. Angústia, medo, raiva e amor. Desde a estreia com Plano de Fuga pra Cima dos Outros e de Mim(2009), elementos fundamentais dentro do cardápio de sentimentos que abastecem a obra da banda carioca Letuce. Em Estilhaça (2015, YB), terceiro álbum de inéditas do projeto comandado por Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos, curioso perceber nesse mesmo reaproveitamento de temas, versos fragilizados e fórmulas, o nascimento de uma obra caótica, propositadamente instável e íntima dos conflitos de qualquer (ex-)casal de namorados. Juntos desde 2007, o casal…Continue Reading “Letuce: “Muralha da China” (VÍDEO)”

Lucas Vasconcellos
Brazilian/Indie/Alternative
https://www.facebook.com/Lucas-Vasconcellos/

Por: Cleber Facchi

Lucas Vasconcellos

Ao lado da esposa Letícia Novaes, Lucas Vasconcellos fez do Letuce um dos retratos mais curiosos da intimidade de qualquer casal. Confissões, intrigas e um jogo de versos provocantes ultrapassaram os clichês do gênero em prol de duas obras de forte diálogo com o presente – Plano De Fuga Pra Cima Dos Outros E De Mim (2009) e Manja Perene (2012). Longe da parceira e assumindo na individualidade os versos e arranjos de Falo de Coração (2013, Agente Digital/Bolacha Discos), o cantor e compositor carioca até busca pelo distanciamento conceitual, mas acaba transformando o presente álbum em uma bem sucedida extensão da obra que há tempos vem desenvolvendo.

De fluidez melancólica, o disco parece posicionado entre o começo do álbum de 2009, ou, quem sabe, ao final do registro apresentado no último ano. São canções de versos tristes que substituem as carícias do casal por um forte sintoma de afastamento. É como se o bem acompanhado “personagem” de Vasconcellos (no Letuce) encarasse de vez a solidão, efeito reforçado tanto nos versos, como nos arranjos do disco. A proposta garante uma obra essencialmente arrastada e perturbadora, como o coração partido do músico atrasasse os passos, vozes e todo o ambiente cinza que aos poucos circunda o universo cantor.

Íntimo da mesma composição encontrada em Medo de Baleia, Anatomia Sexual e demais faixas soturnas de Manja Perene, o presente disco fragmenta a bossa nova em um cenário instrumental obscuro e propositalmente confuso. Tudo funciona em uma medida específica de tempo, o que força o ouvinte a absorver o disco em pequenas e difíceis doses. Quase uma obrigação para saborear as nuances amarguradas que definem a estética final do trabalho. De formatação musical compacta, o disco se esquiva de possíveis surpresas, concentrando na manifestação densa dos versos o real destaque do álbum e o segredo para abraçar a poesia egoísta de Vasconcellos.

Totalmente próximo dos sentimentos e impressões isoladas do músico, o disco leva tempo até se relacionar de maneira estável com o ouvinte. Ainda que músicas como Eu Não Vou Chorar Pra Fora e Morfina assumam uma poesia universal, trazendo na melancolia do pós-relacionamento a base para os versos, durante todo o álbum a individualidade do criador se manifesta como o princípio básico para o nascimento das faixas. A sensação de estar perdido na mente de Vasconcellos é constante até a última faixa, o que transforma músicas como Flor de Tudo em uma inevitável desconstrução do registro.

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. O carioca Lucas Vasconcellos passou os últimos meses ao lado da amada Letícia Novaes, dividindo os palcos e dando vida ao repertório de Manja Perene (2012), segundo e mais recente álbum do Letuce. Agora o músico vai em busca de seu próprio projeto. Intitulado Falo de Coração, o primeiro registro solo de Vasconcellos deve chegar pelos próximos meses, engatando de uma forma ou outra na mesma composição que define os rumos do Letuce desde 2009. Exemplo disso está nos versos e nos sons que…Continue Reading “Lucas Vasconcellos: “Morfina””

Vários Artistas
Brazilian/Indie/Alternative
http://www.joiamoderna.com.br/
https://soundcloud.com/projetoagenor

