do cantor; conceitos, personagens e pequenas confissões redundantes, há décadas desgastadas em diferentes campos da música. Os mesmos versos tristes de amor e separação, o mesmo coração partido, porém, retratado de forma honesta e estranhamente acolhedora por Tobias Jesso Jr.

Mary Ann, eu perdi você em um sonho / Em seguida, o sonho se tornou realidade“. Os versos que inauguram o primeiro registro solo do músico canadense apontam a direção triste que define o restante da obra. São quase 50 minutos em que tormentos pessoais, personagens (femininos) e incontáveis delírios alcoólicos brincam com a percepção amargurada de Jesso Jr, em poucos minutos, uma representação compatível de qualquer ouvinte sofredor. Ainda que vocais “sorridentes” tentem sobreviver ao longo do trabalho, é a tristeza que sustenta e ocupa as brechas de cada canção.

Em um ambiente soturno, o mesmo de Randy Newman no começo da década de 1970, talvez Paul McCartney nos primeiros anos pós-Beatles, Jesso Jr. caminha pelo passado de maneira inevitável. Não se trata de um disco nostálgico, tampouco referencial ou plágio, mas uma obra que dialoga, absorve e partilha dos mesmos sentimentos de outros gigantes da melancolia. É fácil encontrar Harry Nilsson, tropeçar na angústia de Tom Waits e até mesmo artistas recentes; românticos como Cass McCombs e Kurt Ville ou, em menor escala, Phosphorescent e Justin Vernon.

Por vezes sufocado, talvez oculto sob a imensa colcha de retalhos musicais que servem de estrutura para o álbum, Jesso Jr. encontra na “simplicidade” um mecanismo de imposição da própria identidade. Hollywood, Without You, Can We Still Be Friends ou Just a Dream; não importa o pronto do disco em que você estaciona: dos arranjos tristes aos versos confessionais, possíveis bloqueios são logo derrubados. Em Goon, o diálogo com o ouvinte é imediato, natural. Uma armadilha nítida, esquiva da desgastada soma entre “amor e dor”, porém, hipnótica pelo efeito de confissões como “Eu não consigo parar de pensar em você” ou “Porque você não pode me amar?“. Continue reading

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Cícero: “A Praia”

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Quando Canções de Apartamento apareceu em meados de 2011, acompanhado de um email de Cícero, talvez fosse impossível prever o sucesso e rápido crescimento no número de seguidores em torno da obra do músico carioca. Mesmo com a parcial divisão de público e crítica durante o lançamento de Sábado, em 2013, a busca por novas referências líricas e instrumentais continua a servir de base para o trabalho do artista, mais uma vez “transformado” no interior de A Praia (2015), terceiro registro de inéditas em carreira solo.

Tão econômico quanto o antecessor, o presente álbum busca conforto em dez faixas curtas, pouco mais de 30 minutos de duração. A diferença em relação ao instável disco entregue há dois anos está no reforço das ambientações eletrônicas, além do natural regresso e uso constante de temas festivos, típicos do primeiro álbum solo do cantor. Lançado de forma independente, A Praia, assim como os dois últimos registros de Cícero, pode ser baixado gratuitamente no site do músico.

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Cícero – A Praia

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Disco: “Um Chopp e um Sundae”, Rafael Castro

Rafael Castro
Indie/Alternative/Nacional
http://rafaelcastro.com.br/

 

Os primeiros anos de Rafael Castro como músico profissional foram marcados pelos excessos. Não falo sobre exageros lisérgicos ou noites perfumadas pelo cheiro de sexo, mas pelo excesso de composições. Em apenas três anos, entre 2006 e 2009, o cantor e compositor paulistano entregou ao público um acervo de oito registros oficiais. Obras gravadas de forma amadora, dentro de estúdios caseiros e, na maioria dos casos, desprovidas de um mínimo cuidado estético ou refinamento lírico/instrumental. Um amadorismo convincente, porém, sufocado pela quantidade de canções costuradas por temas sempre aleatórios, demasiado instáveis, talvez desorganizados.

