Artista: The XX
Gênero: Indie, Eletrônica, R&B
Acesse: http://thexx.info/

 

Dizem que estamos em perigo / Mas eu discordo … Você teve fé em mim / Eu não vou fugir / Se tudo desmoronar / Você terá sido o meu erro favorito”. Ainda que a incerteza de um novo amor sirva de base para a inaugural Dangerous, difícil ouvir o dueto entre Romy Madley Croft e Oliver Sim e não perceber na canção um paralelo com a presente fase do The XX. Longe da zona de conforto que marca os dois primeiros discos da banda – xx (2009) e Coexist (2012) –, I See You (2017, Young Turks) encanta pela busca declarada do trio, completo com o produtor Jamie XX, em provar de novas sonoridades.

Embora íntimo do mesmo universo de referências que marcam a curta discografia da banda, como o R&B dos anos 1990 e o soul produzido na década de 1970, I See You detalha o esforço do trio em sutilmente distorcer o conceito minimalista apresentado no primeiro disco de inéditas. Em um diálogo explícito com a música pop, músicas como Lips (“Apenas o seu amor / Apenas os seus lábios”) e Say Something Loving (“Eu preciso lembrar / O sentimento escapa de mim”) se projetam como hits em potencial, aproximando o trio de um som comercial, essencialmente radiofônico.

Longe do isolamento claustrofóbico que move faixas como Crystalised, Angels e Islands, parte expressiva das canções no presente álbum encantam pela grandeza. Difícil não ser arrastado pelas guitarras e batidas eletrônicas de On Hold, composição que utiliza de samples da música I Can’t Go for That (No Can Do), faixa originalmente gravada em 1981 pela dupla Hall & Oates. O mesmo detalhamento se reflete com naturalidade logo na música de abertura do disco, efeito do som empoeirado dos metais que cobrem Dangerous durante toda sua execução.

Mesmo produzido em parceria com Rodaidh McDonald, produtor escocês que já trabalhou ao lado de artistas como Adele, King Krule e How To Dress Well, difícil não pensar I See You como uma extensão do projeto solo de Jamie XX. Do uso inusitado de samples, como Do You Feel It?, da dupla Alessi Brothers, passando pela interferência de elementos eletrônicos em On Hold e Replica – uma das melhores canções do disco –, faixa após faixa, Jamie faz do presente disco uma adaptação contida do material apresentado em In Colour (2015), estreia solo do produtor. Músicas que partem da mesma ambientação testada pelo artista em Loud Places, faixa assinada em parceria com Croft.

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Artista: Jude
Gênero: Rock Psicodélico, Alternativo, Rock
Acesse: https://soundcloud.com/jude-banda

 

Não faltam registros inspirados na boa safra do rock psicodélico produzido entre o final dos anos 1960 e começo da década de 1970. Trabalhos ancorados de forma explícita na obra de veteranos da música nacional – como Os Mutantes e Clube da Esquina –, ou mesmo gigantes da cena estrangeira – principalmente The Beatles e Pink Floyd. Todavia, poucos são os registros capazes de ir além da mera reciclagem de conceitos, sufocando pela completa ausência de identidade.

Prazeroso encontrar em Ainda Que de Ouro e Metais (2016, Crooked Tree Records), álbum de estreia do grupo alagoano Jude, uma seleção de músicas que vão além do empoeirado resgate de velhas ideias e melodias. Dividido com naturalidade entre a nostalgia e o frescor dos arranjos, o trabalho entregue ao público em dezembro do último ano confirma o esmero e verdadeira entrega do trio Reuel Albuquerque (guitarras, violão, baixo, teclados, programações, bateria e vocais) Fernando Brasileiro (vocais e violão) Alex Moreira (baixo e violão) em estúdio.

A cada nova composição, um precioso diálogo com o passado. Entre falsetes e arranjos descomplicados, a homônima música de abertura do disco orienta a direção seguido pela trinca de Maceió. Guitarras, pianos e batidas que se espalham de maneira sutil, detalhando um colorido pano de fundo para o canto melódico da faixa, por vezes íntima do clássico Pet Sounds (1966), dos Beach Boys. O mesmo cuidado se repete ainda na divertida Vá Ser Feliz Como o Arnaldo Baptista, faixa assinada em parceria com o músico João Paulo, vocalista e líder da conterrânea Mopho.

