Tag Archives: Lo-Fi

Disco: “pom pom”, Ariel Pink

Ariel Pink
Indie/Lo-Fi/Psychedelic Pop
http://ariel-pink.com/

Por: Cleber Facchi

Desde que abraçou um som mais acessível em Before Today (2010), Ariel Pink tem controlado a própria esquizofrenia musical. Diálogos com a década de 1980, diferentes tentativas em adaptar o Soft Rock ao cenário recente – como a versão para Baby de Donnie and Joe Emerson em Mature Themes (2012) – e toda uma variedade de temas psicodélicos extraídos de diversas obras clássicas. Depois de uma década de isolamento e incontáveis gravações caseiras, Pink finalmente encontrou a própria definição para a “música pop”.

Curioso perceber em pom pom (2014, 4AD) uma parcial ruptura desse conceito. Primeiro trabalho em “fase solo”, longe dos parceiros do Haunted Graffiti, o californiano interpreta o extenso “debut” como um misto regresso e desconstrução dos primeiros anos de produção. Ainda que continue a brincar com as principais referências conquistadas nos últimos discos – vide o romantismo aprimorado em Put Your Number In My Phone -, basta se concentrar no som fragmentado que rege o trabalho para perceber o leve descontrole do artista.

Em um sentido contrário ao detalhamento iniciado em Mature Themes – com sintetizadores, guitarras e vozes dentro de uma mesma estrutura -, Pink assume no presente álbum um constante ziguezaguear de tendências. Por vezes descontrolado, pom pom funciona como morada para faixas tão próximas da jovialidade exaltada em My Molly, parceria recente com Sky Ferreira, como para o ato confessional de Hang On to Life, dividida com Jorge Elbrecht; músicas interpretadas como atos aleatórios do músico nos últimos meses, porém, esboços e bases evidentes para os quase 70 minutos do novo projeto.

Ainda protagonista da própria obra, Pink continua a mergulhar em canções nonsenses (Plastic Raincoats in the Pig Parade), personagens distorcidos (Black Ballerina) e estranhos acontecimentos cotidianos (Picture Me Gone). Versos tão íntimos de uma mente corrompida pela lisergia, como habituada ao cenário de Los Angeles – cidade natal do compositor. Superficialmente, pom pom emula a limpidez aperfeiçoada em estúdio com o Haunted Graffiti; no interior, faixas caseiras, empoeiradas, como um resgate do acervo acumulado entre House Arrest (2002) e Scared Famous (2007).  Continue reading

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Séculos Apaixonados: “Roupa Linda, Figura Fantasmagórica”

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O som “estranho” apresentado pela carioca Séculos Apaixonados em Refletir é Inútil e Só no Masoquismo é apenas um fragmento do material explorado em essência com Roupa Linda, Figura Fantasmagórica (2014). Primeiro registro em estúdio da banda formada por Arthur Braganti (teclado e voz), Felipe Vellozo (baixo), Gabriel Guerra (voz e guitarra), João Pessanha (bateria) e Lucas de Paiva (teclado, saxofone e voz), o trabalho de oito canções já pode ser apreciado na íntegra pelo perfil do grupo no soundcloud ou no player abaixo.

Produzido, gravado e mixado pelos próprios integrantes entre fevereiro e outubro deste ano, o romântico debut ainda conta com lançamento nacional pela Balaclava Records – casa de Holger e Câmera – e distribuição em território lusitano pelo selo português Amor Fúria. Em entrevista recente ao IG, o vocalista Gabriel Guerra – ex-Dorgas e um dos produtores do trabalho – falou um pouco sobre a sonoridade do grupo e também influências como o cantor “brega” Waldick Soriano.