A surpresa veio com o lançamento de Lembra?, em 2012. Embora anárquico, amarrado pela mesma pluralidade de histórias particulares do músico – capaz de colidir temas como religiosidade, vida boêmia e romantismo em um mesmo cenário – o uso de uma máscara “brega-moderna” trouxe homogeneidade ao trabalho do cantor, agora maduro e linear. Dentro de um mesmo cercado temático, porém, longe de solucionar uma obra conceitual, o paulistano encontrou o ponto de equilíbrio para a própria esquizofrenia, condensando um catálogo de Hits que pareciam ter escapado do romantismo nacional nos anos 1970 atee alcançar o presente.

De forma nostálgica, em Um Chopp e um Sundae (2015, Independente), mais recente trabalho de Castro, o passado ainda funciona como a principal fonte inspiração do compositor, porém, agora dentro de uma nova década: os anos 1980. Além do confesso grupo de artistas românticos que há tempos inspiram o trabalho do artista – caso de Roberto Carlos e Odair José -, durante todo o registro, nomes como Ritchie (Preocupado), Blitz (Vou Parar de Beber) e Léo Jaime (Aquela) surgem com naturalidade entre as canções. Referências propositais (ou involuntárias) enquadradas com propriedade dentro do jogo cômico do paulistano – tão honesto, quanto sarcástico.

Em um explícito senso de transformação, musicalmente Um Chopp e um Sundae se comportas como o trabalho mais desafiador do artista. Nada de guitarras ruidosas, sujas, típicas do último registro. Mesmo as bases acústicas, como os violões “hippie” dos primeiros trabalhos do cantor foram “abandonados”. Da abertura com a pop Ciúme, até o encerramento em Vou Parar de Beber, são os sintetizadores, efeitos eletrônicos e toda uma carga de referências empoeiradas de 1980 que ditam as regras da obra. Uma espécie de “adaptação” das mesmas melodias e arranjos lançadas pelo Cidadão Instigado em faixas como a pegajosa (e hoje clássica) Contando Estrelas. Continue reading

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Unknown Mortal Orchestra: “Multi-Love” (VÍDEO)

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Impressionante é o processo de transformação que inspirou o Unknown Mortal Orchestra desde a estreia com o autointitulado álbum de 2011. Partindo de um expressivo detalhamento na melodias, Ruban Neilson e os parceiros de banda conseguiram se esquivar da ambientação Lo-Fi montada para as primeiras canções, mergulhando de cabeça em uma sonoridade cada vez mais delicada, psicodélica e romanticamente inspirada pelo R&B, marca explícita logo no segundo álbum de estúdio do grupo, II (2012).

Em uma exposição ainda maior desse mesmo resultado, mergulhando de cabeça no uso de vocalizações brandas e temas psicodélicos empoeirados, o grupo localizado em Portland, Oregon ) reforça a própria evolução com a inédita Multi-Love. Como um fragmento musical extraído dos anos 1970, a música de quatro minutos se aconchega em um ambiente completamente nostálgico, reflexo não apenas do material conquistado pelo UMO nos últimos anos, mas em relação ao próximo álbum da banda, um registro homônimo que conta com lançamento pelo selo Jagjaguwar (Angel Olsen, Bon Iver) e lançamento agendado para 26 de maio.

Abaixo, o clipe da composição. Dirigido por Lionel Williams, o trabalho conta com uma versão interativa para PC, Mac ou Unity. Basta baixar o aplicativo e viajar com o grupo.

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Unknown Mortal Orchestra – Multi-Love

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Toro Y Moi: “Run Baby Run”

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Pouco parece sobrevivido da obra de Chaz Bundick em Causers of This (2010), primeiro álbum como Toro Y Moi. A julgar pelo som pop, acessível e intenso promovido desde o lançamento de Empty Nesters, há poucos meses, cada vez mais o músico norte-americano parece em busca do grande público, o que faz de What For? (2015), quarto registro em estúdio dentro do mesmo projeto como a última pá de terra nas ambientações letárgicas, típicas da Chillwave, que marcaram os anos iniciais do artista.

