Tag Archives: Lo-Fi

Disco: “Crush Songs”, Karen O

Karen O
Indie/Lo-Fi/Alternative
http://www.karenomusic.com/

Por: Cleber Facchi

A raiva incontida em grande parte das canções do Yeah Yeah Yeahs, muitas vezes parece ocultar a poesia doce costurada por Karen O. Seja na melancolia escancarada em Maps – uma das mais belas e honestas canções de amor dos anos 2000 -, passando por Little Shadow em It’s Blitz! (2009) e Wedding Song no ainda recente Mosquito (2013), o amor sempre encontra uma brecha para sobreviver na voz da artista, completamente entregue ao sentimento no interior do primeiro disco solo, Crush Songs (2014, Cult).

Confessional em toda a extensão, o “debut” se movimenta entre emanações brandas e sons prestes a se esfarelar. Uma obra de versos sussurrados, captações caseiras e toda uma ambientação dividida apenas entre a cantora e o ouvinte. Livre de um possível acabamento detalhista em estúdio, o álbum de 15 curtas composições é um bloco que não esconde a própria singeleza, carregando nos versos a principal ferramenta da cantora.

Sempre falando de amor – como o próprio título da obra logo entrega -, Crush Songs revela ao público todos os limites e pequenas imposições ainda na faixa de abertura, a triste Ooo. Trata-se de um catálogo de fragmentos sentimentais colecionados por Karen O ao longo dos últimos anos. Faixas talvez “simplistas” ou “pequenas” dentro do contexto musical grandioso do YYYs, porém, assertivas quando organizadas em conjunto, amarradas pela mesma trama sorumbática da recente obra.

Ainda que instalado no mesmo ambiente tímido de The Moon Song, faixa concebida especialmente para a trilha sonora do filme Her (2013), Crush Songs está longe de ser encarado como um material sereno. Como toda obra detalhada pelos percepções humanas, principalmente aqueles impulsionados pelo amor, a estreia solo de Karen O consegue ao mesmo tempo confortar (Day Go By), como despertar a insanidade do espectador (Beast). O próprio texto de apresentação do álbum (acima) traduz bem isso. Da mesma forma que não há certeza alguma no amor, instável é o caminho percorrido ao longo do disco. Continue reading

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Itasca: “After Dawn” e “Nature’s Gift”

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Leonard Cohen, Joni Mitchell, Jessica Pratt, Grouper, Juliana Barwick e até Lana Del Rey. Bastam os primeiros segundos de After Dawn, mais recente lançamento da nova-iorquina Kayla Cohen para perceber o universo vasto de referências que definem o Itasca, projeto solo da musicista. Movido apenas pelo uso de voz e violão – além de alguns ruídos -, o trabalho é um passeio pelas confissões mais dolorosas e intimas da artista, personagem central da própria obra.

Dotada de voz rara e imponente – elemento que deve encantar os apaixonados pelo trabalho de Laura Marling -, Cohen revela nas primeiras criações a matéria-prima para primeiro grande álbum da carreira: Unmoored By The Wind (2014). Com lançamento prevista para o dia 14 de outubro pelo selo New Images, de Matt Mondanile (Ducktails, Real Estate), o registro deve manter a mesma singeleza e complexidade das primeiras criações,  entre elas a sóbria Nature’s Gift, apresentada logo abaixo.

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Itasca – After Dawn

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Itasca – Nature’s Gift

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Grouper: “Call Across Rooms”

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Há três anos, quando Liz Harris passou a dividir as composições do Grouper entre bases densas do Drone e melodias sublimes do Dream Pop, nascia não apenas o melhor álbum da compositora até presente momento – o duplo A I A: Dream Loss e Alien Observer (2011) -, mas a inspiração para os lançamentos seguintes da norte-americana. Ambientado no mesmo plano etéreo e seguindo a trilha do bem sucedido The Man Who Died In His Boat (2013), Harris abre as portas para o 10º álbum da carreira, Ruins (2014).

Previsto para estrear no dia 31 de outubro (Halloween) pelo selo Kranky, o novo álbum carrega na inédita Call Across Rooms uma pista sólida sobre os próximos lançamentos relacionados ao novo disco e, ao mesmo tempo, a composição mais doce já lançada pela musicista. São menos de três minutos em que vozes melancólicas, pianos e ruídos soturnos se materializam com leveza na mente do espectador, acomodando as percepções do ouvinte dentro de um cenário que parece desvendado apenas por Harris. Doce e triste.