Por falar no trabalho da Mopho, sobrevive em Ainda Que de Ouro e Metais parte da essência lisérgica e grande parte das referências que abasteceram a curta discografia da banda alagoana. Difícil ouvir músicas como Gigante de Aço e Com Olhos Serenos e não lembrar de obras como Volume 3 (2011) ou o homônimo registro de estreia do grupo – 56º lugar na nossa lista dos 100 Melhores Discos Nacionais dos Anos 2000. A mesma ambientação psicodélica, louca. Arranjos e vozes que analisam o passado de forma curiosa, porém, mantendo firme os dois pés no presente.

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Artista: Run The Jewels
Gênero: Hip-Hop, Rap, Alternativo
Acesse: https://runthejewels.com/

 

O ritmo frenético imposto em Talk To Me parece ser a chave para entender o som produzido em Run The Jewels 3 (2016, Mass Appeal / RED). Originalmente lançada como parte da coletânea Adult Swim Singles, em outubro do último ano, a composição lentamente aponta a direção seguida pelos parceiros El-P e Killer Mike em grande parte do presente registro. Uma extensão segura da mesma poesia política/ácida aprimorado pela dupla durante a construção do elogiado Run the Jewels 2 (2014).

Previsto para janeiro de 2017, porém, lançado de surpresa no último dia 24 de dezembro, véspera de Natal, RTJ3 mostra que a dupla norte-americana continua tão explosiva (e crítica) quanto nos dois primeiros registros de inédita. Ambientado em um cenário político que se despede de Barack Obama, cada faixa do registro se projeta de forma a detalhar diferentes cenas do cotidiano estadunidense, esbarrando com naturalidade em temas como racismo, violência e sexo.

Doctors of death / Curing our patients of breath / We are the pain you can trust / Crooked at workDelivered some hurt and despair / Used to have powder to push / Now I smoke pounds of the kush Holy, / I’m burnin’ a bush”, explode a letra de Legend Has It, uma perfeita síntese da poesia versátil e permanente uso de autorreferências durante toda a construção do trabalho. Versos que se dividem com naturalidade entre o bom humor, a raiva e a rima política, sempre provocativa.

A mesma intensidade presente nos versos se reflete na composição das batidas e bases durante toda a construção do trabalho. Seguindo de onde parou em Close Your Eyes (And Count to Fuck), parceria com Zack de la Rocha no álbum de 2014, El-P finaliza um registro intenso, marcado pela sobreposição frenética das batidas, samples e sintetizadores. Um bom exemplo disso está em Panther Like a Panther (Miracle Mix), música que faz das batidas e detalhes eletrônicos um estímulo para as rimas.

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Artista: Hierofante Púrpura
Gênero: Rock Alternativo, Psicodélico, Experimental
Acesse: https://hierofantepurpura.bandcamp.com/

Foto: Hendi DuCarmo

“Seremos a banda do ano?”, pontua o coro de vozes ensandecidas nos instantes finais de Cachorrada. Ainda que o questionamento seja apenas um fragmento complementar à cômica narrativa assinada por Danilo Sevali, difícil passear pelas canções de Disco Demência (2016, Balaclava Records), mais recente álbum da Hierofante Púrpura, e não perceber o registro como um dos trabalhos mais significativas da cena independente nos últimos meses.

Resultado da ativa interferência de cada integrante da banda – além de Sevali (voz, teclados, guitarra), completa com Helena Duarte (baixo, voz), Gabriel Lima (guitarra, voz) e Rodrigo Silva (bateria) –, o álbum construído a partir de cinco composições extensas reflete o que há de melhor no material produzido pelo grupo de Mogi das Cruzes: a loucura. Em um intervalo de apenas 40 minutos, cada canção se transforma em um experimento torto, insano.

Um bom exemplo disso está na curiosa montagem de Acalenta Lua, segunda faixa do disco. Inaugurada pelo canto arrastado dos integrantes, a canção de melodias inebriantes se espalha sem pressa, detalhando delírios típicos do trabalho de Arnaldo Baptista no clássico Lóki? (1974). No segundo ato da canção, uma quebra brusca. Pianos melancólicos que flutuam em meio ao som ruidoso que escapa das guitarras de Lima. Distorções, batidas e vozes que dançam em meio a pequenas curvas rítmicas.

