Artista: De Repente, Vivo
Gênero: Pós-Rock, Experimental, Indie
Acesse: https://www.facebook.com/derepentevivo/

 

Idealizações e Contratempos Que Resultam Em Música é um trabalho precioso. Do momento em que tem início O Idealista, faixa de abertura do disco, cada fragmento da música produzida pelo cantor, compositor e multi-instrumentista gaúcho Juliano Lacerda se projeta de forma a confortar o ouvinte. Ambientações sutis, guitarras etéreas, sempre minimalistas, ponto de partida para a construção de cada uma das composições que recheiam o primeiro grande registro do projeto De Repente, Vivo.

Produto do isolamento do músico gaúcho, responsável pelos instrumentos, vozes e mixagem do trabalho, o registro de oito faixas revela um claro amadurecimento em relação ao EP de cinco faixas apresentado por Lacerda em 2015. Livre do parcial experimento e ziguezaguear de ideias que marcam o curto registro, cada canção do presente álbum serve de estímulo para a música seguinte, resultando na construção de um álbum homogêneo, mesmo rico em detalhes e possibilidades.

Entre temas acústicos e sobreposições eletrônicas, sempre próximas da música ambiental, Idealizações e Contratempos… encanta pela fluidez tímida e hipnótica dos arranjos. Ainda que a faixa de abertura do disco estreite a relação com o trabalho do Explosions in the Sky e outros representantes de peso do pós-rock, à medida que o álbum avança, novos ritmos e temas instrumentais escapam do som produzido por Lacerda, revelando a identidade do trabalho.

Um bom exemplo disso está na segunda faixa do disco, Se o Sol Não Nos Deixar. Em um intervalo de quase seis minutos, o músico gaúcho detalha uma fina tapeçaria eletrônica, pano de fundo para a inclusão de vozes sintéticas, uma espécie de novo instrumento nas mãos do artista. O mesmo cuidado se reflete ainda em Ecos Em Curto-circuito, quarta faixa do disco. Um jogo de melodias eletrônicas, naturalmente íntimas do trabalho produzido por artistas como Brian Eno, influência confessa de Lacerda.

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Original da cidade de Salvador, Bagum é um coletivo de Jazz, Hip-Hop, Funk e ritmos africanos que parece flutuar por entre diferentes gêneros musicais. Formado há poucos meses por Gabriel Burgos (bateria), Pedro Tourinho (baixo) e Pedro Leonelli (guitarra), o grupo que já conta com um EP em mãos – Dá um tapa e corre (2016) –, acaba de apresentar um novo trabalho de inéditas. Trata-se de É o que, registro de apenas quatro faixas que resume com naturalidade o som versátil do trio.

A julgar pelo som hipnótico que escapa de composições como Sopro e a inaugural Curto, trata-se de uma versão descomplicada do mesmo material produzido por outros coletivos de jazz/rock instrumental recentes. O possível resultado de um encontro entre os experimentos do grupo canadense BADBADNOTGOOD e o ritmo quente que escapa das canções produzidos pelo grupo paulistano Bixiga 70. Para ouvir os dois trabalhos da banda, basta uma visita ao Facebook ou Youtube do trio.

 

Bagum – É o que EP

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Casa de alguns dos projetos mais interessantes (e barulhentos) da cena nacional, o selo paulistano Sinewave acaba de anunciar a chegada de mais uma edição da clássica coletânea Sinewave Essentials. Trata-se de um resumo caótico de tudo aquilo que os produtores, músicos e artistas relacionados ao coletivo produziram entre janeiro e dezembro deste ano. Uma extensa seleção com 25 composições já conhecidas do público.

Entre as canções que abastecem o álbum, experimentos como Music For Airports (Airplanes, Hope And Sadness), do carioca Cadu Tenório, e Baião de Stoner, parte do último disco da Macaco Bong. Ambos os trabalhos fazem parte da nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2016. A seleção ainda conta com outros destaques, caso da hipnótica Peixe Voador, criação recente do grupo pernambucano Kalouv e faixa que chegada acompanhada com um dos melhores clipes do ano.