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Séculos Apaixonados – Roupa Linda, Figura Fantasmagórica

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Ariel Pink: “Picture Me Gone”

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A julgar pelo esforço de Ariel Pink em Black Ballerina e Put Your Number In My Phone, mesmo que pom pom (2015) fosse apresentado como EP, já teríamos um dos grandes registros de 2014. Melodias sujas, diálogos com os primeiros trabalhos em estúdio do músico norte-americano e toda uma avalanche de referências empoeiradas. Pink não apenas desvendou o pop à sua maneira, como ainda desenvolveu um universo de experiências musicais próprias, proposta evidente na recém-lançada Picture Me Gone.

Sintetizadores densos, voz transformada em instrumento e uma curiosa interpretação dos próprios sentimentos. Cada segundo dentro da melancólica composição é como ser transportado para diferentes cenários e sensações. Um mergulho nas trilhas sonoras dos anos 1970, um passeio por 1980 e um rápido tropeço no som desvendado em Before Today (2010). Hipnótica, a canção prende ainda mais o espectador graças ao vídeo (bizarro) do diretor Grant Singer. Com distribuição pelo selo 4AD, pom pom estreia no dia 17 de novembro.

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Ariel Pink – Picture Me Gone

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Séculos Apaixonados: “Refletir é Inútil”

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O fim precoce (e ainda estranho) da carioca Dorgas não deve resumir o trabalho de Gabriel Guerra ao “techno-deboche” como DJ Guerrinha e demais projetos do selo 40% Foda/Maneiríssimo. Seguindo o posicionamento estranho do extinto grupo, porém, agora interessado em brincar como uma estética brega/pop, típica dos anos 1980, o carioca e seus novos parceiros apresentam o Séculos Apaixonados. Além do ex-Dorgas, Lucas Paiva (Pessoas que eu conheço; teclado e saxofone), Felipe Vellozo (ex-Mahmundi; baixo), Arthur Braganti (Letuce; Teclado e Voz) e João Pessanha (Baleia; bateria) assumem o coletivo, que ecoa como uma doce versão abortada de Guilherme Arantes. Leia mais.

Depois de duas composições apresentadas na seção Experimente, o grupo carioca reserva para o meio de novembro a chegada do primeiro álbum de estúdio, Roupa Linda, Figura Fantasmagórica (2015). Com lançamento pelo selo Balaclava – Single Parents, Terno Rei -, o trabalho conta com oito canções e capa (acima) assinada por Alice Lara. Para a divulgação do registro, a banda apresentou o clipe brega de Refletir é Inútil, uma das composições que recheiam o projeto.

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Séculos Apaixonados – Refletir é Inútil

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Disco: “Ruins”, Grouper

Grouper
Experimental/Ambient/Dream Pop
http://www.kranky.net/

Por: Cleber Facchi

O coaxar de sapos, bases atmosféricas e a constante interferência de ruídos ambientais. Ruins (2014, Kranky) não é apenas um disco, mas um refúgio. Abrigo detalhado de Liz Harris, a mais recente obra do Grouper nasce da desconstrução dos primeiros (e complexos) registros “de estúdio” da norte-americana. Voz doce, versos confessionais e um diálogo detalhado com o ouvinte. Ainda que isolada em uma floresta de sensações e experimentos próprios, cada brecha do álbum soa como um convite. A redescoberta de um espaço desbravado em totalidade pela musicista, porém, ainda curioso ao visitante.

Em um sentido de expansão do material apresentado em The Man Who Died In His Boat, de 2013, Harris detalha o presente invento como uma peça de possibilidades controladas. O experimento ainda é a base para a formação da obra, porém, diferente do alinhamento assumido em registros como A I A: Dream Loss e Alien Observer, ambos de 2011, formas harmônicas e versos “fáceis” interpretam o ouvinte como um convidado, e não um personagem a ser afastado pela obscuridade das canções.

