Artista: Drake
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
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Há tempos Drake não vivia uma fase tão produtiva quanto a atual. Em um intervalo de apenas dois anos, o rapper canadense deu vida a duas ótimas mixtapes – If You’re Reading This It’s Too Late (2015) e What a Time to Be Alive (2015), essa última, parceria com Future –, lançou um trabalho marcado pela boa recepção comercial – Views (2016) –, e ainda esteve envolvido em uma série de faixas colaborativas, caso do hit Work, parceria com a cantora Rihanna, For Free, de DJ Khaled e outros destaques do Hip-Hop/R&B norte-americano.

Todo esse excesso de composições e ideias talvez desconexas acaba se refletindo na forma como Drake decidiu lançar o novo registro de inéditas: como uma playlist. Intitulado More Life: A Playlist by October Firm (2017), o presente “álbum” do artista canadense se espalha sem pressa em um intervalo de mais de 80 minutos de duração. São 22 composições que passeiam por entre gêneros, diferentes colaboradores, estúdios e produtores de forma essencialmente acessível, íntima do grande público.

More Life, como tudo aquilo que o Drake vem produzindo desde Nothing Was The Same, em 2013, utiliza das rimas lançadas pelo rapper como um complemento ao rico catálogo de samples e versos interpretados por diferentes convidados ao longo do disco. Uma coleção de ideias, fragmentos e pequenos interlúdios que tem início no canto negro de Free Smoke e segue de forma coesa, ainda que exageradamente extensa, até a construção da derradeira Do Not Disturb.

Sem necessariamente depender de uma mesma base instrumental, vide a atmosfera que ocupa o denso Take Care, de 2011, Drake faz de cada composição um ato isolado – lírica e musicalmente. Instantes em que o artista passeia pelo dancehall (Madiba Riddim, Blem), grime (Get It Together, Passionfruit) e R&B (4422, Gylchester) sem necessariamente fazer disso o princípio para uma obra confusa. Duas dezenas de faixas que replicam parte expressiva dos principais sucessos do rapper nos últimos anos, vide a similaridade com músicas como One Dance e Hotline Bling.

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Artista: Stormzy
Gênero: Hip-Hop, Grime, Rap
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Um dia após o lançamento de Gang Signs & Prayer (2017, Merky), em 25 de fevereiro, Austin Darbo, editor sênior do Spotify, fez uma inusitada publicação em sua conta Twitter: “Eu nunca vi nada assim. Todas as músicas do [primeiro] álbum de Stormy estão no Top 50 do Spotify. Estou sem palavras”. E não poderia ser diferente. Da abertura do disco, na minimalista First Things First, passando pela coleção de rimas e beats que se espalham ao longo da obra, cada fragmento do trabalho parece pensado de forma a atrair a atenção do público.

Autointitulado “uma criança do grime”, como resumiu em entrevista, Michael Omari, verdadeiro nome do rapper, passou os últimos anos se revezando em uma série de registros independentes e trabalhos assinados em parceria com diferentes representantes do Hip-Hop, pop e R&B. Composições como Shape of You, parceria recente com o conterrâneo Ed Sheeran, Ambition, da cantora Raye, além de uma série de remixes e rimas espalhadas em uma variedade de obras recentes.

Toda essa pluralidade de ideias, personagens e referências acaba se refletindo na forma como Stormzy e o produtor Fraser T Smith (Adele, Katy B) detalham cada uma das 16 composições de Gang Signs & Prayer. Recortes instrumentais, poéticos e visuais que começam na capa do álbum, uma interpretação sombria da Santa Ceia, de Leonardo da Vinci, passa pela rica tapeçaria orquestral e cresce em cada sample dissolvido pela obra. Retalhos, como Intro (Like Velvet), parte do primeiro álbum da cantora NAO, For All We Know (2016), ou mesmo versos que se conectam diretamente ao trabalho de outros artistas.

Claramente influenciado pelo trabalho de Kanye West, artista que convidou o rapper a participar da intensa performance de All Day, durante o BRIT Awards 2015, Stormzy se transforma no grande protagonista da própria obra. Canções marcadas por relacionamentos conturbados, caso de Cigarettes & Cush, parceria com Kehlani, ou mesmo versos centrados no crescimento do próprio artista, vide Big for Your Boots, música que catapultou o rapper para o topo das principais paradas de sucesso.

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Artista: Sampha
Gênero: R&B, Soul, Alternativo
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Do verso sampleado em Too Much, colaboração com Drake no álbum Nothing Was the Same (2013), passando pela temática racial de Don’t Touch My Hair, parceria com a cantora Solange em A Seat at the Table (2016), poucos artistas se mostraram tão ativos nos últimos anos quanto o britânico Sampha. Em um intervalo de meia década, uma seleção de faixas ao lado de Kanye West, Frank Ocean, Jessie Ware, SBTRKT e Lil Silva, isso sem mencionar dois ótimos EPs — Sundanza (2010) e Dual (2013) —, e toda uma variedade de composições produzidas de forma independente.