Mesmo que a relação com o trabalho de gigantes da música psicodélica seja percebida durante toda a construção da obra, faixa após faixa, o quarteto paulista se concentra na formação de uma identidade musical própria. No interior de cada composições, diferentes blocos instrumentais, sempre complexos, ricos em detalhes e texturas. Uma constante sensação de que pequenos fragmentos vindos de diversas canções foram espalhados de forma aleatória no interior do trabalho.

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Artista: Nego E.
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Acesse: https://www.facebook.com/negoe.sp/

 

O oceano desbravado no segundo álbum de estúdio de Nego E. é imenso, turbulento e propositadamente instável. Navegando em uma embarcação resistente, segura, projetada a partir do uso preciso das rimas, o princípio de um constante embate contra ondas de preconceito, criminalidade, racismo e perseguição policial. Uma extensão madura do mesmo conceito caótico e urbano explorado pelo rapper há dois anos, durante a produção do primeiro álbum de inéditas, o ótimo Autorretrato (2014).

Anunciado durante o lançamento de Lua Negra, primeiro single do disco, Oceano (2016, Independente) joga com as rimas e referências dentro de uma atmosfera essencialmente densa, sombria. “Cadê a lei do ventre livre quando uma preta é estuprada? / A noite vi minha mãe com insônia / Por não saber se eu ia cair numa cena forjada”, questiona o rapper, preparando o terreno para ápice dramático da canção – “Eu não consigo respirar, ainda pareço suspeito? / Para de atirar, eu parecia suspeito?” –, uma delicada ponte para o movimento Vidas Negras Importam.

Matéria-prima do registro, o preconceito racial serve de base para grande parte das canções dissolvidas pela obra. Da abertura do disco, em Homem ao Mar, passando por músicas como Insônias e Melhor de Mim, não são poucos os momentos em que as rimas de Nego E. escancaram a opressão sofrida pela comunidade negra e outros grupos marginalizados. Um bom exemplo disso está em D M P a D Q P C, parceria com Rincon Sapiência que utiliza de uma cena do Big Brother Brasil – “Meu amor, tá aqui ó, sou preta, quer afrontar?” – como ponto de partida para a construção dos versos.

Em um constante diálogo com o presente, Oceano revela ao público uma série de faixas que detalham diferentes aspectos da nossa sociedade. Segunda canção do disco, Senhor Ninguém nasce como uma crítica atenta ao consumismo e suas novas formas de escravidão – “Marionetes com correntes ou cordas / Velhos engenhos, novos senhores”. Em, Valsalva, uma reflexão sobre os relacionamentos e identidades forjadas dentro das redes sociais – “Punho cerrado aqui não é só pelo close do Snapchat”.

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Artista: Luísa Maita
Gênero: Eletrônica, Samba, Alternativa
Acesse: http://www.luisamaita.com.br/

 

A imprevisibilidade talvez seja o principal traço do trabalho de Luísa Maita em Fio da Memória (2016, Cumbancha). Produzido em parceria com o músico Zé Nigro, o sucessor do elogiado Lero-Lero (2010), obra que apresentou a cantora e compositora paulistana ao grande público, reforça a essência experimental e naturalmente inventiva da artista. Uma quebra brusca em relação ao samba melódico e a voz limpa que orienta as canções do trabalho entregue há seis anos.

Com uma “gestação prolongada”, como resume o texto de apresentação do disco, o novo álbum precisou de quase meia década até ser finalizado. Em produção desde 2012, Fio da Memória nasce como uma extensão torta do material entregue por Maita no primeiro álbum de inéditas. Entre ruídos e bases eletrônicas, crônicas musicadas que dialogam com o samba, incorporam elementos tribais e diferentes gêneros musicais, como o jazz e o rock.

A julgar pelo preciosismo que orienta Ela, sétima canção do disco, é fácil perceber porquê o novo álbum de Maita levou tanto tempo até ser finalizado. Perceba como sintetizadores se espalham sem pressa ao fundo da canção, hipnóticos. Um jogo de batidas e vozes que se completam lentamente, resultando em uma canção que sussurra detalhes na cabeça do ouvinte. O mesmo cuidado acaba se refletindo em outros instantes do disco, seja na euforia de Porão ou no sopro tímido da derradeira Jump.

Composição escolhida para inaugurar o disco, a eletrônica Na Asa é apenas a ponta do imenso iceberg criativo que caracteriza o trabalho. A voz chiada, batidas cíclicas, entalhes econômicos. Longe da exposição imediata dos elementos, Maita e o parceiro de produção, Tejo Damasceno, uma das metades do Instituto, parecem jogar com o minimalismo dos arranjos. Minúcias, segredos e pequenas sobreposições que se espalham de forma a completar a voz firme da cantora.