A exemplo de Julianna Barwick em The Magic Place (2011), Ruins é uma obra detalhada pelo conforto e sutileza dos arranjos. Perceba como todos os elementos do álbum assentam lentamente, convidativos, como se Harris encontrasse um espaço exato para cada fragmento de voz ou tímida peça instrumental. Protagonista de uma história confidencial, Grouper detalha sussurros de forma linear, um conto breve, concepção talvez evidente no disco de 2013, porém, encarada de forma concisa dentro do bloco de formas harmônicas do presente invento.

Volátil, ao mesmo tempo em que preenche o interior da obra com detalhes sutis, límpidos, abraçando o ouvinte a seu próprio tempo, Harris em nenhum momento se distancia da gravação artesanal incorporada à própria discografia. Basta se concentrar na textura cinza de ruídos que cresce ao fundo das canções, ou no “bip” seco de microondas que rompe com a morosidade de Labyrinth. Um meio termo entre o cenário fantástico do disco e a inevitável aproximação da artista/espectador com o “mundo real”. Continue reading

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PCPC: “Fell Into The Wrong Crowd” (Parquet Courts & PC Worship)

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Se você acompanha o trabalho do Parquet Courts, não faltam motivos para celebrar. Como se não bastasse ao grupo a construção de um dos grandes discos de 2014, Sunbathing Animal, há poucas semanas os integrantes da banda nova-iorquina anunciaram o lançamento de um novo projeto paralelo, o Parkay Quarts, transformando a insana Uncast Shadow Of A Southern Myth em aperitivo para o trabalho de inéditas Content Nausea (2014).

Acha pouco? Tudo bem, o grupo ainda reserva algumas “surpresas” para os ouvintes. Além da série de novas composições apresentadas com a “banda gêmea”, os integrantes do Parquet Courts acabam de formar um novo projeto. Trata-se do PCPC, projeto colaborativo que ainda conta com a presença de membros do PC Worship. Como apresentação para o “supergrupo”, ouça a extensa (e estranha) Fell Into The Wrong Crowd.

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PCPC – Fell Into The Wrong Crowd (Parquet Courts + PC Worship)

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Ariel Pink: “Black Ballerina”

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Conforto e adaptação orientam a presente fase de Ariel Pink. Depois de transformar Put Your Number In My Phone em uma síntese coesa dos últimos trabalhos com o Haunted Graffiti, em Black Ballerina o músico californiano mergulha de vez no universo vasto da própria obra. Uma das 17 composições de Pom Pom (2014), oficialmente o “primeiro” registro solo do cantor, a música de arranjos tortos e letra cômica utiliza dos próprios sintetizadores em uma visita rápida ao passado.

De atmosfera “caseira”, a faixa revive grande parte dos arranjos e melodias partilhadas entre Pink e John Maus no final da década de 1990. Uma estranha colagem de sons nostálgicos tão próximos de Captain Beefheart quanto do pop tosco dos anos 1980. Com quase 70 minutos de duração e lançamento pelo selo 4AD, Pom Pom estreia oficialmente no dia 18 de novembro.

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Ariel Pink – Black Ballerina

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Ariel Pink: “Put Your Number In My Phone”

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Em mais de duas décadas de registros caseiros, fitas demo ou mesmo detalhados projetos em estúdio, Ariel Marcus Rosenberg, o Ariel Pink, em nenhum momento apresentou ao público um trabalho assinado individualmente, sob o próprio título. Entre projetos colaborativos, como o Jorge Elbrose – ao lado do músico Jorge Elbrecht -, além de bandas, caso do Ariel Pink’s Haunted Graffiti, a proposta “coletiva” atua de forma contrastada em relação aos versos confessionais e ambientações sensíveis há décadas solucionadas pelo artista. Bom, pelo menos até agora.

Depois de alguns conflitos com os antigos parceiros do Haunted Graffiti e inclinado ao lançamento de faixas autorais, Pink abre as portas do primeiro registro “em carreira solo”: Pom Pom (2014). Álbum duplo, o registro de 17 faixas e 69 minutos de duração traduz no Soft Rock nostálgico de Put Your Number In My Phone uma boa representação daquilo que a 4AD apresenta em totalidade no dia 18 de novembro.