 

Vários Artistas – Sinewave Essentials – The Best of 2016

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Artista: Labirinto
Gênero: Pós-Rock, Pós-Metal, Experimental
Acesse: https://labirinto.bandcamp.com/

Foto: Bianca Paixão

A atmosfera outonal que parecia envolver as composições de Anatema (2010), álbum de estreia da banda paulistana Labirinto, está longe de ser encontrada no obscuro Gehenna (2016, Dissenso). Infernal, caótico e denso, o novo registro de inéditas da banda formada por Muriel Curi, Erick Cruxen, Luis Naressi, Francisco Bueno e Ricardo Pereira cresce de forma sufocante, sempre intenso. Na ausência de palavras, histórias e temas épicos narrados pelas guitarras e batidas fortes que se projetam do primeiro ao último instante da obra.

Com mais de uma hora de duração, o álbum que conta com produção assinada pelo norte-americano Billy Anderson — artista que já trabalhou com nomes como Swans, Red House Painters e Melvins —, mostra o esforço da banda em provar de novas sonoridades, porém, mantendo firme a própria essência musical. Uma madura adaptação de toda a sequência de EPs, singles e obras colaborativas produzidos pelo coletivo nos últimos seis anos.

Como indicado logo no título do trabalho, Gehenna — região localizada no entorno da antiga cidade de Jerusalém e uma das representações bíblicas do inferno católico e judeu — é o ponto de partida para a ambientação caótica e temas soturnos que se cruzam no interior do álbum. Ruídos crescentes, diálogos com a obra de veteranos do sludge/pós-metal — como Isis e Neurosis —, e uma clara tradução instrumental da imagem produzida por Manuel Augusto Dischinger Moura para a capa do disco.

Inaugurado pelo turbilhão de Mal Sacré, uma das composições mais intensas já criadas pelo grupo, o registro de apenas dez faixas lentamente se quebra em uma variedade de novos caminhos e temas instrumentais. São composições montadas de forma a sufocar o ouvinte pelo uso de ruídos e distorções abafadas (Enoch), instantes que esbarram na mesma sonoridade atmosférica do trabalho lançado em 2010 (Locrus), além de faixas que se entregam ao mais completo experimento (Qumran).

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A obscura imagem de capa de Gehenna (2016) – trabalho produzido por Manuel Augusto Dischinger Moura –, parece dizer muito sobre o som produzido para o segundo álbum de estúdio da Labirinto. Entregue ao público seis anos após o lançamento de Anatema (2010), um dos grandes exemplares do pós-rock brasileiro, o novo álbum concentra no uso de ambientações densas, batidas e guitarras marcadas pela distorção a nova postura assumida pelo coletivo paulistano.

Um bom exemplo disso está em Mal Sacré. Primeiro fragmento do novo registro de inéditas da banda, a canção de quase oito minutos passeia em meio a um cenário dominado pelos ruídos, curvas bruscas e pequenas alterações instrumentais, como se diferentes músicas fossem condensadas dentro de uma única canção. Uma versão ampliada do mesmo material anteriormente produzido pelo grupo no trabalho em parceria com a banda canadense Thisquietarmy.

Gehenna (2016) será lançado no dia 02/09 via Dissenso.

Labirinto – Mal Sacré

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O universo em preto e branco de Pluvero (2014) se abre para as cores de Planar Sobre o Invisível (2016). Dois anos após o lançamento do segundo álbum de estúdio da Kalouv – 15º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2014 –, o quinteto pernambucana está e volta duas canções inéditas. Para celebrar a passagem do grupo de Recife por uma série de cidades do Sul e Sudeste do país – veja a agenda completa –, Peixe Voador e Da Bravura, Inocência mais uma vez reforçam o preciosismo do coletivo em estúdio.