Com todo esse repertório e vasta experiência, difícil encarar o recém-lançado Process (2017, Young Turks) como um típico álbum de estreia. Da abertura do disco, em Plastic 100°C, passando por músicas já conhecidas, caso de Blood On Me e (No One Knows Me) Like the Piano, cada segundo do presente trabalho se projeta como uma verdadeira confirmação. Em um intervalo de 40 minutos, Sampha e um time reduzido de colaboradores parecem jogar com os versos e sentimentos, reescrevendo diferentes aspectos do Soul/R&B produzido em território britânico.

Assim como nos últimos dois EPs, Sampha faz de cada composição um fragmento pessoal, sempre intimista. Produzido em parceria com Rodaidh McDonald — produtor escocês que já trabalhou ao lado de artistas como The XX, How To Dress Well e Adele —, o trabalho de dez ser faixas espalha em meio a versos dolorosos, conceito escancarado em músicas como Under (“Eu continuo a nadar nesses olhos”) e Incomplete Kisses (“Não me abandone aqui”). Memórias, tormentos e sussurros românticos que arrastam o ouvinte para dentro de um território consumido em essência pela dor.

Quarta música do disco, (No One Knows Me) Like the Piano sintetiza com naturalidade o aspecto melancólico da obra. Trata-se de um retrato amargo do período em que a mãe do cantor enfrentou um câncer. O mesmo conceito intimista se reflete em What Shouldn’t I Be?, canção marcada por diferentes acontecimentos envolvendo membros da família do cantor — “Eu deveria visitar meu irmão”. Em Blood On Me, faixa mais intensa do disco, um tema ainda mais complexo, pessoal. Entre batidas e versos fortes, a literal descrição de um pesadelo — “Eu juro que eles cheiram o sangue em mim / Eu os ouço vindo para mim”.

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Do pop político de Beyoncé ao último disco de David Bowie, do som nostálgico de Mahmundi ao Hip-Hop de Rashid, completamos o primeiro semestre de 2016 com uma sequência de grandes lançamentos musicais. Seja na cena estrangeira – com nomes como Kanye West, James Blake, Radiohead e ANOHNI – ou em território nacional – acompanhado de Céu, Metá Metá, Jonathan Tadeu e Raça –, sobram obras de peso e trabalhos que se relacionam com diferentes gêneros e tendências. Com a chegada do mês de junho, apresentamos nossa tradicional lista com os 25 melhores discos lançados nos últimos seis meses. Obras nacionais e estrangeiras que passeiam por diferentes estilos como jazz (A Cosmic Rhythm With Each Stroke), Folk (Light Upon The Lake), rap (Coloring Book), indie (Teens of Denial) e pop (Lemonade). Sentiu falta de algum álbum? Use os comentários para montar a sua lista com os melhores lançamentos de 2016 (até agora).

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Artista: Chance The Rapper
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
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A grande beleza no trabalho de Chance The Rapper sempre esteve na proximidade entre o artista e o coletivo de vozes, produtores e instrumentistas convidados a atuar dentro de cada registro de estúdio. Da bem-sucedida apresentação em Acid Rap, de 2013, passando pelo colaborativo Surf, álbum lançado em parceria com o grupo Donnie Trumpet & The Social Experiment, em 2015, cada projeto assumido pelo rapper de Chicago, Illinois parte da criativa interferência de ideias e nomes vindos de diferentes campos da música negra.

Em Coloring Book (2016, Independente), terceira e mais recente mixtape de Chance, uma detalhada continuação desse mesmo conceito colaborativo explorado nos últimos trabalhos do rapper. Mais do que um registro assinado individualmente, um espaço que se abre para a completa interferência, canto e colagem de rimas assinadas por diferentes artistas. São 14 composições que autorizam a passagem de nomes como Kanye West, Lil Wayne, Future, Justin Bieber, Young Thug e Ty Dolla $ign.

Menos “hermético” em relação ao material apresentado em 2013, Coloring Book parte exatamente de onde Chance parou há poucos meses, durante o lançamento de Angels. Produzida em parceria com os integrantes do The Social Experiment, a canção que ainda conta com a presença do rapper Saba mostra a busca do Chance por um som cada vez mais abrangente, tão íntimo do Hip-Hop produzido nos anos 1980/1980, como de todo o catálogo de ideias que abasteceram a soul music nas últimas duas décadas. Um indicativo seguro da base instrumental e poética que rege o trabalho.

Inaugurado pelo clima “religioso” de All We Got, Coloring Book inicialmente se projeta como uma versão descomplicada do mesmo material produzido por Kanye West em The Life of Pablo (2016). Composições que discutem crenças religiosas e políticas (Blessings), mergulham em transformações recentes na vida do rapper (Summer Friends, All Night) ou simplesmente focam em aspectos melancólicos do artista (Smoke Break). Tormentos típicos na vida de um jovem adulto, como se Chance fosse capaz de dialogar com o ouvinte em cada fragmento lírico do registro.