Psicodelia controlada, guitarras que esbarram no Jangle Pop dos anos 1980, além de sintetizadores típicos do parceiro John Maus – referência presente em todas as partes da canção. Elementos doces, artesanais, mas que em nenhum momento distorcem a sonoridade aprazível alcançada em Before Today (2010).

Abaixo, o ótimo clipe de Grant Singer para a composição.

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Ariel Pink – Put Your Number In My Phone

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Disco: “Crush Songs”, Karen O

Karen O
Indie/Lo-Fi/Alternative
http://www.karenomusic.com/

Por: Cleber Facchi

A raiva incontida em grande parte das canções do Yeah Yeah Yeahs, muitas vezes parece ocultar a poesia doce costurada por Karen O. Seja na melancolia escancarada em Maps – uma das mais belas e honestas canções de amor dos anos 2000 -, passando por Little Shadow em It’s Blitz! (2009) e Wedding Song no ainda recente Mosquito (2013), o amor sempre encontra uma brecha para sobreviver na voz da artista, completamente entregue ao sentimento no interior do primeiro disco solo, Crush Songs (2014, Cult).

Confessional em toda a extensão, o “debut” se movimenta entre emanações brandas e sons prestes a se esfarelar. Uma obra de versos sussurrados, captações caseiras e toda uma ambientação dividida apenas entre a cantora e o ouvinte. Livre de um possível acabamento detalhista em estúdio, o álbum de 15 curtas composições é um bloco que não esconde a própria singeleza, carregando nos versos a principal ferramenta da cantora.

Sempre falando de amor – como o próprio título da obra logo entrega -, Crush Songs revela ao público todos os limites e pequenas imposições ainda na faixa de abertura, a triste Ooo. Trata-se de um catálogo de fragmentos sentimentais colecionados por Karen O ao longo dos últimos anos. Faixas talvez “simplistas” ou “pequenas” dentro do contexto musical grandioso do YYYs, porém, assertivas quando organizadas em conjunto, amarradas pela mesma trama sorumbática da recente obra.

Ainda que instalado no mesmo ambiente tímido de The Moon Song, faixa concebida especialmente para a trilha sonora do filme Her (2013), Crush Songs está longe de ser encarado como um material sereno. Como toda obra detalhada pelos percepções humanas, principalmente aqueles impulsionados pelo amor, a estreia solo de Karen O consegue ao mesmo tempo confortar (Day Go By), como despertar a insanidade do espectador (Beast). O próprio texto de apresentação do álbum (acima) traduz bem isso. Da mesma forma que não há certeza alguma no amor, instável é o caminho percorrido ao longo do disco. Continue reading

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Itasca: “After Dawn” e “Nature’s Gift”

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Leonard Cohen, Joni Mitchell, Jessica Pratt, Grouper, Juliana Barwick e até Lana Del Rey. Bastam os primeiros segundos de After Dawn, mais recente lançamento da nova-iorquina Kayla Cohen para perceber o universo vasto de referências que definem o Itasca, projeto solo da musicista. Movido apenas pelo uso de voz e violão – além de alguns ruídos -, o trabalho é um passeio pelas confissões mais dolorosas e intimas da artista, personagem central da própria obra.

Dotada de voz rara e imponente – elemento que deve encantar os apaixonados pelo trabalho de Laura Marling -, Cohen revela nas primeiras criações a matéria-prima para primeiro grande álbum da carreira: Unmoored By The Wind (2014). Com lançamento prevista para o dia 14 de outubro pelo selo New Images, de Matt Mondanile (Ducktails, Real Estate), o registro deve manter a mesma singeleza e complexidade das primeiras criações,  entre elas a sóbria Nature’s Gift, apresentada logo abaixo.

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Itasca – After Dawn

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Itasca – Nature’s Gift

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