Por: Cleber Facchi

Cazuza

Não há quem já não tenha brincado com a obra de Cazuza em uma centena de registros em estúdio, shows e colaborações em um sentido claro de manter viva a obra do cantor e compositor carioca. Dos vários tributos lançados na década de 1990, às regravações de quem partilha por diferentes gêneros as canções do artista, anualmente uma avalanche de músicos fazem de tudo para resgatar a essência de Agenor de Miranda Araújo Neto – grande parte deles acomodados em um exercício copioso e limitado. Longe de assumir o mesmo esforço redundante, chega ao público a coletânea Agenor (2013, Joia Moderna), obra que entrega faixas “obscuras” do repertório do cantor à toda uma nova safra de artistas nacionais.

Assim como testado no tributo à Ângela Ro Ro (Coitadinha Bem Feito) e em outros projetos que visitam a obra de Guilherme Arantes e Péricles Cavalcanti, o trabalho idealizado por DJ Zé Pedro e com curadoria da jornalista Lorena Calábria passeia pelo Lado B do cantor em um sentido de buscar pela novidade. São 17 composições que dançam por diferentes gêneros, temáticas e nomes em um sentido atento de invenção. Faixas que parecem fugir da ótica comum de quem chega pela primeira vez ao trabalho de Cazuza, mas que garantem um esforço criativo tão, ou talvez até mais rico, quanto o de outras composições clássicas do artista.

Longe de se perder entre as particularidades de cada convidado, o trabalho mantém na atmosfera semi-experimental um exercício curioso para o ouvinte, e principalmente para seus realizadores. São composições adornadas pelo acerto leve da eletrônica, guitarras distantes do som típico da década de 1980, e vozes que permitem brincar com os mesmos exageros cênicos que marcaram a atuação do cantor – morto em Julho de 1990, em decorrência da Aids. Agenor é um olhar curioso de nomes como Silva, China, Mombojó e Wado para um artista tão massacrado pelas regravações, mas que ainda entrega um catálogo curioso de faixas a serem desvendadas.

Cazuza

Embora desenvolvido em uma atmosfera musical partilhada, o registro assume de forma clara dois tipos de composições. O primeiro diz respeito ao tratamento de plena aproximação com a obra prévia de Cazuza. É o caso de músicas como Sorte e Azar, interpretada pelo carioca Qinho, ou Ritual, assumida por Botika. Canções que trazem no instrumental e no manuseio das vozes uma relação de extrema proximidade com a obra do cantor, como se o resultado conquistado há duas ou mais décadas fosse apenas repetido em um tratamento instrumental límpido e atual. As mesmas velhas composições, com um fundo leve de novidade.

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. “Somos uma banda de Goiânia, criada por um casal”, você não precisa saber além disso para se encantar pelo projeto da dupla Carne Doce. Sustentados por referências que vão dor rock nacional da década de 1970, passando pelo clima brega-chique dos anos 1980 até estacionar nos experimentos da música recente, Salma Jô e o parceiro Macloys encontram em Dos Namorados EP um exercício de confissões diversas. São declarações – românticas ou não – que circulam de forma natural pelo cotidiano do dupla. Um simples…Continue Reading “Experimente: Carne Doce”

. Nada melhor do que dar fim a um violão para construir um novo clipe. Ou quase isso, afinal esta parece ser a proposta do casal Letuce em Freud Sits Here, mais recente vídeo retirado de Manja Perene, último lançamento em estúdio da dupla. Com uma câmera posicionada na parte interna de uma caixa que imita um violão, o diretor Andrei Moyssiadis, auxiliado pelo paraquedista Gui Pádua, deu vida a um dos clipes mais curiosos dos últimos meses. Utilizando de forma exata a presença de…Continue Reading “Letuce: “Freud Sits Here””