Mais recente lançamento de Bundick, Run Baby Run nasce como um reforço ao som cativante que deve movimentar todo o quarto álbum do músico. Poderia ser Teenage Fanclub, Kinks ou qualquer outro artista “especializado” na construção de temas pop, entretanto, é o mesmo responsável pelo soul-funk sujo de Underneath the Pine (2011) e pelos flertes com o Hip-Hop em Anything in Return (2013). Não desagrada, entretanto, a estranheza é inevitável quando voltamos os ouvidos para o passado recente do Toro Y Moi. Que venha o novo disco.

Com lançamento pelo selo Carpark, What For? estreia no dia sete de abril.

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Toro Y Moi – Run Baby Run

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Tei Shi: “Go Slow”

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A passagem de Valerie Teicher para um ambiente típico do R&B/Soul dos anos 1980 em Bassicaly parece servir de estímulo para todo o recente arsenal da cantora nova-iorquina. Com o novo trabalho do Tei Shi a caminho, Verde EP (2015), a jovem não apenas garante continuidade ao som produzido nos últimos meses, como ainda encontra uma passagem segura para o material desenvolvido no (ótimo) primeiro EP da carreira, Saudade, lançado ainda em 2012.

Fragmento mais recente a escapar do novo registro, Go Slow revela todo o arsenal de referências da artista – sejam elas atuais ou resgatadas dos primeiros anos dentro do Tei Shi. Esculpida pelos vocais de Teicher, a composição parece se encaminhar para um terreno etéreo, entretanto, logo é puxada de volta pela cantora, para “o chão”. Um tecido delicado de pianos, guitarras que tropeçam na obra de Blood Orange, mas sem escapar da confessa influência da musicista pelo trabalho de St. Vincent – principalmente nos últimos discos.

Verde EP conta com lançamento previsto para o dia 14 de abril.

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Tei Shi – Go Slow

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Torres: “Sprinter”

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O sofrimento existe por um motivo muito claro: servir de inspiração para o trabalho da norte-americana Torres. Na trilha do homônimo álbum de estreia apresentado em janeiro de 2013, a cantora e compositora de Nashville reserva para o dia cinco de maio a chegada de Sprinter (2015), o segundo projeto da carreira e primeiro lançado sob os cuidados de um selo, o Partisan Records. Como aquecimento para disco – trabalho que conta com a presença de Adrian Utley (Portishead) -, nada melhor do que a faixa-título da obra.

Sempre confessional, valorizando as nuances da própria voz, Mackenzie Scott ocupa os quase cinco minutos da peça em meio a guitarras levemente distorcidas e batidas precisas. Atos climáticos que remetem ao trabalho de PJ Harvey, voz doce, típica de Annie Erin Clark nos primeiros anos como St. Vincent, além de todo um arsenal de referências do Alt. Country recheiam a criação, uma das mais complexas já assinadas pela musicista.

Sprinter (2015) estreia no dia cinco de maio pelo selo Partisan.

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Torres – Sprinter

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Passei um mês sem ouvir música e (quase) enlouqueci

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“Sem a música, a vida seria um erro”.

A frase de Friedrich Nietzsche sempre me pareceu um clichê funcional, capaz de sintetizar tamanho sentimento de completude imposto pela música na vida das pessoas. Ou pelo menos na minha. Mas será que a ausência de melodias, acordes ou mísero refrão seria capaz de transformar a vida, o universo e tudo mais em um erro imenso?

Que tal experimentar? Decidi passar um mês sem ouvir música.

Embora incapaz de tocar Será da Legião Urbana no violão – ou em qualquer instrumento -, me considero um aficionado por música. A música sempre foi parte substancial da minha vida. Do instante em que Nevermind do Nirvana me foi apresentado, aos 13 anos, até alcançar a vida adulta, meus ouvidos não tiveram sossego. Durmo e acordo ouvindo música. Faço playlists para tudo. Cozinhar, viajar, trabalho, banho. Até sexo – cadê minha discografia do Portishead ou seleção de R&B?