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Kanye West
Hip-Hop/Rap/R&B
http://www.kanyewest.com/

The Life of Pablo (2016, Def Jam / G.O.O.D. Music) é uma obra imperfeita. A melodia suja que escapa dos sintetizadores de Feedback, um descompassado toque de celular ao fundo de 30 Hours, o falso canto gospel que “amarra” as canções, ou mesmo a indecisão de Kanye West na escolha do título e faixas que seriam apresentadas na edição final do disco. Elementos que sintetizam a permanente sensação de descontrole que acompanha o ouvinte durante os mais de 50 minutos do trabalho. Um cenário essencialmente instável, passagem torta para um dos registros mais confuso e ao mesmo tempo brilhantes de toda a curta discografia do rapper norte-americano.

Imerso em uma egotrip que ultrapassa a autoafirmação expressa no antecessor YEEZUS (2013) – obra em que o próprio rapper se compara a Deus -, West discute a própria divindade (Ultralight Beam), exalta novas conquistas (Highlights) e até brinca com o egocentrismo do álbum na cômica (ou profundamente realista) I Love Kanye – “E se Kanye fizesse um som sobre Kanye?”. Nada que se compare ao lirismo excessivamente egocêntrico de Famous. Entre samples de BAM BAM, da cantora Sister Nancy, e versos divididos entre Rihanna e Swizz Beatz, o rapper provoca o mundo das celebridades e dispara contra Tayler Swift: “Sinto como se eu e Taylor ainda pudéssemos fazer sexo / Por quê? Por que eu fiz ela famosa”.

Tão insano quanto nas canções de My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), principal trabalho do rapper, West deixa todas as pontas soltas de uma obra que se projeta em essência de forma esquizofrênica. Como uma tela de Pablo Picasso, grande representante do movimento cubista e uma das principais“inspirações” para a montagem do presente disco, o rapper e o imenso time de colaboradores criam um desenho torto do personagem real/fictício que é Kanye West. Um jogo de rimas, bases disformes e interpretações abstratas que tanto revelam a imagem de um artista perturbado, quanto estabelecem pequenos refúgios de pura sensibilidade.

Basta observar a sutileza expressa em Real Friends – uma típica canção do debut The College Dropout, de 2004 – para perceber o olhar atento de West em relação à própria família e amigos. Uma expansão do mesmo material aprimorado logo em sequência com Wolves. Produzida por Cashmere Cat, a parceria entre West, Caroline Shaw e Frank Ocean mergulha de cabeça em temas como depressão, isolamento, morte e abandono. Mais à frente, No More Parties in L.A., parceria com Kendrick Lamar e uma espécie de passeio pelo universo de exageros, vícios e pequenas corrupções pessoais que caracterizam a noite na cidade de Los Angeles – ou qualquer outro grande centro urbano. Uma completa ruptura da lírica agressiva que domina o primeiro ato do disco.

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. Mesmo “atrasado”, Kanye West continua dando sequência ao projeto G.O.O.D. Friday, apresentando ao público uma nova composição do inédito Swish (2016) por semana. Como previsto desde o lançamento da intimista Real Friends, música apresentada há duas semanas, chega a vez do público ter acesso à versão completa de No More Parties In L.A., composição assinada em parceria com Kendrick Lamar nas rimas e produção assinada pelo veterano Madlib. Montada em cima de samples da música Suzie Thundertussy, composição originalmente lançada por Walter “Junie” Morrison em 1976, No…Continue Reading “Kanye West: “No More Parties In L.A.” (Ft. Kendrick Lamar)”

. Poucas vezes antes Kanye West pareceu tão intimista e melancólico quanto em Real Friends. Mesmo as canções do sentimental 808s & Heartbreak, lançado em 2008, parecem não ecoar de forma tão sensível, honesta, tanto a récem-lançada composição. Produzida em parceria com Boi-1da, Frank Dukes e Havoc, a faixa que conta com a presença do colaborador Ty Dolla $ign discute amizade, família e amadurecimento com leveza, abrindo passagem para o sétimo registro de inéditas do rapper em carreira solo, o aguardado sucessor de Yeezus (2013), Swish (2016). Com lançamento…Continue Reading “Kanye West: “Real Friends””

. Com lançamento previsto para o dia 29 de janeiro, This Is Acting (2016), sétimo registro de inéditas da cantora, produtora e compositora australiana Sia Furler aos poucos revela algumas de suas canções mais significativas. Depois de Alive, composição originalmente escrita para a britânica Adele, Bird Set Free e Cheap Thrills, chega a vez da inédita Reaper mostrar todo o potencial do aguardado sucessor de 1000 Forms of Fear (2014). Esquiva do pop “explosivo” dos últimos singles de Sia, a canção de bases tímidas encontra no R&B um bem-sucedido ponto…Continue Reading “Sia: “Reaper””