. Lançada no último dia sete de setembro, a coletânea Brasileiros traz artistas da nova geração interpretando clássicos da nossa música. Prepare-se para ouvir pérolas da nossa música como Garota de Ipanema, Alegria Alegria, Detalhes e outras grandes composições interpretadas por nomes como Mahmundi, Letuce, Sabonetes, Pélico e tantos outros artistas que surgiram nos últimos anos – ou meses. O projeto que é realizado pelo Pulsa Nova Música traz alguns claros destaques, com a ótima interpretação de Nevilton para o clássico Amanheceu Peguei na Viola…Continue Reading “Pulsa Nova Música: “Brasileiros””

Nina Becker & Marcelo Callado
Brazilian/Indie/Alternative
https://www.facebook.com/gambitobudapeste

Por: Cleber Facchi

Nina Becker levou mais de meia década até finalmente lançar a obra dupla que marcou sua estreia em 2010, Azul e Vermelho. Assim como cada registro flui de acordo com a tonalidade que assume nos títulos das sutis obras, Becker e a seleção de colaboradores que a acompanham no decorrer dos álbuns fazem crescer projetos de vertentes e preferências praticamente opostas: um acomodado em açucaradas composições pop (Vermelho) e outro relacionado a criações mais leves e melancólicas (Azul). Dentro dessa proposta (que ainda se completa com a participação da cantora na Orquestra Imperial), Nina trouxe ao público uma verdadeira salada musical, que entre temperos agridoces bebeu do rock, do pop e do samba na mesma medida.

Paralelo ao trabalho da amada, Marcelo Callado levou quase o mesmo tempo (ou talvez um pouco mais) para se aprofundar em uma variedade de registros que talvez extrapolem os limites dicotômicos de Becker. Figura conhecidíssima da cena musical carioca, o instrumentista caiu no caleidoscópio tropical e bem humorado da banda Do Amor (a qual assume papel de baterista), navegou pelo oceano cinza e amargurado que compreende a obra recente de Caetano Veloso (a partir do disco ) e até se entregou à nostalgia cômica que costura toda a obra da banda Canastra. Isso sem mencionar a infinidade de outras pequenas colaborações que o músico assume por aí.

Embora juntos há tempos, foi só no começo de 2011 que a dupla de fato se encontrou musicalmente. Aproveitando do tempo livre, o casal foi até Brejal (um distrito de Itaipava, Rio de Janeiro) contando apenas de um computador, parcos versos e sem a mínima noção de um registro futuro. As pequenas criações gravadas naquele começo de ano se transformariam aos conselhos e comandos de Carlos Eduardo Miranda no primeiro registro físico do casal, Gambito Budapeste (2012, YB/Bolacha), trabalho que mantém na intimidade da dupla a força para crescer e emocionar. Dotado de uma proposta naturalmente caseira, o registro arrasta o ouvinte para o universo particular da dupla, que entre momentos de fragilidade (Nuvem), ascensão (Marco Zero) e experimentos (Futuro), cruza todas as influências que tanto marcam as individualidades de cada um dos compositores.

 

Apoiado em distintas vertentes da nova, velha e até inédita MPB, o casal flutua em um espaço criativo que incorpora uma infinidade de sons e formas. Dos apelos interioranos que definem a bucólica Armei A Rede ao toque de folk que costura Saudade Vem, tudo no álbum se fragmenta como uma doce descoberta para ambos, afinal, enquanto ele trouxe à ela o despojo do chacundum, Becker aproximou Callado da calmaria que preenche os acordes da bossa nova. Tudo é mutuo, compartilhado e íntimo, fazendo com que em diversos momentos o ouvinte se sinta até desconfortável, como se estivesse sentado no mesmo quarto onde um casal aos poucos se descobre.

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. Comandada pelos vocais competentes (e por vezes raros) de Lucas Vasconcelos, Areia Fina foi a composição escolhida para se transformar no mais novo clipe do casal carioca Letuce. Depois da ótima Medo de Baleia, o novo vídeo surge tomado por um clima caseiro, algo já testado nos anteriores lançamentos da dupla. Séria, a canção faz parte do mais recente lançamento da banda, Manja Perene, trabalho que revela um resultado muito mais sóbrio e envolvente do que o anterior e primeiro disco do duo, Plano…Continue Reading “Letuce: “Areia Fina””