Não importa o gênero: Rock, pop, eletrônica, jazz, funk (carioca), Hip-Hop, sertanejo, metal e estilos tão complexos que convertem até vômito em música. Descobrir novas sonoridades sempre foi uma experiência fascinante. “Música ruim”? Nada melhor do que uma tarde ao som de clássicos dos anos 1980/1990. Contrário ao pensamento de “não se faz mais música como antigamente”, o novo sempre me parece mais atrativo. Preferências existem. Preconceito ou restrições? Jamais.

Ouço entre 10 a 15 álbuns por dia. Nada de pular faixas. Uma lista de clássicos pinçados de diferentes décadas, discos favoritos e uma parcela expressiva de obras recentes, “matéria-prima” para o conteúdo do blog que abasteço (diariamente) desde 2010. Desafio aceito? Aproveitei ao máximo. Uma semana corrida, antecipando textos, especiais, listas e ouvindo tudo aquilo que mais gosto.

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Silêncio.
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1ª Semana

Inicialmente, as regras: toda forma de música estava proibida. Nada de discos, canções avulsas, clipes, shows, artistas de rua e cantorias no trabalho. Vinhetas, comerciais de TV, vídeos no Youtube e podcasts seriam controlados, com trechos musicais adiantados ou silenciados. Episódio musical d’Os Simpsons na FOX? Hora de mudar o canal. Nada de festas, bar com os amigos e propagandas com temas musicais extensos. Para auxiliar na busca pelo silêncio: protetores auriculares moldáveis, de silicone, sempre protegidos por fones de ouvido e abafadores de ruídos. Para me concentrar no trabalho, apenas o barulho de chuva e outros “ruídos” virtuais.

Na primeira semana, uma curiosa sensação de desconforto e, ao mesmo tempo, “alívio” tomou conta da minha mente. Durante a faculdade, desenvolvi o hábito de passar a noite escrevendo. Um ou dois novos discos, produzir um texto de resenhas e notícias para o blog. Com a ausência de música, ocupei o espaço das 18:00 as 22:00 com passeios de bicicleta, caminhadas noturnas e até mesmo zumba pelo XBOX – sem música, claro. Para “distrair” os ouvidos: um acervo de podcasts e horas (sofríveis) pela CBN. Com exceção de novos lançamentos e discos que surgiam para download no feed do Facebook, tudo parecia tranquilo.

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2ª Semana

Depois de uma (extensa) maratona de Adventure Time na Netflix, pizza e cerveja: preguiça. Exercícios físicos se transformaram em receitas de hambúrguer e horas enrolando nhoque caseiro. Queria ouvir música. Perdi a conta de quantas vezes limpei meu quarto, organizando em ordem alfabética (ou cor) cada vinil da minha coleção. Queria ouvir música. Ler em silêncio, sem Sigur Rós, Brian Eno e Miles Davis parecia um inferno. Eu precisava ouvir música.

A cada música compartilhada pelos amigos: tentação. Atualizada diariamente, minha lista de “novos lançamentos” logo foi deletada. Precisei esquecer Stereogum, Rolling Stone, Gorilla Vs. Bear, Pitchfork e qualquer site de música. No Facebook: “unlikes” e “hides”.
Nada que supere o tormento de mais um dia de trabalho.

Ruídos, diálogos, riso, o barulho do teclado, tosses ou os malditos comentários na Globo News: sem música, finalizar uma única frase dentro de qualquer redação é praticamente impossível. A concentração morre em segundos, a cada “você viu este vídeo?“. “Trouxe um chocolate para você“, disse o amigo atencioso, com seu pescoço visível, hipnótico, pronto para o estrangulamento com o cabo de energia do Macbook. Desculpe: eu só queria ouvir música.

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3ª Semana

De maneira involuntária, na terceira semana de experimento assumi uma postura quase “mecânica”, fria, marcada pelo desinteresse. Nada de ouvir podcasts. Abandonei livros. Chega de séries, filmes e programas de TV. No trabalho: produção baixa, textos “quadrados”, previsíveis, produzidos com dificuldade e lentidão. Perdi completamente o interesse pelas pessoas, meu senso de humor – sempre exagerado – e a vontade de fazer qualquer coisa.

