A tristeza invade os versos e melodias sujas da inédita Conte Comigo. Mais recente criação do músico Felipe Neiva – artista que ainda conta com a colaboração dos músicos Luiz Arthur Ribeiro, Victor Oliver e Constantin de Tugny em estúdio –, a composição, gravada em fita cassete e produzida pelo veterano Lê Almeida, indica com naturalidade o som que deve abastecer o novo registro de inéditas do músico, um EP previsto para os próximos meses.

Artesanal, Conte Comigo é parte da série Cassete Club, projeto comandado pelo selo carioca Transfusão Noise Records e que conta com lançamentos apenas em fitas cassete. Uma das composições mais curiosas de toda a discografia de Neiva, a nova faixa parece assumir um caminho completamente distinto em relação ao material apresentado há poucos meses na melódica Zen, canção produzida pelo músico em fevereiro deste ano.

Felipe Neiva – Conte Comigo

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Poucas semanas após o lançamento da pegajosa Cool 2, os integrantes do Hoops estão de volta com uma nova composição inédita. Menos urgente em relação ao material que a antecede, Gemini revela ao público um jogo de guitarras contidas, quase introspectivas. Pequenas sobreposições que acabam dialogando diretamente com a voz arrastada do vocalista, íntimo de toda a geração de bandas psicodélicas que surgiram no final da década passada.

Gemini, assim como o single anterior, faz parte do novo EP de inéditas da banda, um registro homônimo com cinco composições inéditas e distribuição pelo selo Fat Possum – também responsável por artistas como Youth Lagoon, Andrew Bird e Spiritualized. Original da cidade de Bloomington, Indiana, o Hoops já conta com uma sequência de obras lançadas de forma independente, caso da dobradinha de EPs Tape #02 e Tape #3.

Hoops – Gemini

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Artista: Não Ao Futebol Moderno
Gênero: Indie Rock, Alternative, Dream Pop
Acesse: https://umbadubarecords.bandcamp.com/

Foto: Tuany Areze

Dois anos após o lançamento do EP Onde Anda Chico Flores? (2014), obra que apresentou ao público o trabalho da Não Ao Futebol Moderno, pouco parece ter sobrevivido da essência triste que marca a sequência de seis canções produzidas pela banda gaúcha. Em Vida Que Segue (2016, Umbaduba), primeiro álbum de estúdio do coletivo de Porto Alegre, guitarras empoeiradas flutuam em meio a versos marcadas por relacionamentos tediosos, fracassos, personagens e conflitos típicos de jovens adultos.

Como indicado durante o lançamento de Cansado de Trampar, faixa escolhida para anunciar o novo disco, todos os elementos do trabalho parecem pensados de forma a emular um som parcialmente nostálgico. Se há dois anos o quarteto – formado por Felipe, Kílary, Pedro e Marco – apontava para clássicos do real emo – como a estreia do American Football e EndSerenading (1998), do Mineral –, hoje, a proposta é outra. Temas que resgatam o Jangle Pop/Pós-Punk dos anos 1980, porém, mantém firme o diálogo com o presente cenário, explorando a obra de Mac DeMarco, Real Estate e outros nomes fortes da cena norte-americana.

Um bom exemplo disso está em Janeiro. Sétima faixa do disco, a canção de guitarras e vozes arrastadas delicadamente parece confortar o ouvinte, transportado para o mesmo universo de obras recentes como Salad Days e Atlas – ambos lançados em 2014. “Olhar pra cama e ver você me faz enlouquecer / Viajar pra dentro de você / Para te conhecer melhor”, sussurra a letra enquanto a base “litorânea” da composição se espalha sem pressa, proposta também incorporada em Laços de Família.

Claro que a “mudança de direção” por parte da banda em nenhum momento interfere na construção de pequenos atos criativos que apontam para o registro apresentado há dois anos. Basta se concentrar na quinta faixa do disco, a dolorosa Saia. Enquanto os versos sufocam pela temática existencialista – “Eu sei que o que eu vou fazer vocês já fizeram antes de eu nascer / Eu só quero tentar” –, musicalmente a canção parece romper com a trilha psicodélica que inaugura o álbum, apontando de maneira explícita para o rock alternativo do final dos anos 1990.

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. Original da cidade de Atlanta, Omni é um projeto de garage rock comandado pelos músicos Frankie Broyles (ex-Deerhunter), Philip Frobos (ex-Carnivores) e Billy Mitchell (ex-Carnivores). Responsáveis por uma sequência de boas composições apresentadas ao público nas últimas semanas – como Afterlife, Wire e Wednesday Wedding –, a banda acaba de finalizar o primeiro álbum de estúdio, o recém-lançado e sujo Deluxe (2016). Com distribuição pelo selo Trouble In Mind – por onde já passaram nomes como Mikal Cronin, FUZZ e Morgan Delt –, o trabalho conta com 10 faixas…Continue Reading “Omni: “Deluxe””