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Grouper – Call Across Rooms

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Disco: “Verões”, Duplodeck

Duplodeck
Indie Rock/Lo-Fi/Alternative
https://www.facebook.com/deckduplo
http://duplodeck.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

O lançamento de Brisa no começo de junho serviu para “alertar” sobre a presente fase da mineira Duplodeck. Mais do que uma alteração de idioma – o grupo havia deixado a língua inglesa do primeiro EP para cantar em português -, o uso leve das guitarras, letras menos introspectivas, bem como a imposição “tropical” dada aos arranjos serviu de passagem segura para o primeiro álbum “de estúdio” do coletivo: Verões (2014, Pug Records). Espécie de praia conceitual, o registro lentamente acomoda o ouvinte em um cenário paradisíaco de sonhos, canções de amor e doses controladas de ruídos tão íntimos da cena atual, como do rock indie dos anos 1990.

Em um plano afastado daquele lançado há três anos em Duplodeck EP (2011), o debut cresce como uma colisão de temas autorais. Ainda que ecos da cena alternativa concebida há duas décadas recheiem todo o conteúdo da obra – como Pavement, Yo La Tengo e Pixies -, basta a inaugural Saint-Tropez para perceber que a direção assumida pela banda agora é outra, muito mais ampla e até mesmo “curiosa” em relação ao trabalho sustentado por outros artistas de essência próxima. Uma tentativa do grupo em delinear com acerto a própria identidade.

De contornos nostálgicos, Verões está longe de ser encerada apenas como uma “versão tropical” do trabalho exposto por gigantes do Indie estrangeiro, afinal, toda a essência do grupo descende da própria cena nacional. Seja na captação caseira das vozes aos realces melódicos de faixas como Strange Girl e Boemia – no melhor estilo Teenage Fanclub -, grande parte do esforço da obra está em resgatar temas típicos de nomes como Astromato, Second Come e outros veteranos do rock nacional. A própria sonoridade “litorânea” do disco parece a mesma realçada pela carioca Pelvs em clássicos como Members to Sunna (1997) e Peninsula (2000).

Propositadamente desajustada, a estreia do sexteto de Juíz de Fora – Alex Martoni, Fred Mendes, Guilherme Kegele Lignani, Maria Bitarello, Ricardo Coimbra e Rodrigo Lopes – é uma obra capaz de brincar de forma assertiva com pequenos contrastes. Se por um lado as melodias encaradas pela banda ecoam de forma harmônica, resgatando com naturalidade elementos do Indie Pop lançados no EP de estreia – vide Bom Dia, Amor -, por outro lado a sobrecarga de ruídos rompe com a formação de um material acessível em demasia, provocando a experiência do ouvinte. Continue reading

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Ariel Pink: “Put Your Number In My Phone”

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Em mais de duas décadas de registros caseiros, fitas demo ou mesmo detalhados projetos em estúdio, Ariel Marcus Rosenberg, o Ariel Pink, em nenhum momento apresentou ao público um trabalho assinado individualmente, sob o próprio título. Entre projetos colaborativos, como o Jorge Elbrose – ao lado do músico Jorge Elbrecht -, além de bandas, caso do Ariel Pink’s Haunted Graffiti, a proposta “coletiva” atua de forma contrastada em relação aos versos confessionais e ambientações sensíveis há décadas solucionadas pelo artista. Bom, pelo menos até agora.

Depois de alguns conflitos com os antigos parceiros do Haunted Graffiti e inclinado ao lançamento de faixas autorais, Pink abre as portas do primeiro registro “em carreira solo”: Pom Pom (2014). Álbum duplo, o registro de 17 faixas e 69 minutos de duração traduz no Soft Rock nostálgico de Put Your Number In My Phone uma boa representação daquilo que a 4AD apresenta em totalidade no dia 18 de novembro.

Psicodelia controlada, guitarras que esbarram no Jangle Pop dos anos 1980, além de sintetizadores típicos do parceiro John Maus – referência presente em todas as partes da canção. Elementos doces, artesanais, mas que em nenhum momento distorcem a sonoridade aprazível alcançada em Before Today (2010).

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Ariel Pink – Put Your Number In My Phone

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Karen O: “Day Go By”

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Se você assistiu ao filme Her (2013) e se encantou pela delicadeza da música The Moon Song, presente na trilha sonora da película, é bastante provável que tenha pensado: “Karen O bem que poderia gravar mais músicas assim”. Para a felicidade dos românticos ou daqueles que sempre se encantaram pelos inventos paralelos da cantora norte-americana – vocalista do Yeah Yeah Yeahs -, Karen reserva para nove de setembro a chegada de Crush Songs (2014).

Trata-se do primeiro álbum solo da cantora e uma coleção de temas apaixonados captados a partir de gravações caseiras – apenas voz e violão. Com lançamento pelo selo Cult, o trabalho apresentado pela sujinha Rapt acaba de ter mais uma doce composição apresentada: Day Go By. Míseros dois minutos e 18 segundos de pura confissão, premissa para o material que ocupa todo o registro

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Karen O – Day Go By

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Duplodeck: “Verões”

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Quem foi surpreendido pelo trabalho da mineira Duplodeck em Brisa, faixa apresentada há poucas semanas, dificilmente vai se desmotivar com as canções lançadas em Verões (2014). Primeiro álbum de estúdio do grupo de Juíz de Fora, o registro de oito faixas é mais do que uma desconstrução do Indie-Rock-Gringo do EP de estreia, de 2011, mas a busca do coletivo em produzir uma obra essencialmente nacional, ou melhor, tropical.