O sono aumentou. De fato, passei a dormir de forma excessiva. Ao chegar em casa, por volta das 18:00h, ligava a TV, baixava o volume e apagava. Porém, oposto ao esperado relaxamento, apenas cansaço. Noites cada vez mais longas, ocupadas por sonhos tristes e pesadelos. Ao despertar, nada de Heroes, Don’t Stop Me Now ou Champion. Só o ruído seco e continuo do iPhone vibrando. Levantar da cama, tomar banho e comer ficou difícil. Não sentia vontade de fazer mais nada. Vez ou outra, passava horas ouvindo músicas e até discografias inteiras no iTunes. Sempre em silêncio. Aos poucos, até meu interesse pela música deixou de existir.

Sem perceber, durante o mesmo período de angústia, minha percepção de música começou a mudar. Passei a ouvir com maior atenção, fascinado e atento, isolando cada ruído. Do bip do microondas ao canto do Bem-te-vi na janela, do barulho dos carros ao apito da máquina de lavar, cada fragmento acústico, talvez insignificante, atiçava minha curiosidade e uma constante sensação de acolhimento. Longe de analisar discografias, críticas, textos e livros técnicos, pela “primeira vez”, eu estava ouvindo música. De verdade.

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4ª Semana

Mesmo com uma nova percepção, ainda restava uma semana para o fim do experimento. Deteriorada pela combinação de fones de ouvido, volume alto, tímpano lesionado por cotonetes e a convivência em família italiana, três semanas de quietude foram suficientes para recuperar minha desgastada audição. Ouvidos atentos? Como resistir aos encantos de Tame Impala, Kendrick Lamar, Kanye West e toda a avalanche de músicas e discos inéditos que cobriram o ato final da semana de “isolamento”? Composições ainda quentes, anunciadas com (irritante) entusiasmo pelos amigos no Facebook.

Mais difícil (e cômico) que isso? Apenas o convite para “atacar de DJ” em uma festa na empresa onde trabalho. Com protetores auriculares de silicone, dois em cada ouvido, ocupei possíveis brechas, evitando ao máximo o fluxo de som. Nada além de vibrações e batidas, sem qualquer chance de ouvir melodias. Fiel ao desafio de “um mês sem música”, evitei a interferência do técnico de som, observando apenas a alteração dos gráficos em cada música. Para dificultar, deixei meu Macbook em casa para tocar no notebook do amigo que me convidou para a festa. Número limitado de músicas, Virtual DJ configurado de forma estranha, garrafas de Heineken pela mesa e o mais absoluto silêncio durante 1h10min. Para minha surpresa, possivelmente efeito do álcool, dois amigos próximos afirmavam com convicção: nunca antes eu havia tocado tão bem.

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Fim do silêncio.
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Finalmente livre. Terríveis 30 dias (e noites) em “silêncio”, afastado de tudo aquilo que mais gosto. E agora? Qual disco ouvir? Quieto, distante do vasto acervo do iTunes, observei apenas minha coleção de vinis. Ainda fascinado pelo presente, com uma lista enorme de (novos) registros para ouvir, não pensei duas vezes, partindo em direção ao meu disco favorito:

Depois de passar um mês sem música…

A video posted by Cleber Facchi (@cleberfacchi) on

Conheço todos os versos, a hora exata de cada acorde, batida ou quando entra o coro de vozes em God Only Knows, porém, nunca antes Pet Sounds (1967) me pareceu tão claro, limpo e completamente inédito. A mesma percepção durante o “reencontro” com Kind of Blue, Funeral, Acabou Chorare, Revolver, OK Computer, Fa-Tal – Gal a Todo Vapor, Daydream, Ventura e If You’re Feeling Sinister. Discos que ocuparam meus ouvidos na última década, atentamente dissecados, porém, completamente novos, envolventes, depois de quatro semana em parcial silêncio.

“Sem a música, a vida seria um erro”.