. Formado por Frankie Broyles (ex-Deerhunter), Philip Frobos (ex-Carnivores) e Billy Mitchell (ex-Carnivores), Omni é um projeto de Garage Rock que entregou ao público uma série de grandes composições nos últimos meses. Faixas como Afterlife e Wire, composições essencialmente curtas, mas que carregam um mundo de referências que vão do pós-punk norte-americano a clássicos do rock alternativo dos anos 1990. Em Wednesday Wedding, mais recente lançamento do trio estadunidense, a busca declarada por um som de natureza pop, pegajoso. Uma versão desconstruída do mesmo som produzido pelo Deerhunter…Continue Reading “Omni: “Wednesday Wedding””

. Longe dos parceiros de banda do Animal Collective, Josh Dibb deu vida ao primeiro registro em carreira solo como Deakin. Em Sleep Cycle (2016), cada uma das seis composições que abastecem o disco lentamente revelam um mundo de detalhes acústicos e emanações psicodélicas, como se o cantor e compositor norte-americano visitasse o mesmo universo originalmente apresentado em clássicos da banda de Baltimore, como Sung Tongs (2004) e Feels (2005). Mesmo deixada de fora desse material, Harpy (Blue), mais recente lançamento de Deakin revela o mesmo preciosismo que…Continue Reading “Deakin: “Harpy (Blue)””

. “Você pensa que está bom / Mas podia estar melhor / Não queria estar ali / Mas podia ser pior“, canta Filipe Alvim em Vida Sem Sentido. Mais recente composição do cantor e compositor original de Juiz de Fora, a faixa de temática “existencialista” se divide entre o brega dos cantores brasileiros que apareceram na década 1970 e o mesmo universo de artistas canadenses como TOPS, Sean Nicholas Savage e, principalmente, Mac DeMarco. Com distribuição pelo selo mineiro Pug Records – casa de bandas como duplodeck e Top…Continue Reading “Filipe Alvim: “Vida Sem Sentido””

. Mais conhecida pelo trabalho como vocalista e líder do grupo britânico Veronica Falls, em carreira solo, Roxanne Clifford parece assumir um som completamente distinto em relação ao indie rock produzido com os parceiros de banda. Trata-se do Patience, um projeto de Synthpop/Italo Disco que mergulha no mesmo universo de artistas como Desire, Glass Candy, Chromatics e grande parte dos projetos relacionados ao selo Italians Do It Better. Em The Church, primeiro composição e clipe produzido por Clifford, um eficiente resumo do material que será entregue pela cantora…Continue Reading “Patience: “The Church” (VÍDEO)”

. Depois de um bom EP lançado em outubro de 2014 pelo selo Umbaduba Records – Onde Anda Chico Flores? -, é hora de ter acesso ao primeiro álbum de estúdio do quarteto gaúcho Não Ao Futebol Moderno. Composição escolhida para apresentar o registro – previsto para junho deste ano -, Cansado de Trampar mostra um diálogo cada vez mais seguro da banda de Porto Alegre com todo o universo de representantes do dream pop/indie norte-americano. Enquanto o registro de 2014 parecia flertar com a obra de gigantes do real emo…Continue Reading “Não ao Futebol Moderno: “Cansado de Trampar””

Lê Almeida
Nacional/Indie Rock/Psychedelic
http://lealmeida.bandcamp.com/

 

Com o lançamento de Paraleloplasmos, em março de 2015, o cantor e compositor fluminense Lê Almeida parecia indicar a busca por um novo conjunto de referências e sonoridades. Entre composições essencialmente efêmeras, guitarras sujas e ruídos caseiros, Fuck The New School, com mais de 11 minutos de duração, e Câncer dos Trópicos, com quase nove, sutilmente conseguiram transportar o ouvinte para um cenário parcialmente renovado, marcado pela psicodelia. Uma extensão torta do mesmo som produzido pelo músico durante quase uma década de atuação.

Em Mantra Happening (2016, Transfusão Noise Records), terceiro e mais recente registro de inéditas do guitarrista, um delicado regresso ao mesmo ambiente cósmico apresentado há poucos meses. Cinco composições extensas, pouco mais de 50 minutos de duração, tempo suficiente para que Almeida e o time de instrumentistas formado por João Casaes (guitarra), Bigú Medine (baixo) e Joab Régis (bateria) brinque com os ruídos, ondas de distorção e vozes de forma sempre mutável.

Escolhida para inaugurar o disco, a longa Oração da Noite Cheia, com mais de 15 minutos de duração, cria uma ponte involuntária para o trabalho apresentado no último ano. Emanações psicodélicas, imensos paredões de guitarra e a voz pueril de Almeida, assim como em grande parte dos registros do artista, explorada como um “instrumento” complementar. Dois atos distintos, mas que se completam ao longo da execução da faixa, como uma visita o rock da década de 1970, mas sem necessariamente abandonar o presente.

Fina representação do lado mais “experimental” da obra, Maré, segunda canção do disco, não apenas garante sequência ao material apresentado nos primeiros minutos de Mantra Happening, como ainda estabelece uma série de regras para o restante da obra. São quase 13 minutos de texturas sobrepostas e vozes carregadas de efeitos. Arranjos e conceitos que esbarram de forma autoral na obra de Ty Segall, Thee Oh Sees e outros representantes da cena norte-americana.

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