Como o título do álbum resume, Verões é uma obra costurada por temas leves, descompromissados e veranis, proposta explícita logo nas inaugurais Saint-Tropez e Uns Braços. Recomendado para os amantes do Rock Alternativo – de hoje ou dos anos 1990 -, o trabalho “sujinho” pode ser baixado gratuitamente no próprio Bandcamp do grupo. Abaixo você encontra o disco – um dos melhores lançamentos nacionais do ano – para audição na íntegra.

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Duplodeck – Verões

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TOPS: “Picture You Staring”

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Doce e simples. Não há definição mais honesta ao trabalho da banda canadense TOPs do que esta. Dois anos depois de ser apresentada ao público pelo disco Tender Opposites (2012), nada mais encantador do que perceber em Picture You Staring (2014), segundo registro da carreira do grupo de Montreal a mesma postura e sonoridade. Doze composições detalhadas por vozes e arranjos sempre econômicos, mas que em nenhum momento ocultam a grandeza evidente na obra do coletivo.

Também lançado pelo selo Arbutus Records – casa de Sean Nicholas Savage, Braids e outros projetos queridos aqui no Miojo Indie -, o novo álbum mantém firma a relação com a década de 1980 sem necessariamente parecer um registro datado. Referências que vão do Soft Rock ao Indie Pop canadense em meio a faixas já conhecidas, como Way to be Loved, e todo um pequeno arsenal de músicas inéditas.

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TOPS – Picture You Staring

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Giancarlo Rufatto: “Cancioneiro”

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Desde que apresentou ao público o álbum Machismo, em 2010, que Giancarlo Rufatto continua a expandir a atmosfera romântica/brega do próprio trabalho. Matéria-prima para o exercício expandido no single Alfredo / Enseada, ou mesmo dentro do álbum de versões lançado há pouco tempo, a mesma estrutura serve de base para o novo projeto solo do músico curitibano: Cancioneiro (2014).

Detalhado pela mesma composição Lo-Fi dos registros passados, o novo álbum concentra dez faixas marcadas pela melancolia e o jogo confessional dos versos, premissa para o exercício triste que começa na já conhecida Enseada e estaciona somente na densa Gospel. Disponível para audição gratuita logo abaixo, na página do cantor é possível folhear o encarte do novo disco, ou mesmo baixar os antigos projetos de Rufatto.

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Giancarlo Rufatto – Cancioneiro

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Disco: “Alvvays”, Alvvays

Alvvays
Indie Pop/Alternative/Female Vocalists
https://www.facebook.com/ALVVAYS
http://alvvays.com/

Por: Cleber Facchi

A julgar pela forte relação musical de Grimes, Purity Ring e toda a nova geração de artistas canadenses, não seria estranho se a presente safra de projetos locais fosse guiada pelo mesmo caráter experimental / etéreo do “coletivo”. Entretanto, ao esbarrar na estreia do Alvvays – lê-se always -, curioso observar como as referências do grupo de Toronto não apenas se revelam contrárias ao atual panorama canadense, como ainda assumem elementos há muito apagados do rock norte-americano.

De evidente imposição nostálgica, o autointitulado debut se esquiva de fórmulas complexas para encantar pela suavidade. Diminuto – são apenas nove canções -, o disco abre de forma enérgica com as guitarras de Adult Diversion, assume os próprios sentimentos em One Who Loves You e só estaciona (de forma sutil) na derradeira Red Planet. Pouco mais de 30 minutos em que sonhos e desilusões de jovens adultos são delicadamente partilhados com o público.

Confortado em uma atmosfera caseira, explícita logo na voz rústica, ainda que doce, de Molly Rankin, o álbum é uma romântica travessia pelo tempo. Com referências (sentimentais) que vão dos Beach Boys ao Indie Pop britânico da década 1980, cada instante do registro se entrega – lírica e musicalmente – ao amor. Como a banda já confirmou em entrevista, grande parte das canções do disco refletem a vida sentimental de cada integrante, base autobiográfica que aos poucos se revela íntima do próprio ouvinte.

Dentro deste contexto não é difícil comparar a estreia do Alvvays ao trabalho já proclamado por outros veteranos. Nomes como Camera Obscura, The Pastels e até mesmo figuras recentes da música, como a californiana Best Coast, sobrevivem e ainda servem de estímulo para diversos arranjos e temas reforçados ao longo da obra. Porém, ao investir em versos que se entregam às próprias confissões, o grupo canadense rompe de forma assertiva com qualquer aspecto “copioso”, cercando o debut em um nítido espaço autoral. Continue reading

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