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Artista: A Tribe Called Quest
Gênero: Hip-Hop, Rap, Alternative
Acesse: http://www.atribecalledquest.com/

 

Em um intervalo de apenas três anos, os integrantes do coletivo A Tribe Called Quest mudaram para sempre a história do Hip-Hop norte-americano. Nas batidas e rimas de Q-Tip, Ali Shaheed Muhammad, Phife Dawg e Jarobi White, obras fundamentais como People’s Instinctive Travels and the Paths of Rhythm (1990), The Low End Theory (1991) e Midnight Marauders (1993). Ponto de partida para uma nova fase do gênero e o estímulo criativo para toda uma sequência de produtores e obras pelas próximas duas décadas.

De gigantes da indústria, como The Black Eyed Peas e Kanye West, passando por nomes como Nas, DJ Shadow e Kendrick Lamar, difícil não encontrar alguém que não tenha se inspirado no som produzido pelo quarteto nova-iorquino. Tamanha influência e fascínio do público acabou servindo de estímulo para um retorno do grupo aos palcos depois de um hiato de oito anos, além, claro, da construção do recém-lançado We Got It from Here… Thank You 4 Your Service (2016, Epic / SME).

Sexto e último registro de inéditas do quarteto, o trabalho dividido em duas metades segue exatamente de onde o coletivo parou há quase duas décadas, durante o lançamento do álbum  The Love Movement (1998). Samples, ritmos e melodias que se entrelaçam de forma a servir de base para as rimas lançadas por cada integrante do projeto. O último suspiro poético do rapper Phife Dawg, morto em março deste ano, devido a complicações relacionadas com a diabetes.

Alimentado pelo uso de temas recentes, We Got It from Here… detalha o racismo sofrido pela comunidade negra, perseguição a grupos marginalizados, empoderamento feminino, conflitos religiosos e todo um universo de elementos que servem de estímulo para a construção de um recente panorama político/social dos Estados Unidos. Um chamado para a mudança que tem início na dobradinha formada por The Space Program e We the People…, mas que acaba se espalhando durante toda a construção do registro.

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Artista: Filipe Alvim
Gênero: Indie, Lo-Fi, Alternativo
Acesse: https://filipealvim.bandcamp.com/

Foto: Tamires Orlando

Romântico, cafona, sensível. Em Beijos (2016, Pug Records), primeiro álbum de inéditas em três anos, o cantor e compositor mineiro Filipe Alvim faz de cada composição ao longo do registro um fragmento marcado pela confissão. Entre sussurros melancólicos (“Você pensa que está bom / Mas podia estar melhor”) e versos essencialmente intimistas (“Você tem / O poder / Sobre mim”), a construção de um trabalho que parece feito para grudar na cabeça do ouvinte.

Inaugurado pelos dramas e versos atormentados de Vida Sem Sentido, faixa de abertura do disco, o sucessor de Zero EP (2013) mais uma vez posiciona Alvim como personagem central de uma obra marcada pela desilusão. Enquanto os arranjos de guitarra se desmancham lentamente, revelando um som empoeirado, íntimo dos trabalhos de Mac DeMarco e outros românticos do rock atual, uma solução de versos amargos aponta a direção seguida em grande parte do trabalho.

Dividido entre músicas rápidas e versos arrastados, sempre dolorosos, Alvim joga com os sentimentos – dele e do próprio ouvinte. São versos curtos, sequências de duas ou três palavras, como se o cantor brincasse com o significado oculto em cada uma das canções. Declarações de amor, medos e delírios que se entrelaçam em meio ao movimento rápido das guitarras, tão íntimas do pop rock dos anos 1980, quanto de novatos como Connan Mockasin e Séculos Apaixonados.

Ela é poderosa / Me fascina / Ela é poderosa / Me deixa ficar”, desaba em Poderosa, música que flutua entre a submissão e a libertação do eu lírico. Em Jaula, sexta faixa do disco, retalhos poéticos e pequenas indecisões – “Não perde / Não volta / Não cola / Amassa / Abafa / Sufoca”. Na rápida Cama Redonda, uma letra que se divide entre o tédio (“Nesse bode de hoje eu fiquei”) e a melancolia (“Perdi o gosto das coisas”). Diferentes conflitos de um mesmo personagem.