Enquanto a primeira, Peixe Voador, se espalha em um ato crescente, detalhando uma solução de pianos, guitarras coloridas e distorções que raspam de leve na música psicodélica, com a chegada de Da Bravura, Inocência, segunda composição do single, um regresso ao ambiente criativo do álbum lançado há dois anos. Experimentos minimalistas que servem de pano de fundo para uma composição essencialmente versátil, dominada pela uso de sintetizadores e pequenas quebras rítmicas.

Kalouv – Planar Sobre o Invisível

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Artista: SLVDR
Gênero: Pós-Rock, Math-Rock, Experimental
Acesse: https://slvdrmsc.bandcamp.com/

 

A colorida ilustração que estampa a capa de Presença (2016, Independente) — trabalho assinado por Lucas Santos — parece dizer muito sobre o som produzido pelo grupo carioca SLVDR. Produzido em um intervalo de dois anos em diversos estúdios do Rio de Janeiro, o álbum mostra o esforço do trio formado por Bruno Flores, Hugo Noguchi e Gabriel Barbosa em explorar diferentes décadas, ritmos e possibilidades de forma a produzir um registro musicalmente amplo.

Com Não há mais esperança escolhida como faixa de abertura do disco, o trio, em parceria com o músico Gabriel Ventura, vocalista e guitarrista da banda carioca Ventre, cria uma espécie de resumo do som pensado para o registro. São pouco menos de seis minutos em que guitarras e batidas apontam para todas as direções, criando pequenos atos de euforia e instantes de recolhimento. Um estímulo claro para o som produzido logo em sequência com Dark Mansa, música que parece ter saído do final dos anos 1990.

Terceira faixa do álbum, a curtinha Bouken vai da serenidade ao caos em poucos instantes. Difícil não lembrar do trabalho de artistas como Fugazi e Polvo enquanto as guitarras, bateria e baixo da composição estabelecem um diálogo preciso, por vezes raivoso, revelando ao público o uso de pequenas curvas rítmicas. Quase um aquecimento para os versos urbanos que surgem em sequência com Um brevíssimo conto sobre a humanidade dos dias, um dos raros instantes em que a voz assume uma posição de destaque no disco.

Segunda canção em parceria com Ventura, Forum talvez seja a faixa mais versátil de toda a obra. São pouco mais de cinco minutos em que o grupo joga com as possibilidades, mergulhando em uma atmosfera de sons abstratos, temas jazzísticos e elementos que dialogam de forma particular com a música eletrônica. Fragmentos que parecem abraçar diferentes temáticas e épocas, como se o trabalho de grupos como Slint, The Dismemberment Plan e Tortoise fosse remontado de forma autoral.

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em analisar todos os trabalhos de estúdio de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores envolvidos, que vão da recepção crítica do disco, além, claro, da própria trajetória do artista e seus projetos anteriores. Além dos integrantes do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado “democrático”.

No cardápio de hoje: Hurtmold. Formado no final da década de 1990, o grupo paulistano – comandado por Maurício Takara, Guilherme Granado, Marcos Gerez, Mário Cappi, Fernando Cappi e Rogério Martins – é um dos principais e mais influentes projetos da cena independente nacional. Com quase duas décadas de atuação, a banda que acaba de relançar em vinil o clássico Mestro, trabalho originalmente apresentado em 2004, é uma das principais atrações do festival Fora da Casinha II, evento que conta com nomes como Cidadão Instigado, Jaloo, Ventre e Maglore.

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. Passado o intervalo de meia década desde o lançamento do álbum Take Care, Take Care, Take Care (2011), Chris Hrasky, Michael James, Munaf Rayani e Mark Smith estão de volta com um novo registro em estúdio do Explosions In The Sky. Batizado The Wilderness (2016), o trabalho conta com um acervo de nove composições inéditas. Escolhida para apresentar o sétimo álbum oficial da banda texana, a crescente Disintegration Anxiety. Longe das ambientações climáticas que abasteceram grande parte dos trabalhos do grupo no começo dos anos 2000 – vide How…Continue Reading “Explosions In the Sky: “Disintegration Anxiety””