Depois de um mês sem música, evitando todo e qualquer registro melódico – seja ele de voz ou instrumental -, a frase do pensador alemão está longe de ser interpretada apenas como um “clichê funcional”. De fato, soa como um erro grave. Gravíssimo. Sem a música, a vida não seria apenas um erro como defende Nietzsche. Sem música, a vida seria completamente insuportável.

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Texto originalmente publicado no Brasil Post.

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Disco: “I Love You, Honeybear”, Father John Misty

Father John Misty
Indie/Folk/Alternative
http://www.fatherjohnmisty.com/

Não existe espaço para o amor no mundo da música. Exagero? Faça o teste: quantos discos clássicos ou álbuns recentes, de nítida exaltação ao amor, você consegue listar? Projetos radiantes, marcados pelo mesmo sentimento de plenitude que domina um indivíduo apaixonado. Pronto. Agora, pense apenas em discos marcados pela dor. Álbuns inspirados pela separação, mágoas e relacionamentos fracassados. Não vá muito longe: apenas discos lançados nos últimos meses, há poucas semanas ou do acervo “proibido” que você visitou há poucas horas. Notou alguma diferença entre as listas?

Contrário ao ensinamento de filmes e séries românticas, em se tratando da música, a dor convence, marca e até “canta” mais alto do que o amor. O que explica essa (sádica) preferência? Um elemento bastante simples: a honestidade. De Adele a Bob Dylan, Sharon Van Etten a Lionel Richie, não existem segredos e relatos intimistas que permaneçam ocultos ao final de um relacionamento. Traições, brigas ou antigos sussurros românticos: tudo acaba exposto.

Joshua Tillman parece entender bem isso. Ao assumir o papel de Father John Misty – “personagem” e projeto autoral criado logo após o rompimento com o Fleet Foxes, onde atuou até o lançamento de Helplessness Blues (2011) -, o músico não poupa na exposição da própria intimidade. Mesmo fazendo uso de um pseudônimo, protegido em manto de sarcasmo, canções sobre sobre sexo, uso de drogas ou relatos de sedução barata refletem apenas a imagem do cantor. Temas retratados com humor e honestidade, componentes também fundamentais para a interpretação de Tillman sobre o amor e a vida conjugal em I Love You, Honeybear (2015, Sub Pop).

Em uma explícita curva conceitual, dentro até da própria carreira, Tillman assina um trabalho muito maior do que a previsível seleção de ” contos” imaginada desde último álbum do músico, o debut Fear Fun (2012). Mesmo sob o título de Father John Misty, cada verso deriva de fragmentos pinçados do cotidiano do cantor. Uma obra ainda irônica e carregada humor – vide o relato em I Went to the Store One Day ou o anti-hino de Bored in the USA -, mas ao mesmo tempo sensível, centrada no convívio, amor e conflitos ao lado da esposa do cantor, a diretora Emma Elizabeth Tillman. Continue reading

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Shamir: “Call It Off”

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O cruzamento (pop) entre diferentes gêneros e tendências musicais parece ser a chave para o trabalho de Shamir. Assim como no trabalho apresentado em 2014 com a pegajosa On The Regular, batidas eletrônicas, flertes com o Hip-Hop e diferentes campos da música pop se encontram de acordo com a voz versátil do artista – ora acomodado em pequenos falsetes, ora concentrado no uso de rimas velozes, sempre dançantes. O mesmo fenômeno se repete com a chegada de Call It Off.

Mergulhada em um oceano de referências Disco, além de flertes com os últimos trabalhos do The Rapture e Scissor Sisters, a inédita criação se concentra no uso de um refrão direto, sintetizadores grudentos e toda uma base ascendente que mantém o ouvinte atento até os últimos segundos da faixa. Assim como no clipe de On The Regular, a relação de Shamir com a imagem se mantém assertiva, princípio para as imagens e até fantoches utilizados pelo diretor Philip Hodges.

A canção é parte do debut Ratchet, previsto para o dia 19 de maio pelo selo XL.

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Shamir – Call It Off

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