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Artista: Psilosamples
Gênero: Electronic, Techno, IDM
Acesse: https://psilosamples.bandcamp.com/

 

A mudança para a cidade de São Paulo parece ter impactado diretamente nas composições assinadas pelo produtor Zé Rolê em Biohack Banana (2016, UIVO Records). Original da cidade de Pouso Alegre, interior de Minas Gerais, o artista responsável pelos experimentos e sobreposições delicadas do Psilosamples revela uma nova postura em relação ao trabalho apresentado há quatro anos. Um pequeno acervo de faixas que evidenciam a fuga do som colorido que se espalha entre as canções do antecessor Mental Surf (2012).

Primeiro grande trabalho do produtor mineiro desde o EP Cobra Coral, de 2015, o novo álbum sustenta nas batidas o grande destaque da obra de Rolê. São mosaicos eletrônicos construídos a partir de fragmentos minimalistas, quebras, costuras e pequenas alterações rítmicas. A curiosa sensação de adentrar um imenso labirinto eletrônico, onde cada curva do registro apresenta ao ouvinte um espaço completamente novo, reformulado, conceito explícito logo na inaugural faixa-título.

Parcialmente distante do rico catálogo de samples e ritmos regionais que abasteceram o disco entregue há quatro anos – vide músicas como Ovelha Negra e Bom Dia Menina Pelada –, Rolê encara Biohack Banana como uma obra fechada, como se cada canção fizesse parte de um mesmo conjunto de ideias. “Começo a compor como uma história. As músicas vão fluindo como mantra e muitas vezes interagindo com diversos tipos de sonoridades, da música popular à eletroacústica”, explicou em entrevista ao site Music Non Stop.

O resultado dessa transformação está na produção de um registro homogêneo, por vezes contido, mas não menos inventivo. Um bom exemplo disso está na montagem de Copo de Leite Hortelã Pimenta, terceira música do disco. Entre sintetizadores tortos e melodias abstratas, a contida adaptação de diferentes ritmos tipicamente brasileiros, como se Zé Rolê provasse dos mesmos experimentos testados por artistas como Hrvatski, Four Tet e outros nomes de peso da eletrônica estrangeira.

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Artista: Terno Rei
Gênero: Dream Pop, Indie, Alternativo
Acesse: http://ternorei.com.br/

 

Um sussurro angustiado entre os versos de Criança – “As coisas que eu perdi / Nunca voltam” –, e a essência melancólica da Terno Rei se revela por completo em Essa Noite Bateu Com Um Sonho (2016, Balaclava Records). Sucessor do delicado Vigília (2014), o segundo álbum de estúdio do quinteto paulistano nasce como uma extensão madura do som intimista que há tempos orienta a obra de Ale Sater (voz e baixo), Bruno Paschoal (guitarra), Greg Vinha (guitarra), Luis Cardoso (bateria) e Victor Souza (percussão).

Produzido em um intervalo de quase dois anos, o registro que conta com produção assumida pelo músico Guilherme Chiappetta, parceiro do grupo desde o primeiro álbum de estúdio, mostra a busca do quinteto pela construção de um material cada vez mais complexo, soturno e alimentado de forma explícita pelos detalhes. Memórias de um passado ainda recente, confissões e delírios psicodélicos. Composições em que a poesia sorumbática do grupo dialoga diretamente com o ouvinte.

A letra cíclica em Sinais (“Sina, sina, sina, sina / Espero te encontrar”), um labirinto de guitarras e cores em Circulares, a poesia descomplicada que se espalha entre os ruídos de Para o Centro. São versos, melodias e estilhaços instrumentais que servem de estímulo para atrair a atenção do público, convidado a provar de cada momento, detalhe ou verso subjetivo que se espalha ao fundo do disco. Uma clara evolução quando observamos a ambientação tímida do antecessor Vigília.

Entre versos marcados pela saudade (“Solidão se põe / no fundo da janela”), temas existencialistas (“Eu era ele / Ou era eu mesmo / Desde o começo”) ou mesmo reflexões típicas de jovens adultos (“Conheço bem a madrugada / Ela é minha sina”), a nítida interferência de cada integrante da banda. São melodias encorpadas por arranjos minuciosos, sempre nostálgicos e empoeiradas. Ruídos e distorções climáticas dançam pelo tempo, incorporando diferentes aspectos do Dream Pop e até instantes em que o grupo flerta com a psicodelia.

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